dos bens do mundo abastado,
mas contando ano e ano
fico de todo cortado.
Vejo-te lá pela idade
de uma nuve negra cercado,
vejo-te sem liberdade,
de tua terra desterrado,
e mais de tua vontade.
Em terra que inda nam viste
pelo que nela has de ver
vejo-te o coraçam triste
Para em dias que viver.
Has de morrer de uma dor
de que agora andas bem fora:
por isso vive em temor,
que nam sabe homem aquela hora
em que lhe ha de vir o amor.
Nam pode ja longe vir,
Jano, aquisto que te digo;
vejo-te a barba pungir:
olha como andas contigo!
A terra estranha irás
por teu gado nam perderes,
longos males passarás
por uns mui breves prazeres
que verás ou nam verás.
E dando um pouco á cabeça
a maneira d’anojado:
por teu bem porem te creça
a barba, disse, de honrado!
Treslada-o no coraçam
isto que te aqui direi,
que ainda alguns tempos virão
Jano, que te alembrarei:
mande Deus que seja em vão!
Por cobrares a fazenda
a ti mesmo perderás,
perda que nam tem emenda
depois, quando o saberás.
Nos campos de uma ribeira
onde vales ha e lugares
te está guardada a primeira
causa destes teus pesares,
noutra parte a derradeira.
Geitos em cousas pequenas,
louros cabelos ondados
porão para sempre em penas
a ti e teus cuidados.
Falas cheas de desdem,
de presunçam cheas elas,
cousas que outras cousas tem
te causarão as querelas
de que morrer te convem.
JANO
De todo o que te ei contado
todo casi aconteceo,
que o que ainda nam é passado
polo passado se creo.
Agora d’ antes pouco ha
viram meus olhos que foram
quem m’ os levou apos si lá:
a alma a vida se me foram,
desprezaram-se de mi ja.
AUTOR
Um gram cão que Franco trazia,
de grande faro, entramentes
deu com a frauta onde jazia
e trouxe-a entam entre as dentes.
Vendo-a Franco alvoroçou-se
e foi correndo ao cão
que nos pes alevantou-se
e deo-lhe a frauta na mão
e apos aquilo espojou-se.
Escontra Jano tornou
entam Franco, assi dizendo:
quem ve o que desejou
nam se lembra d’ al em o vendo:
fui-te a palavra cortar,
mas d’ aquisto dá tu a culpa
a quem a eu nam posso dar;
ou, Jano, por ti me desculpa,
pois sabes o que é desejar.
De cousa que muito queiras
deve essa frauta de ser,
disse Jano. Sam primeiras,
lhe tornou Franco a dizer.
Quem te tal dono outorgou,
disse-lhe Jano apos isto,
a muito a ti te obrigou.
A la fe gram mestre nisto
deves ser se o cão nam errou.
Canta, Franco, alguma cousa,
ama a musica a tristeza:
veremos se me repousa
onda a magua tem firmeza.
Disse Franco: certamente
cantarei pola vontade
te fazer como a doente,
inda, Jano, que á verdade
a minha é chorar sómente.
Quero-te cantar aquela
que ontem depois que perdi
a frauta cantei sem ela.
Á noite quando me vi
cansado de nam na achar
mais muito que de buscâ-la,
me fui eu ontem lançar;
mas, Jano, faço-te fala
que nam pude olho cerrar.
Lá depois de noite mea,
quando tudo se calava,
comecei em fala chea;
um mocho me acompanhava:
de longe me parecia
(nam sei se me enganava eu)
que ele a mi me respondia
com um ai grande como o meu;
mas o canto assi dizia:
CANTIGA
Perdido e desterrado,
que farei? onde me irei?
depois de desesperado
outra mor magua achei.
Desconsolado de mi,
em terra alhea alongado,
onde por remedio vim
e reparo do meu gado.
Mas ó malaventurado
de mi sem consolaçam!
temo que ha de ser forçado,
pois que fui tam mal fadado,
matar-me com minha mão.
Que conta darei eu agora
a quem nam m’ a ha de pedir?
que desculpa porei ora
a quem nam me ha de ouvir?
Frauta, dom da mais querida
que cobre esta noite escura,
frauta minha, sois perdida!
Façam-me uma sepultura,
que muito ha que estou sem vida.
E ponham na sepultura
letras que digam desta arte:
A da alma está em outra parte.
Se aprouver aos longos anos
e aos empos que ham de vir
que destes graves meus danos
venha Celia parte ouvir,
lá onde triste estiver
se ela consigo apartada
lagrimas ter nam poder,
será minha alma pagada,
ou o que entam de mi ouver.
Inda que nam queira nada,
tudo é menos de passar
que lá os olhos soem levar.
Fugiram contando os dias,
fizeram-se as noites sós,
para os tristes como nos.
Jano, esta é a cantiga,
cá a derradeira cri que era,
e por sair de fadiga
confesso-te que o quisera.
Mas se a alma e entendimento
nam morrem com o corpo, a magua
me ficará! Vamonos, que sento
que é tempo do gado ir a agua:
tambem tem tempo o tormento.
_102. Romance de Avalor_
Pela ribeira de um rio
que leva as aguas ao mar
vai o triste de Avalor,
nam sabe se ha de tornar.
As aguas levam seu bem,
ele leva seu pesar.
Só vai e sem companhia,
que os seus fora ele deixar,
que quem nam leva descanso
descansa em só caminhar.
Descontra onde ia a barca
se ia o sol abaixar;
indo-se abaixando o sol
escurecia-se o ar;
tudo se fazia mais triste
quanto havia de ficar.
Da barca levantam remos,
a ao som do remar
começaram os remeiros
dos bancos este cantar:
Que frias eram as aguas!
Quem as haverá de passar?
Dos outros bancos respondem:
Quem as haverá de passar
senam quem a vontade pos
onde a nam pode tirar!
Tras a barca lhe vam os olhos
quanto o dia dá lugar:
nam durou muito, que o bem
nam pode muito durar.
Vendo o sol posto contra ele
soltou os olhos ao chorar,
soltou redeas ao cavalo
da beira do rio andar.
A noite era calada
para mais o maguar,
que ao compasso dos remos
era o seu sospirar.
Querer contar suas maguas
sería areas contar.
Quanto mais se ia alongando,
se ia alongando o soar:
dos seus ouvidos aos olhos
a tristeza foi igualar.
Assi como ia o cavalo
foi pela agua dentro entrar,
e dando um longo sospiro
ouvira longe falar:
Onde maguas levam alma
vam tambem corpo levar.
Mas indo assi por acerto
foi com um barco na agua dar,
que estava amarrado á terra
e seu dono era a folgar.
Saltou assi como ia dentro
e foi a amarra cortar:
a corrente e a maré
acertaram-no a ajudar.
Nam sabem mais que foi dele
nem novas se podem achar,
sospeita-se que era morto
mas nam é para afirmar.
Mais sam as maguas de amor
do que se podem cuidar.
_103. Romance_
Pensando-vos estou, filha,
vossa mãi me está lembrando
enchem-se-me os olhos de agua,
nela vos estou lavando.
Nacestes, filha, entre magua,
para bem inda vos seja,
pois em vosso nacimento
fortuna vos houve enveja.
Morto era o contentamento,
nenhuma alegria ouvistes,
vossa mãi era finada,
nos outros eramos tristes.
Nada em dor, em dor criada,
nam sei onde isto ha de ir ter:
vejo-vos, filha, formosa,
com olhos verdes crecer.
Nam era esta graça vossa
para nacer em desterro:
mal haja a desventura
que pos mais nisto que o erro.
Tinha aqui sua sepultura
vossa mãi e magua a nos;
nam ereis, vos, filha, nam,
para morrerem por vos.
Nam houve em fados razam
nem se consentem rogar:
de vosso pai hei mor dor
que de si se ha de queixar.
Eu vos ouvi a vos só
primeiro que outrem ninguem:
nam foreis vos se eu nam fora,
nam sei se fiz mal ou bem.
Mas nam pode ser, senhora,
para mal nenhum nacerdes
com esse riso gracioso
que tendes sob olhos verdes.
Conforto mais duvidoso
me é este que tomo assi:
Deus vos dé milhor ventura
do que tivestes té aqui!
A dita e a formosura
dizem patranhas antigas
que pelejaram um dia,
sendo d’ antes muito amigas.
Muitos ham que é fantasia,
eu que vi tempos e anos
nenhuma cousa duvido
como ela é azo de danos.
Nem nenhum mal nam é crido,
o bem só é esperado,
e na crença e na esperança
em ambas ha hi cuidado,
em ambas ha hi mudança.
CRISTOVAM FALCAM
[Sidenote: c. 1510-1553?]
_104. Cantiga_
Como dormirão meus olhos,
nam sei como dormirão,
pois que vela o coraçam!
Toda esta noite passada
que eu passei em sentir
nunca a pude dormir
de ser muito acordada;
dos meus olhos foi velada,
mas como nam velarão,
pois que vela o coraçam?
As horas dela cuidei
dormi-las: foram veladas;
pois tam bem as empreguei,
dou-as por bem empregadas:
todas as noites passadas
neste pensamento vão,
pois que vela o coraçam.
Passaros que namorados
pareceis no que cantais,
nam ameis, que se amais
de vos sereis desamados:
em meus olhos agravados
vereis se tenho razam,
pois que vela o coraçam.
_105. Carta de Crisfal preso_
Os presos contam os dias,
mil anos por cada dia;
mas os meus sem alegria
como os contarei eu,
verdadeiro amor meu,
a quem por meu bem conheço?
Pois como preso padeço,
e como a quem vos nam ve,
mal, cuja dor se nam crê,
de prisam e de ausencia,
pois sem pecar penitencia
faço detras de uma grade.
Meus olhos de escuridade
ja nam vem, estam mortais;
mas para que era ver mais
des que vos eles nam viram,
des que de vos se espediram?
Bem se enxerga nos danos
que estou preso ha cinco anos,
afora os que hei de estar
passando em desejar
o tempo que vos nam vejo.
Vede que fe de desejo
em que lugar me acompanha:
nunca se viu fe tamanha,
nem tam mal agradecida!
Nam quis Deus que a minha vida
fosse para mais que isto,
ainda que em vos ter visto
nam naci em vão, senhora,
que a vida é de uma hora,
este bem será eterno;
que, quer esté no inferno,
quer esté no paraiso,
nunca me verão diviso
d’ aqueste tamanho bem.
E nam vos diga ninguem
que o mal que me tendes feito
me faz ter outro respeito,
inda que fora razam;
mas nam quer o coraçam
pelo muito que vos quer:
e sempre isto ha de ser
em quanto eu vivo for.
Que verdade e que amor
para se nam ter em muito!
E quam pouco é o fruto
que dele tenho tirado!
Quem lançasse o meu cuidado
onde o nam visse mais,
pois lembranças tam mortais
traz a minha fantasia
que basta uma de um dia
para me os meus tirar!
Nele vos vi eu chorar,
e nele chorei tambem,
derradeiro do meu bem
e primeiro do meu mal.
Nada, senhora, me val,
nam sei em que me sostenho:
pois que vos escrito tenho,
porque nam vejo resposta?
Quem vos pos no que estais posta?
Que palavras vos disseram
que mais que a razam poderam
que ja entre nos posemos?
Cuidai quanto nos quisemos,
e nam vos possa mudar
dizer que vos podem dar
outrem que tem mais que eu.
Pode ser, nam nego eu;
mas bem vos posso afirmar
que nam podereis achar
outrem que vos tanto queira.
Olhai que á derradeira
riqueza nam tira dor;
pois antre ela e o amor
qual é mais para estimar
deve ser bem de julgar.
Mas conquanto isto digo
mal acabarei comigo,
senhora, que possa ser
mudar-se vosso querer
por nenhuns outros quereres,
esquecendo os prazeres
do nosso tempo passado
que me faz tam esforçado
que em quanto a meu cuidar
a terra me nam gosar,
ninguem gosará de vos
senam meus cuidados sós,
que em vossa contemplaçam
os tempos gastando vam
como se fosseis presente,
como no tempo milhor.
E se isto ante vos for
que me pos a escrever,
querei, senhora, entender
que tinha que dizer mais;
mas lembraram-me os sinais
vossos e olhos formosos,
e os meus de saudosos
lembrando-se que vos viram
com lagrimas me impediram
poder pôr mais por escrito.
Baste o que tenho dito
para haver por galardam
tres regras de vossa mão;
para resposta das quais,
senhora, fique o mais
que aqui escrever devera
se o escrever podera.
FRANCISCO DE SÁ DE MIRANDA
[Sidenote: c. 1490-1558]
_106. Carta a el Rei Nosso Senhor_
Rei de muitos reis,
se uma hora me atrevo
ocupar-vos, mal faria
e ao bem comum nam teria
os respeitos que ter devo.
Que em outras partes da esfera,
em outros ceos diferentes
que Deus té gora escondera,
tanta multidão de gentes
vosso mandado espera.
Que sois vos tal que a eles sós,
justo e poderoso rei,
ou lhe desdais os seus nós
ou cortais, porque entre nos
vos sois nossa viva lei.
Onde ha homens ha cobiça:
cá e lá tudo ela enpeça,
se a santa, se a igual justiça
nam corta ou nam desenpeça
o que a má malicia enliça.
Senhor, que é muito atrevida,
e onde ela nós cegos deu
cortar é cousa devida:
exemplo o jugo de Mida,
que el rei vosso avó fez seu.
Ora eu, respeito havendo
ao tempo mais que ao estilo,
irei fugindo ao que entendo:
farei como os cães do Nilo
que correm e vam bebendo.
A dignidade real
que o mundo a direito tem
(sem ela ter-se-ia mal)
é sagrada, e nam leal
quem limpo ante ela nam vem.
Nam falemos nos tiranos,
falemos nos reis ungidos:
remedeiam nossos danos,
socorrem os afligidos,
cortam polos maos enganos.
As vossas velas que vam
dando quasi ao mundo volta
raramente encontrarão
gente de outro algum rei solta:
sem cabeça o corpo é vão.
Dignidade alta e suprema,
quem ha que a nam reconheça?
Viu-se em Marco Antonio tema
de pôr real diadema
a Cesar sobre a cabeça.
Que o nome de emperador
a qualquer seu capitam
que tenha em armas louvor
dava Roma, e era entam
mais consul, mais ditador.
Um rei ao reino convem:
vemos que alumia o mundo
um sol; um Deus o sostem;
certa a queda e o fim tem
o rei onde ha rei segundo.
Nam ao sabor das orelhas,
arenga estudada e branda,
abastam as razões velhas:
a cabeça os membros manda,
seu rei seguem as abelhas.
A tempo o bom rei perdoa,
a tempo ferro é mezinha:
forças e condição boa
deram ao lião coroa
da sua grei montesinha.
As aves, tamanho bando,
de outra liga e de outra lei,
por vencer todas voando
tomaram a aguia por rei,
que o sol claro atura olhando.
Quanto que sempre guardou
David lealdade e fe
a Saul! quanto o chorou!
Quanta maldição lançou
ás montes de Gilboe!
Onde caira o escudo
do seu rei, inda que imigo,
inda que ja mal sesudo,
saindo de tal perigo
e subindo a mandar tudo.
O Senhor da natureza,
de quem ceo e terra é chea,
vindo a esta nossa baixeza,
do real sangue se preza,
por Rei na cruz se nomea.
Sobre obrigações tamanhas
valem-se contudo os reis
dos rostos falsos, das manhas
com que lhes querem das leis
fazer teas de aranhas.
Que se nam podem fazer
por arte, por força ou graça
salvo o que a justiça quer,
senhor, nam chamam poder
salvo o que lhes val na praça.
E por muito que os reis olhem
vam por fora mil inchaços
que ante vos, senhor, se encolhem,
d’ uns gigantes de cem braços
com que dão e com que tolhem.
Quem graça ante el rei alcança
e hi fala o que nam deve,
mal grande da má privança,
peçonha na fonte lança
de que toda a terra beve.
Quem joga onde engano vai
em vão corre e torna atras,
em vão sobre a face cai:
mal hajam as manhas más
donde tanto engano sai!
Homem de um só parecer,
de um só rosto, uma só fe,
d’ antes quebrar que torcer,
ele tudo pode ser
mas de corte homem nam é.
Gracejar ouço de cá
de quem vai inteiro e são,
nem se contrafaz mais lá:
como esse vem aldeão!
que cortesão tornará!
As santidades da praça,
aqueles rostos tristonhos
com os quais este e aquele caça,
para Deus, senhor, são graça,
para vos tudo são sonhos.
E os discursos que fazemos:
pode ser! pode nam ser!
mais adiante o entenderemos:
agora mortos por ver,
entam todos nos veremos.
Por minas trazem suas azes,
os rostos de tintoreiros;
falsas guerras, falsas pazes:
de fora mansos cordeiros,
de dentro lobos roazes.
Tudo seu remedio tem,
e que é assi bem o sabeis
e o remedio tembem:
querei-los conhecer bem?
No fruto os conhereceis.
Obras, que palavras nam!
Porem, senhor, somos muitos,
e entre tanta multidão
tresmalham-se-vos os frutos,
que nam sabeis cujas são.
Um que por outro se vende
lança a pedra e a mão esconde,
o dano longe se estende:
aquele a quem doi o entende,
com só sospiros responde.
A vida desaparece,
e entretanto geme e jaz
o que caiu; e acontece
que d’ um mal que se lhe faz
outro mor se lhe recrece.
Pena e galardam igual
o mundo a direito tem:
ha uma regra geral
que a pena se deve ao mal
e o galardam ao bem.
Se alguma hora aconteceu
na paz, muito mais na guerra,
que a balança mais pendeu
faz-se engano ás leis da terra,
nunca se faz ás do ceo.
Entre os Lombardos havia
lei escrita e lei usada,
como se sabe hoje em dia,
que onde a prova falecia
que o provasse a espada.
Ali no campo, ás singelas;
enfim morrer ou vencer,
fosse qual quisesse d’ elas:
nam era milhor morrer
a ferro que de cautelas?
Ao nosso alto e excelente
Dom Dinis, rei tam louvado,
tam justo, a Deus tam temente,
falsa e maliciosamente
foi grande aleive assacado.
Ele posto em tal perigo,
reis que fez e desfez,
contra o malicioso imigo
foi-lhe forçoso esta vez
chamar-se a esta lei que digo;
ás vilas e ás cidades,
a quem cumpria de acudir
polas suas lealdades:
tanto são más as verdades
ás vezes de descobrir.
Neste tempo quem mal cai
mal jaz. E dizem que á luz
com o tempo a verdade sai;
entretanto põem na cruz
o justo; o ladrão se vai.
Da mesma casa real
em verdade um grande ifante,
tratado ás escuras mal,
bradava por campo igual
e imigos claros diante;
enfim, vendo a industria e arte
quanto que podem, chamou
um leal conde de parte:
só com ele se apartou,
foi viver a milhor parte,
onde tudo é certo e claro,
onde são sempre umas leis.
Principe no mundo raro!
Sobre tanto desemparo
foram tres seus filhos reis.
Ó senhor, quantos suores
passa o corpo e a alma em vão
em poder d’ envolvedores!
enfim batalhas que são
salvo desafios mores?
Com a mão sobre um ouvido
ouvia Alexandre as partes,
como quem tinha entendido
por fazer certo o fingido
quantas que se buscam de artes.
Guardava ele o outro inteiro
á parte inda nam ouvida;
nam vai nada em ser primeiro:
quem muito sabe duvida,
só Deus é o verdadeiro.
A tudo dão novas cores
com que enleam os sentidos;
Ah maos, ah enliçadores,
ante os reis, vossos senhores,
andais com rostos fingidos.
Contais, gabais, estendeis
serviços e lealdades:
olhai que nam nos daneis!
Falai em tudo verdades
a quem em tudo as deveis.
Senhor, nosso padre Adam
pecou, chamou-o o juiz:
tinha que dizer ou nam
hi sua fraca razam,
porem livremente diz.
Sempre foi, sempre ha de ser
que onde uma só parte fala
que a outra haja de gemer:
se um jogo a todos iguala,
as leis que devem fazer?
Vidas e honras guardais
debaixo de vosso emparo,
d’estranhos, de naturais:
sospiram, nam podem mais,
e ás vezes nam muito claro.
Apos estas, senhor, arde
a cobiça da fazenda,
por mais que se vele e guarde:
tem ela milhor emenda
se nam viesse mal e tarde.
Geralmente é presuntuosa
Espanha e d’ isso se preza,
gente ousada e belicosa:
culpam-na de cobiçosa,
tudo sabe Vossa Alteza.
Pensamentos nunca cheos!
Nam tem fundo aqueles sacos!
Inda mal, porque tem meos
para viver dos mais fracos
e dos suores alheos.
Que eu vejo nos povoados
muitos dos salteadores
com nomes e rostos de honrados
andar quentes e forrados
das peles dos lavradores.
E, senhor, nam me creais
se as nam acho mais finas
que as de lobos cervais,
que arminhos, que zebelinas:
custam menos, cobrem mais.
Ah senhor, que vos direi,
que acuda mais vento ás velas?
Nunca se descuide el rei,
que inda nam é feita a lei
ja lhe são feitas cautelas.
Entam tristes das molheres!
Tristes dos orfãos coitados!
E a pobreza dos mesteres,
que nem falar são ousados
diante os mores poderes!
Os quais, quem os assi quer,
quem os negocea assi,
que fará quando os tiver?
Nossos houveram de ser,
tornaram-nos para si.
Ora ja que as conciencias
o tempo as levou consigo,
venhamos ás penitencias:
senhor, se eu vira castigo
boas são as residencias.
Mas eu vejo ca na aldea
nos enterros abastados
muito padre que passea,
enfim ventre e bolsa chea,
absoltos de seus pecados.
Se se hão de reconciliar
uns com os outros tem seu trato,
basta-lhes só acenar:
nam no fazem tam barato
ao tempo do confessar.
Senhor, esta vossa vara
em quais mãos anda, tal é:
a boa é ave mui rara;
sabei que esta nunca é cara,
que seja muita a mercé.
Livre de toda a cobiça,
a Deus temente e a vos,
sem respeito e sem preguiça,
vara direita sem nós,
se quereis que haja justiça.
Tomai, senhor, o conselho
do bom Gethro ao genro amigo;
é verdade, é evangelho;
como disse aquele velho,
humilmente assi vos digo
que estas leis justinianas,
se nam ha quem as bem reja,
fora de paixões humanas,
são um campo de peleja
com razões fracas e ufanas.
Morre o nobre Conradino
com o parceiro em tudo igual,
cada um de tal morte indino,
pelo pesado ou malino
doutor que interpreta mal.
Diz o texto: o sangue cesse
por batalha e guerra finda;
vem com grosa outro interesse,
diz que ande o cutelo, ainda
que em prisam certa o tivesse.
Mas, senhor, milhor o temos
sendo vos o que mandais:
todos nos revolveremos,
os que tanto nam podemos
e aqueles que podem mais.
Quem por amor se encadea
nam é nome errado ou novo
se por livre se nomea;
nam tem tanto amor de povo
rei em quanto o mar rodea.
Aqui nam vemos soldados,
aqui nam soa tambor:
outros reis os seus estados
guardam de armas rodeados,
vos rodeado de amor.
Achar-nos-hão as divinas
no meo dos corações
entalhadas vossas quinas:
estas são as guarnições
de vos e dos vossos dinas.
Tem na verdade o frances
a seu rei amor acceso,
nam lh’ o nega o portugues;
porem traz guarda escoces,
que nam é de pouco peso.
O Padre Santo assi faz,
a quem certo se devia
alto assossego, alta paz:
mas tem guarda todavia
com que vai seguro e jaz.
Que se pode ir mais avante
com quanto alcança o sentido
sem ferro ou fogo que espante:
com duas canas diante
is amado e is temido.
Uns sobre os outros corremos
a morrer por vos com gosto:
grandes testemunhas temos
com que mãos e com que rosto
por Deus e por vos morremos.
Outrosi para os reveses
(queira Deus que nam releve!)
em vos tem os portugueses
o bom rei dos athenieses,
Codro, que outro algum nam teve.
Do vosso nome um gram rei
neste reino lusitano
se pos esta mesma lei,
que diz o seu pelicano:
Pola lei e pola grei.
Mas eu sou d’ uns guardacabras
que se vão de ponto em ponto:
querem só duas palavras,
que dos gados, que das lavras,
depois nam tem fim nem conto.
Assi que seja aqui fim,
tornem as praticas vivas:
perdestes mea hora em mim
das que chamam socessivas
estes que sabem latim.
_107. A este cantar das moças ao adufe: Naquela serra quero ir a morar,
quem me bem quiser lá me irá buscar._
VOLTAS
Nestes povoados
tudo são requestas,
deixai-me os cuidados,
que eu vos deixo as festas!
D’ aquelas florestas
verei longe o mar,
pôr-me-hei a cuidar.
_Responde-lhe outra companheira de outra opinião_:
Sombras e aguas frias,
cantar de aves, bem!
Quando as tardes vem
por ca bradaria!
Ves que pressa os dias
levam sem cansar,
nunca ham de voltar!
A PRIMEIRA
Nam julgue ninguem
nunca outrem por si:
mais d’ um bem que vi
a vida nam tem.
Nam deixa este bem
onde se ele achar
mais que desejar.
A OUTRA
Deixa as vaidades,
que da mão á boca
o sabor se troca,
trocam-se as vontades;
são essas suidades
armadas no ar,
nam podem durar.
A PRIMEIRA
Naquela espessura
me hei de ir esconder:
venha o que vier,
achar-me-hei segura.
Se tal bem nam dura,
ao seu passar
tudo ha de acabar.
_108. Cantiga_
Comigo me desavim
no estremo som do perigo:
nam posso aturar comigo,
nam posso fugir de mim.
Com dor da gente fugia
antes que esta assi crecesse,
agora ja fugiria
de mim, se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
do vão trabalho que sigo
se trago a mim comigo,
tamanho imigo de mim?
_109. Soneto_
O sol é grande, caem com a calma as aves
do tempo em tal sazão que soe de ser fria:
esta agua que do alto cai acordar-me-ia
do sono nam, mas de cuidados graves.
Ó cousas todas vãs, todas mudáveis!
Qual é o coraçam que em vos confia?
Passando um dia vai, passa outro dia,
incertos todos mais que ao vento as naves!
Eu vi ja por aqui sombras e flores,
vi aguas e vi fontes, vi verdura,
as aves vi cantar todas d’ amores.
Mudo e seco é ja tudo e de mistura;
tambem fazendo-me eu fui de outras cores;
e tudo o mais renova, isto é sem cura.
_110. Á morte de sua molher_
Aquele espirito tam bem pagado,
como ele merecia, claro e puro,
deixou de boa vontade o vale escuro,
de tudo o que cá viu como anojado.
Aquele espirito que do mar irado
d’ esta vida mortal posto em seguro,
da gloria que la tem de herdade e juro
cá nos deixou o caminho abalisado.
Alma aqui vinda nesta nossa idade
de ferro que tornaste a antiga de ouro
em quanto cá regeste a humanidade,
em chegando ajuntaste tal tesouro
que para sempre dure! Ah vaidade!
Ricas areas d’ este Tejo e Douro!
FRANCISCO DE MORAES
[Sidenote: c. 1500-1572]
_111. Cantiga_
Desengano, quem vos quer,
esse vos nam pode achar,
e quem vos nam ha mister
buscai-lo para o matar.
Com meus enganos contente
passei a vida té agora,
viestes vos em tal hora
que ao dobro sou descontente.
Is fugir a quem se quer
convosco desenganar:
eu que vos nam hei mister
quisestes-me vir buscar.
Nam tinha eu a vida em mais
que em quanto vivi de enganos,
desenganos são sinais
de morte ou mores danos.
Quando vos ouve mister
folgastes de me enganar,
quando enganado quis ser
vindes-me desenganar.
FRANCISCO DE SÁ DE MENESES
[Sidenote: 1515?-1584]
_112. O rio Leça_
Ó rio Leça,
como corres manso!
Se eu tiver descanso
em ti se começa.
Sempre sossegados
vam teus movimentos:
nam te alteram ventos
nem tempos mudados.
Corres por areas
e bosques sombrios,
nam te turbam rios
nem fontes alheas.
Naces de um penedo
tosco e descomposto,
a ti mostra o rosto
a manhã mui ledo.
A aurora em nacendo,
quando estás mais liso,
com alegre riso
em ti se está vendo.
Quando o mar nam soa
e passam mil velas,
em ti faz capelas
com que se coroa.
Olmos abraçados
tenhas sempre de hera,
sempre a primavera
alegre teus prados!
Logrem teus salgueiros
mil tempos serenos,
nunca sejam menos
os teus amieiros!