espíritu dichoso en cuya vida
la mía estuvo en cuanto Dios quería!
Sombra gentil de su prisión salida,
que del mundo a la patria te volviste
donde fuiste engendrada y procedida!
Recibe allá este sacrificio triste
que te ofrecen los ojos que te vieron,
si la memoria de ellos no perdiste.
Que pues los altos cielos permitieron
que no te acompañase en tal jornada
y para ornarse solo a ti quisieron,
nunca permitirán que acompañada
de mi no sea esta memoria tuya
que está de tus despojos adornada.
Ni dejará, por más que el tiempo huya,
de estar en mí con sempiterno llanto
hasta que vida y alma se destruya.
Mas tú, gentil espíritu, entretanto
que otros campos y flores vas pisando
y otras zampoñas oyes y otro canto,
agora embebecido estés mirando
allá en el empireo aquella idea
que el mundo enfrena y rige con su mando;
agora te posea Citerea
en el tercero asiento, o porque amaste
o porque nueva amante allá te sea;
agora el sol te admire, si miraste
como va por los signos encendido,
las tierras alumbrando que dejaste:
si en ver estos milagros no has perdido
la memoria de mí o fué en tu mano
no pasar por las aguas del olvido,
vuelve un poco los ojos a este llano:
verás una que a ti en triste lloro
sobre este marmol sordo llama en vano.
Pero si entraren en los siglos de oro
lágrimas y gemidos amorosos
que muevan el supremo y santo coro,
la lumbre de tus ojos tan hermosos
yo la veré muy presto, y podré verte,
que a pesar de los hados enojosos
tambien para los tristes hubo muerte!
_133. Oitavas sobre o desconcerto do mundo_
Quem pode ser no mundo tam quieto
ou quem terá tam livre o pensamento,
quem tam experimentado ou tam discreto,
tam fora, enfim, de humano entendimento,
que ou com publico efeito ou com secreto
lhe nam revolve e espante o sentimento,
deixando-lhe o juizo quasi incerto,
ver e notar do mundo o desconcerto?
Quem ha que veja aquele que vivia
de latrocinios, mortes e adulterios,
que ao juizo das gentes merecia
perpetua pena, imensos vituperios,
se a fortuna em contrario o leva e guia,
mostrando enfim que tudo são misterios,
em alteza de estudos triunfante,
que por livre que seja não s’ espante?
Quem ha que veja aquele que tam clara
teve a vida que em tudo por perfeito
o proprio Momo ás gentes o julgara
inda quando lhe visse aberto o peito,
se a má fortuna, ao bem sómente avara,
o reprime e lhe nega seu direito,
que lhe nam fique o peito congelado
por mais e mais que seja experimentado?
Democrito dos deuses proferia
que eram só dous: a Pena e Beneficio;
segredo algum será da fantasia
de que eu achar nam posso claro indicio:
que se ambos vem por nam cuidada via
a quem os nam merece, é grande vicio
em deuses semjustiça e semrazão.
Mas Democrito o disse e Paulo não!
Dir-me-heis que se este estranho desconcerto
novamente no mundo se mostrasse,
que por livre que fosse e mui experto,
não era d’ espantar se m’ espantasse;
mas que se ja de Socrates foi certo
que nenhum grande caso lhe mudasse
o vulto, ou de prudente ou de constante,
exemplo tome dele e não m’ espante.
Parece a razão boa, mas eu digo
deste uso da fortuna tam danado
que quanto é mais usado e mais antigo,
tanto é mais estranhado e blasfemado;
porque se o ceo, das gentes tam amigo,
não dá á fortuna tempo limitado,
não é para causar mui grande espanto
que mal tam mal olhado dure tanto?
Outro espanto maior aqui m’ enlea:
que com quanto fortuna tam profana
com estes desconcertos senhorea,
a nenhuma pessoa desengana.
Não ha ninguem que assente nem que crea
este discurso vão da vida humana,
por mais que filosofe nem que entenda,
que algum pouco do mundo não pretenda.
Diogenes pisava de Platão
com seus sordidos pes o rico estrado,
mostrando outra mais alta presunção
em despresar o fausto tam presado.
Diogenes, não ves que extremos são
esses que segues de mais alto estado?
Pois se de despresar te presas muito,
ja pretendes do mundo fama e fruito.
Deixo agora reis grandes, cujo estudo
é fartar esta sede cobiçosa
de querer dominar e mandar tudo
com fama larga e pompa suntuosa;
deixo aqueles que tomam por escudo
de seus vicios e vida vergonhosa
a nobreza de seus antecessores,
e não cuidam de si que são piores.
Aquele deixo a quem do sono esperta
o gram favor do rei que serve e adora,
e se mantem desta aura falsa e incerta
que de corações tantos é senhora;
deixo aqueles qu’ estam com a boca aberta
por se encher de tesouros de hora em hora
doentes desta falsa hidropesia
que quanto mais alcança mais queria.
Deixo outras obras vans do vulgo errado
a quem não ha ninguem que contradiga
nem de outra cousa alguma é governado
que de uma opinião e usança antiga;
mas pregunto ora a Cesar esforçado,
ora a Platão divino que me diga,
este das muitas terras em que andou,
aquele de vencê-las, que alcançou?
Cesar dirá: Sou dino de memoria
vencendo povos varios e esforçados;
fui monarca do mundo, e larga historia
ficará de meus feitos sublimados.
É verdade: mas esse mando e gloria,
lograste-o por muito tempo? Os conjurados
Bruto e Cassio dirão que se venceste
enfim, enfim ás mãos dos teus morreste.
Dirá Platão: Por ver o Etna e o Nilo
fui a Sicilia, Egypto e outras partes,
só por ver e escrever em alto estilo
da natural sciencia e muitas artes.
O tempo é breve e queres consumi-lo,
Platão, todo em trabalhos? E repartes
tam mal de teu estudo as breves horas
que enfim do falso Phebo o filho adoras?
Pois logo des que vive ja apartada
a lama desta prisão terrestre e escura,
está em tamanhas cousas ocupada
que de fama que fica nada cura;
e se o corpo terreno sinta nada,
o cinico dirá, se por ventura
no campo onde lançado morto estava
de si os cães ou as aves enxotava.
Quem tam baixa tivesse a fantasia
que nunca em mores cousas a metesse
que em só levar seu gado á fonte fria
e mungir-lhe do leite que bebesse!
Quam bem-aventurado que seria,
que por mais que a fortuna revolvesse,
nunca em si sentiria maior pena
que pesar-lhe de a vida ser pequena!
Veria erguer do sol a roxa face,
veria correr sempre a clara fonte,
sem imaginar a agua donde nace
nem quem a luz oculta no horisonte;
tangendo a frauta donde o gado pace,
conheceria as ervas do alto monte:
em Deus creria, simplex e quieto,
sem mais especular algum secreto.
De um certo Trasilao se le e escreve
entre as cousas da velha antiguidade
que perdido gram tempo o siso teve
por causa de uma grave enfermidade;
e em quanto de si fora doudo esteve,
tinha por teima e cria por verdade
que eram suas das naos que navegavam
quantas no Porto Pireo ancoravam.
Por um senhor mui grande se teria,
alem da vida alegre que passava,
pois nas que se perdiam não perdia
e das que vinham salvas se alegrava.
Não tardou muito tempo quando um dia
um Crito, seu irmão, que ausente estava,
á terra chega e vendo o irmão perdido
do fraternal amor foi comovido.
Aos medicos o entrega e com aviso
o faz estar á cura refusada:
triste, que por tornar-lhe o antigo siso,
lhe tira a doce vida descansada!
As ervas apolineas de improviso
o tornam á saude ja passada;
sisudo, Trasilao ao caro irmão
agradece a vontade, a obra não.
Porque depois de ver-se no perigo
do trabalho a que o siso o obrigava
e depois de não ver o estado antigo
que a louca presunção lhe apresentava,
O inimigo irmão com cor de amigo,
para que me tiraste, suspirava,
da mais quieta vida e livre em tudo
que nunca póde ter nenhum sisudo?
Por qual senhor algum me eu trocara
ou por qual algum rei de mais grandeza?
Que me dava que o mundo se acabara
ou que a ordem mudasse a natureza?
Agora me é penosa a vida cara:
sei que cousa é o trabalho e que é tristeza
Torna-me a meu estado, que eu te aviso
que na doudice só consiste o siso!
Vedes aqui, senhor, bem claramente
como a fortuna em todos tem poder
senão só no que menos sabe e sente,
em quem nenhum desejo pode haver:
este se pode rir da cega gente,
neste não pode nada acontecer,
nem estará suspenso na balança
do temor mao, da perfida esperança.
Mas se o sereno ceo me concedera
qualquer quieto, humilde e doce estado,
onde com minhas musas só vivera,
sem ver-me em terra alhea degradado,
e ali outrem ninguem me conhecera
nem eu conhecera outro mais honrado
senão a vos, tambem como eu contente,
que bem sei que o serieis facilmente,
e ao longo de uma clara e pura fonte
que em borbulhas nacendo convidasse
ao doce passarinho que nos conte
quem da cara consorte o apartasse;
depois, cobrindo a neve o verde monte,
ao gasalhado o frio nos levasse,
avivando o juizo ao doce estudo,
mais certo manjar de alma, enfim, que tudo.
Cantara-nos aquele que tam claro
o fez o fogo da arvore febea:
a qual ele em estilo grande e raro
louvando o cristalino Sorga enfrea;
tangera-nos na frauta Sannazaro
ora nos montes, ora na area;
Passara celebrando o Tejo ufano
o brando e doce Lasso castelhano.
E comnosco tambem se achara aquela
cuja lembrança e cujo claro gesto
na alma sómente vejo, porque nela
está em essencia, puro e manifesto,
por alta influição de minha estrela,
mitigando o rigor do peito honesto,
entretecendo rosas nos cabelos
de que tomasse a luz o sol em vê-los.
E em quanto por verão flores colhesse,
ou por inverno ao fogo acomodado,
o que de mi sentira nos dissesse,
de puro amor o peito salteado,
não pedira entam eu que amor me desse
do insano Trasilao o doudo estado,
mas que ali me dobrasse o entendimento
por ter de tanto bem conhecimento.
Mas por onde me leva a fantasia?
Porque imagino em bem-aventuranças
se tam longe a fortuna me desvia
que inda me não consente as esperanças?
Se um novo pensamento amor me cria
onde o lugar, o temor, as esquivanças
do bem me fazem tam desamparado
que não pode ser mais que imaginado?
Fortuna, enfim, com o amor se conjurou
contra mi porque mais me maguasse,
amor a um vão desejo me obrigou
só para que a fortuna m’ o negasse;
o tempo a tal estado me chegou
e nele quis que a vida se acabasse,
se ha em mi acabar-se: o que eu não creo,
que até da muita vida me receo.
_134. Canção_
Vinde cá, meu tam certo secretario
dos queixumes que sempre ando fazendo,
papel com que a pena desafogo!
As semrazões digamos que vivendo
me faz o inexoravel e contrario
destino, surdo a lagrimas e a rogo.
Lancemos agua pouca em muito fogo,
acenda-se com gritos um tormento
que a todas as memorias seja estranho!
Digamos mal tamanho
a Deus, ao mundo, ás gentes e enfim ao vento,
a quem ja muitas vezes o contei,
tanto debalde como o conto agora!
Mas ja que para errores fui nacido,
vir este a ser um deles não duvido.
E pois ja de acertar estou tam fora,
não me culpem se tambem nisto errei.
Sequer este refugio só terei:
falar e errar sem culpa livremente.
Triste quem de tam pouco está contente!
Ja me desenganei que de queixar-me
não se alcança remedio, mas quem pena
forçado lhe é gritar se a dor é grande.
Gritarei, mas é debil e pequena
a voz para poder desabafar-me,
porque nem com gritar a dor se abrande.
Quem me dará sequer que fora mande
lagrimas e suspiros infinitos
iguais ao mal que dentro na alma mora?
Mas quem pode algum’ hora
medir o mal com lagrimas e gritos?
Direi enfim aquilo que m’ ensinam
a ira, a magua e d’ elas a lembrança,
que outra dor é, por si mais dura e firme.
Chegai, desesperados, para ouvir me!
E fujam os que vivem d’ esperança
ou aqueles que nela se imaginam!
Porque amor e fortuna determinam
de lhes darem poder para entenderem
á medida dos males que tiverem.
Quando vim da maternal sepultura
de novo ao mundo, logo me fizeram
estrelas infelizes obrigado:
com ter livre albedrio m’ o não deram,
que eu conheci mil vezes na ventura
o milhor, e o pior segui forçado.
E para que o tormento conformado
me dessem com a idade, quando abrisse
inda menino os olhos brandamente,
mandam que diligente
um menino sem olhos me ferisse.
As lagrimas da infancia ja manavam
com uma saudade namorada,
o som dos gritos que no berço dava
ja como de suspiros me soava;
com o fado estava a idade concertada,
porque quando por caso me embalavam,
se de amor tristes versos me cantavam
logo me adormecia a natureza,
que tam conforme estava com a tristeza.
Foi minha ama uma fera, que o destino
não quis que mulher fosse a que tivesse
tal nome para mi, nem a haveria.
Assi criado fui porque bebesse
o veneno amoroso de menino
que na maior idade beberia,
e por costume não me mataria;
logo entam vi a imagem e semelhança
de aquela humana fera tam formosa,
suave e venenosa,
que me criou aos peitos da esperança,
de quem eu vi depois o original,
que de todos os grandes desatinos
faz a culpa soberba e soberana.
Parece-me que tinha forma humana,
mas scintilava espiritos divinos:
um meneo e presença tinha tal
que se vangloriava todo o mal
na vista dela; a sombra com a viveza
excedia o poder da natureza.
Que genero tam novo de tormento
teve amor sem que fosse não sómente
provado em mi mas tudo executado!
Implacaveis durezas que ao fervente
desejo, que dá força ao pensamento,
tinham de seu proposito abalado
e corrido de ver-se injuriado.
Aqui sombras fantasticas, trazidas
de algumas temerarias esperanças,
as bem-aventuranças
tambem nelas fundadas e fingidas;
mas a dor do despreso recebido
que todo o fantasiar desatinava
estes enganos punha em desconcerto;
aqui o adivinhar e ter por certo
que era verdade quanto adivinhava,
e logo o desdizer-me de corrido,
dar ás cousas que via outro sentido
e para tudo, enfim, achar razões;
mas eram muitas mais as semrazões.
Não sei como sabia estar roubando
com os raios as entranhas que fugiam
para ela por os olhos sutilmente:
pouco a pouco invisiveis me saiam,
bem como do veo humido exhalando
está o sutil humor o sol ardente.
O gesto puro enfim e transparente,
para quem fica baixo e sem valia
este nome de belo e de formoso;
o doce e piedoso
mover de olhos que as almas suspendia,
foram as ervas magicas que o ceo
me fez beber, as quais por longos anos
n’ outro ser me tiveram transformado,
e tam contente de me ver trocado
que as maguas enganava com os enganos;
e diante dos olhos punha o veo
que m’ encobrisse o mal que assi creceu,
como quem com afagos se criava
de aquele para quem criado estava.
Pois quem pode pintar a vida ausente
com um descontentar-me quanto via?
e aquele estar tam longe de onde estava,
o falar sem saber o que dizia,
andar sem ver por onde, e juntamente
suspirar sem saber que suspirava?
Pois quando aquele mal me atormentava
e aquela dor que das tartareas aguas
saio ao mundo e mais que todas doi,
que tantas vezes soi
em duras iras tomar brandas maguas?
agora com o furor da magua irado
querer e não querer deixar de amar?
E mudar n’ outra parte por vengança
o desejo privado d’ esperança
que tam mal se podia ja mudar;
agora a saudade do passado,
tormento puro, doce e maguado,
que converter fazia estes furores
em maguadas lagrimas de amores?
Que desculpas comigo só buscava
quando o suave amor me não sufria
culpa na cousa amada, e tam amada.
Eram enfim remedios que fingia
o medo do tormento que ensinava
a vida a sustentar-se de enganada.
Nisto uma parte dela foi passada,
na qual, se teve algum contentamento,
breve, imperfeito, timido, indecente,
não foi senão semente
de longo e amarissimo tormento.
Este curso contino de tristeza,
estes passos tam vanmente espalhados,
me foram apagando o ardente gosto
que tam de siso na alma tinha posto,
de aqueles pensamentos namorados
com que criei a tenra natureza,
que do longo costume da aspereza,
contra quem força humana não resiste,
se converteu ao gosto de ser triste.
Desta arte a vida em outra fui trocando:
eu não, mas o destino fero, irado;
que eu inda assi por outra a não trocara.
Fez-me deixar o patrio ninho amado,
passando o longo mar que ameaçando
tantas vezes m’ esteve a vida cara,
agora experimentando a furia rara
de Marte que nos olhos quis que logo
visse e tocasse o acerbo fruto seu,
e neste escudo meu
a pintura verão do infesto fogo;
agora peregrino, vago errante,
vendo nações, linguagens e costumes,
ceos varios, qualidades diferentes,
só por seguir com passos diligentes
a ti, fortuna injusta, que consumes
as idades, levando-lhes diante
uma esperança em vista de diamante,
mas quando das mãos cai se conhece
que é fragil vidro aquilo que aparece.
A piedade humana me faltava,
a gente amiga ja contraria via
no perigo primeiro; e no segundo
terra em que pôr os pes me falecia,
ar para respirar se me negava,
e faltava-me, enfim, o tempo e o mundo.
Que segredo tam arduo e tam profundo:
nacer para viver, e para a vida
faltar-me quanto o mundo tem para ela!
E não poder perdê-la
estando tantas vezes ja perdida!
Enfim não houve transe de fortuna
nem perigos nem casos duvidosos,
injustiças de aqueles que o confuso
regimen do mundo, antigo abuso,
faz sobre os outros homens poderosos,
que eu não passasse, atado á fiel coluna
do sofrimento meu, que a importuna
perseguição de males em pedaços
mil vezes fez á força de seus braços.
Não conto tantos males como aquele
que depois da tormenta procelosa
os casos dela conta em porto ledo,
que inda agora a fortuna flutuosa
a tamanhas miserias me compele
que de dar um só passo tenho medo.
Ja de mal que me venha não me arredo
nem bem que me faleça ja pretendo,
que para mi não val astucia humana:
da força soberana,
da providencia, enfim, divina pendo.
Isto que cuido e vejo ás vezes tomo
para consolação de tantos danos,
mas a fraqueza humana, quando lança
os olhos no que corre e não alcança
senão memoria dos passados anos,
as aguas que entam bebo e o pão que como
lagrimas tristes são, que eu nunca domo
senão com fabricar na fantasia
fantasticas pinturas de alegria.
Que se possivel fosse que tornasse
o tempo para tras como a memoria,
por os vestigios da primeira idade,
e de novo tecendo a antiga historia
de meus doces errores me levasse
por as flores que vi da mocidade;
e a lembrança da longa saudade
entam fosse maior contentamento,
vendo a conversação leda e suave
onde uma e outra chave
esteve de meu novo pensamento,
os campos, as passadas, os sinais,
a vista, a neve, a rosa, a formosura,
a graça, a mansidão, a cortesia,
a singela amizade que desvia
toda a baixa tenção terrena, impura,
como a qual outra alguma não vi mais.
Ah vans memorias! Onde me levais?
Ó debil coração, que inda não posso
domar bem este vão desejo vosso!
Não mais, canção, não mais, que irei falando
sem o sentir, mil anos; e se acaso
te culparem de larga e de pesada,
Não pode ser, lhe dize, limitada
a agua do mar em tam pequeno vaso.
Nem eu delicadezas vou cantando
com o gosto do louvor, mas explicando
puras verdades ja por mi passadas:
oxalá foram fabulas sonhadas!
ANTONIO FERREIRA
[Sidenote: 1528-1569]
_135. Á morte de sua mulher_
Aquele claro sol que me mostrava
o caminho do ceo mais chão, mais certo,
e com seu novo raio ao longe e ao perto
toda a sombra mortal me afugentava,
deixou a prisão triste em que cá estava:
eu fiquei cego e só, com passo incerto,
perdido peregrino no deserto
a que faltou a guia que o levava.
Assi com o espirito triste, o juizo escuro,
suas santas pisadas vou buscando
por vales, por campos e por montes.
Em toda a parte a vejo e figuro:
ela me toma a mão e vai guiando,
e meus olhos a seguem, feitos fontes.
_136. Coro_
Quando amor naceu
naceu no mundo vida,
claros raios ao sol, luz ás estrelas;
o ceo resplandeceu,
e de sua luz vencida,
a escuridão mostrou as cousas belas.
Aquela que subida
está na terceira esfera,
do bravo mar nacida,
amor ao mundo dá, doce amor gera.
Por amor se orna a terra
de aguas e de verdura,
ás arvores dá folhas, cor ás flores,
em doce paz a guerra,
a dureza em brandura,
e mil odios converte em mil amores.
Quantas vidas a dura
morte desfaz renova,
a formosa pintura
do mundo amor a tem inteira e nova.
Ninguem tema seus fogos
e chamas furiosas:
amor é tudo, amor suave e brando,
sujeito a brandos rogos,
as aguas amorosas
dos olhos com brandura está alimpando.
Douradas e formosas
setas na aljaba soam,
á vista perigosas,
mas amor levam, dos amores voam.
Amor em doces cantos,
em doces liras soa,
torne seu brando nome este ar sereno:
fujam maguas e prantos,
o ledo prazer voe,
e claro o rio faça, o vale ameno;
no terceiro ceo toe
de amor a doce lira,
e de lá te coroe,
Castro, d’ ouro o gram Deus que amor inspira!
_137. Ode a Antonio de Sá de Meneses_
Eis nos torna a nacer o ano formoso,
zefiro brando e doce primavera,
eis o campo cheiroso,
eis cinge o verde louro ja a nova hera.
Ja do ar caido gera
o cristalino orvalho ervas e flores;
as Graças e os Amores,
coroados de alegria,
em doce companhia
de ninfas e pastores ao som brando
doces versos de amor vão revesando.
Apos a branda deusa do terceiro
ceo, que triunfando vai de Apolo e Marte,
e entre eles o frecheiro
o seu doce fogo onde quer reparte;
fogem de toda parte
nuvens, a neve ao sol té entam dura
se converte em brandura,
e da alta e fria serra
caindo rega a terra
agua ja clara, a cujo som adormece
toda fera serpente, e o mirto crece.
Renace o mundo e torna á forma nova
do seu dia primeiro, o sol mais puro
sua luz nos renova
e afugentando vai o inverno escuro.
O monte calvo e duro,
o vale d’ antes triste, o turvo rio,
ar tempestuoso e frio,
os tornam graciosos
aqueles amorosos
olhos de Venus, faces de Cupido,
criando em toda parte um Chipre, um Gnido.
Ja deixa o fogo o lavrador, ja o gado,
da longa prisão solto, corre e salta,
roendo o verde prado,
nem agua clara nem verdura falta.
Eis tira da arvore alta
ou Progne com seu ninho ou Philomena
Titiro, e inda sem pena
cria a tenra ave ledo,
por esperar que cedo
do seu formoso dom Cloris vencida
não sofrerá ser dele em vão seguida.
Agora nos tambem nos coroemos,
ó claro Antonio, de hera, mirto e louro,
e mil odes cantemos
a branda Venus, mil a Apoio louro,
que com seu raio de ouro
a escura nuvem do teu peito aclara.
Ah quanto suspirara!
Ah como desfazendo
em tenro pranto e erguendo
os olhos a ti, Phebo, Nise triste
chamar ó sol, ó sol com magua ouviste!
Olho claro do ceo, vida do mundo,
luz que a lua e estrelas alumias,
o movedor segundo
de quantas cousas cá na terra crias,
crespo Apolo que os dias
trazes formosos e as douradas horas,
lá desse alto onde moras
com tua luz clara e santa
que o mao Saturno espanta,
torna a Antonio e conserva a luz primeira,
do puro sangue a cor e a força inteira.
Os mais brandos licores, suaves çumos
das mais saudaveis plantas busca, e colhe
os mais cheirosos fumos
que Arabia em si, em si Saba recolhe,
faze que onde quer que olhe
o teu bom Sá, prazer e riso e canto
veja! Ah Phebo, a quem tanto
teu claro lume adora,
e ao Douro que inda chora
do seu passado medo a viva magua,
não negues a um sã vida, a outro clara agua!
A vida foge como ao sol a sombra,
quem poder viva em quanto uma hora tarda,
hora que espanta e assombra,
nem escusa recebe ou ponto aguarda.
Quem sua vida guarda
para outro dia? Quem no leve vento
faz firme fundamento?
Anda o ceo, volve o ano,
mostrando o desengano
desta vida inconstante e enfim mortal,
de bens escassa, prodiga em mal.
Ó meu bom Sá, em quanto nos defende
a vida breve largas esperanças,
tu ledo o spirito estende
por honestos prazeres, sans lembranças,
livre das vans mudanças
em que andam os mais em sorte ao vento postos
com os inconstantes rostos:
lá sempre um, sempre inteiro,
seguindo o verdadeiro
caminho, que o alto ceo te chama e guia,
contente vive o ano, o mes e o dia.
DIOGO BERNARDEZ
[Sidenote: c. 1530-c. 1600]
_138. Soneto_
Da branca neve e da vermelha rosa
o ceo de tal maneira derramou
no vosso rosto as cores que deixou
a rosa da manhã mais vergonhosa.
Os cabelos, de amor prisão formosa,
não d’ ouro, que ouro fino despresou,
mas dos raios do sol vo-los dourou,
do que Cintia tambem anda invejosa.
Um resplandor ardente mas suave
está nos vossos olhos derramando
que o claro deixa escuro, o escuro aclara;
a doce fala, o riso doce e grave
entre rubis e perlas lampejando
não tem comparação por cousa rara.
_139. Soneto_
Se toda a vida nossa é desafio,
se sobre nada tem seu fundamento,
que descuido é este meu? que errado intento?
Que pretendo? que espero? em que me fio?
Ó vida humana, folha em seco estio
levada pelo ar de qualquer vento,
Ó flor de primavera num momento
chamuscada do sol, murcha do frio!
Quando cuido no tempo atras passado
o que passei m’ espanta, o por vir temo,
no presente não sei que m’ embaraça.
Mas ainda que de ti tam alongado,
ordena tu que torne, ó Pai supremo,
este prodigo filho á tua graça!
_140. Soneto_
Horas breves do meu contentamento,
nunca me pareceu quando vos tinha
que vos visse tornadas tam asinha
em tam compridos dias de tormento!
Aquelas torres que fundei no vento
o vento m’ as levou que as sostinha:
do mal que me ficou a culpa é minha,
pois sobre cousas vans fiz fundamento.
Amor com brandas mostras aparece,
tudo possivel faz, tudo assegura,
mas logo no milhor desaparece.
Ó cegueira tamanha! Ó desventura!
Por um pequeno bem que desfalece
aventurar um bem que sempre dura!
_141. Egloga_