Por ti cantam aves,

sem temerem quedas,

mil cantigas ledas

e versos suaves.

De laços e redes

criam sem receo,

seguras no seo

de teus bosques verdes.

Dem-te as noites sono,

e com larga mão

flores o verão,

frutos o outono!

Sombra no estio

sem nenhuns resguardos,

neves e dias pardos

o inverno frio!

Por ti canta Abril

quanto cuida e sonha,

ora com sanfonha,

ora com rabil.

Quando se levanta,

quando o sol mais arde,

assim canta á tarde,

á noite assim canta.

Para que são, Maio,

tantas alegrias,

pois teus longos dias

passam como raio?

Por muito que tardes

são tardanças vans:

foram-se as manhans,

ir-se-hão as tardes.

Para que te gabas

de teus vãos amores?

Para que são flores

pois tam cedo acabas?

Em espaço breve

chega ao mar o Douro:

os cabelos de ouro

se fazem de neve.

Ó rio Leça,

frutos em Janeiro

nacerão primeiro

que de ti me esqueça!

Primeiro em Agosto

nevará com calma

que o tempo desta alma

aparte teu rosto!

Algum tempo manso

Deus o ordene a mi

em que torne a ti

com algum descanso!

D. MANUEL DE PORTUGAL

[Sidenote: c. 1520-1606]

_113. Soneto_

Apetece minha alma a fonte viva

no estio de amor, em sesta ardente,

sequiosa se lança á gram corrente

da formosura que de vos deriva.

Cuidando de amansar a sede estiva,

quanto mais d’ amor beve é mais vehemente:

nunca se acabará este acidente,

que arde amor na minha alma em cousa viva.

Nem resiste ao ardor nem se consume,

porque ela é imortal, ele benigno,

nele deleita a dor, dá gosto a pena;

se imagina passar raio divino

deseja a alma abrasar-se no seu lume,

tal é do que em si esconde o bem que acena.

LUIS DE CAMÕES

[Sidenote: 1524?-1580]

_114. Descalça vai para a fonte_

Descalça vai para a fonte

Lianor pela verdura,

vai formosa e não segura.

Voltas

Leva na cabeça o pote,

o testo nas mãos de prata,

cinta de fina escarlata,

sainho de chamalote;

traz a vasquinha de cote,

mais branca que a neve pura,

vai formosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,

cabelos de ouro entrançado,

fita de cor de encarnado,

tam linda que o mundo espanta;

chove nela graça tanta

que dá graça á formosura,

vai formosa e não segura.

_115. A uma senhora resando_

Peço-vos que me digais

as orações que resastes,

se são polos que matastes,

se por vos que assi matais?

Se são por vos são perdidas,

que qual será a oração

que seja satisfação,

senhora, de tantas vidas?

Que se vedes quantos vem

a só vida vos pedir,

como vos ha Deus de ouvir

se vos não ouvis ninguem?

Não podeis ser perdoada

com mãos a matar tam prontas,

que se numa trazeis contas

na outra trazeis espada.

Se dizeis que encomendando

os que matastes andais,

se resais per quem matais

para que matais resando?

Que se na força do orar

levantais as mãos aos ceos

não as ergueis para Deus,

erguei-las para matar.

E quando os olhos cerrais,

toda enlevada na fe,

cerram-se os de quem vos ve

para nunca verem mais.

Pois se assi forem tratados

os que vos vem quando orais,

essas horas que resais

são as horas dos finados.

Pois logo, se sois servida

que tantos mortos não sejam,

nam reseis onde vos vejam

ou vede para dar vida:

ou se quereis escusar

estes males que causastes,

resucitai quem matastes,

não tereis por quem resar.

_116. Vida da minha alma_

Vida da minha alma,

não vos posso ver:

isto não é vida

para se sofrer.

Voltas

Quando vos eu via

esse bem lograva,

a vida estimava

pois entam vivia;

porque vos servia

só para vos ver.

Ja que vos não vejo

para que é viver?

Vivo sem razão,

porque em minha dor

não a pos amor,

que inimigos são.

Mui grande traição

me obriga a fazer

que viva, senhora,

sem vos poder ver.

Não me atrevo ja,

minha tam querida,

a chamar-vos vida,

porque a tenho má:

ninguem cuidará

que isto pode ser,

sendo-me vos vida,

não poder viver.

_117. Endechas_

Vai o bem fugindo,

crece o mal com os anos,

vão-se descobrindo

com o tempo os enganos.

Amor e alegria

menos tempo dura,

triste de quem fia

nos bens da ventura!

Bem sem fundamento

tem certa a mudança,

certo o sentimento

na dor da lembrança.

Quem vive contente

viva receoso,

mal que se não sente

é mais perigoso.

Quem males sentiu

saiba ja temer

e pelo que viu

julgue o que ha de ser.

Alegre vivia,

triste vivo agora:

chora a alma de dia,

e de noite chora.

Confesso os enganos

de meu pensamento:

bem de tantos anos

foi-se num momento.

Meus olhos, que vistes?

Pois vos atrevestes,

chorai, olhos tristes,

o bem que perdestes.

A luz do sol pura

só a vos se negue!

Seja noite escura,

nunca a manhã chegue!

O campo floreça,

murmurem as aguas,

tudo me entristeça,

creçam minhas maguas!

Quisera mostrar

o mal que padeço:

não lhe dá lugar

quem lhe deu começo.

Em tristes cuidados

passo a triste vida:

cuidados cansados,

vida aborrecida!

Nunca pude crer

o que agora creio:

chegou-me o prazer

do mal que me veio.

Ah ventura minha,

como me negaste!

um só bem que tinha

porque m’ o roubaste?

Triste fantasia,

quanta cousa guarda!

Quem ja visse o dia

que tanto lhe tarda!

Nesta vida cega

nada permanece,

o que inda não chega

ja desaparece.

Qualquer esperança

foge como o vento:

tudo faz mudança

salvo meu tormento.

Amor cego e triste,

quem o tem padece:

mal quem lhe resiste,

mal quem lhe obedece!

No meu mal esquivo

sei como amor trata,

e pois nele vivo

nenhum amor mata.

_118. A uma cativa chamada Barbara_

Aquela cativa

que me tem cativo,

porque nela vivo

ja não quer que viva.

Eu nunca vi rosa

em suaves molhos

que para meus olhos

fosse mais formosa.

Nem no campo flores,

nem no ceo estrelas

me parecem belas

como os meus amores.

Rosto singular!

Olhos sossegados,

pretos e cansados

mas não de matar!

Uma graça viva

que neles lhe mora,

para ser senhora

de quem é cativa.

Pretos os cabelos,

onde o povo vão

perde opinião

que os louros são belos,

Pretidão de amor!

Tam doce a figura

que a neve lhe jura

que trocara a cor!

Leda mansidão

que o siso acompanha:

bem parece estranha,

mas barbara não.

Presença serena

que a tormenta amanha,

nela enfim descansa

toda minha pena.

Esta é a cativa

que me tem cativo

e pois nela vivo

é força que viva!

_119. Babel e Sião_

Sobolos rios que vão

por Babilonia me achei,

onde sentado chorei

as lembranças de Sião

e quanto nele passei.

Ali o rio corrente

de meus olhos foi manado,

e tudo bem comparado:

Babilonia ao mal presente,

Sião ao tempo passado.

Ali lembranças contentes

na alma se representaram,

e minhas cousas ausentes

se fizeram tam presentes

como se nunca passaram.

Ali depois de acordado,

com o rosto banhado em agua,

deste sonho imaginado,

vi que todo o bem passado

nam é gosto mas é magua.

E vi que todos os danos

se causavam das mudanças,

e as mudanças dos anos,

onde vi quantos enganos

faz o tempo ás esperanças.

Ali vi o maior bem

quam pouco espaço que dura,

o mal quam depressa vem;

e quam triste estado tem

quem se fia da ventura.

Vi aquilo que mais val,

que entam se entende milhor

quando mais perdido for;

vi ao bem suceder o mal,

o ao mal muito pior.

E vi com muito trabalho

comprar arrependimento,

vi nenhum contentamento;

e vejo-me a mi que espalho

tristes palavras ao vento.

Bem são rios estas aguas

com que banho este papel,

bem parece ser cruel

variedade de maguas

e confusão de Babel.

Como homem por exemplo

dos trances em que se achou,

depois que a guerra deixou,

pelas paredes do templo

suas armas pendurou;

assi, depois que assentei

que tudo o tempo gastava,

da tristeza que tomei

nos salgueiros pendurei

os orgãos com que cantava.

Aquele instrumento ledo

deixei da vida passada,

dizendo: Musica amada,

deixo-vos neste arvoredo

á memoria consagrada.

Frauta minha que tangendo

os montes fazieis vir

para onde estaveis, correndo,

e as aguas que iam decendo

tornavam logo a subir.

Jamais vos nam ouvirão

os tigres que se amansavam,

e as ovelhas que pastavam

das ervas se fartarão,

que por vos ouvir deixavam.

Ja não fareis docemente

em rosas tornar abrolhos

na ribeira florecente,

nem poreis freo á corrente,

e mais se for dos meus olhos.

Não movereis a espessura

nem podereis ja trazer

atras vos a fonte pura,

pois não podestes mover

desconcertos da ventura.

Ficareis oferecida

á fama que sempre vela,

frauta de mim tam querida:

porque mudando-se a vida

se mudam os gostos dela.

Acha a tenra mocidade

prazeres acomodados

e logo a maior idade

ja sente por pouquidade

aqueles gostos passados.

Um gosto que hoje se alcança

amanhã ja o não vejo:

assi nos traz a mudança

d’ esperança em esperança

e de desejo em desejo.

Mas em vida tam escassa

que esperança será forte?

Fraqueza da humana sorte,

que quanto da vida passa

está recitando a morte.

Mas deixar nesta espessura

o canto da mocidade:

nam cuide a gente futura

que será obra da idade

o que é força da ventura.

Que idade, tempo e espanto

de ver quam ligeiro passe

nunca em mim poderam tanto

que, posto que deixo o canto,

a causa dele deixasse.

Mas em tristezas e nojos,

em gosto e contentamento,

por sol, por neve, por vento,

«tendré presente a los ojos

por quien muero tan contento.»

Orgãos e frauta deixava,

despojo meu tam querido,

no salgueiro que ali estava,

que para trofeo ficava

de quem me tinha vencido.

Mas lembranças de afeição

que ali cativo me tinha

me preguntaram entam

que era da musica minha

que eu cantava em Sião:

Que foi d’ aquele cantar

das gentes tam celebrado?

Porque o deixava de usar,

pois sempre ajuda a passar

qualquer trabalho passado?

Canta o caminhante ledo

no caminho trabalhoso

por entre o espesso arvoredo,

e de noite o temeroso

cantando refrea o medo.

Canta o preso docemente,

os duros grilhões tocando,

canta o segador contente,

e o trabalhador cantando

o trabalho menos sente.

Eu que estas cousas senti

na alma de maguas tam chea.

Como dirá, respondi,

quem alheo está de si

doce canto em terra alhea?

Como poderá cantar

quem em choro banha o peito?

Porque, se quem trabalhar

canta por menos cansar,

eu só descansos engeito.

Que não parece razão

nem seria cousa idonea

por abrandar a paixão

que cantasse em Babilonia

as cantigas de Sião.

Que quando a muita graveza

da saudade quebrante

esta vital fortaleza,

antes morra de tristeza

que por abrandâ-la cante.

Que se o fino pensamento

só na tristeza consiste

não tenho medo ao tormento:

que morrer de puro triste

que maior contentamento?

Nem na frauta cantarei

o que passo e passei ja

nem menos o escreverei:

porque a pena cansará

e eu não descansarei.

Que se vida tam pequena

se acrecenta em terra estranha

e se amor assi o ordena,

razão é que canse a pena

de escrever pena tamanha.

Porem se para assentar

o que sente o coração

a pena ja me cansar

não canse para voar

a memoria em Sião!

Terra bem-aventurada,

se por algum movimento

d’ alma me fores tirada,

minha pena seja dada

a perpetuo esquecimento!

A pena deste desterro

que eu mais desejo esculpida

em pedra ou em duro ferro,

essa nunca seja ouvida

em castigo de meu erro!

E se eu cantar quiser

em Babilonia sujeito,

Hierusalem, sem te ver,

a voz quando a mover

se me congele no peito!

A minha lingua se apegue

ás fauces, pois te perdi,

se, em quanto viver assi,

houver tempo em que te negue

ou que me esqueça de ti!

Mas ó tu, terra de gloria,

se eu nunca vi tua essencia,

como me lembras na ausencia?

Não me lembras na memoria

senão na reminiscencia.

Que a alma é taboa rasa

que com a escrita doutrina

celeste tanto imagina

que voa da propria casa

e sobe á patria divina.

Não é logo a saudade

da terra onde naceu

a carne, mas é do ceo,

d’ aquela santa cidade

d’ onde est’ alma decendeu.

E aquela humana figura

que cá me pode alterar

não é quem se ha de buscar:

é raio de formosura

que só se deve de amar.

Que os olhos e a luz que atea

o fogo que cá sujeita,

não do sol nem da candea,

é sombra daquela idea

que em Deus está mais perfeita.

E os que cá me cativaram

são poderosos afeitos

que os corações tem sujeitos:

sofistas que me ensinaram

maos caminhos por direitos.

Destes o mando tirano

me obriga com desatino

a cantar ao som do dano

cantares de amor profano

por versos de amor divino.

Mas eu, lustrado com o santo

raio na terra de dor,

de confusões e de espanto,

como hei de cantar o canto

que só se deve ao Senhor?

Tanto pode o beneficio

da graça que dá saude

que ordena que a vida mude,

e o que eu tomei por vicio

me fez grao para a virtude;

e fez que este natural

amor que tanto se preza

suba da sombra ao real,

da particular beleza

para a beleza geral.

Fique logo pendurada,

ó frauta com que tangi,

a Hierusalem sagrada,

e tome a lira dourada

para só cantar de ti.

Não cativo e ferrolhado

na Babilonia infernal,

mas dos vicios desatado

e cá desta a ti levado,

patria minha natural!

E se eu mais der a cerviz

a mundanos acidentes,

duros, tiranos e urgentes,

risque-se quanto ja fiz

do gram livro dos viventes!

E tomando ja na mão

a lira santa e capaz

de outra mais alta invenção,

cale-se esta confusão,

cante-se a visão de paz!

Ouça-me o pastor e o rei,

retumbe este acento sagrado!

Mova-se no mundo espanto

que do que ja mal cantei

a palinodia canto.

A vos só me quero ir,

Senhor e gram Capitão

da alta torre de Sião,

á qual não posso subir

se me vos não dais a mão.

No gram dia singular

que na lira em douto som

Hierusalem celebrar,

lembrai-vos de castigar

os ruins filhos de Edom.

Aqueles que tintos vão

no pobre sangue inocente,

soberbos com o poder vão:

arrasa-los igualmente,

conheçam que humanos são!

E aquele poder tam duro

dos afectos com que venho,

que encendem alma e engenho,

que ja me entraram o muro

do livre arvitrio que tenho;

estes que tam furiosos

gritando vem a escalar-me,

maos espiritos danosos,

que querem como forçosos

do alicerce derribar-me;

derribai-os, fiquem sós,

de forças fracos, imbeles,

porque não podemos nos

nem com eles ir a vos

nem sem vos tirar-nos deles.

Não basta minha fraqueza

para me dar defensão,

se vos, santo Capitão,

nesta minha fortaleza

não puserdes guarnição.

E tu, ó carne que encantas,

filha de Babel tam fea,

toda de miseria chea,

que mil vezes te levantas

contra quem te senhorea,

beato só pode ser

quem com a ajuda celeste

contra ti prevalecer,

e lhe vier a fazer

o mal que lhe tu fizeste.

Quem com diciplina crua

se fere mais que uma vez;

cuja alma, de vicios nua,

faz nodoas na carne sua

que ja a carne na alma fez.

E beato quem tomar

seus pensamentos recentes

e em nacendo os afogar

por não virem a parar

em vicios graves e urgentes;

quem com eles logo der

na pedra do furor santo

e batendo os desfizer

na pedra que veio a ser

enfim cabeça do canto;

Quem logo quando imagina

nos vicios da carne má

os pensamentos declina

áquela carne divina

que na cruz esteve ja;

quem do vil contentamento

cá deste mundo visibil

quanto ao homem for possibil

passar logo o entendimento

para o mundo inteligivil;

ali achará alegria

em tudo perfeita e chea

de tam suave harmonia

que nem por pouca recrea

nem por sobeja enfastia;

ali verá tam profundo

misterio na suma alteza

que, vencida a natureza,

os mores faustos do mundo

julgue por maior baixeza.

Ó tu divino aposento,

minha patria singular,

se só com te imaginar

tanto sobe o entendimento,

que fará se em ti se achar?

Ditoso quem se partir

para ti, terra excelente,

tam justo e tam penitente

que depois de a ti subir

lá descanse eternamente!

_120. Soneto_

Alegres campos, verdes arvoredos,

claras e frescas aguas de cristal

que em vos os debuxais ao natural,

discorrendo da altura dos rochedos;

silvestres montes, asperos penedos,

compostos de concerto desigual:

sabei que sem licença de meu mal

ja não podeis fazer meus olhos ledos.

E pois ja me não vedes como vistes,

não me alegrem verduras deleitosas

nem aguas que correndo alegres vem:

semearei em vos lembranças tristes,

rogar-vos-hei com lagrimas saudosas

e nacerão saudades de meu bem.

_121. Soneto_

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

muda-se o ser, muda-se a confiança:

todo o mundo é composto de mudança,

tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades

diferentes em tudo da esperança:

do mal ficam as maguas na lembrança,

do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto

que ja coberta foi de neve fria,

e em mi converte em choro o doce canto;

e afora este mudar-se cada dia

outra mudança faz de mor mudança,

que nam se muda ja como soia.

_122. Amor_

Amor é um fogo que arde sem se ver,

é ferida que doi e não se sente,

é um contentamento descontente,

é um dor que desatina sem doer;

é um não querer mais que bem querer,

é solitario andar entre a gente,

é um não contentar-se de contente,

é cuidar que se ganha em se perder;

é um estar-se preso por vontade,

é servir a quem vence o vencedor,

é um ter com quem nos mata lealdade:

mas como causar pode o seu favor

nos mortais corações conformidade,

sendo a si tam contrario o mesmo amor?

_123. O frecheiro cego_

Está o lascivo e doce passarinho

com o biquinho as penas ordenando,

o verso sem medida, alegre e brando,

despedindo no rustico raminho;

o cruel caçador, que de caminho

se vem calado e manso desviando,

com pronta vista a seta endireitando,

lhe dá no estigio lago eterno ninho.

Desta arte o coração, que livre andava,

posto que ja de longe destinado,

onde menos temia foi ferido;

porque o frecheiro cego me esperava

para que me tomasse descuidado,

em vossos claros olhos escondido.

_124. Jacob e Raquel_

Sete anos de pastor Jacob servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela,

mas não servia ao pai, servia a ela,

que a ela só por premio pretendia.

Os dias na esperança de um só dia

passava, contentando-se com vê-la:

porem o pai, usando de cautela,

em lugar de Raquel lhe deu Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos

assi lhe era negada a sua pastora

como se a não tivera merecida,

começou a servir outros sete anos,

dizendo: Mais servira se não fora

para tam longo amor tam curta a vida!

_125. Circe_

Um mover de olhos brando e piedoso

sem ver de que; um riso brando e honesto

quasi forçado; um doce e humilde gesto,

de qualquer alegria duvidoso;

um despejo quieto e vergonhoso;

um repouso gravissimo e modesto;

uma pura bondade, manifesto

indicio da alma, limpo e gracioso;

um encolhido olhar; uma brandura;

um medo, sem ter culpa; um ar sereno;

um longo e obediente sofrimento:

esta ja foi a celeste formosura

da minha Circe e o magico veneno

que póde transformar meu pensamento.

_126. Alma minha gentil_

Alma minha gentil que te partiste

tam cedo desta vida descontente,

repousa tu no ceo eternamente,

e viva eu cá na terra sempre triste!

Se lá no assento etereo onde subiste

memoria desta vida se consente,

não te esqueças de aquele amor ardente

que ja nos olhos meus tam puro viste!

E se vires que pode merecer-te

alguma cousa a dor que me ficou

da magua, sem remedio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,

que tam cedo de cá me leve a ver-te

quam cedo de meus olhos te levou.

_127. Despedida_

Aquela triste e leda madrugada,

chea toda de magua e de piedade,

em quanto houver no mundo saudade

quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada

saía, dando á terra claridade,

viu apartar-se de uma outra vontade

que nunca poderá ver-se apartada;

ela só viu as lagrimas em fio

que, de uns olhos e de outros derivadas

juntando-se formaram largo rio;

ela ouviu as palavras maguadas

que poderão tornar o fogo frio

e dar descanso ás almas condenadas.

_128. Canção_

Junto de um seco, duro, esteril monte

inutil e despido, calvo e informe,

da natureza em tudo aborrecido,

onde nem ave voa nem fera dorme,

nem corre claro rio nem ferve fonte,

nem verde ramo faz doce ruido;

cujo nome, do vulgo introducido,

é Feliz, por antifrasi infelice;

o qual a natureza

situou junto á parte

aonde um braço de alto mar reparte

a Abassia da Arabica aspereza,

em que fundada ja foi Berenice,

ficando á parte donde

o sol que nela ferve se lhe esconde;

o cabo se descobre com que a costa

africana, que do Austro vem correndo,

limite faz, Aromata chamado:

Aromata outro tempo, que volvendo

a roda, a rude lingua mal composta

dos proprios outro nome lhe tem dado.

Aqui no mar, que quer apressurado

entrar por a garganta deste braço,

me trouxe um tempo e teve

minha fera ventura;

aqui nesta remota, aspera e dura

parte do mundo, quis que a vida breve

tambem de si deixasse um breve espaço

porque ficasse a vida

por o mundo em pedaços repartida.

Aqui me achei gastando uns tristes dias,

tristes, forçados, maos e solitários,

de trabalho, de dor e de ira cheos,

não tendo tam sómente por contrarios

a vida, o sol ardente, as aguas frias,

os ares grossos, fervidos e feos,

mas os meus pensamentos, que são meus

para enganar a propria natureza,

tambem vi contra mi,

trazendo-me á memoria

alguma ja passada e breve gloria,

que eu ja no mundo vi quando vivi,

por me dobrar dos males a aspereza,

por mostrar-me que havia

no mundo muitas horas de alegria.

Aqui estive eu com estes pensamentos

gastando tempo e vida; os quais tam alto

me subiam nas asas que caía,

ó vede se sería leve o salto!

de sonhados e vãos contentamentos

em desesperação de ver um dia.

O imaginar aqui se convertia

em improvisos choros e em suspiros

que rompiam os ares;

aqui a alma cativa

chagada toda estava em carne viva,

de dores rodeada e de pesares,

desamparada e descoberta aos tiros

da soberba fortuna,

soberba, inexoravel e importuna.

Não tinha parte donde se deitasse

nem esperança alguma onde a cabeça

um pouce reclinasse por descanso:

tudo dor lhe era e causa que padeça,

mas que pereça não; porque passasse

o que quis o destino nunca manso.

Ó que este irado mar gemendo amanso:

estes ventos da voz importunados

parece que se enfream!

Sómente o ceo severo,

as estrelas e o fado sempre fero

com meu perpetuo dano se recream,

mostrando-se potentes e indignados

contra um corpo terreno,

bicho da terra vil e tam pequeno!

Se de tantos trabalhos só tirasse

saber inda por certo que algum’ hora

lembrava a uns claros olhos que ja vi;

e se esta triste voz, rompendo fora,

as orelhas angelicas tocasse

daquela em cuja vista ja vivi;

a qual tornando um pouco sobre si,

revolvendo na mente pressurosa

os tempos ja passados

de meus doces errores,

de meus suaves males e furores

por ela padecidos e buscados,

e, posto que ja tarde, piedosa

um pouco lhe pesasse

e lá entre si por dura se julgasse:

isto só que soubesse me seria

descanso para a vida que me fica;

com isto afagaria o sofrimento.

Ah senhora, ah senhora! E que tam rica

estais, que ca, tam longe de alegria,

me sustentais com doce fingimento!

Logo que vos figura o pensamento,

foge todo o trabalho e toda a pena:

só com vossas lembranças

me acho seguro e forte

contra o rosto feroz da fera morte,

e logo se me juntam esperanças

com que, a fronte tornada mais serena,

torno os tormentos graves

em saudades brandas e suaves.

Aqui com elas fico preguntando

aos ventos amorosos, que respiram

da parte onde estais, por vos, senhora;

ás aves que ali voam se vos viram,

que fazieis, que estaveis praticando,

onde, como, com quem, que dia e que hora.

Ali a vida cansada se milhora,

toma espiritos novos com que vença

a fortuna e trabalho,

só por tornar a ver-vos,

só por ir a servir-vos e querer-vos.

Diz-me o tempo que a tudo dará talho,

mas o desejo ardente que detença

nunca sofreo, sem tento

me abre as chagas de novo ao sofrimento.

Assi vivo; e se alguem te preguntasse,

canção, porque nam moiro,

podes-lhe responder que porque moiro.

_129. Elegia_

The Oxford book of Portuguese verse · 第 6 / 13 段