Vai o Conde, o Conde Ninho, seu cavalo vai banhar:

em quanto o cavalo bebe cantou um lindo cantar:

«Bebe, bebe, meu cavalo, que Deus te ha de livrar

dos trabalhos deste mundo e das areas do mar.»

«Esperta, ó bela princesa, escuta um lindo cantar:

ou sam os anjos no ceo ou as sereas no mar.»

«Nam sam os anjos do ceo nem as sereas do mar,

é o Conde, o Conde Ninho, que comigo quer casar.»

«Se ele quer casar contigo eu o mandarei matar.»

«Quando lhe deres a morte manda-me a mim degolar:

que a mim me enterrem á porta, a ele ao pe do altar.»

Morreu um e morreu outro, ja lá vam a enterrar:

d’ um nacera um pinheirinho, do outro um lindo pinheiral.

Creceu um e creceu outro, as pontas foram juntar,

que quando el rei ia á missa nam o deixavam passar;

pelo que el rei maldito logo os mandava cortar.

D’ um correra leite puro e do outro sangue real,

fugira d’ um uma pomba e do outro um pombo trocal:

sentava-se el rei á mesa, no hombro lhe iam pousar.

Mal haja tanto querer, mal haja tanto amar:

nem na vida nem na morte nunca os pude separar!

_85. Santa Iria_

Estando eu á janela, com a minha almofada,

minha agulha de ouro, meu dedal de prata,

passa um cavaleiro, pedia pousada.

Meu pai lh’ a negou: quanto me custava!

Ja vem vindo a noite, é tam só a estrada:

Senhor pai, nam digam tal da nossa casa,

que a um cavaleiro que pede pousada

se fecha esta porta á noite cerrada.

Roguei e pedi, muito lhe pesava,

mas eu tanto fiz que por fim deixava.

Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava;

ao lar o levei, logo se assentava.

Ás mãos lhe dei agua, ele se lavava;

pos-lhe uma toalha, nela se limpava;

poucas as palavras, que mal me falava,

mas eu bem senti que ele me mirava.

Fui erguir os olhos, mal os levantava,

os seus olhos lindos na terra os pregava.

Fui-lhe pôr a cea, muito bem ceava;

a cama lhe fiz, nela se deitava;

dei-lhe as boas noites, nam me replicava:

tam má cortesia nunca a vi usada!

Lá por mea noite, que eu me sufocava,

sinto que me levam com a boca tapada,

levam me a cavalo, levam me abraçada,

correndo, correndo sempre á desfilada.

Sem abrir os olhos vi quem me roubava;

calei-me e chorei, ele nam falava.

D’ alí muito longe que me preguntava:

eu na minha terra como me chamava?

Chamava-me Iria, Iria a fidalga,

por aqui agora Iria a cansada.

Andando, andando, toda a noite andava,

lá por madrugada que me atentava,

horas esquecidas que por mim lutava:

nem força nem rogos, tudo lhe mancava.

Tirou do alfange, alí me matava,

abriu uma cova onde me enterrava.

No fim de sete anos passa o cavaleiro,

uma linda ermida viu naquele outeiro.

«Minha Santa Iria, meu amor primeiro,

se me perdoares serei teu romeiro.»

«Perdoar nam te hei de, ladrão carniceiro,

que me degolaste que nem um carneiro.»

_86. Branca Flor e Flores_

Á guerra, á guerra, moirinhos, quero uma cristam cativa!

Uns vam pelo mar abaixo, outros pela terra acima,

tragam-me uma cristam cativa que é para a nossa rainha.

Uns vam pelo mar abaixo, outros pela terra acima;

os que foram mar abaixo nam encontraram cativa,

os que foram terra acima tiveram milhor atina:

deram com o Conde Flores que vinha de romaria,

vinha lá de Santiago, Santiago de Galiza;

mataram o Conde Flores, a condessa vai cativa;

mal que o soube a rainha ao caminho lhe saia.

«Venha embora, a minha escrava, boa seja a sua vinda!

Aqui lhe entrego estas chaves da dispensa e da cosinha,

que me nam fio de moiras que me nam deem bruxaria.»

«Aceito as chaves, senhora, por grande desdita minha,

hontem condessa jurada, hoje moça da cosinha.»

A rainha está pejada, a escrava tambem o vinha:

quis a boa ou má fortuna que ambas parissem num dia.

Filho varão teve a escrava e uma filha a rainha;

mas as perras das comadres, para ganharem alviçaras,

deram á rainha o filho e á escrava deram a filha.

«Filha minha da minha alma, com que te baptisaría?

As lagrimas dos meus olhos te sirvam de agua bendita.

Chamar-te-ei Branca Rosa, Branca Flor de Alexandria,

que assim se chamava d’antes uma irman que eu tinha.

Cativaram-na os moiros dia de Pascoa Florida,

quando andava a apanhar rosas num rosal que meu pai tinha.»

Estas lastimas choradas veis la rainha que ouvia,

e co’ as lagrimas nos olhos muito depressa acudía:

«Criadas, minhas criadas, regalem-me esta cativa,

que se nam fora de cama eu é que a regalaria.»

Mal se alevanta a rainha vai-se ter com a cativa:

«Como estás, ó minha escrava, como está a tua filha?»

«A filha boa, senhora; eu como molher parida.»

«Se estiveras em tua terra que nome lhe chamarias?»

«Chamava-lhe Branca Rosa, Branca Flor de Alexandria,

que assim se chamava d’antes uma irman que eu tinha:

cativaram-na os moiros dia de Pascoa Florida

quando andava a apanhar rosas num rosal que meu pai tinha.»

«Se visses a tua irman tu nam a conhecerias?»

«Assim eu a vira nua da cintura para acima,

debaixo do peito esquerdo um lunar preto ela tinha.»

«Ai triste de mim, coitada! ai triste de mim mofina!

mandei buscar uma escrava, trazem-me uma irman minha!»

Nam sam passados tres dias morre a filha da rainha,

chorava a Condessa Flores como quem por sua a tinha,

porem mais chorava a mãi, que o coração lh’ o dizia.

Deram á lingua as criadas, soube-se o que sucedia,

a mãi com o filho nos braços cuidou morrer de alegria.

Nam sam passadas tres horas uma á outra dizia:

«Quem se vira em Portugal, terra que Deus bendizia!»

Juntaram muita riqueza de ouro e de pedraria,

uma noite abençoada fugiram da moiraria.

Foram ter á sua terra, terra de Santa Maria,

meteram-se num mosteiro, ambas professam num dia.

_87. Manhaninha de S. João_

Manhaninha de S. João, pela manhan de alvorada,

Jesus Christo se passea ao redor da fonte clara;

por sua boca dizia, por sua boca falava:

«Esta agua fica benta e a fonte fica sagrada.»

Ouviu a filha de el rei d’ altas torres donde estava,

vestiu suas meias de seda, calçou sapatos de prata,

pegou em cantaro de ouro, á fonte foi buscar agua.

Lá no meo do caminho com a Virgem se encontrava,

atreveu-se e perguntou-lhe se havia de ser casada.

«Casadinha haveis de ser, muito bem afortunada;

tres filhos haveis de ter, todos de capa e espada;

um será bispo em Roma, outro cardeal em Braga,

o mais novo deles todos servo da Virgem sagrada.»

Ditosa da donzelinha que á fonte foi buscar agua!

D. PHILIPA DE LENCASTRE

[Sidenote: 1437-1497]

_88. Ao Bom Jesus_

Nam vos sirvo nem vos amo

mas desejo vos amar,

de sempre vossa me chamo

sem quem nam é repousar.

Ó vida e lume e luz,

infindo bem e inteiro,

meu Jesus, Deus verdadeiro,

por mim morto em a cruz.

Se mim mesma nam desamo

nam vos posso bem amar:

a me ajudar vos chamo

para saber repousar!

FRANCISCO DE SOUSA

[Sidenote: 15th c.]

_89. Vilancete_

Abaix’ esta serra

verei minha terra.

Ó montes erguidos,

deixai-vos cair!

deixai-vos sumir

e ser destruidos,

pois males sentidos

me dam tanta guerra

por ver minha terra.

Ribeiras do mar

que tendes mudanças,

as minhas lembranças

deixai-as passar!

deixai-m’ as tornar

dar novas da terra

que dá tanta guerra.

O sol escurece,

a noite se vem:

meus olhos, meu bem

ja nam aparece;

mais cedo anoitece

aquem desta serra

que na minha terra!

GARCIA DE RESENDE

[Sidenote: c. 1470-1536]

_90. Trovas á morte de D. Inés de Castro_

Qual será o coraçam

tam cru e sem piedade

que lhe nam cause paixam

uma tam fera crueldade

e morte tam sem razam?

Triste de mim inocente,

que por ter muito fervente

lealdade, fe, amor

ao principe meu senhor,

me mataram cruamente.

A minha desaventura,

nam contente d’ acabar-me,

por me dar maior tristura

me foi pôr em tanta altura

para d’ alto derribar-me,

que se me matara alguem

antes de ter tanto bem

em tais chamas nam ardera,

pai, filhos nam conhecera,

nem me chorara ninguem.

Eu era moça menina,

por nome dona Inés

de Crasto, e de tal doutrina

e vertudes que era dina

de meu mal ser ao revés.

Vivia sem me lembrar

que paixam podia dar

nem dâ-la ninguem a mim,

foi-m’ o principe olhar

por seu nojo e minha fim.

Começou-m’ a desejar,

trabalhou por me servir,

fortuna foi ordenar

dous corações conformar,

a uma vontade vir.

Conheceo-me, conheci-o,

quis-me bem e eu a ele,

perdeo-me, tambem perdi-o;

nunca té morte foi frio

o bem que triste pos nele.

Dei-lhe minha liberdade,

nam senti perda de fama,

pos nele minha verdade,

quis fazer sua vontade,

sendo mui fremosa dama.

Por m’ estas obras pagar

nunca jamais quis casar,

polo qual aconselhado

foi el rei qu’ era forçado

polo seu de me matar.

Estava muito acatada,

como princesa servida,

em meus paços mui honrada,

de tudo mui abastada,

de meu senhor mui querida:

estando mui de vagar,

bem fora de tal cuidar,

em Coimbra d’ assessego,

polos campos de Mondego

cavaleiros vi asomar.

Como as cousas que ham de ser

logo dam no coraçam,

comecei entristecer

e comigo só dizer:

Estes ornes onde irão?

E tanto que preguntei:

soube logo que era el rei.

Quando o vi tam apressado,

meu coraçam trespassado

foi que nunca mais falei.

E quando vi que decia,

saí á porta da sala,

devinhando o que queria;

com gram choro e cortesia

lhe fiz uma triste fala;

meus filhos pos derredor

de mim com gram omildade,

mui cortada de temor,

lhe disse: Avei, senhor,

desta triste piedade.

Nam possa mais a paixam

que o que deveis fazer,

metei nisso bem a mão,

que é de fraco coraçam

sem porque matar molher;

quanto mais a mim (que dam

culpa nam sendo razam)

por ser mãi dos inocentes

qu’ ante vos estam presentes,

os quais vossos netos sam.

E tem tam pouca idade

que se nam forem criados

de mim, só com saudade

em sua gram orfandade

morrerão desemparados.

Olhe bem quanta crueza

fará nisso vossa alteza,

e tambem, senhor, olhai,

pois do principe sois pai,

nam lhe deis tanta tristeza!

Lembre-vos o grand’ amor

que me vosso filho tem,

e que sentirá gram dor

morrer-lhe tal servidor

por lhe querer grande bem;

que s’ algum erro fizera

fora bem que padecera

e qu’ estes filhos ficaram

orfãos tristes e buscaram

quem deles paixam ouvera.

Mas pois eu nunca errei

e sempre mereci mais,

deveis, poderoso rei,

nam quebrantar vossa lei,

que, se moiro, quebrantais.

Usai mais de piedade

que de rigor nem vontade;

avei dó, senhor, de mim,

nam me deis tam triste fim,

pois que nunca fiz maldade!

El rei, vendo como estava,

ouve de mim compaixam,

e vio o que nam oulhava,

qu’ eu a ele nam errava

nem fizera traiçam.

E vendo quam de verdade

tive amor e lealdade

ao principe, cuja sam,

póde mais a piedade

que a determinaçam.

Que se m’ ele defendera

que seu filho nam amasse

e lh’ eu nam obedecera,

entam com razam podera

dar-m’ a morte qu’ ordenasse;

mas vendo que nenhum’ ora

des que naci ategora

nunca nisso me falou,

quando se disto lembrou

foi pola porta fora,

com seu rosto lagrimoso,

c’ o proposito mudado,

muito triste, mui cuidoso,

como rei mui piedoso,

mui cristão e esforçado.

Um d’ aqueles que trazia

consigo na companhia,

cavaleiro desalmado,

detras dele mui irado

estas palavras dizia:

Senhor, vossa piedade

é dina de reprender,

pois que sem necessidade

mudaram vossa vontade

lagrimas d’ uma molher.

E quereis qu’ abarregado,

com filhos como casado,

esté, senhor, vosso filho:

de vos mais me maravilho

que dele, qu’ é namorado.

Se a logo nam matais

nam sereis nunca temido

nem farão o que mandais,

pois tam cedo vos mudais

do conselho qu’ era avido.

Olhai quam justa querela

tendes, pois por amor dela

vosso filho quer estar

sem casar e nos quer dar

muita guerra com Castela.

Com sua morte escusareis

muitas mortes, muitos danos:

vos, senhor, descansareis

e a vos e a nos dareis

paz para duzentos anos.

O principe casará,

filhos de bençam terá,

será fora de pecado:

que agora seja anojado,

amenham lh’ esquecerá!

E ouvindo seu dizer

el rei ficou mui torvado

por se em tais extremos ver

e que avia de fazer

ou um ou outro forçado.

Desejava dar-me vida

por lhe nam ter merecida

a morte nem nenhum mal,

sentia pena mortal

por ter feito tal partida.

E vendo que se lhe dava

a ele tod’ esta culpa

e que tanto o apertava,

disse a aquel que bradava:

Minha tençam me desculpa;

se o vos quereis fazer

fazei-o sem m’ o dizer,

qu’ eu nisso nam mando nada

nem vejo a essa coitada

porque deva de morrer.

Dous cavaleiros irosos

que tais palavras lh’ ouviram,

mui crús e nam piedosos,

perversos, desamorosos,

contra mim rijo se viram

com as espadas na mão:

m’ atravessam o coraçam,

a confissam me tolheram.

Este é o galhardam

que meus amores me deram.

GIL VICENTE

[Sidenote: c. 1470-c. 1540.]

_91. Dom Duardos e Flerida_

Era pelo mes de Abril, de Maio antes um dia,

quando lirios e rosas mostram mais alegria,

e a noite mais serena que fazer no ceo podia,

quando a formosa infanta Flerida ja se partia;

e na horta de seu padre entre as arvores dizia:

Com Deus vos ficade, flores, que ereis minha alegria:

vou-me a terras estrangeiras, pois lá ventura me guia.

E se meu pai me buscar, pai que tanto queria,

digam-lhe que amor me leva, que eu por vontade nam ia;

mas tanto teimou comigo que me venceu co’ a porfia.

Triste nam sei onde vou e ninguem m’ o dizia.

Ali fala Dom Duardos: Nam choreis, minha alegria,

que nos reinos de Inglaterra mais claras aguas havia,

e mais formosos jardins e flores de mais valia.

Tereis trezentas donzelas de alta genealogia;

de prata sam os palacios para vossa senhoria,

de esmeraldas e jacintos, e ouro fino da Turquia,

com letreiros esmaltados que a minha vida se lia,

contando das vivas dores que me destes nesse dia

quando com Primaleam fortemente combatia:

mataste-me vos, senhora, que eu a ele nam temia.

Suas lagrimas enxuga Florida que isto ouvia.

Ja se foram ás galeras que Dom Duardos havia,

cincoenta eram por conta, todas vam em companhia.

Ao som do doce remar a princesa adormecia

nos braços de Dom Duardos que tam bem a merecia.

Saibam quantos sam nacidas sentença que nam varia:

Contra a morte e contra amor que ninguem nam tem valia.

_92. Cossante_

Um amigo que eu havia

mançanas d’ ouro m’ envia.

Garrido amor!

Um amigo que eu amava

mançanas d’ ouro me manda.

Garrido amor!

Mançanas d’ ouro m’ envia:

a milhor era partida.

Garrido amor!

[Mançanas d’ ouro me manda:

a milhor era quebrada.

Garrido amor!]

_93. Cantiga_

Branca estais e colorada,

Virgem sagrada!

Em Belem, vila do amor,

da rosa naceo a flor.

Virgem sagrada!

Em Belem, vila do amar,

naceo a rosa do rosal.

Virgem sagrada!

Da rosa naceo a flor,

Jesus Nosso Salvador.

Virgem sagrada!

Naceo a rosa do rosal,

Deus e homem natural.

Virgem sagrada!

_94. Cantiga de amigo_

Donde vindes, filha,

branca e colorida?

De lá venho, madre,

de ribas de um rio:

achei meus amores

num rosal florido.

Florido, minha filha,

branca e colorida.

De lá venho, madre,

de ribas de um alto:

achei meus amores

num rosal granado.

Granado, minha filha,

branca e colorida.

_95. Cossante_

Canas do amor, canas,

Canas do amor.

Polo longo de um rio

canaval está florido,

Canas do amor.

[Polo longo de um vado

canaval está granado,

Canas do amor.]

_96. Cantiga_

Tirai os olhos de mim,

minha vida e meu descanso,

que me estais namorando.

Os vossos olhos, senhora,

senhora da formosura,

por cada momento de hora

dão mil anos de tristura,

temo de nam ter ventura.

Vida, nam m’ estais olhando,

que me estais namorando.

_97. Esparsa_

Asuidade na molher

mata o coraçam e alma,

porque momento nam acalma

a tormenta que tiver.

Que tu, se te vas de mi,

verás outras formosuras,

falas e ouves doçuras;

mas eu nam vejo sem ti

senam cousas muito escuras.

_98. Serranilha_

A serra é alta, fria e nevosa:

vi venir serrana gentil, graciosa.

Vi venir serrana gentil, graciosa,

cheguei-me a ela com gran cortesia.

Chegui-me a ela de gran cortesia.

Disse-lhe: Senhora, quereis companhia?

Disse-lhe: Senhora, quereis companhia?

Disse-me: Escudeiro, segui vossa via.

_99. Romance_

Remando vam remadores

barca de grande alegria,

o patrão que a guiava

Filho de Deus se dizia,

anjos eram os remeiros

que remavam a porfia;

estandarte d’ esperança:

ó quam bem que parecia!

O masto de fortaleza

como cristal reluzia;

a vela com fe cosida

todo o mundo esclarecia.

A ribeira mui serena

que nenhum vento bolia.

_100. Vilancete_

Adorai, montanhas,

o Deus das alturas,

tambem as verduras;

adorai, desertos

e serras floridas,

o Deus dos secretos,

o Senhor das vidas!

Ribeiras crecidas,

louvai nas alturas

Deus das criaturas!

Louvai, arvoredos

de fruto prezado,

digam os penedos:

Deus seja louvado!

E louve meu gado

nestas verduras

o Deus das alturas!

BERNARDIM RIBEIRO

[Sidenote: 1482-1552]

_101. Egloga de Jano e Franco_

Dizem que havia um pastor

antre Tejo e Odiana

que era perdido de amor

por uma moça Joana:

Joana patas guardava

pela ribeira do Tejo;

seu pai acerca morava

e o pastor de Alentejo

era e Jano se chamava.

Quando as fomes grandes foram

que Alentejo foi perdido,

da aldea que chamam o Torram

foi este pastor fugido;

levava um pouco de gado

que lhe ficou d’ outro muito

que lhe morreo de cansado,

que Alentejo era enxuto

d’ agua e mui seco de prado.

Toda a terra foi perdida:

no campo do Tejo só

achava o gado guarida;

ver Alentejo era um dó.

E Jano para salvar

o gado que lhe ficou

foi esta terra buscar,

e se um cuidado levou

outro foi ele lá achar.

O dia que ali chegou

com seu gado e com seu fato,

com tudo se agasalhou

em uma bicada de um mato;

e levando-o a pacer

o outro dia á ribeira

Joana acertou de ir ver,

que se andava pela ribeira

do Tejo a flores colher.

Vestido branco trazia,

um pouco afrontada andava,

formosa bem parecia

aos olhos de quem na olhava.

Jano em vendo-a foi pasmado,

mas por ver que ele fazia

escondeo-se antre um prado:

Joana flores colhia,

Jano colhia cuidado.

Depois que ela teve as flores

ja colhidas e escolhidas

as desvariadas cores,

com rosas entremetidas,

fez delas uma capela

e soltou os seus cabelos

que eram tam longos como ela;

e de cada um a Jano em vê-lo

nacia uma querela.

E em quanto isto fazia

Joana, o seu gado andava

por dentro da agua fria

todo apos quem o guiava:

um pato grande era a guia,

e todo junto em carreira

ora rio acima ia,

ora na mesma maneira

o rio abaixo decia.

Joana como assentou

a capela, foi com a mão

á cabeça e atentou

se estava em boa feição;

nam ficando satisfeita

do que da mão presumia,

partio-se d’ ali direita

para onde o rio fazia

d’ agua uma mansa colheita.

Chegando á beira do rio,

as patas logo vieram

todas uma a uma em fio,

que toda a agua moveram;

de quanto ela ja folgou

com aquestes gasalhados

tanto entonces lhe pesou,

e com pedras e com brados

d’ ali longe as enxotou.

Depois que elas foram idas

e que a agua assossegou,

Joana, as abas erguidas,

entrar pela agua ordenou;

e assentando-se entam

as çapatas descalçou

e pondo-as sobre o cham

por dentro da agua entrou,

e a Jano pelo coraçam.

Em quanto com passos quedos

Joana pela agua ia,

antre uns desejos e medos

Jano onde estava ardia:

nam sabia se falasse,

se saisse ou estivesse,

que o amor mandava que ousasse

e porque a nam perdesse

fazia que arreceasse.

Dizem que naqueste meo

se esteve Joana olhando,

e descobrindo o seu seo

olhou-se e disse, um ai dando:

Eu guardo patas, coitada,

nam sei onde isto ha de ir ter:

mais era eu para guardada!

Que concerto foi este ser,

formosa e mal empregada!

Em aquisto Jano ouvindo

nam se pode em si sofrer

que d’ antre as ervas saindo

se nam lançasse a correr.

Joana quando sentiu

os estampidos de Jano

e que se virou e o viu,

temor do presente dano

lhe deu pes com que fugiu.

Mui perto estava o casal

onde vivia o pai dela,

que fez mais longe o mal

que Jano tive de vê-la.

Mas o medo que causou

Joana partir-se assi

tanto as mãos lhe embaraçou

que a çapata ali

com a pressa lhe ficou.

Jano quando viu e olhou

que nenhum remedio havia,

para o lugar se tornou

aonde ela na agua se via;

e vendo a çapata estar

no areal á beira d’ agua,

foi correndo a abraçar.

Tomando-a creceu-lhe a magua

e começou de chorar;

toda a çapata e os peitos

em lagrimas se banharam,

muitos foram os respeitos

que tanto choro causaram.

Encostado ao seu cajado,

a çapata na outra mão,

depois de um longo cuidado

de dentro do coraçam

começou falar cansado:

JANO

Despojo da mais formosa

cousa que viram meus olhos,

para eles sois uma rosa

e para o coraçam abrolhos:

çapata deixada aqui

para mal de outro mor mal,

quem te leixou leva a mi;

que troca tam desigual!

Mas pois assi é, seja assi.

Agora ei vinte e um anos

e nunca inda té agora

me acorda de sentir danos,

os deste meu gado em fora;

e hoje por caso estranho

nam sei em que hora aqui vim:

cobrei cuidado tamanho

que aos outros todos pos fim,

eu mesmo a mi mesmo estranho.

Antes que este mal viesse

que me tantos vai mostrando,

que alguns cuidados tivesse

nam me matavam cuidando;

agora por meus pecados

e segundo em mi vou vendo,

nam podem ser outros fados:

meus cuidados nam entendo

e moiro-me assi de cuidados.

Dentro de meu pensamento

ha tanta contrariedade

que sento contra o que sento

vontade e contra-vontade;

estou em tanto desvairo

que nam me entendo comigo

donde esperarei repairo,

que vejo grande o perigo

e muito mor o contrairo!

Quem me trouxe a esta terra

alhea, onde guardada

me estava tamanha guerra

e a esperança levada!

Comigo me estou espantando

como em tam pouco mudei,

mas cuidando nisto estando

os olhos com que outrem olhei

de mi se estavam vingando.

E por meu mal ser mor inda

de mi tenho o agravo mor

que da minha magua infinda

en fui parte e causador,

que se me nam levantara

d’ antre as ervas onde estava,

mais dos meus olhos gozara

e ja que assi se ordenava

isto ao menos me ficara.

Desastres, cuidava eu ja

quando eu ontem aqui cheguei,

que a vos e a ventura má

ambos acabava, e errei!

Triste, que me parecia

que, o meu gado remediado,

comigo bem me haveria;

e estava-me ordenado

est’ outro mal que ainda havia.

Ó mal, nam vos sabe a vos

quem me vos a mi causou!

Tristes dos meus olhos sós

que trouxeram aonde estou

olhos a certo lugar!

Ribeira mor das ribeiras

que levam as aguas ao mar,

vos me sereis verdadeiras

testemunhas do pesar!

AUTOR

E em dizendo isto, parece,

transportou-se no seu mal

e como a quem o ar falece

caio naquele areal.

Grande espaço se passou

que esteve ali sem sentido

e neste meo chegou

um pastor seu conhecido

e que dormia cuidou.

Franco de Sandovir era

o seu nome e buscava

uma frauta que perdera,

que ele mais que a si amava.

Este era aquel pastor

a quem Celia muito amou,

ninfa do maior primor

que em Mondego se banhou

e que cantava milhor.

E a frauta sua era aquela

que lhe Celia dera quando

o desterraram por ela,

chorando ele, ela chorando.

Viera ele ali morar

porque achou aquelas terras

mais conformes ao cuidar:

d’ ambas partes cercam serras,

no meo campos para olhar.

D’ outro tempo conhecidos

estes dous pastores eram,

d’ estranhas terras nacidos,

nam no bem que se quiseram;

e por aquesta razam

tornou Franco a lhe notar

como jazia no cham

e deu-lhe que sospeitar

o lugar e a feiçam.

Muito esteve duvidando

Franco o que aqui faria:

indo-se e Jano deixando,

o coraçam lhe doia;

tambem para o acordar

nam sabia se acertava,

que Jano era no lugar

novo e arreceava

em cabo de o anojar.

Naquesta duvida estando,

Jano, que estava emborcado,

disse, um sospiro dando:

Ai cuidado e mais cuidado!

Ouvindo-lhe isto dizer,

Franco ficou espantado,

e tornando-o milhor ver

de sob seu esquerdo lado

viu-lhe a çapata ter.

Sospeitou logo o que era,

que era tambem namorado,

e no que Jano dissera

se ouve por certificado.

Naquisto Jano acordou:

quando viu Franco estar,

sem fala um pouco ficou.

Franco, apos o saudar,

falar-lhe assi começou:

FRANCO

Cuidava eu agora, Jano,

que estavas em outra parte

e polo teu aqueste ano

me pesava ir por esta arte.

Desejava ver-te aqui

quando me contava alguem

a seca grande que ha aí

em Alentejo, e porem

nam quisera ver-te assi.

Conta-me, que mal foi este,

que tam demudado estás?

O que houveste ou perdeste?

Se ha remedio havê-lo has.

Faz Jano entam por se erguer,

nam podendo de cansado,

foi-lhe a mão Franco estender,

e a um freixo encostado

lhe começou responder:

JANO

Vim a estes campos que vejo

por dar vida a este meu gado;

vi acabado um desejo,

outro maior começado:

ás minhas vacas dei vida

e a mim a fui tirar,

a profecia comprida

que me Pierio foi dar,

vendo-me a barba pungida.

De Pierio vai gram fama,

disse Franco, antre os pastores,

todos por amigos chama

e dizem que é dado a amores.

Rogo-te, Jano, me digas,

pois te ele avisou primeiro,

como cobraste fatigas?

Que ouço que é mui verdadeiro

para amigos e amigas.

JANO

Tam cansado, respondeo,

d’ um cuidado, Franco, me acho,

que m’ agora aqui naceo

que até na voz tenho empacho.

Ao que ham de acaecer

nam pode homem resistir,

que o que ha de ser ha de ser,

nam se lhe pode fugir,

defender nem esconder.

Mas porque, Franco, contigo

desabafo em falar,

porque sei que es meu amigo,

tudo te quero contar;

nem remedio nem conforto

nam te hei, Franco, de pedir,

que do mal em que estou posto

nam me espero de remir

senam depois que for morto.

Dia era de um gram vodo

que a um santo se fazia,

onde ia o povo todo

por ver e por romaria;

lembra-me que andava entam

vestido todo de novo,

ao hombro um chapeiram

que pasmava todo o povo,

com um cajado na mão.

Tomando-me pelo braço,

Pierio entam me levou

d’ ali um grande espaço

onde milhor sombra achou.

E mandando-me assentar

ele tambem se assentou,

e antes de começar

para mi um pouco olhou,

e a voltas de chorar:

PIERIO

The Oxford book of Portuguese verse · 第 4 / 13 段