do seu interlocutor. Aonde estão os homens para isso? Bastaria o som de
um tambor para os espantar, e Junot conhece-os. Cuida que dou fé ás
proclamações e aos conciliabulos do Conselho Conservador? Becas,
sotainas, velhos fracos, negociantes, e frades, que tremem da sua
sombra, ousarão nunca medir-se com os soldados de Bonaparte em um
combate?!... Senhor bispo de Malaca, se palavras e balas de papel
matassem, então sim, mas!...
--Manuel Coutinho, a dor torna-o injusto. Essas becas e esses frades são
mais fortes, do que os soldados em volta de suas bandeiras. Lembre-se de
que puzemos a cabeça em cima do cepo, e de que estamos resignados a
padecer!... Não esperava que o escarneo caísse da sua bôcca sobre nós!
Aprende-se mais depressa a morrer com ruido no meio do fogo e dos
alaridos de uma batalha, do que a aguardar o algoz sobre os degraus do
cadafalso?... E ninguem sabe melhor se elle póde ferir, e se todos
estamos decididos a jogar a cabeça n'esta partida... em que apostámos
honra, bens, e vida pela patria...
--Sei, mas o povo cala-se e obedece. Lisboa chora e supporta. O reino...
--O reino accordou, e não torna a adormecer. Por isso lhe disse que
estavamos nas vesperas da victoria...
--O reino accorda?! Mas eu ignoro tudo!... Senhor bispo de Malaca!...
Compadeça-se da minha impaciencia. Bem vê! Estou quasi louco! Conte com
o meu braço, com o meu sangue. Ha alguma esperança?...
--Ha mais do que esperanças, ha factos. Prepare-se! dentro em pouco o
seu posto será nas fileiras de seus compatriotas, no exercito da
independencia. Leia! Adore os designios profundos da Providencia.
Manuel Coutinho, arrancando-lhe quasi da mão o papel, que lhe offerecia,
correu-o todo em um relance de olhos, e apenas o sentido lhe penetrou a
intelligencia, o sangue em ondas affluiu ás faces, as pupillas
faiscaram, e uma expressão de jubilo, e de enthusiasmo subito avivou-lhe
as feições.
--O norte sublevado!... murmurava lendo, e detendo-se, como se julgasse
impossivel o que lia. O Porto talvez levantado a esta hora!
Traz-os-Montes e o Minho ámanhã, ou depois em armas!... Os inglezes em
Cork, ou já no mar para desembarcarem!...
E o suor borbulhava-lhe na fronte, e a vista scintillante devorava cada
lettra do escripto.
--Meu Deus! Se isto é sonho, ou delirio meu, fazei que nunca desperte
d'elle.
--Então, filho, disse o bispo sorrindo-se com mansidão, ainda acha que a
justiça divina coxêa, e dorme? Arrepende-se agora da sua pouca fé?! Pois
bem! Já vê que as becas e as sotainas ainda valem alguma coisa. O
milagre fez-se, e um bispo é quem ha de no Porto presidir, ao governo do
reino restaurado. Sei-o de certeza.
--Seguiu-se uma pausa curta, durante a qual os olhos e as mãos do
mancebo se elevaram ao céu em um gesto sublime de gratidão e de crença
fervorosa. Depois a cabeça inclinou-se, a vista fitou-se no chão, os
braços descaíram e duas lagrimas de dor e de alegria saltaram do
coração, e correram vagarosas pelas faces.
O bispo contemplava o rosto do amante de Leonor de Azevedo, e traduzia
com a perspicacia dos annos e da reflexão os signaes fugitivos da lucta
das paixões.
Por fim venceu a razão. Manuel Coutinho, como se quebrasse de repente a
prisão, que lhe paralyzava as faculdades, serenado o semblante, acabou
de exhalar em um suspiro a maior oppressão, que lhe confrangia o peito.
--Fui temerario, senhor bispo. Falei mal de Deus e dos homens! Cegou-me
o orgulho, e deixei-me arrastar pelas loucuras da tristeza. Desesperei
da Providencia no momento em que ella nos accudia!...
--Só Deus é grande, filho! O que somos, e o que podem os nossos juizos
falliveis em presença da sabedoria eterna?! Arrepende-se? É o essencial.
Vamos ao que importa. Já viu D. Leonor?...
--Não! Faltou-me o valor. O que havia de dizer áquella infeliz, ferida
de tantos golpes a um tempo?... A imagem do patibulo de seu pae, visão
lugubre e incessante, segue-a por toda a parte. Nos seus olhos leio o
desespero e a morte. Amo-a, senhor bispo, amo-a desde a infancia, como
não amei minha mãe, como não estremeço meus irmãos, como não adoro... ia
soltar uma blasphemia!... Enlaçadas desde a meninice pela mesma ternura
nossas duas almas ha muito que não fazem senão uma. O que ella sente e
chora, as suas lagrimas de sangue, caem-me todas, ardentes como fogo,
aqui, dentro do peito, e escaldam-m'o. O véu branco da noiva será em
breve o negro fumo da orphã, e viuva sem chegar a ser esposa, sei,
adivinho, que um claustro começará a abrir-lhe a sepultura, aonde ella,
aonde nós havemos de descançar ambos!... Não sem eu me vingar primeiro!
--Manuel Coutinho, deixe a Deus o cuidado de punir! Socegue! A voz da
liberdade, a voz da patria chamam por nós. Seja homem! Seja soldado! Tem
uma espada, não faça d'ella um punhal, arma de traidores!... Leonor está
mais tranquilla, mais resignada. Vi-a hoje, e já falámos a seu
respeito...
--E ella?!... Disse-lhe?! Espera?!...
--Disse-me tudo e espera. Paulo de Azevedo não morreu, e havemos de
salval-o. Tenha mais fé. Não atormente com os delirios da sua paixão a
existencia propria, e aquella alma sensivel e melindrosa, que treme que
uma imprudencia, venha abismar no mesmo naufragio os dois amores da sua
vida!... Se não fosse o seu genio arrebatado confiava-lhe um segredo,
que Leonor se não atreveu nunca a dizer-lhe, porque receia os impetos da
sua cholera, mas que havia por outro lado de aplacar-lhe a afflicção...
--Diga-me tudo, senhor bispo. Prometto, juro vencer o meu genio.
--Veja lá! Dá-me a sua palavra de cavalheiro de fazer o que eu lhe
aconselhar depois?...
--Dou. O segredo?...
--A vida de Paulo de Azevedo não corre por ora risco. É o penhor com que
Lagarde tenta extorquir a D. Leonor uma promessa de casamento...
--Oh o infame!... E eu aqui de braços cruzados!...
--Se me não me escuta, calo-me. Lembre-se da sua promessa.
--Sou mudo. Sou uma estatua.
--Bom! Saiba, pois, que o intendente da policia imaginou enriquecer um
sobrinho arruinado, dotando-o com os bens da filha de Paulo de Azevedo.
Pediu-lhe a mão em Mafra ha mezes, foi repellido, e vingou-se
perseguindo o cavalheiro e sua filha...
--Assim a causa de todas as desgraças sou eu!?... atalhou o mancebo
impetuoso. Leonor e seu pae padecem por amor de mim, e no meio de seus
prantos e do lucto da sua alma aquelle anjo nem uma queixa soltou ainda
contra o algoz da sua vida! Porque sou eu que a torno infeliz e
inconsolavel!... Hei de mostrar-me digno do sacrificio! Hei de...
--Comece por se mostrar digno das minhas confidencias, escutando-as.
Observou o bispo com um sorriso. Lagarde ameaça Paulo de Azevedo,
tem-lhe a espada suspensa de um fio sobre a cabeça para vencer a filha;
mas no fim é tão interessado como nós em conservar vivo o unico fiador
de suas esperanças!... O conselho de guerra não se reune, e mesmo que
chegue a ser convocado, a sentença não passa do papel.
--E Leonor?!...
--Altiva e varonil redobra as resistencias. Mesmo ao pé do cadafalso de
seu pae prefere morrer com elle, creio, a comprar-lhe o perdão por um
preço vil...
--Bem sei! O seu coração envergonha o de muitos homens!... Como se chama
o sobrinho de Lagarde, esse noivo feito á força, cujo papel, tão nobre
(!) entra como parte principal na tragedia de nossas desventuras?...
accrescentou Manuel Coutinho em voz lenta e sombria, a que um toque de
ironia cruenta avivava a expressão.
--Porque o pergunta?
--Para ajustar no mesmo dia todas as minhas contas.
--Já se esqueceu da sua promessa?
--Não! Mas!...
--Quando for tempo de o desligar d'ella sem perigo seu e nosso... então
falarei. Agora não. Sabe que ámanhã, depois da procissão do Corpo de
Deus, se esperam grandes novidades?
--Aonde?... Se soubesse a minha impaciencia?!...
--Em Lisboa. Aonde queria que fosse?...
--E contam commigo?... Qual é o posto que hei de occupar?...
Asseguro-lhe que só por cima do meu cadaver...
--Sei muito bem. Guarde para si a noticia, vá ver Leonor, demore-se
pouco, porque ella espera uma visita, ou antes duas...
--Visitas!... De quem?...
--Segredo de estado. Depois saberá...
--Porém!...
--Não insista. Se podesse dizer-lh'o, cuida que me calava? A proposito!
Se por acaso estiver lá em cima, quando elles... digo, quando as visitas
chegarem, jura pela sua honra obedecer em tudo a Leonor, e voltar aqui
pela escada do meu gabinete?...
--Mas!... Tantas precauções fazem-me suppor!...
--Supponha o que quizer. Jura?...
--A minha confiança na sua virtude é tal, que de olhos fechados me
entrego em suas mãos. Juro!
--Não ha de arrepender-se. Sem isso não o deixava subir...
--Mas padre, mas senhor bispo! Essas visitas são então de inimigos?...
--Talvez! E então?! Cobre-os, quem quer que sejam, o tecto d'esta casa,
recebo-as como hospedes, é quanto basta, julgo!...
--Oh! Dava metade da minha vida por adivinhar...
--O caso não merece o sacrificio!... Deixe instruir o processo, deixe
informar os juizes, e quando lhe chegar a sua vez... nós o chamaremos.
--Obrigado! Como instrumento cego?!...
--Não. Como um coração generoso, como um amigo seguro, porém...
perigoso. Estamos perdendo tempo! Leonor espera-o. Nem uma palavra do
que se conversou aqui, e sobre tudo recorde-se do que jurou...
--Hei de cumprir a minha palavra como homem de honra, mas depois, sr.
bispo!...
--Depois... O que Deus quizer! Dá o mundo tantas voltas em poucas horas,
Manuel Coutinho, que nos deitâmos rapazes, e ás vezes accordamos velhos.
Deixe andar os homens e as cousas. Creia no tempo. É grande medico.
Adeus! Vou tractar de uma doença, que dá maior cuidado... Portugal está
enfermo e não póde esperar.
E despedindo-o com um sorriso e um aceno de mão cheio de bondade, o
velho prelado entrou para um aposento terreo, cujas portas de vidraças
abriam sobre o jardim, em quanto o mancebo voltou em busca da escada de
pedra, que subia para as salas do primeiro andar.
XII
Arcades ambo!
--Está certo do que affirma? Veja lá!... A policia não gosta de
representar papeis tristes, e um erro nas circumstancias actuaes póde
ter consequencias... Repita! Viu os homens? Sabe o seu intento?...
--Vi, sim senhor! Largava a falua quando eu cheguei, e por um triz me
não apanham!... Sempre curti um medo! A gente não ganha para sustos...
--Está bom! E como soube que vinham para a revolução, que os inimigos de
sua magestade o imperador e rei tramaram para ámanhã durante a procissão
do corpo de Deus? Olhe bem! Não se allucine...
--Não ha engano, não senhor. Aqui trago quem ouviu tudo. Gaspar,
chega-te! S. ex.^a dá licença. Dize para ahi o que saccaste do bucho ao
alarve do Paulo Penedo, e o que ouviste na Ponte da Asseca.
--Ah! Este homem ouviu?!... Bem! Então que fale.
O dialogo, que estamos escutando, tinha-se travado, como o leitor já
percebeu de certo, entre o intendente Lagarde, o sargento Cabrinha, e o
seu assessor Gaspar Preto.
Os honrados malsins, farejando a denuncia lucrativa, corriam de Villa
Franca, aonde se haviam transportado a cavallo, e traziam nos alforges
nada menos do que uma boa conspiração para attrahir sobre si a chuva de
ouro, com que o ministro francez costumava recompensar os serviços
relevantes dos seus agentes.
Ainda que o sargento desempenhasse o papel principal, manda a verdade
que se diga, que a gloria do descobrimento pertencia de direito ás
longas e afiadas orelhas do seu digno assessor. Fôra o _Sapo_, apezar de
meio homiziado depois da prisão de Paulo de Azevedo, devida, como
sabemos, á sua traiçoeira actividade, quem, espreitando os passos do
Antonio da Cruz e do João da Ventosa, e as idas e voltas nocturnas dos
embuçados, que frequentavam a casa arruinada da Ponte da Asseca,
principiára a desconfiar de que as ruidosas cavalhadas das almas do
outro mundo nas salas desertas do palacio encobriam planos politicos.
Para melhor se certificar, provou Gaspar, que não roubára a alcunha por
que era conhecido.
Cozeu-se, como o _Sapo_, com as pedras caídas, que do lado da porta do
João da Ventosa pegavam com o tapume, por onde elle introduzia as
visitas, segundo vimos atraz, nos quartos do primeiro andar, penou frios
e fomes, tiritou de mêdo mais de cem vezes, mas por fim conseguiu o seu
fim.
Seis dias antes da festa do Corpo de Deus, ás onze horas da noite, por
um luar esplendido, colheu em flagrante tres dos fantasmas, que tanto
desejava avistar, e teve a rara felicidade de os conhecer a todos.
Viu-os entrar. Ficou firme no seu posto. A divindade protectora dos
mexericos segredava-lhe que se os olhos tinham alcançado muito, os
ouvidos ainda podiam obter mais. A sua paciencia merecia premio, e o
demonio, cujo era, não lh'o negou.
Quando se ía já sentindo quasi inteiricado de jazer enroscado, como a
serpente, os conspiradores saíram. Principiava a aclarar a madrugada. Um
d'elles, o capitão de milicias de Rio Maior, dotado de uma voz de baixo
profundo, voltando-se para os outros, disse-lhes:
--Façam-me uma fogueira bem vistosa lá pelos sitios de Leiria, e
assem-me n'ella esses hereges e jacobinos, que os de aqui ficam por
minha conta! Não havemos de ser menos que os de Bragança e Villa Real!
Viva o principe regente, nosso senhor!
Os poderes do orgão vocal do herculeo capitão eram tão extensos, que
este desafogo innocente do seu patriotismo seria assaz perigoso, se a
solidão e a noite o não cubrissem. Entretanto os amigos, menos
intrepidos, recommendaram-lhe prudencia, e o gigante, docil como uma
creança, submetteu-se, encolhendo os hombros, a estes conselhos timidos.
O morgado de Penin e outro cavalheiro apartaram-se então um pouco. Quiz
o acaso que fosse para o lado, justamente, em que o virtuoso Gaspar se
occultava; e o terror do malsim subiu tal ponto, que esteve um instante
para o trahir!
Vendo de repente o Antonio da Cruz, o João da Ventosa, e o Manuel da
Aramanha, o resurgido, tão proximos do seu covil, que bastaria um
d'elles extender o braço para o agarrar, não foi senhor de si. Vinham
atraz dos personagens principaes, e tudo inculcava que não vinham por
curiosos. O _Sapo_, frio de neve, e todo um calafrio de medo,
ennovellou-se n'uma bola para occupar menos espaço, e fez a Nossa
Senhora da Saude a promessa solemne de uma missa e de uma perna de cêra
se permittisse, que nenhum dos cinco désse com elle alapado n'aquella
toca, seguro de que, se escapasse por milagre ao alentado varapau do
ex-assassinado fazendeiro, a bala da espingarda, que o moleiro trazia ao
hombro, não o erraria de certo em nenhum caso.
Os conspiradores estavam longe de se supporem espiados, e traziam outros
cuidados.
Voltando-se para Antonio da Cruz, o morgado disse-lhe:
--Já sabes! No dia de Corpo de Deus has-de estar em Lisboa. És lá
preciso!
--Se meu amo mandar!
--De certo. Mas sei que manda. O Paulo Penedo não tarda com as ordens...
E você, sôr João da Ventosa, deixa-se ficar por cá, ou acompanha tambem
o Antonio á côrte?
--Eu, sôr morgado, lá por ir, ia; mas assim sem saber o que a gente lá
vae fazer?!...
--Ora! Vae dar um passeio, vêr a procissão, que se despovoam aldêas e
logares para accudir a ella... e depois!... Adivinha-me este dedo, que o
seu cajado talvez não fique por lá parado!... Gosta dos francezes?...
--Como o diabo da cruz, senhor! Pelo amor que lhes eu tenho... e o bem
que me fizeram!...
--Pois vá, homem, que póde ser que não perca o seu tempo. Ás vezes
d'onde menos se espreita sae coelho...
--V. s.^a que diz isso!... Está bom. Não é preciso mais. Senhor mandar,
preto obedecer!... E tu, Antonio Simões, estás ahi sem atar nem desatar?
Porque não vens com o Antonio e commigo á festa? Tens medo dos
francezes, homem?
--Salva tal logar, sôr compadre! Mas que quer você que eu vá fazer á
côrte pregado no meio das ruas como uma estaca? Com mil cobras? Se por
lá bispasse o alma ruin do sargento, ou aquelle excommungado _Sapo_,
ainda, ainda; mas qual! sumiu-se a terra com elles!...
--Qual sumiu! Aposto um almude dobrado contra duas canadas singelas em
como as duas osgas estão pegadas em alguma parede de Lisboa...
--Veja lá, sôr compadre! Se tem palpite n'isso é outra cousa: pernas a
caminho. N'um sopro deito o albardão á égua... Não morro quieto se não
racho de meio a meio aquelles dois patifes.
--O _Sapo_ fica por minha conta, atalhou o moleiro. Prometti-lh'o e hei
de cumprir. Você, sôr João, que me diz da figueira de José Lopes, alli
em cima, no alto do logar?
--Ora essa! Que é boa arvore. Porque?...
--Pois juro-lhe que dá figos de enforcado para o anno. Antonio me não
chame eu se não pendurar do pescoço em um dos ramos o judas do Gaspar
Preto antes do dia do natal!...
--Você sempre tem cousas, sôr Antonio!
--Vá com o que lhe digo. De mais, pouco ha de viver quem o não vir.
--Então, rapazes? atalhou o morgado, que estivera conversando a meia voz
durante o colloquio dos tres. Quem vae a Lisboa?...
--Saberá v. s.^a que nós todos tres!
--Ora assim é que é. Gosto de os vêr de feição. Bebam por lá um copo, ou
dois, de vinho á minha saude, e outro á do principe regente, nosso
senhor, o qual, querendo Deus, muito cedo teremos n'estes reinos para
gloria da patria e da santa religião!...
E o morgado, assim como os ouvintes, desbarretaram-se com toda a
reverencia como bons catholicos e vassallos fieis e respeitosos.
--Adeus, Antonio, proseguiu. Recados a teu amo! Diz-lhe que nós cá
estamos, e que o que fêr soará. Sôr João! Volte depressa. A caldeira
está ao lume, ha de ferver, e póde ser necessaria a casa...
--Quando v. s.^a mandar, sôr morgado.
--Olhe! Se no meio da procissão, ou depois, houver algum barulho, não me
metta as mãos nas algibeiras. Dê-lhes com alma, desanque-me os jacobinos
moa-m'os como farinha, hein?...
--Vá v. s.^a descançado.
--Vou! Vou! Vocês não deixam mal o Ribatejo. Até á volta. São horas.
Os tres de fóra foram buscar os cavallos, e d'ahi a pouco desappareciam
a galope pela Ponte da Asseca. O lavrador e os seus amigos recolheram-se
tambem logo. D'ahi a instantes resonavam a somno solto.
Quem não tinha vontade de dormir era o _Sapo_, o qual, arrastando-se do
esconderijo, fulo de terror, respirava a custo, estirando os braços,
mais morto do que vivo.
A ameaça do Antonio da Cruz soava-lhe nos ouvidos como um dobre funebre,
e por vezes sentia já em imaginação os gorgomillos tão apertados como se
lh'os estreitasse a promettida e fatal corda!
A reputação merecida do moleiro de não quebrar palavra dada fazia-o de
mil côres, e a voz da consciencia, que só o susto tinha o condão de
accordar de véras, advertia-lhe, que provocára, não uma, porém cem
vezes, o castigo.
Não vendêra elle ao sargento o segredo do asylo em que se homiziava
Paulo de Azevedo, abusando da hospitalidade de Antonio da Cruz, o qual,
tendo-o poupado, o julgára grato? Não fôra causa da prisão do Cavalheiro
de Mafra, da magoa de Leonor, e do desespero de Manuel Coutinho? Agora
mesmo, não colhêra um segredo, que podia custar a vida e a liberdade a
tantas pessoas?
Gaspar era logico. Convencido de que a sentença proferida era
irrevogavel, tractou de se eximir aos seus rigores pelos meios usuaes,
isto é, accumulando novas traições. Coxeando e rastejando partiu para a
villa, aonde amanheceu á porta do sargento, cuja cholera exacerbada pela
certeza de ter servido de alvo á irrisão na famosa noite dos fantasmas,
soube artificiosamente exaltar. O _Sapo_ acabou de o petrificar,
narrando-lhe as ameaças do Antonio Simões da Aramanha, e o plano,
interceptado por elle, de grandes tumultos em Lisboa durante, ou depois
da procissão do Corpo de Deus.
A noticia valia o seu pezo em ouro, e Cabrinha decidiu-se a ser em
pessoa o portador d'ella.
A chegada de Paulo Penedo, emissario de Manuel Coutinho para chamar o
moleiro em seu nome á capital, confirmou as informações do agente.
Gaspar, a troco de pão, queijo, vinho, arrancou sem difficuldade ao
camponez boçal quanto elle vira e ouvira do patrão em Lisboa.
Separou-se, deixando-o convencido de que o amante de Leonor de Azevedo
não tinha mais leal amigo.
Depois d'esta ultima proeza, os dois malsins começaram a jornada até
Villa Franca, aonde haviam de embarcar, o sargento ardendo em
impaciencia de cingir na fronte os louros, e de sepultar no bolso as
peças de 7$500, que Lagarde não cisava aos que o serviam zelosamente: o
_Sapo_, cujas vigilias eram cada noite mais tormentosas, acompanhando o
patrono a Lisboa, primeiro para se afastar o mais possivel da figueira
do alto do Valle, depois, para ter o gosto de vêr mettidos na enxovia do
Limoeiro, graças á sua honrada lingua, o Antonio da Cruz, o João da
Ventosa, e o Antonio Simões.
Já os ouvimos confessar ao intendente da policia, que por um instante
não caíram na bôcca do lobo em Villa Franca, e encontrando-os no
gabinete do ministro, no exercicio de suas funcções, convem notarmos,
que tinham sido activos no desempenho da sua missão, como homens fieis
aos interesses proprios, e devotos da causa que abraçavam.
Lagarde escutára com attenção o depoimento lucido e conciso, que o
_Sapo_, sem trepidar, lhe recitou, como licção aprendida de cór,
admirando a prodigalidade, com que a natureza favorecêra este ente quasi
disforme e rachitico, que, encarado á primeira vista, não promettia,
senão fraqueza e estulticia.
Depois de tomar algumas notas, consultando um, ou dois papeis, e
tornando-os a encerrar nas gavetas do bofete, o intendente conservou-se
silencioso por momentos, scismando profundamente.
--A conspiração existe, dizia elle comsigo. Aqui estão as provas d'ella;
mas quem ha de persuadir o duque, e vencer o seu amor proprio? A leitura
d'aquelle maldito plano atrazou-nos!... Não importa. Deixal-os rir! A
mim compete-me velar para que riam sem perigo.
Virando-se depois para os agentes, que aguardavam calados as suas
ordens, acrescentou:
--Sargento! Estamos na pista de um trama complicado. Fique em Lisboa com
este homem, e procure hoje de tarde o meu secretario Loisy. Elle lhe
dirá o que ha de fazer.
Estas palavras, e o gesto do ministro avisaram os dois, de que a
audiencia estava terminada. Saíram logo, mas ainda Lagarde não tinha
tido tempo de percorrer com os olhos um papel, que acabavam de lhe
entregar, abriu-se uma porta particular, e entrou no escriptorio um
mancebo, de rosto jovial, vinte oito annos de edade, e figura esbelta,
realçada pelo uniforme de official de cavallaria, trajado com garbo. Era
seu sobrinho Armand de Aubry.
XIII
Dois parentes
O intendente accolheu o recem-chegado com um sorriso, e extendeu-lhe a
mão com amizade. Aubry apertou-lh'a sem ceremonia, encarou-o com ar
malicioso por momentos, e disparou-lhe depois na cara a mais longa e
estrepitosa risada, que de certo tinham ouvido aquellas paredes, desde
que a Santa Inquisição reinava dentro d'ellas.
--Ah! Ah! exclamou fazendo esforços em vão para se reprimir. Que duas
figuras unicas, que duas corujas agoureiras acabo de encontrar no
corredor!... Pelo que vejo a procissão de ámanhã leva anjos, demonios,
serpentes, e até estafermos do mais curioso feitio. Estes dois são
magnificos. Sobre tudo um... o mais baixo. É admiravel!
--Porque? atalhou Lagarde.
--Porque, meu tio? A pergunta é rara! Aquella cabeça de anão, aquella
cara de papel, e os saltos de rã da perna coxa promettem á festa um
palhaço soberbo. Por quanto se aluga aquelle senhor? Juro-lhe que vale
quanto pesa... em cobre. Dou-lhe os parabens! Foi um achado. Posso saber
o que elle custa á policia de sua magestade o imperador e rei?!...
E o official dizendo isto ria como um louco, afagando o bigode louro, e
saccudindo o pó das botas de montar com a ponta do junco flexivel, que
trazia na mão.
--Não custa barato, Armand! redarguiu o intendente, sorrindo-se tambem.
Aquelle anão, assim mesmo contrafeito e ridiculo como te pareceu...
--Esse _pareceu_ é delicioso, meu tio! Continue. Sou todo ouvidos.
--Vale mais do que muitos homens guapos e bem postos.
--Quem tal diria! Então é um diamante bruto?...
--Talvez. Dentro em pouco vel-o-has chefe...
--Chefe? Muito bem. E de que tenciona invental-o chefe? Acaso a policia
conta distraír os portuguezes de suas saudades, armando tablados ao ar,
e escripturando polichinellos?
--Não! redarguiu Lagarde um pouco enfadado dos motejos do sobrinho. A
policia aspira a funcções mais modestas. Lisboa, esta cidade immunda
como as do Oriente, começa já a ser outra cousa... As ruas...