com expressão sublime e magoada, e aguardou que a porta se abrisse.
Não tardou. Lagarde d'ahi a um instante appareceu entre os umbraes.
XV
Cubiça e Nobreza
O intendente geral da policia era homem de sala. No tracto usual ninguem
o excedia em delicadeza.
Apenas apontou ao limiar, inclinando-se profundamente, adeantou-se com o
chapéu na mão. Com o sorriso estereotypado nos labios beijou a mão, que
Leonor de pé, séria, e grave, nem lhe estendeu, nem lhe recusou.
Seguiu-se uma pausa curta durante a qual a vista do ministro se cruzou
com a da donzella, frias e penetrantes ambas como duas espadas.
A um aceno cortez da filha de Paulo de Azevedo, offerecendo-lhe cadeira,
Lagarde escusou-se com o gesto, ajuntando logo risonho:
--Minha senhora... Venho como supplicante mover a piedade da belleza
deshumana, e os supplicantes não se assentam em presença dos juizes.
--Vem mover a minha piedade, ou offerecer-me a sua?! accudiu a donzella
em tom ironico. Não mudemos os papeis! A supplicante devo ser eu. O
vencedor não veiu aqui dictar-me as condições na idéa de me achar
resignada a escutal-as e a submetter-me?!... Não o incommoda ficar de
pé?...
--Não, minha senhora. Tenho de pedir licença para lhe apresentar outra
visita...
--Outra visita?!
--Meu sobrinho...
--Seu sobrinho?!...
--Era tempo, não lhe parece?...
--Eu!...
--Percebo! É-lhe indifferente? Consinta que junte duas palavras. Quer
que lhe fale como amigo?...
--Se póde!... Receio tanto o intendente geral da policia!...
--Não receie. Seja menos injusta. Desejo-lhe bem. Respeito a sua
firmeza, préso os seus sentimentos de filha extremosa, e sei que se
quizer ha de fazer a felicidade do marido que preferir.
--Tantos louvores, sr. Lagarde!... Ha quantos mezes me avalia assim?
accudiu Leonor sorrindo, mas tornando-se logo séria. Confesse que tenho
motivos fortes para suppor o contrario. Costuma tractar, como nos
tractou a nós, as pessoas que lhe merecem bom conceito?!...
--Ah, cruel!... volveu o ministro, córando um pouco, porém disfarçando a
torvação momentanea com o riso. As setas são agudas, e essa mão mimosa
aponta-as com uma certeza! Pois bem! Se fiz o mal, posso ao menos
dar-lhe remedio... O conselho de guerra ámanhã, ou depois, reune-se para
julgar seu pae... A sentença depende das provas, e as provas principaes
estão nas minhas mãos. De mais, Lunyt, o secretario de estado dos
negocios da guerra, é meu amigo intimo... Já vê! Se eu interceder e
ajudar... o sr. Paulo de Azevedo sae absolvido e solto...
--Bem o sei, redarguiu a donzella. Quererá o sr. Lagarde?...
--Duvída?! Porque tem tão pouca fé?...
--Porque não acredito facilmente em conversões repentinas. Perseguiu-nos
sem tregua, não socegou em quanto não teve meu pae em ferros, e hoje...
offerece-me ser o seu protector!?... Ha grande mysterio n'isto, não o
negue!... Temo que exija tanto da minha gratidão em premio, que eu não
deva acceitar!
--Nada escapa á sua agudeza! Quer saber tudo? Tem razão. Joguemos liso.
Posso interessar-me, e ser ouvido, falando a favor do pae da noiva de
Armand, de meu sobrinho; mas percebe muito bem, por maiores que fossem
os meus desejos de servir, que o empenho não teria a mesma força, se o
mettesse em beneficio de estranhos... de pessoas desaffectas ao governo
de sua magestade o imperador e rei. Agora permitte que meu sobrinho
entre? Espera as suas ordens n'aquella saleta...
--Pois sim. Uma palavra antes, sr. Lagarde. É a noiva, ou é o dote, o
que mais o tenta n'este negocio?!...
--Oh, minha senhora, que pergunta! Que offensa!... O dote?!... Não faz
mal, de certo o dote, a riqueza nunca se despreza; porém o thesouro
d'essa linda mão!...
--Supponha que... em troca da sua... como hei de dizer?
--Diga amisade, minha senhora, amisade sincera. Fale affoutamente!...
--Talvez seja muito. Benevolencia parece mais natural... Supponha, pois,
que em troca da sua benevolencia eu cedia o dote, e guardava a _linda_
mão... que é já de outro, e que em nenhum caso, aconteça o que
acontecer... darei a seu sobrinho?...
Leonor falava serena, e sorrindo-se, porém a voz e o tom affirmavam
assás, que a proposta era positiva, e que a resolução tomada seria
inabalavel. Lagarde franziu o sobrolho, raspou com o dedo a ponta do
nariz, cortejou-a em silencio, e reconcentrou-se por instantes como quem
reflectia.
--O dote sem a mão?! disse por fim lentamente, e esbrugando as palavras
como se as pezasse. Julga, minha senhora, que seria possivel?...
--Depende da minha vontade, e estou prompta.
--Não me entendeu! É uma esmola, que nos quer fazer a meu sobrinho e a
mim, ou uma peita, com que espera subornar o ministro?...
A interrogação parecia aspera; porém o olhar e a voz não podiam ser mais
amaveis. Leonor concebeu esperanças.
--Nem uma, nem outra cousa! É um testemunho de reconhecimento.
Protesto-lhe que dos tres a mais agradecida serei eu.
--Esquece-lhe, que o mundo dirá, que me vendi!... Não pode ser! Uma
esposa não se nota que seja generosa, porém uma estranha!... Minha
senhora, não decida nada sem o conhecer. Armand está aqui. É moço, é
gentil, é brioso. Merece-a. Sei que o accusam de ser um pouco estouvado
e perdulario. Não o defendo. São defeitos que o matrimonio corrigirá.
Veja-o!... Tome tempo!... Não me julgue tão mau como dizem os meus
inimigos. Tudo ha de compor-se.
--Deus permitta! replicou a filha de Paulo de Azevedo.
Mas a sua phisionomia espirituosa traduzia perfeitamente, sem os
disfarçar, a malicia e o despreso, com que assistia ao combate da avidez
e da cubiça na alma de Lagarde, impaciente de receber o que lhe
promettiam, mas preso ainda, apezar do cynismo, pelos escrupulos de um
resto de decoro e de respeito da sociedade. Talvez, que não o
embaraçasse pouco n'este conflicto a idéa, que formava do caracter do
sobrinho, e a apprehensão de que elle recusasse favores, cuja origem o
cobriria de opprobrio.
--Deus quer o nosso bem, e ha de permittir!... atalhou o magistrado,
todo brandura e delicadeza. Sobre tudo se fizermos da nossa parte...
--Da minha tudo, menos!...
--Não diga isso!... Esse _menos_ é que precisamos que desappareça. Meu
sobrinho é um cavalheiro...
--Affiança-m'o?... N'esse caso estou socegada. O _menos_ virá d'elle!...
Uma sombra escureceu o rosto do intendente. Ainda não lhe occorrêra esta
hypothese, e um estremecimento nervoso avisou-o, de que ella podia
converter-se em obstaculo insuperavel. Que certeza tinha de que Aubry
annuisse ao pacto infame, que procurava extorquir, fazendo da cabeça de
Paulo de Azevedo o penhor da docilidade de sua filha?
--Não imaginemos coisas tristes! redarguiu contrafeito. Seu pae,
lembre-se, está preso, e em vesperas de ser sentenciado...
--Meu pae, tornou a donzella altiva, saberá morrer, que lh'o ensinaram
os seus antepassados; o que nunca soube, nem ha de aprender na velhice,
é a vender o sangue da sua alma, a ventura e a dignidade de sua filha
para salvar a vida.
--N'esse caso!... Mas o pobre Armand!... Falámos tanto d'elle que por
fim esqueceu-nos! Como ha de estar impaciente. Tinha um desejo tão
ardente de vir aqui!... Ah, ri-se? Não acredita?!... Pois é verdade. Dá
licença?!...
E sem aguardar mesmo o aceno secco de cabeça, com que Leonor respondeu,
Lagarde, precipitando-se direito á porta, cortou com esta saída theatral
a conversação no ponto, em que ameaçava tornar-se tempestuosa. Em quanto
elle saia, a donzella enxugou á pressa duas lagrimas, reprimidas até
então pelo orgulho, e inclinou a fronte como se lhe faltasse o vigor
para supportar mais. Durou só um momento esta fraqueza. Um minuto depois
erguia a face, e tornava a obrigal-a a exprimir a frieza glacial do
papel forçado, que se via constrangida a representar. Um rapido volver
de olhos á porta de vidraças, detraz da qual Manuel Coutinho escutava, e
um suspiro ancioso foram os ultimos signaes do seu desalento.
O intendente entrava com o sobrinho.
Vendo-o, Leonor córou, e fez-se logo, pallida.
O mancebo, contemplando-a, sentiu-se vencido de repente, e conheceu que
aquella bella e doce imagem se lhe gravára profundamente no coração. A
tristeza resignada, que respiravam as feições da donzella, a sua vista
magoada, mas serena e quasi severa, e a casta e graciosa elegancia do
porte, acabaram de o render. O semblante, em que um momento antes sorria
zombeteira a mofa do conquistador, seguro do triumpho, desarmou-se
instantaneamente da expressão quasi insolente, e inclinando-se,
perturbado, e reverente, Armand saudou a filha de Paulo de Azevedo como
poderia saudar uma rainha no seu throno.
--Aqui vem a seus pés mais este captivo, minha senhora! exclamou o
intendente no estylo refinado e galanteador da côrte franceza.
Compadeça-se d'elle. Não consinta que suspire em vão!
Armand empallideceu. Não era com gracejos vulgares e pueris, que elle
agora desejava expressar á donzella a admiração. O official, de
ordinario tão solto e audacioso, já não achava phrases que pintassem o
estado da sua alma. Mas se os labios eram mudos, falavam os olhos, e o
proprio enleio significou uma homenagem á amante de Manuel Coutinho.
--Veja como a adora! proseguiu Lagarde, que, sem o querer, representava
o papel comico de um tutor de entremez. Que victoria, minha senhora! Fez
como Cesar, viu, e venceu!...
--Ah! interrompeu Leonor, deixando cair de alto sobre o tio e o sobrinho
uma vista ironica e aguda, que os gelou a ambos, porque o despreso e o
escarneo, que exprimia, traspassava.
--Meu tio!... murmurou Armand confuso, e recuando como ferido de uma
bala.
Houve uma breve pausa. O ministro estudava um exordio, que o salvasse
dos apuros do lance, em que se mettêra, amaldiçoando interiormente
Aubry, cuja falsa delicadeza começava a assustal-o. A filha de Paulo de
Azevedo, em pé, branca como uma estatua de alabastro, mas imperiosa,
amparava o corpo gentil com a mão no espaldar da cadeira e n'esta
posição, cheia de dignidade, aguardava silenciosamente, que um dos dois
ousasse dizer-lhe tudo.
O mancebo, que a interjeição de Leonor fizera córar até á raiz dos
cabellos, e que a vista de tantas graças e enlevos cada vez seduzia
mais, esperava ancioso, que o intendente, auctor do enredo, lhe rompesse
o caminho, temendo adivinhar na mudez e no ar soberano e offendido da
bella portugueza um trama, que a honra o obrigasse a desmentir.
--Armand, minha senhora, disse por fim Lagarde, que o amor proprio e a
cubiça forçavam a insistir, encarrega-me de lhe pedir, que se digne
receber os testemunhos de seu respeito e adoração.
--Sempre como procurador?!... atalhou ella com um sorriso ironico.
--Em pessoa, minha senhora, em pessoa!... Se não veiu mais cedo é que...
--Meu pae não estava ainda quasi no oratorio, e o sr. Lagarde temia que
a filha fosse menos docil?
--Oh!... bradou Armand, encarando o ministro severamente, e
adeantando-se impetuoso. Minha senhora, balbuciou depois, se aqui vim
foi attrahido por uma doce esperança, que vejo ter sido chimerica...
Posso saber o que meu tio quiz fazer, valendo-se do meu nome? Presinto
um segredo de violencia, talvez de iniquidade, mas, juro-lhe pela minha
honra, que estou innocente... que sou incapaz de acceitar a sua mão, que
me faria bem ditoso, agora o sinto, se livremente m'a não désse.
Peço-lhe a verdade! Ao menos não me condemne sem me ouvir!...
Lagarde não soube conter-se. Um raio, que lhe estalasse de repente sobre
a cabeça, não o teria desfigurado tanto. Empregado o ardil classico do
famoso quadro do sacrificio de Ephigenia, escondeu metade da cara no
lenço de assoar, pedindo a Deus que um alçapão propicio se lhe abrisse
debaixo dos pés para o sumir da vista irritada dos personagens, cujas
explicações previu, que iam desmascaral-o inteiramente.
Leonor, escutando as nobres palavras de Aubry, recompensou-as com um
olhar sympathico. O semblante perdeu a expressão severa, e a voz, meiga
e commovida, vibrou harmoniosa, como um canto suave, no peito agitado do
official francez.
--Agradecida! redarguiu offerecendo-lhe pela primeira vez a mão, que
elle beijou estremecendo. Não tenho que lhe perdoar... Agora vejo! O sr.
Lagarde... como hei de dizer toda a verdade!? O sr. Lagarde prendeu meu
pae, accusou-o, e tem suspensa sobre a sua vida a espada de um conselho
de guerra... Tinha-me falado ha mezes n'este casamento... A minha recusa
aggravou-o... e hoje, aqui mesmo, veiu propor-me salvar meu pae se eu
consentisse...
--Oh, meu tio! interrompeu o mancebo fulminando o intendente com os
olhos, e vermelho de colera e pejo. Não diga mais, minha senhora.
Adivinho a resposta. Regeitou!...
--Regeitei! continuou a donzella. A minha mão pertence a outro; o meu
amor não se vende.
--Nem o meu nome se infama! rugiu Aubry tremulo de raiva. Sr. Lagarde
agradeça ao sangue, que nos corre nas veias, a minha paciencia! Se não
fosse! E suffocado em ira apertou os punhos, e levou-os á fronte.
Lagrimas de indignação rebentaram de seus olhos seccos. O intendente
parecia petrificado.
--Offereci o dote sem a noiva; proseguiu Leonor. Era o meu resgate. Oh,
perdoe sr. Aubry, não o conhecia ainda. Depois que o ouço... não lhe
faria a affronta de suppor...
--Vê! accudiu o official, colhendo o ministro do braço, e saccudindo-o
com furia. Vê a que me expoz?!... Meu tio, tenho vergonha, queima-me os
labios dar-lhe este nome! Quem lhe deu o direito e a ousadia de arrastar
o meu, o nobre appellido de meus virtuosos paes pelo lodo de suas
torpezas?! Sou pobre, accrescentou voltando-se convulso para a filha de
Paulo de Azevedo, mas a pobreza supportada com valor, com alegria, como
eu a supportei sempre, não desdoura, engrandece. Hoje não possuo outras
riquezas, senão o orgulho da propria indigencia, que nunca ajoelhou, o
respeito do nome sem macula que herdei, e esta espada... que póde
abrir-me o caminho da gloria, ou o da sepultura!... Nunca me passou pela
idéa, que houvesse no mundo um coração tão vil e corroido, que se
atrevesse a cuspir no meu rosto e sobre as cinzas dos que mais amei a
injuria de me aviltar ausente a especulações infames!... Socegue, minha
senhora! Todos os thesouros da terra, depois d'isto, não me obrigavam a
acceitar a sua mão, ainda que m'a offerecesse.
--Louco! D. Quixote! Nescio!... rosnou Lagarde, ao qual a generosa
declaração do mancebo restituiu a voz, e redobrou a ira de se ver
descoberto e punido.
--Senhor Lagarde! disse Armand, cravando n'elle um olhar sombrio. Sei
que devo parecer-lhe nescio e estouvado. Glorio-me da censura. O que me
faria córar eternamente seria um elogio... depois do que acabo de ouvir.
--Senhor Aubry, observou Leonor, creia que nunca hei de esquecer a
nobreza do seu caracter. Aonde quer que a fortuna o leve... conte com a
minha amisade. Não sou ingrata. Se meu pae escapar...
--Ah! exclamou o mancebo. Esquecia-me! Senhor Lagarde! ajuntou, travando
rijo do braço ao ministro, que se ia desviando para se evadir
desapercebido. Uma palavra antes de sair! Os vinculos do nosso
parentesco estão rotos de hoje em deante. Quer que o mundo ignore os
motivos? Ponho uma condição a esse sacrificio da minha parte!...
--Condições?!... interrompeu o intendente, ameaçando o sobrinho e Leonor
com os olhos e com o gesto.
--Condições, sim! atalhou o mancebo friamente. Offereço-lhe o seu
perdão, e a minha indifferença...
--Offereces-me o teu perdão? É admiravel! Que me importa o teu
perdão?...
--Em troca de um acto de generosidade... forçada. Bem vê que lhe faço
justiça, e que digo _forçada_, proseguiu Aubry, contendo-o, e
dominando-o com a vista.
--Oh! exclamou Lagarde, rindo convulso e constrangido. A scena era para
se ver no theatro francez! Enlouqueceste Armand?!...
--Não! redarguiu Aubry, cerrando os dentes e crescendo para elle
indignado. Não enlouqueci! Mas ninguem até hoje me affrontou
impunemente. Em tres dias o pae d'esta senhora ha de estar absolvido e
solto...
--Ah! É de mais! accudiu o ministro affectando intrepidez, porém
assustado. E se não estiver? póde acontecer que as tuas ordens não sejam
cumpridas á risca. Se não estiver pódes dizer-me o que farás?
Accommettes a policia, fuzilas o conselho de guerra, ou assaltas os
moinhos de vento de Monsanto?!...
--Por Deus, senhor Lagarde, não tente a minha paciencia! bradou o
official empallidecendo de colera, em quanto as pupillas scintillantes
faiscavam mil ameaças. Se não estiver livre e absolvido... como lhe
mando!... ouve? juro-lhe pela santa memoria de minha mãe, á qual deve só
n'este momento a vida! que ámanhã o nome mais infame do imperio será o
seu!...
O intendente fez-se branco e recuou, lendo na vista inflammada do
sobrinho o odio e o despreso.
--Armand! exclamou balbuciando, renegas o teu sangue por estranhos?!
Unes-te aos inimigos da tua patria contra mim!?...
--Os inimigos combatem-se com as armas na mão, não se salteam nos
corredores da policia, pedindo-lhes a bolsa, ou a vida!... Fez-me córar
de vergonha! A maior injuria, que podia irrogar-me, era suppor alguem
que eu fosse cumplice de mercados tão vilões...
--És uma criança! Julgas o mundo pelos romances!...
--Basta! clamou o mancebo. Quer acaso convencer-me?! Se não obedecer ao
que lhe disse, que é o desaggravo da minha honra ultrajada, não se
admire do que eu fizer!...
--Do que fizeres! Ameaças?! Crês que te receio?... Em eu te desamparando
cuidas que vales alguma cousa?! rugiu o intendente exasperado.
--Hei de valer sempre o que vale um nome honrado! Não preciso de mais.
Repito. Tome bem sentido! Se o pae de D. Leonor não for solto em tres
dias...
--Não é. Que mais?! atalhou o ministro, cruzando os braços.
--O general Junot e o conselho do governo saberão como se enriquece o
intendente geral da policia! Vou revelar-lhes tudo. Então veremos.
--Tu! Meu sobrinho! exclamou Lagarde retrocedendo fulminado.
--Eu! Seu sobrinho por minha desgraça. Escolha agora.
Voltou-se depois para Leonor, que o dialogo tornára immovel, e
acrescentou:
--Minha senhora, adeus. Levo d'aqui a admiração da sua formosura, e a
magoa de ter sido causa innocente de suas lagrimas. Sei que me perdoa, e
que me fica estimando. Não peço mais. Socegue. Mesmo sem o dote, o
senhor Lagarde ha de servir seu pae... Elle sabe que eu costumo cumprir
a minha palavra. Vamos, ajuntou apontando a saída ao ministro com um
gesto imperioso. O luto entrou comnosco n'esta casa... É tempo de
deixarmos que a alegria e a tranquillidade voltem.
E quasi obrigando Lagarde a retirar-se, lançou sobre Leonor um olhar de
apaixonado enlevo, inclinou-se com um suspiro, e desappareceu.
--Manuel Coutinho, disse a donzella, erguendo a fronte de repente,
depois de alguns momentos de silencio, ouviu tudo?...
--Tudo, redarguiu elle, que não se demorou em vir lançar-se de novo a
seus pés.
--Então sabe a divida que hoje contrahi... que ambos contrahimos com
Armand de Aubry. Espero que a vida d'elle lhe seja tão sagrada...
--Como a de um irmão, respondeu Manuel. É uma grande alma.
--Alviçaras! Alviçaras! Senhora D. Leonor! Gritou a voz do bispo do lado
do jardim. Os inglezes estão a desembarcar. O nosso captiveiro pouco
durará se Deus quizer.
E o prelado entrou afadigado e tremulo de jubilo no aposento, aonde os
dois lhe abriam os braços não menos alvoroçados.
FIM DO PRIMEIRO VOLUME
NOTAS AO PRIMEIRO VOLUME
I
O poder do ministro eclipsou-se com o ultimo suspiro do principe e,
com elle expiraram as tradições viris e os commettimentos
reformadores... pag. 24.
O governo do marquez de Pombal abrangeu todo o reinado de el rei D. José
I. Varios, e mais ou menos parciaes, foram os juizos dos contemporaneos
ácerca da administração severa, intolerante, e absoluta, mas a muitos
respeitos fecunda e reorganizadora de Sebastião José de Carvalho e
Mello. A obra, que emprehendeu, o rejuvenescimento da unidade monarchica
sustentado pelo apoio das classes medias devia encontrar, e de feito
encontrou, a opposição dos privilegios, dos abusos, das hypocrisias, e
do fanatismo. No paço a familia real, nos gremios puritanos da nobreza
os fidalgos mais poderosos, nas corporações religiosas a companhia de
Jesus, declararam guerra mortal e incessante ao ministro, aos seus
actos, e ás suas tendencias. Para a familia real Sebastião José de
Carvalho era quasi um inimigo da força e da consciencia do rei. Para a
nobreza arrogante e affeita a dominar o poder despotico de um ministro,
que não acurvava as vontades, ou as leis ao aceno imperioso dos eleitos
de sangue azul era um peão fidalgo, insolente e soberbo, que importava
derrubar e punir o mais depressa possivel. Finalmente, para os jesuitas,
cuja influencia dilatada nos ultimos annos de valimento durante o
reinado de D. João V, não consentia emulos, e muito menos peias, os
planos atrevidos do secretario d'Estado, representando ameaças e perigos
perennes para a prosperidade da sociedade, equivaliam a um cartel, que a
todo o transe convinha acceitar e concluir pela derrota do orgulhoso sob
pena de aplanar aos adversarios os caminhos do triumpho.
A firmeza do rei, o prestigio que a auctoridade monarchica possuia
ainda, e a intrepidez do ministro venceram estas resistencias
colligadas. Por que preço, porém? Que o digam os carceres e prisões
povoadas de suspeitos, réos apenas muitos d'elles de alguma opinião mais
livre. Que respondam os processos, as alçadas, os degredos, e os
supplicios, paginas luctuosas de um governo inexoravel e vingativo.
Copiando do cardeal de Richelieu até as perfidias cruentas, Pombal
assignalou com um rasto patibular as principaes estações da sua
administração. Por fim escorregou e caiu no sangue vertido muitas vezes
sem necessidade. Os horrores, que afogaram nos tratos e crueldades da
praça de Belem a famosa conspiração de 1758, a expulsão dos jesuitas; os
castigos atrozes contra os tumultuarios do Porto; a execução de João
Baptista-Pelle; o encarceramento prompto e perpetuo de quantos podia
receiar como rivaes, ou como censores pelo nome, pela integridade, pela
jerarchia, ou pela sciencia são nodoas indeleveis e accusadoras, que não
apagam o merecido elogio de outros actos, nem a recta e desassombrada
apreciação de suas reformas uteis e opportunas.
O marquez de Pombal tentava em parte o impossivel. Não admira, por isso,
que na queda arrastasse comsigo quasi tudo o que nos monumentos do seu
governo era fragil, instavel, e transitorio. A monarchia pura tinha
envelhecido muito e depressa para ser exequivel salval-a por meio da
transfusão de idéas e principios repugnantes á sua índole, contrarios
aos preconceitos e crenças do povo e das classes elevadas, e sem base
firme em que assentasse uma construcção duravel. Os tres reinados de D.
Affonso VI, D. Pedro II e D. João V adeantaram a tal ponto a caducidade,
que os milagres do genio, e os prodigios da vontade o mais que poderam
conseguir foi suspender a dissolução espaçando até ao fim do reinado
seguinte a revolução eminente. O ministro absoluto serviu-se em muitas
occasiões do poder como de uma arma cega e demolidora, e a ferro e fogo
imaginou transformar a sociedade decrepita e moribunda em uma sociedade
nova, e vigorosa e viril, filha legitima das grandes idéas philosophicas
fadadas á conquista do futuro. Suas leis e seus esforços provam a
elevação do pensamento e a intensidade dos bons desejos; mas do que elle
decretou ficou de pé sómente o corpo logo tornado cadaver. O espirito...
não eram aquelles ainda os dias da sua victoria nem os seus meios de
persuasão. Por isso com o ultimo suspiro de D. José I baqueou não só o
poder, mas subverteram-se em grande parte até as idéas representadas
pelo marquez de Pombal.
II
Um gabinete quasi todo composto de aulicos, sujeito ao voto do
confessor valido substituiu o mando odiado do marquez... pag. 24.