meditam desembarques na peninsula, accudiu Lagarde em ar grave.
--Veremos se em terra são felizes como no mar! observou o conde da Ega.
--Mesmo no mar, redarguiu Magendie, espero que não hão de forçar-nos a
barra sem deixarem nos escolhos um par de navios. Temos de observação
entre as torres a fragata _Graça Phenix_ e mais dois vasos de alto
bordo, artilhados, mas incapazes de navegar; em Belem estão fundeadas
tres charruas...
--Bem! Bem! tornou Junot. Duvido que rocem as barbas pela bôcca de
nossos canhões, Magendie! Oxalá que todas as tempestades nos viessem só
do mar... O peior de tudo, senhores, é que o chão treme debaixo dos pés,
e...
--Que a traição vela á nossa cabeceira? Notou Lunyt, limpando os vidros
dos oculos, e falando no mesmo tom lento e nasal, com que lia.
--É verdade, Lagarde! Conspira-se, trama-se, e não nos dizieis nada!...
--Para que? Quando uma nação inteira está conjurada, general, a policia
passa, vê, e dissimula. Prisões e devassas, de que serviriam, senão de a
irritar mais? Descobrir o que ella quer, tirar-lhe os pretextos, e
escolher a occasião de ferir a muitos de uma vez pelo terror do mesmo
golpe, eis o segredo dos que sabem dominar.
--Sim! Bem sei! É a theoria de Fouchet, do duque de Otranto!...
--E para este caso a unica aproveitavel. O que diria o sr. conde da Ega,
tão nosso amigo...
--Eu!... Pois eu!...
--Se lhe mettessemos no castello, ou nas torres dez, ou doze parentes de
toga, e de espada, que estão conspirando a esta hora mesmo contra o
governo de sua magestade o imperador e rei?!... proseguiu o intendente
com o seu riso agudo e estridulo, similhante ao som do córte de uma
serra.
--Ah! Os parentes do sr. conde de Ega tambem são contra nós?!... notou
Junot vagarosamente.
--E os da senhora condessa ainda mais!... observou Lagarde trespassando
o general com a vista afiada e ironica.
Uma nuvem escureceu a fronte do duque de Abrantes. Aquella seta viera
cravar-se-lhe direita no peito. O guerreiro destemido, coroado tantas
vezes pela victoria no meio de proezas heroicas, era accusado de
excessiva sensibilidade perante o bello sexo; e a formosa condessa da
Ega, segundo se dizia, graças a seus enlevos e encantos, tinha
conseguido tornal-o escravo do menor de seus caprichos.
O general inclinou a cabeça, correu os dedos pela fronte annuviada, como
se quizesse saccudir com o gesto pensamentos importunos, e, sem
responder á allusão, levantou-se, e deu alguns passos pela casa, talvez
para ter tempo de se assenhorear de si, vencendo a commoção. Os olhos
dos outros vogaes do conselho fitaram-se no semblante do conde da Ega
por um movimento irresistivel. Sem resultado! Ayres de Saldanha, por
calculo, ou por ignorancia, não denunciava na physionomia, senão a
indifferença apathica, prova real da mais virtuosa confiança. Herman e
Lagarde trocaram um sorriso fino, que não abonava a sua credulidade na
innocencia apparente do fidalgo portuguez.
N'este momento a mão de um ajudante de ordens arredou as prégas do
pesado reposteiro, e sem proferir palavra entregou a Junot dois maços
cuidadosamente lacrados. O duque recebeu-os tambem calado, e veiu
sentar-se na ampla cadeira de braços, d'onde se erguêra minutos antes.
Emquanto rompia o sobrescripto do primeiro, e corria os olhos pelo
volumoso officio, era facil notar no seu rosto, de ordinario sereno e
intrepido, a apprehensão causada por noticias desagradaveis. Antes de
passar á leitura do segundo maço, e de lhe rasgar a capa, os que o
conheciam assustaram-se, apercebendo-se de certa hesitação momentanea,
notavel em caracter tão firme, porque seguramente inculcava mais do que
sobresalto, ou torvação. Ao mesmo tempo recebia Lagarde um papel
fechado, que não lhe causava menor cuidado, do que os dois officios ao
general. Houve um minuto, ou dois de profundo e ancioso silencio.
--Nome de Deus! exclamou o duque de Abrantes incapaz de conter as
paixões, e amarrotando irado o papel. Verifica-se o que sempre
prognostiquei. Não me quizeram attender, decidiram tudo em Paris sem
entender nada, e agora cá estamos nós para carregar com o peso de todas
as culpas!... Quantas vezes os avisei e lhes disse a verdade! Deram
finalmente aos inglezes o campo de batalha porque tanto suspiravam; não
contentes fizeram suas alliadas duas nações inteiras. Veremos agora como
desatam o nó!
E recostando os cotovellos na mesa, e a cabeça entre as mãos, sem fazer
caso do espanto excitado pelas suas phrases, abysmou-se em sombria
meditação.
--O que é? O que succedeu?... perguntava o conde da Ega a Herman.
--Pouco viverá quem o não souber! redarguiu o malicioso diplomata,
encolhendo os hombros. Rapaziadas dos portuguezes, aposto!...
--Mais do que rapaziadas, senhor Herman! atalhou o intendente geral da
policia, que de livido se tornára verde, cujas pupillas chammejavam,
cujo sorriso era uma contorsão diabolica. Estamos sobre um vulcão.
--Apagado! replicou o ministro do reino inalteravel. Esta gente de
Lisboa não é para emprezas altas. Queixa-se com saudades, fala, ameaça,
mas por fim faz-se d'ella o que se quer. Em lhes não tocando nos seus
lausperennes, nos seus frades, e nas suas procissões, todos andam mansos
como borregos... Estes não me mettem medo a mim; oxalá!...
--Medo! accudiu Junot, levantando-se de um pulo, com o rosto incendido,
e os olhos scintillantes! Medo! Quem fala em medo!? Para enxotar como um
rebanho de ovelhas toda essa plebe, toda essa espuma... basta o meu
cavallo e o meu chicote!...
--Nem tanto, senhor duque! observou Magendie. Os portuguezes são homens
e soldados. Mais de uma vez o têem provado. Perguntae aos hespanhoes...
e ao senhor conde da Ega, que hão de conhecel-os.
Herman sorriu-se. O conde parecia petreficado. A injuria do general em
chefe feria-o no rosto como golpe de mão aberta. O coração indignado
convidava-o a repellil-a, porém o servilismo tapava-lhe a bôcca. Não
acertava com o que fizesse. Calado deshonrava-se; falando
arriscava-se... Calou-se!
Junot caíu depressa em si. O seu animo era generoso, embora cedesse aos
impetos do sangue, facil de inflammar, provocando paroxismos de cholera,
que os seus intimos deploravam, porque frisavam quasi por loucura
frenetica. As palavras de Magendie advertiram-n'o. Recuperando-se da
embriaguez da raiva, volveu ás maneiras cultas e urbanas, que tantas
affeições lhe grangeavam, mesmo entre os adversarios.
--Senhor capitão Magendie, a plebe não é a nação. Os portuguezes são
para muito; pena é que não os soubessem aproveitar, em quanto era
tempo!... O erro não o commetti eu. Este povo é bom, generoso, e
paciente... Podiamos, deviamos ajudal-o a regenerar-se... Preferimos
tractal-o como vencido, e fazer d'elle um inimigo!... Paciencia!
Colheremos os fructos que semeámos. Lagarde! Herman! Magendie! Vamos ter
a guerra!... O segundo acto da tragedia começa em Portugal. A Hespanha
deu-nos o primeiro... Loison escapou milagrosamente aos montanhezes
sublevados no Marão, em Amarante, e em Chaves!...
--Se escapou é o essencial! Os bandos populares sem cabeça depressa se
dispersam. Observou Lagarde.
--É verdade. Mas o chefe existe. Manuel Gomes de Sepulveda acclamou em
Traz-os-Montes o principe regente...
--Um velho de mais de oitenta annos, tropego, e quasi cego!?... accudiu
Lunyt sorrindo.
--Acrescentae, porém, velho mas habil general, valente, e adorado!... As
provincias do norte estão, ou estarão todas em armas dentro de oito
dias. Miranda, Villa Real, Moncorvo, e Guimarães já o seguiram, ou vão
seguil-o...
--Temos o Porto, e em quanto for nosso, facilmente daremos a mão aos
nossos exercitos de Hespanha, interrompeu Herman.
--O Porto!... Lêde!... E passando o officio ao ministro do reino, Junot,
em quanto este o lia a meia voz aos collegas, passeiava agitado, medindo
a sala em todo o comprimento.
--O Porto? É tarde! já não lhe accudimos. Hoje, ou ámanhã subleva-se, e
dá o exemplo. Coimbra não se demora. Contae com ella insurgida. Não nos
lisongeemos com illusões...
--O mal, comtudo, não é irremediavel! Sejamos fortes! exclamou Magendie.
As nossas tropas devem ter vencido em Hespanha, e...
--As nossas tropas não venceram, foram vencidas! Tornou o general em
chefe sombrio, e mordendo os beiços. A fortuna vira-nos as costas. As
divisões aguerridas recuam sobre o Ebro. O rei José saíu de Madrid.
Estamos sós e sem retirada no meio de um reino irritado e adverso...
--Ah! disse Herman empallidecendo. N'esse caso a partida é arriscada.
Não a julgo, porém, perdida.
--Nem eu! Mas contemos um pouco, se nos apraz, com os inglezes. Em
Gibraltar acha-se sir Hew Dalrymple com o corpo do general Spenser. Em
Cork, na Irlanda, vão embarcar nove mil soldados. A esquadra de sir
Charles Cotton anda cruzando deante da foz do Douro, e das bahias do
Tejo e do Mondego. De um instante para outro podemos ter de pelejar com
o povo e com as tropas do rei George... N'esse caso!...
--Ameaça-nos a capitulação de Dupont em Bailen?!... accudiu Lagarde,
batendo com o punho cerrado sobre a mesa. Oh!...
--Nunca!... Pelo menos em quanto eu viver! exclamou Junot com um gesto
admiravel de firmeza. Luctaremos! A derrota não é menos gloriosa, que o
triumpho, quando o campo de batalha proclama o heroismo dos vencidos...
Poderemos ao menos contar com a obediencia de Lisboa? A capital em nosso
poder póde ser ao mesmo tempo segura base de operações, e precioso
penhor para o infortunio. Lagarde! Chegou o momento. Respondeis pela
tranquillidade de Lisboa?...
Houve um momento de silencio. O intendente geral da policia, atalhado,
olhava para o papel, que lhe tinham trazido, e conservava ainda aberto,
e para o general, e hesitava.
--Que nova desgraça nos ameaça!? accudiu o duque arrebatado. Hoje é o
dia das fatalidades? Falae! Estou preparado para tudo. Que dizeis de
Lisboa?...
--Que respondo por ella, como por mim!... balbuciou Lagarde tremulo.
Bem! Não é preciso mais. Dás-nos a alavanca de Archimedes!...
--Só depois de ámanhã em deante!... concluiu o intendente engasgado, e
convulso.
--Ah! E hoje porque não?! exclamou Junot, que os revezes pareciam
reanimar á medida que se accumulavam. Nome de Deus! Não sois medroso.
Conheço-vos! Esse papel trouxe-vos a cabeça de Medusa? Que segredo
terrivel encerra? Vamos! Vencei a consternação, e dizei-nos o que ha. O
peior perigo, é o perigo encoberto. Quero saber!
E o duque de Abrantes assentou-se com a fronte erguida, os olhos
brilhantes, e um sorriso intrepido nos labios. Era assim que elle
costumava affrontar a morte nas batalhas.
Lagarde principiou em voz baixa a leitura. Era o plano de uma revolução
traçada para rebentar no dia seguinte depois da procissão do Corpo de
Deus.
Os auctores d'este commettimento, todos membros do Conselho Conservador
de Lisboa, tinham sido denunciados á policia em differentes occasiões,
mas poupados como conspiradores theoricos e inoffensivos. A ousadia do
trama excedia, porém, d'esta vez quanto podia prever-se de audaz e
decidido. O rompimento havia de começar de tarde, ás seis horas, muito
depois de concluida a festa religiosa. Junot devia ser preso no caminho
do palacio de Anadia para o Rato, as guardas do Rocio, do Terreiro do
Paço, de S. Domingos, de Santa Clara, e do quartel general, atacadas e
desarmadas, e o Castello rendido por assalto, ou por algum artificio de
guerra. As tropas francezas privadas do seu chefe, e surprehendidas,
seriam obrigadas a depor as armas em virtude das ordens dictadas ao
duque de Abrantes pelos seus carcereiros. O povo e os soldados
portuguezes coadjuvariam a revolta occupando as ruas e as praças.
O assombro dos vogaes do governo durante a communicação, que acabâmos de
resumir, custaria a descrever. A gravidade das physionomias tornou-se
mesmo tão solemne, que ia degenerando quasi em comica. O unico ouvinte
desassombrado e de sangue frio era o duque de Abrantes. A idéa de se ver
colhido ao anoitecer no seu transito costumado pelos cumplices do
Conselho Conservador, affigurou-se-lhe por tal modo absurda, que,
recostado no espaldar da cadeira, desatou o riso em frouxos, suspendendo
a leitura, e desengatilhando de sua expressão severa o rosto dos que a
sua hilaridade não admirava menos, do que o plano de sublevação forjado
para a capital.
--Admiravel! Sublime!... clamava Junot estorcendo-se entre risadas.
Parece-me que os estou vendo d'aqui a esses illustres conspiradores de
rabicho e samarra, decidindo á pluralidade de votos o theor das ordens,
que hei de escrever depois de prisioneiro!... Mas é um entremez puro o
que esta boa gente imaginou: art.^o 1.^o O general Junot será
apprehendido, e ao mesmo tempo as guardas do Terreiro do Paço e do
Rocio!... art.^o 2.^o (porque o não puzeram tambem?) O presente decreto
será registado nos livros da chancellaria da Junta Provisoria!
Excellente! Deixae-me rir, Lagarde. Sois um homem unico para desterrar
tristezas.
Herman, Lunyt, e o intendente olhavam uns para os outros, pasmados, e
não sabiam se deviam conservar-se serios, ou imitar o general. Magendie,
militar e resoluto, ria a ponto de lhe saltarem as lagrimas dos olhos. O
plano peccava pela ingenuidade. Os innocentes conspiradores fundavam
todo o edificio de suas esperanças na prisão de Junot, e essa prisão era
justamente o que lhes esquecêra assegurar. O duque de Abrantes, cujo
valor todos respeitavam, os seus ajudantes, e a escolta de cavallaria
que sempre o acompanhava, não cairiam de leve em uma cilada de poucos
homens, e para o esperar em grande numero, vigiadas como estavam as
ruas, parecia duvidoso que meia hora depois não se achassem recolhidos
na cadeia os Scevolas incumbidos d'este prologo essencial no grande
drama da restauração da patria.
--Herman! O vosso voto sobre esta farça que terrificou Lagarde!...
--O plano é fraco, porém a intenção...
--De intenções, boas, más, e pessimas está calçado o inferno! Tendes
acaso receio de me vêr preso no meio das becas dos conspiradores, suando
medo por todos os poros, e ordenando aos meus valentes soldados que
entreguem as espadas e espingardas aos milicianos de Lisboa!?... Que
gente admiravel a do vosso Conselho Conservador, Lagarde! Respeitae-os
como se respeita a innocencia. Conjurados assim inventam-se, quando se
não acham, e guardam-se debaixo de redomas de vidro... Art.^o 1.^o O
general Junot será apprehendido! Nada mais! Que bella concisão spartana!
Ah! Ah!... Quem serve de espirito santo a este cenaculo? Algum macrobio?
Alguma reliquia do tempo do marquez de Pombal, aposto?... A conspiração
dá ares de quinhentista. Foi desenterrada de certo de algum archivo!...
--Informam-me que José de Seabra no principio déra alguns conselhos, mas
que hoje...
--Não quer saber d'elles para nada!?... É evidente! José de Seabra, duas
vezes ministro de estado, sisudo, e espirituoso, morria de vergonha se
visse o seu nome ligado a similhante satyra do senso commum... Art.^o
1.^o O general Junot!... Desculpem, mas é incrivel! Os desembargadores e
os padres de Lisboa cuidam que um general francez é algum passaro raro,
que se apanha e mette na gaiola para o ensinar a cantar o hymno
nacional!?... Lagarde! Prohibo-vos de tocar nos veneraveis juizes,
fidalgos, frades, abbades e negociantes, de que se compõe este
bemaventurado Conselho. Dae graças a Deus pela sua existencia, e não os
incommodeis. D'alli não vem de certo mal! Oxalá que Sepulveda fizesse
parte d'elle, esperando pela minha prisão para se sublevar. O Porto
ainda poderia salvar-se!
--Mas, general, o dia de ámanhã parece-me critico, observou o
intendente, que o riso e os motejos do duque tinham confortado pouco.
Não é só gente da capital a que sae ás ruas. Os arrabaldes e o Ribatejo
despovoam-se, e talvez fosse mais prudente prohibir a procissão, e
prender por algumas horas os cabeças conhecidos dos arruidos
populares...
--Pela gloria do imperador! Enlouqueceis, senhor Lagarde?!...
Assustam-vos tanto os planos ridiculos de uns poucos de dementes, que
vos não envergonha o argumento de fraqueza, que dariamos, escondendo-nos
com medo dos frades e das irmandades de Lisboa? A procissão ha de saír.
Nada de prisões! Os nossos soldados trazem polvora e bala nas patronas.
É quanto basta!... Meus senhores, hoje, o general Junot, depois das seis
horas da tarde sae do palacio da Anadia para o Rato, e vae ser
apprehendido. Ah! Ah! Está encerrado o conselho. Herman enfeitae-vos bem
ámanhã. Tereis de pegar a uma das varas do palio. Magendie não deixeis
_apprehender_ os nossos navios. Lagarde, mandae saber ao hospital se ha
logares vagos na casa dos orates; os vossos amigos do Conselho
Conservador acabam todos lá. Lunyt, vinde commigo; tenho que vos
communicar... isto é se não receiais que o general Junot _seja
apprehendido_ no caminho para o largo do Quintella. Ah! Ah!... Senhor
conde da Ega acceita um logar na minha carruagem?... Note que lhe
offereço um posto perigoso.
E o duque saíu precedido por Magendie e acompanhado do conde e do
secretario de estado da guerra e da marinha. Herman e Lagarde, que
ficaram atraz, olharam um para o outro, interrogando-se com a vista e
com o gesto.
--O que devo fazer? perguntou o intendente.
--Nada. É o melhor!
--Mas!...
--Meu querido senhor Lagarde, o homem que ha de prender Junot... não
está de certo no Conselho Conservador de Lisboa! Redarguiu o ministro
rindo. Socegue!
Momentos depois o intendente tocava a campainha, e por ordem sua um
porteiro introduzia no gabinete o sargento Cabrinha e o seu assessor
Gaspar Preto, por alcunha o _Sapo_.
Saberemos a seu tempo o que alli vinham fazer aquellas duas boas almas.
XI
Achilles e Nestor
Em quanto no palacio do Rocio se representava a scena, a que assistiu o
leitor, em uma casa, situada quasi no arrabalde, perto de Campo de
Ourique, no qual trabalham ranchos de operarios sem repouso a levantar
um acampamento militar para as tropas francezas, que Junot recolhe das
provincias, e concentra na capital, iremos encontrar alguns dos
personagens, que deixámos na Ponte de Asseca, n'aquella tempestuosa
noite, que viu as proezas do sargento Cabrinha, a evasão de Paulo de
Azevedo, e as artes diabolicas do astuto lavrador João da Ventosa.
Estava formoso o dia, mas quente. Nem um leve sopro de aragem meneava as
cortinas de caça, que por detraz das quatro janellas da frontaria
substituiam os modernos e elegantes _stores_. A casa, de um só andar,
caiada de branco, pintada de verde claro em todas as portas, grades,
hombreiras, e maineis respirava aceio e alegria. Um muro baixo rodeava o
jardim, d'onde as rozas de trepar, as baunilhas, e outras plantas,
subindo pelas paredes, vinham debruçar do espigão seus festões floridos
e recendentes.
Um preto quasi anão, grosso, roliço, com a carapinha semeada de cans,
indicio de provecta edade, e brincos de prata nas orelhas, acabava de
varrer, gemendo e rosnando, os tres degraus de pedra, que desciam da
porta da entrada para a viella quasi deserta.
No jardim a areia, fina e vermelha, das ruas, orladas de buxos
recortados, rangia debaixo dos pés de duas pessoas, que passeavam,
conversando em voz submissa. No angulo, que olhava para as terras, um
mirante entrelaçado de caracoleiros e jasmins, offerecia em seus bancos
de cortiça commodo assento aos que desejassem recrear a vista,
espairecendo-a pelos largos horisontes, que d'alli se descobriam.
--Não perca o animo nas vesperas da victoria, senhor Manuel Coutinho!
Lembre-se de quem é, e creia mais em si, e em nós... deixe-me ter tambem
um momento de vaidade!... Deus ha de ser por este reino, e não ha de
permittir...
O homem que proferia estas palavras era um velho de aprazivel aspecto,
trajado em habitos ecclesiasticos, inculcando na phisionomia, na voz, e
nas maneiras, a prudencia que dão os annos, e a experiencia do mundo
unida á confiança e ao enthusiasmo sereno, que nascem do coração, que
ardem com viveza aquecidos pelo calor de uma alma generosa, e que os
gelos da edade nem amortecem, nem apagam.
O sorriso meigo e tranquillo, que lhe franzia os labios, contrastava de
visivel modo com as sombras de profunda tristeza, que escureciam o rosto
do amante de Leonor de Azevedo, e com a expressão de desalento retratada
em suas feições abatidas.
Quem attentasse, todavia, com mais cuidado no semblante palido do
mancebo, e sobre tudo no fulgor dos olhos, que despediam por vezes
lampejos quasi sinistros, denunciando as intimas commoções, logo
percebia, que, se um assomo repentino de duvida, ou desconforto podéra
abalar por instantes a energia d'aquella forte vontade, depressa a
reacção a havia de despertar do lethargo, e que pouco depois, em logar
de ser necessario reanimal-a, todo o poder da persuasão seria pequeno
para a conter dentro de limites razoaveis.
--Deus?!... exclamou Manuel Coutinho, respondendo á ultima phrase do
ancião, e volvendo ao céu, limpido e azul, um olhar de amarga
desesperação. Não se esqueceu Elle de nós? Não está com os inimigos do
seu nome e da nossa liberdade?!...
--Não diga isso. Caia em si. Não vê que accusa a divina justiça? Deixe-a
caminhar...
--Coxa e lenta como a dos homens?!... Senhor bispo! Sou moço e militar,
desculpe-me, mas não posso supportar com paciencia christã o espectaculo
de tantas miserias e de tantos crimes!... Fala na justiça de Deus?!
Aonde estava ella, quando o Vigario de Christo, arrancado por mãos
sacrilegas da sua cadeira, foi como seu divino Mestre arrastado de
prisão em prisão, de opprobrio em opprobrio, por turbas de soldados á
voz de Bonaparte?...
--Estava no Calvario, como no dia em que padeceu o Redemptor! Continue!
--Ah! E porque dorme ella, quando nações inteiras choram escravas o seu
martyrio, e banhadas em sangue invocam a morte nos campos talados, nas
cidades saqueadas, nos patibulos e nos carceres, a morte, unica
esperança que lhes resta, depois de roubados os seus altares, de
incendiadas as suas moradas, de infamadas suas esposas e filhas, e de
dispersas como vil pó as cinzas de seus paes e de seus avós?!...
--Quem lhe diz, que dorme, e não que aguarda a sua hora? Quantos seculos
durou a perseguição da egreja e a tyrannia dos Cesares?... E hoje,
d'esse colosso romano, que assoberbava o mundo, o que sobrevive? Ruinas,
memorias, e a cruz triumphante alçada no Vaticano!... Tranquillize-se,
conforme-se, espere...
--Que espere!... Mas elles, os verdugos, os malvados, acaso esperam?
Paulo de Azevedo, duas vezes salvo por nós, escapou por fim aos laços do
infame Lagarde? Está no castello, bem sabe, e o conselho de guerra, que
ha de julgal-o, tem sêde do seu sangue... Hoje, ámanhã, de uma hora para
a outra, as balas de um pelotão!... Não tenho animo de o imaginar!...
Vel-o morto, assassinado, e não poder valer-lhe!... E sua filha, a
desgraçada, que já não tem lagrimas que verter, que sente a todos os
instantes no coração o frio da morte, ameaçando o que mais ama e
estremece n'este mundo?!... E hei de esperar?! Resignar-me! Deixal-o
morrer?!...
--Ha de esperar, sim. Que remedio!... Paulo de Azevedo está em perigo,
porém ainda não morreu...
--É verdade. Mas para o salvar?!...
--Havemos de empregar todas as nossas forças.
--Oh! accudiu o mancebo, cujo desespero rompeu por fim em dolorosa
ironia. Hão de salval-o! Contam assaltar o castello, prender Junot, e
colher Lagarde como um lobo no seu antro?!... Lagarde!... O auctor de
todos os nossos infortunios!... ajuntou em voz cava e com terrivel
expressão. Pelo menos esse não se rirá impune, festejando o ultimo
suspiro da sua victima. Lagarde pertence-me. Sou o seu juiz, e a minha
justiça não coxêa, nem dorme, como a da Providencia.
--Não blaspheme, e escute, se póde! Os dias da usurpação estão contados.
Quem sabe! Ámanhã mesmo talvez troquemos o lucto da escravidão pelas
galas...