O poeta Simonides, falando

com o capitão Themistocles um dia,

em cousas de ciencia praticando,

um arte singular lhe prometia

que entam compunha, com que lh’ ensinasse

a lembrar-se de tudo o que fazia;

onde tam sutis regras lhe mostrasse

que nunca lhe passassem da memoria

em nenhum tempo as cousas que passasse

Bem merecia, certo, fama e gloria

quem dava regra contra o esquecimento

que sepulta qualquer antiga historia.

Mas o capitão claro, cujo intento

bem diferente estava, porque havia

do passado as lembranças por tormento,

Ó ilustre Simonides, dizia,

pois tanto em teu engenho te confias

que mostras á memoria nova via,

se me desses uma arte que em meus dias

me não lembrasse nada do passado,

ó quanto milhor obra me fazias!

Se este excelente dito ponderado

fosse por quem se visse estar ausente,

em longas esperanças degradado,

ó como bradaria justamente:

Simonides, inventa novas artes,

não midas o passado com o presente!

Que se é forçado andar por varias partes,

buscando á vida algum descanso honesto,

que tu, fortuna injusta, mal repartes,

e se o duro trabalho é manifesto

que, por grave que seja, ha de passar-se

com-animoso esprito e ledo gesto,

de que sirve ás pessoas o lembrar-se

do que se passou ja, pois tudo passa,

senam d’ entristecer-se e maguar-se?

Se em outro corpo uma alma se traspassa,

não, como quis Pitagoras, na morte,

mas, como quer amor, na vida escassa;

e se este amor no mundo está de sorte

que na virtude só de um lindo objeito

tem um corpo sem alma vivo e forte,

onde este objeito falta, que é defeito

tamanho para a vida que ja nela

me está chamando á pena a dura Alecto;

porque me não criara a minha estrela

selvatico no mundo e habitante

na dura Scitia e no mais duro dela?

Ou no Caucaso horrendo fraco infante,

criado ao peito de uma tigre hircana,

homem fora formado de diamante?

Porque a cerviz ferina e inhumana

não submetera ao jugo e dura lei

d’ aquele que dá vida quando engana;

ou em pago das aguas que estilei

as que passei do mar foram do Lete,

para que m’ esquecera o que passei!

Porque o bem que a esperança vã promete

ou a morte a estorva ou a mudança,

que é mal que uma alma em lagrimas derrete.

Ja, senhor, cairá como a lembrança

no mal do bem passado é triste e dura,

pois nace aonde morre a esperança.

E se quiser saber como se apura

em almas saudosas, não se enfade

de ler tam longa e misera escritura.

Soltava Eolo a redea e liberdade

ao manso Favonio brandamente

e eu a tinha ja solta á saudade;

Neptuno tinha posto o seu tridente,

a proa a branca escuma dividia,

com a gente maritima contente.

O coro das Nereidas nos seguia,

os ventos namorada Galatea

consigo sossegados os movia;

das argenteas conchinhas Panopea

andava por o mar fazendo molhos,

Melanto, Dinamene, com Ligea.

Eu, trazendo lembranças por antolhos,

trazia os olhos na agua sossegada

e a agua sem sossego nos meus olhos;

a bem-aventurança ja passada

diante de mi tinha tam presente

como se não mudasse o tempo nada,

e com o gesto imoto e descontente

com um suspiro profundo e mal ouvido,

por não mostrar meu mal a toda a gente,

dizia: Ó claras ninfas, se o sentido

em puro amor tivestes, e inda agora

da memoria o não tendes esquecido,

se por ventura fordes algum’ hora

adonde entra o gram Tejo a dar tributo

a Tethis, que vos tendes por senhora,

ou ja por ver o verde prado enxuto

ou ja por colher ouro rutilante,

das tagicas areas rico fruto,

nelas em verso erotico e elegante

escrevei com uma concha o que em mi vistes;

pode ser que algum peito se quebrante,

e contando de mi memorias tristes

os pastores do Tejo, que me ouviam,

ouçam de vos as maguas que me ouvistes.

Elas, que ja no gesto me entendiam,

nos meneos das ondas me mostravam

que em quanto lhes pedia consentiam.

Estas lembranças que me acompanhavam

por a tranquilidade da bonança

nem na tormenta triste me deixavam.

Porque chegando ao Cabo da Esperança,

começo da saudade que renova,

lembrando a longa e aspera mudança,

debaixo estando ja da estrela nova

que no novo hemisferio resplandece,

dando do segundo axe certa prova,

eis a noite com nuvens se escurece,

do ar subitamente foge o dia,

e todo o largo Oceano se embravece.

A maquina do mundo parecia

que em tormentas se vinha desfazendo,

em serras todo o mar se convertia.

Lutando Boreas fero e Noto horrendo

sonoras tempestades levantavam,

das naos as velas concavas rompendo.

As cordas com o ruido assoviavam:

os marinheiros, ja desesperados,

com gritos para o ceo o ar coalhavam.

Os raios por Vulcano fabricados

vibrava o fero e aspero Tonante,

tremendo os polos ambos de assombrados.

Amor ali mostrando-se possante

e que por algum medo não fugia

mas quanto mais trabalho mais constante,

vendo a morte presente, em mi dizia:

Se algum’ hora, senhora, vos lembrasse,

nada do que passei me lembraria.

Enfim nunca houve cousa que mudasse

o firme amor intrinseco de aquele

em quem alguma vez de siso entrasse.

Uma cousa, senhor, por certa assele

que nunca amor se afina nem se apura

em quanto está presente a causa dele.

Desta arte me chegou minha ventura

a esta desejada e longa terra,

de todo pobre honrado sepultura.

Vi quanta vaidade em nos se encerra,

e nos proprios quam pouca; contra quem

foi logo necessario termos guerra.

Uma ilha que o Rei de Porcá tem

e que o Rei da Pimenta lhe tomara,

fomos tomar-lh’ a, e sucedeu-nos bem.

Com uma grossa armada que juntara

o Viso-Rei, de Goa nos partimos

com toda a gente de armas que se achara;

e com pouco trabalho destruimos

a gente no curvo arco exercitada:

com morte, com incendios os punimos.

Era a ilha com aguas alagada

de modo que se andava em almadias,

enfim outra Veneza trasladada.

Nela nos detuvimos sós dous dias

que foram para alguns os derradeiros,

pois passaram da Estige as ondas frias;

que estes são os remedios verdadeiros

que para a vida estão aparelhados

aos que a querem ter por cavaleiros.

Ó lavradores bem-aventurados,

se conhecessem seu contentamento,

como vivem no campo sossegados!

Dá-lhes a justa terra o mantimento,

dá-lhes a fonte clara de agua pura,

mungem suas ovelhas cento a cento.

Não vem o mar irado, a noite escura,

por ir buscar a pedra do Oriente;

não temem o furor da guerra dura.

Vive um com suas arvores contente,

sem lhe quebrar o sono repousado

a gram cobiça de ouro reluzente.

Se lhe falta o vestido perfumado

e da formosa cor de Assiria tinto

e dos torçaes atalicos lavrado;

se não tem as delicias de Corinto

e se de Pario os marmores lhe faltam,

o piropo, a esmeralda, e o jacinto;

se as suas casas de ouro não se esmaltam,

esmalta-se-lhe o campo de mil flores,

onde os cabritos seus comendo saltam.

Ali lhe mostra o campo varias cores,

vem-se os ramos pender com o fruto ameno,

ali se afina o canto dos pastores,

ali cantara Titiro e Sileno;

enfim por estas partes caminhou

a sã justiça para o ceo sereno.

Ditoso seja aquele que alcançou

poder viver na doce companhia

das mansas ovelhinhas que criou!

Este bem facilmente alcançaria

as causas naturais de toda cousa:

como se gera a chuva e neve fria,

os trabalhos do sol, que não repousa,

e porque nos dá a lua a luz alhea,

se tolher-nos de Phebo os raios ousa;

e como tam depressa o ceo rodea,

e como um só os outros traz consigo,

e se é benigna ou dura Citherea.

Bem mal pode entender isto que digo

quem ha de andar seguindo o fero Marte,

que sempre os olhos traz em seu perigo.

Porem seja, senhor, de qualquer arte,

pois posto que a fortuna possa tanto

que tam longe de todo o bem me aparte,

não poderá apartar meu duro canto

desta obrigação sua em quanto a morte

me não entrega ao duro Radamanto,

se para tristes ha tam leda sorte.

_130. Canção_

Ja a roxa manhã clara

as portas do Oriente vinha abrindo,

os montes descobrindo

a negra escuridão da luz avara.

O sol, que nunca para,

da sua alegre vista saudoso,

tras ela pressuroso

nos cavalos cansados do trabalho

que respiram nas hervas fresco orvalho

s’ estende claro, alegre e luminoso;

os passaros voando

de raminho em raminho vão saltando,

e com suave e doce melodia

o claro dia estão manifestando.

A manhã bela, amena

seu rosto descobrindo, a espessura

se cobre de verdura,

clara, suave, angelica, serena.

Ó deleitosa pena!

Ó efeito de amor alto e potente!

Pois permite e consente

que ou donde quer que eu ande ou donde esteja

o serafico gosto sempre veja

por quem de viver triste sou contente.

Mas tu, aurora pura,

de tanto bem dá graças á ventura,

pois as foi pôr em ti tam excelentes

que representes tanta formosura.

A luz suave e leda

a meus olhos me mostra por quem moiro

com os cabelos de ouro

que nenhum ouro iguala se os remeda.

Esta a luz é que arreda

a negra escuridão do sentimento

ao doce pensamento;

os orvalhos das flores delicadas

são nos meus olhos lagrimas cansadas

que eu choro com o prazer de meu tormento;

os passaros que cantam

meus espiritos são que a voz levantam

manifestando o gesto peregrino

com tam divino som que o mundo espantam.

Assi como acontece

a quem a cara vida está perdendo

que em quanto vai morrendo

alguma visão santa lhe aparece,

a mim, em quem falece

a vida que sois vos, minha senhora,

a esta alma que em vos mora,

em quanto da prisão se está apartando,

vos estais justamente apresentando

em forma de formosa e roxa aurora.

Ó ditosa partida!

Ó gloria soberana alta e subida!

Se me não impedir o meu desejo,

porque o que vejo, enfim, me torna á vida.

Porem a natureza

que nesta pura vista se mantinha

me falta tam asinha

como o sol faltar soi á redondeza;

se houverdes que é fraqueza

morrer em tam penoso e triste estado,

amor será culpado,

ou vos, onde ele vive tam isento

que causastes tam largo apartamento,

porque perdesse a vida com o cuidado.

Que se viver não posso,

homem formado só de carne e osso,

esta vida que perco amor m’ a deu,

que não sou meu: se moiro, o dano é vosso.

Canção de cisne, feito em hora extrema,

na dura pedra fria

da memoria te deixo em companhia

do letreiro da minha sepultura,

que a sombra escura ja m’ impede o dia.

_131. Canção_

Vão as serenas aguas

do Mondego decendo

e mansamente até o mar não param,

por onde as minhas maguas

pouco a pouco crecendo

para nunca acabar-se começaram.

Ali se me mostraram,

neste lugar ameno

em que inda agora moro,

testa de neve e de ouro,

riso brando e suave, olhar sereno,

um gesto delicado,

que sempre na alma me estará pintado.

Nesta florida terra,

leda, fresca e serena,

ledo e contente para mi vivia,

em paz com minha guerra,

glorioso com a pena

que de tam belos olhos procedia.

D’ um dia em outro dia

o esperar m’ enganava,

tempo longo passei,

com a vida folguei,

só porque em bem tamanho se empregava.

Mas que me presta ja,

que tam formosos olhos não os ha?

Ó quem me ali dissera

que de amor tam profundo

o fim pudesse ver em algum’ hora!

E quem cuidar podera

que houvesse aí no mundo

apartar-me eu de vos, minha senhora!

Para que desde agora,

ja perdida a esperança,

visse o vão pensamento

desfeito em um momento

sem me poder ficar mais que a lembrança,

que sempre estará firme

até no derradeiro despedir-me.

Mas a mor alegria

que d’ aqui levar posso

e com que defender-me triste espero

é que nunca sentia

no tempo que fui vosso

quererdes-me vos quanto vos eu quero.

Porque o tormento fero

do vosso apartamento

não vos dará tal pena

como a que me condena,

que mais sentirei vosso sentimento

que o que a minha alma sente:

morra eu, senhora, e vos ficai contente.

Tu, canção, estarás

agora acompanhando

por estes campos estas claras aguas;

e por mi ficarás

com choro suspirando,

porque, ao mundo dizendo tantas maguas,

como uma larga historia

minhas lagrimas fiquem na memoria.

_132. Egloga_

UMBRANO

Que grande variedade vão fazendo,

Frondelio amigo, as horas apressadas

Como se vão as cousas convertendo

em outras cousas varias e inesperadas!

Um dia a outro dia vai trazendo

por suas mesmas horas ja ordenadas,

mas quam conformes são na quantidade

tam diferentes são na qualidade.

Eu vi ja deste campo as varias flores

ás estrelas do ceo fazendo inveja,

adornados andar vi os pastores

de quanto por o mundo se deseja,

e vi com o campo competir nas cores

os trajes de obra tanta e tam sobeja

que se a rica materia não faltava

a obra de mais rica sobejava.

E vi perder seu preço as brancas rosas

e quasi escurecer-se o claro dia

diante de umas mostras perigosas

que Venus mais que nunca engrandecia,

as pastoras enfim vi tam formosas

que o amor de si mesmo se temia:

mas mais temia o pensamento falto

de não ser para ter temor tam alto.

Agora tudo está tam diferente

que move os corações a grande espanto,

e parece que Jupiter potente

se enfada ja de o mundo durar tanto,

o Tejo corre turvo e descontente,

as aves deixam seu suave canto,

e o gado, inda que a erva lhe falece,

mais que da falta dela se emagrece.

FRONDELIO

Umbrano irmão, decreto é da natura

inviolavel, fixo e sempiterno

que a todo bem suceda desventura

e não haja prazer que seja eterno:

ao claro dia segue a noite escura,

ao suave verão o duro inverno,

e se ha cousa que saiba ter firmeza

é sómente esta lei da natureza.

Toda alegria grande e suntuosa

a porta abrindo vem ao triste estado:

se uma hora vejo alegre e deleitosa

temendo estou do mal aparelhado.

Não ves que mora a serpe venenosa

entre as flores do fresco e verde prado?

Ah, não te engane algum contentamento

que mais instavel é que o pensamento!

E praza a Deus que o triste e duro fado

de tamanhos desastres se contente;

que sempre um grande mal inopinado

é mais do que o espera a incauta gente;

que vejo este carvalho que queimado

tam gravemente foi do raio ardente:

não seja ora prodigio que declare

que o barbaro cultor meus campos are.

UMBRANO

Em quanto de seguro azambujeiro

nos pastores de Luso houver cajados,

com o valor antigo que primeiro

os fez no mundo tam assinalados,

não temas tu, Frondelio companheiro,

que em algum tempo sejam sojugados

nem que a cerviz indomita obedeça

a outro jugo qualquer que se lhe ofreça.

E posto que a soberba se levante

de inimigos a torto e a direito,

não creas tu que a força repugnante

do fero e nunca ja vencido peito,

que desde quem possui o monte Atlante

adonde bebe o Hydaspe tem sujeito,

o possa nunca ser de força alhea,

em quanto o sol a terra e o ceo rodea.

FRONDELIO

Umbrano, a temeraria segurança

que em força ou em razão não se assegura

é falsa e van, que a grande confiança

não é sempre ajudada da ventura;

que lá junto das aras da esperança

Nemesis moderada, justa e dura

um freo lhe está pondo e lei terribil

que os limites não passe do possibil.

E se atentares bem os grandes danos

que se nos vão mostrando cada dia,

porás freo tambem a esses enganos

que te está figurando a ousadia:

tu não ves como os lobos tingitanos

apartados de toda cobardia

matam os cães do gado guardadores

e não sómente os cães mas os pastores?

Pois o grande curral, seguro e forte,

do alto monte Atlas não ouviste

que com sanguinolenta e fera morte

despovoado foi por caso triste?

Ó triste caso! Ó desastrosa sorte,

contra quem força humana não resiste!

Que ali tambem da vida foi privado

o meu Tionio, ainda em flor cortado.

UMBRANO

Em lagrimas me banha rosto e peito

d’ esse caso terrivel a memoria,

quando vejo quam sabio e quam perfeito

e quam merecedor de longa historia

era esse teu pastor, que sem direito

deu ás Parcas a vida transitoria.

Mas não ha quem d ’erva o gado farte

nem de juvenil sangue o fero Marte.

Porem se te não for muito pesado,

ja que esta triste morte me lembraste,

canta-me d’ este caso desastrado

aqueles brandos versos que cantaste

quando hontem, recolhendo o manso gado,

de nos outros pastores te apartaste,

que eu tambem, que as ovelhas recolhia,

não te podia ouvir como queria.

FRONDELIO

Como queres renove ao pensamento

tamanho mal, tamanha desventura?

Porque espalhar suspiros vãos ao vento

para os que tristes são é falsa cura;

mas pois te move tanto o sentimento

da morte de Tionio triste e escura,

eu porei teu desejo em doce efeito,

se a dor me não congele a voz no peito.

UMBRANO

Canta agora, pastor, que o gado pace

entre as humidas ervas sossegado,

e lá nas altas serras, onde nace,

o sacro Tejo, á sombra recostado,

com os seus olhos no chão, a mão na face,

está para te ouvir aparelhado,

e com silencio triste estam as ninfas

dos olhos destilando claras linfas.

O prado as flores brancas e vermelhas

está suavemente presentando,

as doces e solicitas abelhas

com susurro agradavel vão voando,

as candidas pacificas ovelhas

das ervas esquecidas, inclinando

as cabeças estam ao som divino

que faz passando o Tejo cristalino.

O vento d’ entre as arvores respira,

fazendo companhia ao claro rio,

nas sombras a ave garrula suspira,

sua magna espalhando ao vento frio:

toca, Frondelio, toca a doce lira,

que de aquele verde alamo sombrio

a branda Philomela entristecida

ao mais saudoso canto te convida.

FRONDELIO

Aquele dia as aguas não gostaram

as mimosas ovelhas, e os cordeiros

o campo encheram de amorosos gritos;

e não se penduraram dos salgueiros

as cabras, de tristeza, mas negaram

o pasto a si e o leite aos cabritos.

Prodigios infinitos

mostrava aquele dia

quando a Parca queria

principio dar ao fero caso triste.

E tu tambem, ó corvo, o descobriste

quando da mão direita em voz escura

voando repetiste

a tiranica lei da morte dura.

Tionio meu, o Tejo cristalino

e as arvores que ja desamparaste

choram o mal de tua ausencia eterna.

Não sei porque tam cedo nos deixaste

mas foi consentimento do destino,

por quem o mar e a terra se governa

A noite sempiterna

que tu tam cedo viste

cruel, acerba e triste,

sequer de tua idade não te dera

que lograras a fresca primavera?

Não usara comnosco tal crueza

que nem nos montes fera,

nem pastor ha no campo sem tristeza.

Os faunos, certa guarda dos pastores,

ja não seguem as ninfas na espessura,

nem as ninfas aos cervos dão trabalho;

tudo, qual ves, é cheo de tristura:

ás abelhas o campo nega as flores,

como ás flores a aurora nega o orvalho.

Eu, que cantando espalho

tristezas todo o dia,

a frauta que soia

mover as altas arvores tangendo

se me vai de tristeza enrouquecendo,

que tudo vejo triste neste monte;

e tu tambem correndo

manas envolta e triste, ó clara fonte.

As tagides no rio, e na aspereza

do monte as oreadas, conhecendo

quem te obrigou ao duro e fero Marte,

como em geral sentença vão dizendo

que não pode no mundo haver tristeza

em cuja causa amor não tenha parte.

Porque ele enfim desta arte

nos olhos saudosos,

nos passos vagarosos,

e no rosto que amor com fantasia

de palida viola lhe tingia,

a todos de si dava sinal certa

do fogo que trazia,

que nunca soube amor ser encoberto.

Ja diante dos olhos lhe voavam

imagens e fantasticas pinturas,

exercicios do falso pensamento;

ja por as solitarias espessuras

entre os penedos sós que não falavam

falava e descobria seu tormento.

Em longo esquecimento

de si, todo embebido,

andava tam perdido

que quando algum pastor lhe preguntava

a causa da tristeza que mostrava,

como quem para penas só vivia,

sorrindo lhe tornava:

Se não vivesse triste, morreria.

Mas como este tormento o sinalou

e tanto no seu rosto se mostrasse,

entendendo ja bem o pai sisudo,

porque do pensamento lh’ o tirasse

longe da causa dele o apartou;

porque enfim longa ausencia acaba tudo.

Ó falso Marte rudo,

das vidas cobiçoso!

Que donde o generoso

peito resucitava em tanta gloria

de seus antecessores a memoria,

ali fero e cruel lhe destruiste,

por injusta vitoria,

primeiro que o cuidado a vida triste.

Parece-me, Tionio, que te vejo,

por tingires a lança cobiçoso

naquele infido sangue mauritano,

no hispanico ginete belicoso,

que ardendo tambem vinha no desejo

de atropelar por terra ao tingitano.

Ó confiado engano!

Ó encurtada vida!

Que a virtude, oprimida

da multidão forçosa do inimigo,

não póde defender-se do perigo,

porque assi o destino o permitiu

e assi levou consigo

o mais gentil pastor que o Tejo viu.

Qual o mancebo Eurialo, enredado

entre o poder dos Rutulos fartando

as iras da soberba e dura guerra,

do cristalino rosto a cor mudando,

cujo purpureo sangue derramado

por as alvas espaldas tinge a serra;

que como flor que a terra

lhe nega o mantimento

porque o tempo avarento

tambem o largo humor lhe tem negado,

o colo inclina languido e cansado,

tal te pintou, ó Tionio, dando o esprito

a quem t’ o tinha dado;

qu’ este é sómente eterno e infinito.

Da congelada boca a alma pura

com o nome juntamente da inimiga

e excelente Marfida derramava.

E tu, gentil senhora, não te obriga

a pranto sempiterno a morte dura

de quem por ti sómente a vida amava?

Por ti aos ecos dava

acentos numerosos,

por ti aos belicosos

exercidos se deu do fero Marte.

E tu, ingrata, o amor; a noutra parte

porás, como acontece ao fraco intento;

que enfim, enfim, desta arte

se muda o feminino pensamento.

Pastores deste vale ameno e frio,

que de Tionio o caso desastrado

quereis nas altas serras que se cante,

um tumulo de flores adornado

lhe edificai ao longo deste rio

que a vela enfree ao duro navegante;

e o lasso caminhante,

vendo tamanha magua,

arrase os olhos de agua,

lendo na pedra dura o verso escrito,

que diga assi: Memoria sou, que grito

para dar testemunha em toda parte

do mais gentil esprito

que tiraram do mundo Amor e Marte.

UMBRANO

Qual o quieto sono aos cansados

debaixo de alguma arvore sombria,

ou qual aos sequiosos encalmados

o vento respirante e a fonte fria,

tais me foram teus versos delicados,

teu numeroso canto e melodia;

e ainda agora o tom suave e brando

os ouvidos me fica adormentando.

Em quanto os peixes humidos tiverem

as areosas covas deste rio,

e correndo estas aguas conhecerem

do largo mar o antigo senhorio,

e em quanto estas ervinhas pasto derem

ás petulantes cabras, eu te fio

que em virtude dos versos que cantaste

sempre viva o pastor que tanto amaste.

Mas ja que pouco a pouco o sol nos falta

e dos montes as sombras se acrecentam,

de flores mil o claro ceo se esmalta

que tam ledas aos olhos se presentam,

levemos por o pe desta serra alta

os gados, que ja agora se contentam

do que comido tem, Frondelio amigo,

anda, que até o outeiro irei contigo.

FRONDELIO

Antes por este vale, amigo Umbrano,

se te aprouver, levemos as ovelhas,

porque, se eu por acerto não me engano,

de lá me soa um eco nas orelhas:

o doce acento não parece humano;

e, se em contrario tu não me aconselhas,

eu quero descobrir que cousa seja,

que o tom m’ espanta e a voz me faz inveja.

UMBRANO

Contigo vou, que quanto mais me chego

mais gentil me parece a voz que ouviste,

peregrina, excelente, e não te nego

que me faz cá no peito a alma triste.

Ves como tem os ventos em sossego?

Nenhum rumor da serra lhe resiste;

nenhum passaro voa, mas parece

que do canto vencido lhe obedece.

Porem, irmão, milhor me parecia

que não fossemos lá, que estorvaremos;

mas subidos nesta arvore sombria

todo o vale de aqui descobriremos.

Os çurrões e cajados todavia

neste comprido tronco penduremos:

para subir fica homem mais ligeiro.

Deixa-me tu, Frondelio, ir primeiro.

FRONDELIO

Espera, assi dar-te-hei pe se queres,

subirás sem trabalho e sem ruido,

e depois que subido lá estiveres

dar-me-has a mão de cima, que é partido.

Mas primeiro me dize, se o puderes

ver, donde nace o canto nunca ouvido:

quem lança o doce acento delicado?

Fala, que ja te vejo estar pasmado.

UMBRANO

Cousas não costumadas na espessura

que nunca vi, Frondelio, vejo agora:

formosas ninfas vejo na verdura,

cujo divino gesto o ceo namora;

uma de desusada formosura,

que das outras parece ser senhora

sobre um triste sepulcro não cessando

está perlas dos olhos destilando.

De todas estas altas semideas

que em torno estam do corpo sepultado,

umas regando as humidas areas

de flores tem o tumulo adornado,

outras queimando lagrimas sabeas

enchem o ar de cheiro sublimado,

outras em ricos panos mais avante

envolvem brandamente um novo infante.

Uma que d’ entre as outras se apartou,

com gritos que a montanha entristeceram,

diz que, depois que a morte a flor cortou

que as estrelas sómente mereceram,

este penhor carissimo ficou

de aquelo a cujo imperio obedeceram

Douro, Mondego, Tejo e Guadiana,

até o remoto mar da Taprobana.

Diz mais que se encontrar este menino

a noite intempestiva amanhecendo,

o Tejo, agora claro e cristalino,

tornará a fera Alecto em vulto horrendo;

mas que, a ser conservado do destino,

as benignas estrelas prometendo

lhe estam o largo pasto de Ampelusa,

com o monte que em mao ponto viu Medusa.

Este prodigio grande a ninfa bela

com abundantes lagrimas recita;

porem qual a eclipsada clara estrela

que entre as outras o ceo primeiro habita,

tal coberta de negro vejo aquela

a quem só na alma toca a gram desdita.

Dá cá, Frondelio, a mão e sobe a ver

tudo o mais que eu de dor não sei dizer.

Ó triste morte, esquiva e mal olhada,

que a tantas formosuras injurias!

Áquela deusa bela e delicada

sequer algum respeito ter devias:

esta é por certo Aonia, filha amada

d’ aquele gram pastor que em nossos dias

Danubio enfrea, manda o claro Ibero,

e espanta o morador do Euxino fero.

Morreu-nos o excelente e poderoso,

que a isto está sujeita a vida humana,

doce Aonio, de Aonia caro esposo.

Ah lei dos fados aspera e tirana!

Mas o som peregrino e piedoso

com que a formosa ninfa a dor engana

escuta um pouco: nota e ve, Umbrano,

quam bem que soa o verso castelhano!

AONIA

The Oxford book of Portuguese verse · 第 7 / 13 段