capaz de abrandar as pedras... das mesmas ruas. A proposito!
Denuncio-lhe os cães vadios. Resistem ás ordens como janizaros. Hontem á
meia noite estivemos em perigo de sermos devorados, eu, e o meu cavallo!
Que morte para um official do exercito imperial!... Diga-me: o anão, de
que tractâmos, será nomeado executor da alta justiça contra as matilhas
famintas? A cara do personagem é de um verdadeiro Herodes, e não
desmente o officio. Puah! O maldito sempre deixou aqui um cheiro
patibular!...
--Armand! Não te cansaste ainda?!...
--Oh! Cuida meu tio, que os assumptos recreativos se encontram a cada
canto n'esta boa terra? O que admiro mais é a sua longanimidade. Parece
incrivel! Aturar fechado n'este gabinete dias, semanas, e mezes, entre
cachos de malsins e grinaldas de larapios aposentados! Santo Deus! Que
emanações asquerosas. É de engulhar até o estomago a um tubarão!...
--Ainda! Armand, o que sinto mais, do que a triste sociedade, que sou
obrigado a admittir...
--Diga tristissima, meu tio, que não diz senão a verdade. Os melhores
dir-se-íam desenterrados das enxovias, ou das galés...
--Então! O que deploro, mais do que isso, é essa tua leviandade
incuravel. O homem, que estás escarnecendo, prestou-nos a ambos um
serviço relevante...
--Não sabia. Pelo que observo o precioso aborto accumula as funcções de
palhaço ás de nigromante? Faz magia branca nas ferias. Excellente!
--Ah, Aubry! Quando te verei um momento serio e preoccupado dos deveres
da tua posição?
--Quando uma bala me varar o peito, ou a cabeça. Se não levasse a vida a
rir e a folgar, entre dois amores, um que hoje foge para volver ámanhã,
outro que arrebata e embriaga; o amor dos sentidos e o amor da gloria;
cuida que valia a pena de a arrastar de desengano em desengano, de revez
em revez até aos rheumatismos, e aos defluxos asthmaticos da velhice?
Por alma de meu pae! Nasci e hei de acabar com esta sina. Sou assim
feito. Não tem remedio! Mas apezar de rir muito, de chorar pouco, e de
preferir o lado comico ao aspecto lugubre da existencia, ajuntou,
tornando-se um tanto grave, creia que este coração, facil em se
alvoroçar com a promessa de uns bellos olhos pretos, azues, ou verdes, a
côr é indifferente uma vez que sejam formosos (!), é incapaz de trahir a
honra e a amizade, ou de se aviltar por nenhum preço...
--Bem sei. Por isso te estimo. Desejava-te só menos estouvado. Não póde
ser? accrescentou sorrindo-se involuntariamente do gesto negativo do
sobrinho. Paciencia! Escuta-me. Aquelle homem, que saiu d'aqui ha
pouco... Não rias! ao qual ignoro porque pozeram a alcunha de _Sapo_...
--Quem seria o philosopho que tão bem chrismou o reptil? Preciso
abraçal-o! O _Sapo_?! Mas é verdadeiramente um sapo o seu homem, meu
tio! Bom! Não se agaste. Já me calo. Passo a estar serio e aprumado como
uma estatua... Diga!
--Aquelle homem... foi quem descobriu o asylo de Paulo de Azevedo, e
entregou á policia a sorte do cavalheiro, do qual depende...
--Cuidei que lhe tinha escapado! interrompeu o mancebo. Pareceu-me
ouvir-lhe dizer que duas vezes...
--O tivemos nas mãos, e que nos escorregou por ellas, zombando de nossas
diligencias? É verdade. Não te enganaste. Mas á terceira fomos mais
felizes. Estava escondido aqui mesmo em Lisboa, e mandei-o prender... O
sargento Cabrinha, um dos meus agentes mais activos, e este _Sapo_, que
ainda promette ser melhor...
--Ah, meu tio, fale-me de tudo menos d'esse miseravel. Deploro vêl-o
convertido em Plutarco de similhante monstro...
--Pois sim. Mas attende-me. Lavemos agora um pouco a nossa roupa suja em
familia. O que te resta dos bens de tua casa?...
--Dividas e credores, replicou Armand com um sorriso stoico sublime.
--Nada mais?...
--Acha pouco? Dividas desassocegadas e credores inquietos!... Tenho com
que me entreter toda a minha vida.
--Um!... Pois de todas as propriedades, que herdaste, mobilias, ouro,
prata... não possues absolutamente nada?!...
--Nada!... O ouro a que posso chamar meu... e assim mesmo só por uma
audaciosa figura de rhetorica, porque o não paguei ainda... trago-o aos
hombros... são as dragonas!
--Ah! Então o naufragio foi completo!?... E com que contas para o
futuro?...
--Essa é boa! Conto com os meus vinte e oito annos, com esta figura
soffrivel, com a saude á prova de todas as fadigas, que devo á minha
compleição, e que tem sido o desespero dos medicos, e com o acaso de uma
bala, ou de uma proeza, que me eleve em patente, ou me deixe no campo
como muitas outras buxas de canhão, que valem menos do que eu.
--És louco!...
--Sou philosopho!
--Talvez! Mas dize! Eras filho unico. Teus paes deixaram-te...
--A sua benção e alguns punhados de escudos nas gavetas. Que quer, meu
tio?! As Aspasias de París, as Sylphides do corpo de baile, e as Musas
da opera vendem os sorrisos caros. Não imagina!... E sorriram tanto, e
com tal graça para mim, que as mãos abriram-se-me sem as sentir...
Quando caí na realidade... sabia de cór todas as piruetas e saltos de
Vestris, todos os passeios e casas de pasto de mais fama, e podia dar
licções de gosto e de ouvido a todas as platéas civilizadas... Mas nem
um real no bolso para afugentar o demonio! Encolhi os hombros e fiz-me
soldado.
--Bem sei. Porém a herança de tua tia?!...
--Santa e excellente velha!... Saltam-me as lagrimas dos olhos ainda
quando me recordo d'ella! A herança da boa tia veiu nas poucas horas de
melancholia, que tenho penado em minha vida.
--Isso não explica!... Lembro-me de ter ouvido falar em terras...
--Oh, de certo. Um bom par de geiras... Eram muito fracas. Vendi-as por
economia.
--Mattas e pinhaes!?...
--Magnificos!... Eram muito sombrios. Troquei-os a dinheiro para me não
entristecerem.
--Uma casa de residencia vasta com jardins?...
--A casa era humida e constipava-me. Os jardins precisavam de muito
amanho, e não apparecia jardineiro. Desfiz-me da casa e dos jardins.
--Uma mobilia antiga, mas rica?!
--Custava-me muito caro o transporte, cedi-a.
--Percebo!... N'esse caso estás?...
--Como diz o livro de Job: Nú saí do ventre de minha mãe, e despido de
bens da fortuna descerei á cova.
--Admiro o teu sangue frio. Não te parece já tempo de assentar, e de
mudares de vida...
--Conforme a mudança! Saltar da agua fria para caír no fogo, não sei se
é peior.
--Armand! É necessario cazares, e que o dote de tua mulher...
--Chegue para remendar a capa esburacada do mendigo?!
--Mais do que isso. É preciso que dê para uma capa nova.
--Não digo que não. Mudarei ainda de pelle. Estou prompto.
--Estimo. Falei-te na filha de Paulo de Azevedo...
--É moça?...
--Dezoito annos.
--Feia como uma herdeira, ou desastrada como as morgadas?...
--Não. Linda, airosa, e gentil como uma parisiense.
--Santo Deus!... E esse thesouro, essa fada, mimo de todas as
perfeições, guardou até hoje o seu coração livre á espera de um
perdulario, de um estouvado, que nunca viu?! Meu tio! Sabe que o unico
ridiculo, de que tenho medo, é da sorriada merecida de Jorge Dandin?...
--Repito. É uma menina séria, prendada, e espirituosa...
--Não duvido. Antes isso! A ingenuidade de Agnés sempre me assustou
muito! Essa menina... Mathilde?... Clara?...
--Leonor! Leonor de Azevedo...
--É verdade! Leonor!... Essa Leonor não estava justa a cazar com um
cavalheiro, tambem fidalgo, official, capitão, creio eu, do segundo
regimento do Porto, licenciado depois do tumulto das Caldas?... Se não
erro, elle chama-se?...
--Manuel Coutinho! accudiu o intendente. Não houve nunca promessa de
cazamento, enganas-te. As duas familias davam-se muito. O que poderia
existir era algum namorico, alguns requebros naturaes... innocentes...
--Sim! Sim! Muito innocentes. Sabe que nunca me resolvi a calçar sapatos
de defuncto, e que de sapatos de vivos gosto ainda menos?... Uma
pergunta, meu tio?... Hei de ser sempre noivo por procuração? Conta
cazar-me sem eu vêr nunca minha mulher... nem até no oratorio da
policia?...
Lagarde piscou os olhos, assoou-se com ruido, e coçou depois ao de leve
a ponta do nariz aquilino. Eram os gestos, que n'elle inculcavam
hesitação e perplexidade.
--Cazares sem vêr tua mulher?! exclamou rindo constrangido. Pelo amor de
Deus! Quem te metteu isso na cabeça?
--Cuidei! Como os principes cazam pelos retratos...
--Has de vêl-a, adoral-a, e agradecer-me de mãos postas a escolha.
--Estou certo, meu tio. Porém!... Como o meu voto me parece essencial
desejo dal-o em consciencia. Quando me apresenta a D. Leonor?...
--Um dia cêdo! Ámanhã talvez! redarguiu o intendente, agitando-se, e
estorcendo-se na cadeira, como se o assento fossem brazas.
--E porque não ha de ser hoje. Sou tão curioso!...
--Hoje! Sem a avisar! De mais tenho que despachar... Espero...
--O honrado sargento, ou o palhaço talvez?!... Vamos. Decida-se. Hoje,
ou nunca! _Alea jacta_! como nós diziamos no collegio. Os bons palpites
aproveitam-se. O matrimonio é um grilhão de ferro coberto de flôres...
Quem sabe se ámanhã eu terei medo da felicidade conjugal, e me
arrependerei? Seja docil! Deixe-me vêr hoje esse portento encoberto...
--Pois bem! Faça-se a vontade ao teimoso, contestou Lagarde, depois de
alguns instantes de reflexão, tirando o relogio do bolso, e
consultando-o. São dez horas. Ao meio dia aqui te espero.
--Viva o melhor dos tios! bradou Armand, rindo, e abraçando-o. Diz o
rifão: em quanto venta molha a véla! Quero remar com a maré. É verdade
que na Ponte da Asseca, em um casarão arruinado, apparecem aventesmas, e
que um troço de milicianos debandou por uma noite de tempestade, fugindo
de um fantasma?...
--Porque?
--Nunca tive a honra de conversar particularmente com nenhum espectro, e
desejava certas informações sobre o paraizo e sobre o purgatorio...
--Os fantasmas da Ponte da Asseca sabes o que são? accudiu o ministro
agastado. Um bando de conspiradores, que a policia vae desmascarar e
punir.
--Jesus, que ares tragicos, meu tio! Pela sua vida não represente de
tyranno. O papel cai-lhe mal. Dê-me essa missão a mim. Adoro as
aventuras, e Cazote é o meu idolo... Quem sabe se irei lá encontrar
algum diabo amoroso?
--Pois bem, irás! atalhou Lagarde sorrindo. Mas já te previno. O que lá
acharás são morgados lorpas, e rebeldes endurecidos. Agora adeus. Não te
esqueças. Ao meio dia em ponto!
--Ao meio dia em ponto! respondeu o sobrinho, saudando-o, e saindo.
XIV
Amor
Quando Manuel Coutinho assomou aos umbraes da porta do aposento, acabava
Leonor de lêr uma carta de seu pae, escripta com a firmeza de animo, que
tornava tão nobre o caracter do velho cavalheiro. Da sua prisão do
castello, com a morte eminente e a vingança de poderosos inimigos
suspensa sobre a cabeça, falava Paulo a sua filha com o mesmo socego,
com que o faria solto e desaffrontado. Nem uma queixa! Nem um indicio de
tristeza, ou desalento! Ausente em uma viagem longa, ou distraído em uma
partida de caça, não tractaria com indifferença mais soberana as
vigilias e amarguras do carcere.
Dizia-lhe que o seu processo, apressado a principio pelo odio, agora
coxeava, retido por mão occulta. Zombava da vigilancia, com que era
guardado, attribuindo-a á scena comica da sua evasão no palacio da Ponte
da Asseca.
Perguntava-lhe por Manuel Coutinho, e pedia-lhe que recommendasse ao
mancebo muita paciencia e conformidade, e resignação para atravessar os
dias dolorosos do captiveiro. Finalmente, lembrava-lhe em estylo risonho
alguns episodios de suas peregrinações pelas aldeias e casaes do
Ribatejo, assegurando-a, de que o descanso do corpo e a serenidade do
espirito iam obrando n'elle o prodigio de o transformarem, de seco e
agil, em um ente mais obeso, mais corpulento, e mais oleoso, do que fr.
Raymundo, frade notavel em Mafra pela estatura agigantada, pela
estupidez, e pela voracidade.
Aonde a sua ternura extremosa se denunciava, e a alma stoica deixava
perceber a ferida dos espinhos da saudade, era nos conselhos dados á
donzella, e nos gracejos constrangidos, com que a motejava ácerca da
alvura da tez e das rosas pallidas, tão festejadas no seu rosto,
deplorando que o sol, as geadas, e a vida alpestre de uns poucos de
mezes as tivessem queimado! Rogava-lhe ironicamente, que aprendesse de
alguma dama franceza o segredo d'aquella frescura artificiosa, que só
ellas sabiam fabricar para engano da edade, e conservação de successivas
gerações de adoradores.
Apezar do tom jovial, a carta era mais triste do que se respirasse
sincera melancholia. Leonor, avaliando o coração paterno pelo seu,
sentiu correrem-lhe as lagrimas e empanar-se-lhe a vista á proporção que
a ía lendo. Dotada, tambem, de indole varonil e soffredora adivinhava
facilmente as apprehensões e os tormentos, que aquellas lettras
escondiam, e quasi revia por baixo d'ellas as nodoas do pranto suffocado
por uma vontade forte.
A donzella recostava-se em uma marqueza de palhinha. O braço nù do
cotovello para baixo descansava em um velador entre duas jarras de
porcelana cheias de rozas e madresilvas. Duas portas de vidraças abertas
sobre o jardim, para onde se descia por escada de poucos degraus
deixavam entrar a luz em jorros. A sala era atapetada de esteira, e
estava ornada de alguns paineis de paizagem, pendentes das paredes
estucadas. Nos vãos das portas duas gaiolas douradas encerravam aves
africanas de vistosas plumagens. Em cima do marmore de um tremó, entre
flores, jazia esquecido o livro, que tivera na mão pouco antes de rasgar
anciosa o sobrescripto da carta, que viera interrompel-a. A um lado, no
bastidor, sobre a tela repregada notava-se ainda a agulha picando a
talagarça na petala delicada da ultima flor, cujo matiz deixára em meio.
Um vidro de peixes, de cores cambiantes, enfeitava a mesa fronteira ao
tremó e ao espelho.
--A filha de Paulo de Azevedo vestia de escuro sem affectação. Um
corpete, dos que então se chamavam _Mimosos_, de seda preta com
guarnições singelas, e cintura curtissima, desenhava mal a rara
elegancia d'aquelle corpo esbelto, moldado pelas graças. Uma fita larga,
com laço e pontas caidas, unia-o á saia de tafetá de cauda alta, orlada
com uma barra de requifes; mas a saia, segundo a moda do tempo, não era
menos desairosa do que o corpete; e n'esta nossa epocha de crinolines e
balões de verga de aço a magreza da roda, e a estreiteza do córte, que a
cingia aos membros quasi a ponto de accusar de mais as fórmas, faria
estalar de riso um conciliabulo de modistas e petimetres. Uma singela
cruz de coral, encastoada em ouro, e suspensa de um fio de aljofres
debruçava-se sobre o collo de neve, que um poeta sem exageração
denominaria verdadeiro collo de garça. O penteado, não menos singular
para os nossos dias, que o feitio do trajo, era todo de anneis
irregulares, acompanhando a testa em figura quasi de diadema, e
rematando no alto da cabeça por uma flor natural cravada nas tranças.
Sapatos de setim de entrada muito baixa, cobriam ou antes descobriam o
pé mais breve e mais lindo, que um estatuario poderia desejar para
modelo das extremidades de uma Hebé. A manga do corpete desnudava todo o
braço, que na pureza e correcção das linhas não desmentia a formosura do
semblante, o enlevo namorado dos olhos, e a expressão nobre, quasi
altiva, e apesar d'isso ingenua e suave da physionomia.
Vendo-a assim reclinada, com os atomos dourados do sol a brincar-lhe nos
cabellos, com a meiga pallidez, que um carmin fugaz e transparente
apenas córava por momentos, e com aquella melancholia tão feiticeira
pousada na vista, perdida com o pensamento bem longe de si e de tudo o
que a cercava, um pagão, se a contemplasse de repente, hesitaria entre
Juno e Diana, mas de certo não equivocaria sua belleza casta com os
encantos mais faceis da lasciva deusa de Paphos.
Manuel Coutinho, que a amava, que desde a infancia a vira crescer em
annos e attractivos, deteve-se suspenso de admiração, não se atrevendo a
despertal-a do enlevo com o ruido de seus passos. Mas o coração tem
sentidos mais subtis, que os ordinarios. Sem o vêr, sem ter percebido a
sua chegada, Leonor adivinhou que era elle, e a sua alma, fugindo á dor,
logo voou a encontral-o. Um suspiro á flor dos labios, um sorriso em que
a magoa e o jubilo se fundiam, duas lagrimas congeladas, tremendo nas
pestanas, disseram ao mancebo, que o sonho se quebrára, e que a amante,
baixando das illusões do devaneio, volvia ás realidades doces, mas bem
tristes, da existencia, e da paixão.
Leonor olhou para elle. N'este simples volver de olhos disse tudo,
calados os labios, mas cheia de luz a vista radiosa. Um rubor, que
esmorecia, e breve tornava a avivar-se, denunciou ao mesmo tempo o
sobresalto da alegria e as tremulas palpitações do peito. O mancebo, não
menos rendido, porém mais impetuoso, soltou a alma em um suspiro de
entranhavel affecto, prostrando-se-lhe aos pés e, adorando-a, quasi como
se adora a Deus. O que ambos falaram mudos n'este momento só póde
concebel-o quem já gosou tambem as delicias por vezes acres das
expansões do primeiro amor. Á donzella ria a esperança na bôcca e nas
pupillas. Ao amante, olvidados os zelos e amarguras das confidencias,
que acabára de escutar, tumultuavam no seio agitado as commoções, como
vão e vem as ondas inquietas espumando sobre a areia.
Por fim a mão estreita e melindrosa extendeu-se para o obrigar a
erguer-se. Um beijo ardente, seguido de mil osculos, n'essa mão que não
fugiu, affrontou de novas e vivas cores as faces da filha de Paulo de
Azevedo.
Desviando com um gracioso gesto de infinita brandura o amante ajoelhado,
e constrangendo-o a levantar-se com o imperio só dos olhos. Leonor
disse-lhe:
--Veiu tarde!... Não imagina o cuidado com que o esperava!...
--Leonor! Leonor! exclamou Manuel Coutinho incapaz de se vencer. Jure-me
que não dará nunca a outro esta mão, que tenho nas minhas, como penhor
da nossa ventura...
--Juramentos?! Já se não contenta com menos? Não crê em mim?!...
--Como em Deus!
--É de mais agora. Basta a fé... Teve noticias de meu pae? Será possivel
ao menos demorar a sentença? que o ameaça. Quando me lembro!... Manuel!
E nós aqui n'estes colloquios, quando elle.. geme desamparado, e se
prepara para a morte... que será tambem a minha, porque, se o perder,
sei que não posso, que não hei de sobreviver-lhe!...
--Não diga isso. Seu pae está mais perto da liberdade, do que da
morte...
--Quem lh'o disse? Elle escreveu-me. Aqui está a carta; mas só confia em
Deus! Ha alguma novidade? Veja que padeço ha tantos dias, chorando quasi
orphã aquella vida, que é tudo para mim... Diga! Devo ter ainda
esperança?...
--Deve!... O bispo, e sua irmã não lhe contaram nada?...
--Não! Mas o que ha? Ouvil-o-hei da sua bôcca... A boa nova será para
mim mais risonha!
--O Porto vae acclamar o principe regente. Sepulveda sublevou as
provincias do norte! O Alemtejo e o Algarve fazem e farão o mesmo!... Os
francezes acossados retiram sobre Lisboa de toda a parte!...
--Seja para sempre glorificado o vosso nome, meu Deus! exclamou a bella
enthusiasta, caindo de joelhos, e erguendo as mãos. Os ferros do
captiveiro são asperos e pesados e a minha alma, ferida e cega de
prantos, nem já a vista se atrevia a elevar ao ceu para vos pedir
justiça!... O dia da liberdade começa a raiar. Manuel! O seu posto não é
aqui, é ao lado de nossos irmãos que pelejam e morrem pela patria...
--Bem sei. Parto em dois dias. Vinha dizer-lh'o.
--Perdoe-me. Tenho pressa de vêr meu pae! Quero dever-lhe o seu
resgate... As damas antigamente mandavam os cavalleiros correr
aventuras, e não os premiavam senão coroados de louros. Quer ser meu
cavalleiro?... ajuntou com um sorriso e em um tom irresistivel.
--Não o sou já? Que votos póde fazer que eu não cumpra?
--Vá! A empreza é gloriosa. Ajudará a restaurar a patria, a restituir o
throno ao seu rei legitimo, e um pae extremoso aos braços da sua
filha!... Porque não sou homem?! Nunca invejei tanto uma espada!...
--Quem sabe, accudiu o mancebo sorrindo, se os dias das amazonas não
voltarão!...
--Porque o diz zombando?... Cuida que me faltaria o valor?... Estou
louca! Desculpe! De balde quero dissimular a minha fraqueza mais do que
posso. Elles são briosos; hão de combater aqui como combateram em toda a
parte... Quantas victimas! Quanto sangue! Manuel! Não seja temerario!
Quero tornar a vel-o!... Oh! se uma bala, se um golpe!...
--Deus será comnosco. Havemos de vencer. Anime-se!
--E eu?!... Ficarei só entre dois amores, que são toda a minha
esperança, entre duas saudades, que prendem toda a minha alma! Só! Não
sem outra companhia mais do que receios e cuidados, sem outras armas
senão as minhas lagrimas e orações!... Attentando, depois, na confissão
que acabava de soltar, vermelha de pejo como uma roza, cobriu o rosto, e
o pranto, rebentando, principiou a deslisar-se-lhe por entre os dedos. O
mancebo, exaltado, lançou-se outra vez a seus pés, e em vozes suffocadas
e incoherentes repetiu-lhe mil protestos. A final, Leonor levantou a
face orvalhada d'aquellas lagrimas tão suaves para ambos, e os bellos
olhos sorriram humidos, como o sol de abril por entre chuveiros finos.
Uma vista longa e apaixonada beijou com ineffavel delirio a vista do
amante, que se sentia desfallecer de jubilo, e que sem forças para
exprimir com palavras o alvorço, amiudava os osculos frementes nas mãos,
que tremiam, entregando-se a seus carinhos.
--Leonor! disse depois de alguns momentos. Agora póde vir a morte, póde
redobrar o infortunio, achar-me-hão forte! Sei que sou amado! Levo
commigo a confissão da sua ternura!...
--Ingrato! accudiu ella com meigo requebro. Era preciso que um instante
de dor, mais poderoso que o pejo, lhe dissesse o que devia ter
adivinhado!?... Não sabia que a ninguem, a mais ninguem... depois de meu
pae, tenho a affeição...
--Porque não diz o amor!... Teme ver-me feliz?!...
--Pois sim! O amor! redarguiu, alçando a fronte com nobre altivez, e
fitando no mancebo um olhar de indizivel e terno orgulho. Porque hei de
encobrir o que sinto; porque hei de negar o que não posso esconder?
Amo!... Desde a nossa infancia jurei que não teria outro esposo. Não é
crime escutar o coração! Amo-o, Manuel Coutinho!...
--Leonor!...
--Agora ouça! Antes de partir, volte aqui. Deante de Deus estamos
unidos. Quero dar-lhe uma prenda, que nos recorde a alegria triste
d'este dia!... A guerra vae a principiar. A sua ausencia póde ser
larga... Hei de supportal-a com toda a constancia, hei de ser digna
mulher de um soldado!... Volte! Lembre-se de que deixa n'esta solidão
metade da sua alma em troca da minha que leva toda... Quero vêl-o
victorioso, coberto de gloria, mas!... Que eu não fique viuva sem ser
esposa! Tem outra amante que vae servir, a patria! Sacrifique por
ella... tudo... tudo! menos a vida que me pertence! Adeus agora! Preciso
de socegar o animo para uma visita, que espero, e da qual depende talvez
a sorte de meu pae...
--Lagarde!?... atalhou Manuel Coutinho irado e sombrio de repente.
Porque se sujeita a ouvir esse monstro, auctor de nossas desgraças?
--Porque o meu dever o manda. Cuida que ha sacrificio, que me custe,
para salvar meu pae? Oxalá que viesse pedir-me todo o meu sangue em
preço do sangue d'elle!
--Sabe o que Lagarde quer exigir-lhe pela soltura do sr. Paulo de
Azevedo? perguntou o mancebo tremulo e pallido.
--Sei! contestou ella serenamente.
--E conta responder-lhe?!... interrompeu o amante ancioso.
--Não lhe disse que o amava? Duvida do meu coração, ou da minha fé!?
Pela vida de meu pae estou prompta a immolar tudo, menos... a honra do
seu nome, que é sagrada, e a minha alma, que é livre... O esposo, que
posso ter, já o escolhi.
--Obrigado, Leonor, pela doce promessa! Partirei tranquillo... Mas,
então porque escuta Lagarde? Com que espera movel-o?...
--É o meu segredo. Todos os sacrificios, menos um! Tudo menos vender-me,
ou aviltar-me!... Não ouviu rodar uma carruagem? É a d'elle! Sáia por
aquella porta... Não! Não! ajuntou, notando a agitação do amante. Não
lhe devo occultar nada! Entre para aquelle gabinete!... Mas jure-me, que
ouça o que ouvir, veja o que vir, mesmo que eu fosse ameaçada... o seu
braço, a sua voz, a sua presença, é como se estivessem ausentes...
--Juro! Mas se elle ousar!...
--Não ousa! De mais, sei, e posso defender-me! Creia em mim. Agora vá!
Um momento! Deixe-me colher forças para o combate!... E pousando-lhe na
fronte os labios de rosa afagou-lh'a com um beijo.
--Leonor!... exclamou elle ebrio de jubilo.
--Recompense-me! Seja homem! Hoje a nossa arma é a paciencia. Não o
sente? Sobe a escada... Vá! Nem um gesto, nem uma palavra! Responde pela
vida de meu pae!
E impellindo-o com maviosa brandura obrigou-o a entrar para o gabinete,
cuja porta de vidraças recatavam duas cortinas de seda despregadas quasi
até ao chão.