annos de edade. Nascida e educada para reinar houve um momento, em que
seu pae, segundo se affirma, concebeu a idéa de proclamar a lei salica,
cingindo a corôa na fronte juvenil do principe D. José. Acclamada em 13
de maio de 1777 com D. Pedro III, esposo e tio, o primeiro acto do seu
governo foi um acto de clemencia. Mandou abrir as prisões e soltar os
presos d'Estado. Chamou dos longos desterros, em que jaziam, a muitos
varões respeitaveis pelos annos, pelo caracter, e pela jerarchia. Menos
feliz do que Richelieu e Colbert o marquez de Pombal assistiu vivo ás
exequias do seu poder e á demolição da sua obra.
Demittido dos principaes empregos exercidos por largo tempo, teve o
marquez por successores na presidencia do real erario o marquez de
Angeja, cuja lealdade D. José I attestára espontaneamente recolhendo-se
a sua casa na fatal noite de 3 de setembro de 1778; na secretaria
d'Estado dos negocios do reino, o visconde de Villa Nova da Cerveira; na
dos negocios estrangeiros e da guerra Ayres de Sá; e na repartição da
marinha e ultramar Martinho de Mello e Castro.
Estes cavalheiros não eram homens obscuros, ou ineptos, mas qualquer
d'elles estava longe da vigorosa iniciativa de Sebastião José de
Carvalho, e todos juntos confundiam e atavam, mais do que desenredavam e
esclareciam, as resoluções.
A consciencia timida da rainha, o genio apoucado de seu marido, as
insinuações hypocritas dos beatos, que se apoderaram logo de todas as
avenidas do paço e começaram a influir na direcção dos negocios, não
concorreram pouco para tornar o novo reinado uma quasi restauração de
tudo quanto o marquez de Pombal intentára destruir, ou modificar.
Combatida de escrupulos suggeridos por falsos devotos a rasão da rainha
principiou logo a vacillar, e á prudencia e caracter limpo de allusões
do seu confessor o arcebispo de Thessalonica, D. Fr. Ignacio de S.
Caetano, é que ella deveu não se afogar mais cedo nas trevas da
demencia.
O governo de D. Maria I não foi, comtudo, um governo absolutamente
estacionario e inimigo de reformas. Se o risco das grandes cousas
traçadas pelo marquez de Pombal assustava a capacidade menos elevada dos
ministros, que lhe succederam, todos elles ao menos manifestaram bons
desejos e rectas intenções, seguindo, ainda que muito de longe, o
espirito moderno, que alvorecia em França, e cujos clarões ainda se não
haviam convertido nos relampagos deslumbrantes, que precederam a
revolução de 1789; ou nas tempestades medonhas, que revelaram as
subversões de 1792 e 1793.
Modesto nas idéas e nos commettimentos, o gabinete da rainha creou a
junta do codigo civil, cujos trabalhos nunca viram a luz da estampa;
fundou a Academia Real das sciencias; estabeleceu os estudos de
primeiras lettras e humanidades nos claustros das corporações regulares;
instituiu a casa Pia para asylo das creanças orphãs; dotou as aulas de
Fortificação e a Academia de Marinha; e decretou novas estradas e meios
de as executar sob a direcção de José Diogo de Mascarenhas Netto.
A entrada de D. Rodrigo de Sousa Coutinho no ministerio em principios de
1797, por morte de Martinho de Mello, introduziu na administração um
elemento activo, emprehendedor, e dedicado por indole e tendencias a
arriscar planos mais vastos e mais altos muitas vezes, do que o
consentiam as circumstancias e as forças debilitadas da monarchia.
III
Os tres sujeitos eram nada menos, do que tres delegados do
_conselho conservador de Lisboa_, associação composta de patriotas
dedicados á restauração da independencia, etc., pag. 88.
A existencia d'esta sociedade secreta politica não é uma invenção. Saiu
á luz dos prelos da imprensa regia um opusculo de 24 paginas de 8^o, com
a seguinte denominação _Catalogo por copia extrahido do original das
sessões e actas feitas pela sociedade de portuguezes, dirigida por um
conselho intitulado CONSELHO CONSERVADOR DE LISBOA, e installada n'esta
mesma cidade em 5 de fevereiro de 1808; tendo se unido os installadores
em 21 de janeiro do mesmo anno para tractar da restauração da patria_.
O conselho fundou-se em 5 de fevereiro de 1808 com seis socios que eram:
G... Matheus Augusto, José Maximo Pinto da Fonseca Rangel, José Carlos
de Figueiredo, Antonio Gonçalves Pereira, André da Ponte do Quental da
Camara; José Maximo da Fonseca foi nomeado secretario. O local das
reuniões decidiu-se que fosse alternadamente a casa de cada um dos
adeptos. A hora das conferencias ás 8 da noite.
A formula do juramento adoptada era esta: «Na nossa presença, oh
immenso, Sempiterno, Omnipotente Deus, creador do Universo, estando em
nosso accordo, sem constrangimento, ou duvida, livres e deliberados
jurámos tractar de hoje em deante com todo o possivel disvelo, fervor,
prudencia, e firmeza a causa nobilissima da religião da patria e do
throno applicando para isso nossas forças, talentos, bens e vida até
conseguirmos entregar este a seu dono o PRINCIPE REGENTE e áquelles o
esplendor, a liberdade, a gloria. Este juramento seja para sempre o
fundamento da nossa honra e da nossa felicidade, que chame sobre nós a
benção divina e os applausos da nossa posteridade: a violação d'elle,
pelo contrario, attrairá sobre nós as maldições do céu e da terra; a
vileza para nós e para os nossos descendentes.»
Na setima sessão prestaram este juramento um pouco theatral o coronel de
cavallaria Alvaro Xavier de Povoas e Fernando Romão da Costa Athaide
Teive. D'ahi em deante cresceu todos os dias o numero dos socios e
associados. Na sessão de 25.^o constituiu-se o _conselho conservador_ á
pluralidade de votos e ficou composto dos seguintes deputados e
adjuntos: o bispo de Malaca D. Francisco, o D. abbade de Belem fr.
Manuel de Mesquita, o arcediago do Funchal Manuel Joaquim de Sousa, o
beneficiado Joaquim José da Costa, o marquez de Angeja D. João, o conde
de Rio Maior, o visconde da Bahia, o desembargador Sebastião José de
Sampaio, o brigadeiro Antonio Marcelino da Victoria, os coroneis Lemos,
Lacerda, e Raposo, o tenente coronel Costa Athaide, o major Antonio
Marcelino Soares, e todos os mais socios approvados e admittidos. João
Carlos de Saldanha Oliveira e Daun, hoje duque de Saldanha, entrou
tambem no conselho inscripto sob numero 27. Consta da relação publicada
a pag. 87 do opusculo.
O conselho desde 5 de fevereiro até ao 1.^o de outubro de 1808, em que
se dissolveu, celebrou quarenta e duas sessões. O numero dos socios
ajuramentados subia a 183. O dos auxiliares abonados por varios d'elles
elevava-se a 959, além do concurso de tropa e povo, com que contava para
o caso de um rompimento.
Os planos de sublevação, as proclamações, os avisos ao almirante inglez
sir Charles Cotton, e os projectos da sociedade não corriam tão secretos
como elle imaginava.
A policia franceza suspeitava, pelo menos, se não conhecia plenamente a
organização d'este nucleo; porém não julgou prudente proceder contra
elle, temendo-se talvez mais de um processo ruidoso em circumstancias
criticas, do que dos tramas pouco bellicosos e activos dos
conspiradores. É o que se deprehende de um trecho da _Historia da Guerra
da Peninsula_ do general Foy.
IV
Muitos homens illustrados, que o grandioso espectaculo dos
acontecimentos advertia, suspiravam por uma renovação, que nunca
podia ser inspirada, bem o sabiam por experiencia, nem pelas idéas,
nem pela iniciativa de um governo caduco pag. 101.
Allude-se no texto ao plano de uma constituição similhante á que
Napoleão I concedêra ao grão-ducado de Varsovia, plano concebido,
segundo affirma o general Foy, no liv. II da sua _Histoire de la Guerre
de la Peninsule_, por alguns patriotas portuguezes, desejosos de
colherem ao menos da intrusão estrangeira os beneficios da liberdade.
O general Foy cita como auctores principaes do plano o desembargador
Francisco Duarte Coelho, o doutor Ricardo Raymundo Nogueira, reitor do
Collegio dos Nobres, e o conego Simão de Cordes Brandão, lente de
direito natural e das gentes na Universidade de Coimbra, e insere nas
provas sob a lettra _J_ o projecto de codigo politico, que então se
queria pedir a Bonaparte. (Tomo II, edição de Paris pag. 38 e seguintes
e pag. 469 e seguintes).
José Acurcio das Neves (_Historia da Invasão dos Francezes em Portugal_
tomo II) transcreve egualmente o documento, porém não diz claramente a
quem elle deve ser attribuido; mas o auctor da _Historia de El-Rei D.
João VI_, vertida em portuguez (Lisboa typographia Patriotica 1838 a
pag. 189-191), depois de nos dar tambem o projecto, accrescenta, que
esta mensagem fôra dirigida pelo doutor Gregorio José de Seixas de
accordo com muitas pessoas distinctas por engenho e representação.
Entretanto o padre José Agostinho de Macedo, como nota o sr. Innocencio
Francisco da Silva no tomo VII do seu _Diccionario Biliographico_ pag.
276, accusou em mais de um logar de suas obras a Simão de Cordes,
lançando-lhe em rosto o haver sido um dos que no fim do seculo passado
maior impulso tentáram dar á maçonaria em Portugal, e principalmente em
Coimbra, aonde chegára a organizar algumas lojas.
O bispo de Vizeu no _Elogio Historico_ fórma juizo absolutamente opposto
do procedimento e doutrinas de Simão de Cordes.
Sejam, porém, as que aponta o general Foy, ou outros auctores, o
projecto de constituição redigiu-se e corre hoje impresso. Restava o
mais difficil. Era necessario achar pessoa auctorizada, que se decidisse
a apresental-o. Acceitou a missão arriscada o juiz do povo, que era
então um tanoeiro chamado José de Abreu Campos, notavel pela firmeza e
integridade. Mais de um lance de nobre ousadia confirma esta opinião
formada com justiça ácerca do seu caracter.
Quando o conde da Ega foi incumbido por Junot de aggregar aos membros da
_Junta dos Tres Estados_ os representantes denominados dos braços da
nação para lhes extorquir em simulacro de côrtes um voto de adhesão, o
juiz do povo protestou contra os actos da assembléa, como illegaes e
emanados de corpo incompetente. Quando as quinas foram picadas e
substituidas pela aguia corsa, Abreu Campos negou-se a apagal-as da
cabeça da sua vara.
O juiz do povo correspondeu ás esperanças depositadas n'elle. Intimado
para assignar com o clero e a nobreza, em nome do povo, a mensagem de 24
de maio de 1808 (provas de _l'Histoire de la guerre de la Peninsule_,
par le general Foy. Paris 1827, tom. II, pags. 467-469) o honrado
tanoeiro, protestando contra o acto por nullo e abjecto, e contra os que
o practicavam por incompetentes, apresentou o projecto de constituição
composto em fórma de petição dirigida ao imperador, e appellou para o
voto do paiz representado em côrtes.
Esta voz isenta proclamando a emancipação politica offendeu os ouvidos
do duque de Abrantes. O juiz do povo, chamado ao quartel general, foi
asperamente reprehendido, e varias pessoas, suspeitas de liberaes,
mandadas sair de Lisboa.
Prevaleceu assim a mensagem servil dictada á simulada junta da nação.
José Sebastião de Saldanha partiu encarregado de a apresentar a Napoleão
I. Achando, porém, já interceptadas as communicações da Hespanha com a
França, recolheu a Lisboa sem ter podido passar adeante da cidade
Rodrigo.
V
Deixemos passar esses vultos, que pisam os sobrados nas pontas dos
pés, escorregando quasi como sombras. São rodas secundarias da
machina, pag. 111 e 112.
O general Junot, intitulando-se nos seus actos governador de Paris,
primeiro ajudante de campo de S. M. o imperador e rei, e general em
chefe do exercito invasor, compôz desde principio e da maneira seguinte
o pessoal do governo em Lisboa:
Por decreto datado de Lisboa no 1.^o de dezembro de 1807, nomeou
Francisco Antonio Herman commissario do governo francez junto do
conselho do reino de Portugal, o qual lhe daria conta de todas as suas
deliberações, podendo assistir a ellas, querendo, e assignar as actas.
Por decreto de 3 de dezembro, do mesmo anno foi Herman incumbido tambem
da administração geral da fazenda. Em 8 de dezembro foi encarregado o
general Laborde do commando superior de Lisboa e o conde de Novion do
commando das armas da cidade. O marquez de Alorna recebeu a nomeação de
inspector geral e commandante das tropas nas provincias de Traz
os-Montes, Beira e Extremadura (22 de dezembro de 1807).
J. J. Magendie já exercia as funcções de commandante em chefe da marinha
em 1 de março de 1808, como consta de um aviso seu aos officiaes da
arma, e aos empregados do porto de Lisboa, expedido n'essa data. P.
Lagarde foi nomeado intendente geral da policia do reino em 25 de março
de 1808, por decreto de Junot, referendado pelo secretario de Estado dos
negocios do interior e da fazenda, Francisco Antonio Herman. Por
decretos da mesma data nomeou Junot corregedor-mór da Extremadura a mr.
Pepin Bellisle, auditor do conselho de Estado, da provincia do Alemtejo
a mr. Lafond, e da provincia de entre Douro e Minho a Taboureau, ambos
tambem auditores do conselho de Estado. Quintella foi feito
corregedor-mór da Beira.
O decreto, que approvou as instrucções dictadas a estes novos
magistrados, sahiu com a data de 2 de abril de 1808. Por decreto de 16
de abril do mesmo anno foi Lagarde nomeado conselheiro do governo para
assistir ás sessões do conselho. A 16 de abril já o general Junot havia
recebido de Napoleão o titulo de duque de Abrantes.
INDICE
A Camillo Castello Branco 5
I--Uma noite desabrida 7
II--O moinho da Raposa 15
III--Duas paginas da historia d'este seculo 21
IV--O bem soa, o mal voa 32
V--Não ha atalho sem trabalho 43
VI--Ressurreição de Lazaro 55
VII--Segredos em toda a parte 67
VIII--Entre os bastidores 83
IX--Que talvez podesse servir de prologo 100
X--Tolda-se o tempo 111
XI--Achilles e Nestor 127
XII--Arcades ambo! 138
XIII--Dois parentes 147
XIV--Amor 156
XV--Cubiça e Nobreza 166
UM REINADO TRAGICO
(Complemento da HISTORIA DE PORTUGAL)
Por * * *
Edição Popular e Illustrada
Com grande numero de retratos dos homens contemporaneos, e de gravuras
representativas dos acontecimentos mais notaveis do reinado de D. Carlos
Attendendo a instantes pedidos de muitos dos assignantes da nossa
*Historia de Portugal*, resolveu esta Empreza publicar um novo livro
que, embora seja como que o complemento d'aquella--e por isso
absolutamente egual em formato, papel, etc.--será no emtanto
completamente independente dos anteriores volumes, e no qual, sob o
titulo de *Um Reinado Tragico*, se fará a descripção de todos os
successos politicos que vão desde o _ultimatum_ de 11 de janeiro de 1890
até aos tragicos acontecimentos de 1 de fevereiro de 1908, que
determinaram a subida ao throno portuguez do rei D. Manuel II.
Publicação em fasciculos semanaes de 16 paginas, in-4.^o grande, ao
preço de
60 RÉIS
ou a tomos mensaes de 5 fasciculos, ao preço de
300 RÉIS
FLOS SANCTORUM
Vida de todos, os santos e martyres do Christianismo
SEGUINDO, DIA A DIA, A ORDEM DA SUA COMMEMORAÇÃO PELA EGREJA
Trabalho de compilação e de synthese, feito sobre os mais modernos e
conscienciosos estudos
PELO
Rev. Dr. SANTOS FARINHA
Bacharel formado em theologia pela Universidade de Coimbra e parocho
collado da freguezia de Santa Izabel, de Lisboa
Illustrado com centenares de gravuras
Cada fasciculo semanal de 2 folhas de 8 paginas cada, in-4.^o grande,
contendo pelo menos 2 gravuras,
60--REIS--60
Cada tomo mensal de 5 fasciculos, ou 80 pag., grande formato, contendo
numerosas gravuras,
300--REIS--300
DIRIGIR OS PEDIDOS Á
EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
SOCIEDADE EDITORA
Livraria Moderna--Rua Augusta, 95, Lisboa
TYPOGRAPHIA--45, RUA IVENS, 47
Notas:
[1] Eram pannos lavrados, ou lisos, que vestiam as paredes. Tambem se
usavam de couro.
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+----------+------------------+-------------------+
| | Original | Correcção |
+----------+------------------+-------------------+
|#pág. 15 | hombos | hombros |
|#pág. 17 | á | é |
|#pág. 26 | nosas | nossas |
|#pág. 27 | Bonapart | Bonaparte |
|#pág. 29 | anino | animo |
|#pág. 31 | presa | pressa |
|#pág. 33 | ruidasa | ruidosa |
|#pág. 33 | costumudo | costumado |
|#pág. 44 | cava | cave |
|#pág. 53 | do | de |
|#pág. 57 | Pedr | Pedro |
|#pág. 64 | inop nada | inopinada |
|#pág. 68 | quatros | quatro |
|#pág. 68 | e | o |
|#pág. 78 | acabavaentão | acabava então |
|#pág. 79 | da mesmo | do mesmo |
|#pág. 84 | naural | natural |
|#pág. 108 | noneada | nomeada |
|#pág. 110 | setes | sete |
|#pág. 122 | os que os | que os |
|#pág. 127 | Azevdo | Azevedo |
|#pág. 156 | attribindo-a | attribuindo-a |
|#pág. 180 | do | dos |
|#pág. 185 | segunda | segundo |
+----------+------------------+-------------------+