Manuel Coutinho encolheu os hombros, conchegou o capote e saíu. O

Antonio não teve mais remedio senão seguil-o, mas apezar de todo o seu

valor benzeu-se, e o coração batia-lhe mais rijo no peito, do que se

visse um touro partir contra elle enfurecido.

IX

Que talvez podesse servir de prologo

Deixemos descançar por um pouco os heroes d'esta mui veridica historia,

em quanto corremos rapidamente os olhos pelos successos, de que a

Peninsula foi theatro n'este periodo memoravel.

Sem um resumido esboço, dos factos, que servem de fundo e de moldura ao

quadro, difficilmente formará o leitor exacta idéa d'elle.

Os francezes, como dissemos, tinham atravessado as provincias, e entrado

na capital com o nome de amigos. Retirando-se com a esquadra para o

Brazil, o principe regente entregára em suas mãos o reino sem defeza. As

ultimas ordens de sua alteza, datadas de 26 de novembro de 1807, ordens

pacificas e conciliadoras, abrindo-lhes as fronteiras, ajudaram mais,

que as armas, os generaes de Bonaparte a superar os obstaculos da

invasão.

Junot confessou-o nas primeiras proclamações! A obediencia, tão elogiada

por elle, e dictada pelas circumstancias, ainda não encerrava os

ressentimentos, que tornaram depois vacillante e precario o dominio

estrangeiro.

O regimen absoluto, que as reformas do marquez de Pombal não conseguiram

remoçar, adoecia de incuravel decrepidez. Muitos homens illustrados, que

o grandioso espectaculo dos acontecimentos advertia, suspiravam por uma

renovação, que não podia nunca ser inspirada, bem o sabiam elles por

experiencia, nem pelas idéas, nem pela iniciativa de um governo caduco.

Esta illusão de animos generosos durou pouco. Os que amavam sinceramente

a patria depressa se desenganaram da vaidade das promessas dos

conquistadores.

Estes, apenas se reputaram seguros, arrancaram a mascara, e pozeram

termo ás complacencias. Assim que viu reunidos e repousados os corpos

dispersos por longas e precipitadas marchas; assim que os soldados lhe

pareceram restaurados da fome, das inclemencias da estação, e da

aspereza do transito o general em chefe cançou-se de dissimular, falando

com a altivez de vencedor aos que o tinham recebido como hospede!

Foi então geral o sobresalto. Os actos despoticos e oppressivos

dir-se-íam calculados para irritar o ciume e o amor proprio do paiz. As

guardas de Lisboa confiadas só aos francezes; o emprestimo forçado

imposto ao commercio com o praso de vinte dias; a insolencia do famoso

decreto de Milão condemnando como sujeito a resgate o reino que não fôra

conquistado; as armas reaes picadas do frontão dos edificios publicos; e

a bandeira nacional arriada no castello e nas fortalezas, e substituida

pelos estandartes tricolores, foram outros tantos erros dos dominadores,

que a saudade da independencia registrou como ultrajes.

Desde o dia 13 de dezembro, em que Junot rodeado de pompas guerreiras,

mandára baixar o pavilhão das quinas deante das aguias do Sena, nunca

mais houve paz entre a nação offendida e os invasores. A luva ficou

desd'esse dia no chão por falta de chefe, que a levantasse; porém,

decorridos mezes, Portugal erguia-se para responder á provocação,

envidando valor egual aos brios.

Atraz da occupação da pequena monarchia, que o orgulho do gabinete de

Saint Cloud estava ainda longe de suppor, que podesse tornar-se em breve

um dos inimigos implacaveis de sua ambição, pouco se dilatou a invasão

de toda a Hespanha. Assignando o tractado de Fontainebleau, que repartia

os membros de Portugal entre os Bourbons, os francezes, e o principe da

Paz, auctorizando a entrada de quarenta mil soldados em seus dominios,

Carlos IV não percebeu que firmava a propria abdicação.

Bonaparte anciava um pretexto para realizar os seus designios.

Deram-lh'o os enredos aulicos, o nucleo de descontentes, de que se

rodeava o principe das Asturias, depois Fernando VII, e a má vontade de

todas as classes contra o ministro omnipotente, valido do monarcha e

amante da rainha; deram-lh'o egualmente a miseria, a inquietação, a

decadencia geral, e o presentimento de immensas catastrophes.

As dissensões da côrte, filhas da lucta do herdeiro da corôa com os

soberanos e com o privado, D. Miguel de Godoy, e a indiscreta revelação

dos aggravos reciprocos, levada ao tribunal do imperador, para este

sentenciar como arbitro a familia real, ajoelhada a seus pés,

facilitaram a occasião appetecida por Napoleão I, precipitando a queda

do ministro entre violencias e tumultos, coagindo a abdicação de Carlos

IV, e apressando a saída de Fernando VII para Bayona.

Vendo por terra o diadema dos Bourbons de Hespanha Bonaparte não o

restituiu a Carlos IV, nem a Fernando VII, cingiu-o na fronte de seu

irmão, o rei de Naples, escolhido para reinar entre bayonetas sobre a

monarchia de Izabel a Catholica. Os principes despojados resignaram-se,

mas a Hespanha protestou. Madrid insurgida deu o exemplo. Murat cuidou

suffocar a sublevação pelo terror dos supplicios. Illudiu-se. O sangue

vertido na capital em 2 de maio tornou irreconciliavel a nova conquista

com o imperio. A nação respondeu aos canhões, aos fuzis, e ás execuções

militares com a resolução indomita, que as adversidades confortam, e os

triumphos exaltam.

A ira fez soldados os habitantes da Peninsula. O odio da servidão

resuscitou os dias de Viriato e de Sertorio. Cada rochedo, cada tronco,

de arvore, cada balsa escondeu um inimigo; e para repellir os

oppressores até os velhos saccudiam os gelos da edade como mancebos, e

as crianças pelejavam como homens. Por um, que expirava, erguiam-se mil.

N'esta nova seára de Cadmo o ferro, tocando a terra, levantava legiões

de heroes. O chão fugia debaixo dos pés aos veteranos da Italia e do

Egypto, e a espada dos marechaes, quebrada sem gloria, ameaçava em vão

as fragas de um territorio, que, alastrado de cadaveres, e abrazado

pelas armas e pelos incendios, até cuspia de si os ossos do estrangeiro,

negando-lhes a paz do tumulo!

Oviedo, a antiga e venerada côrte das Asturias, recordando, que suas

montanhas tinham sido berço e asylo da renascença christã, alçou ousada

o seu estandarte. Cadix e Sevilha acompanharam-n'a. Granada e Valencia

insurgiram-se logo depois. Toledo, Santander de Biscaya, Saragoça,

Tortosa, e Galliza, não ficaram atraz. Dentro em pouco os esquadrões

francezes, encanecidos nas luctas d'esta epocha de prodigios, já não

chamavam seu mais do que ao terreno aonde combatiam.

As juntas de salvação e defeza, á medida que as terras se iam

sublevando, exprimiam o seu pensamento de porfiada resistencia. Filhas

legitimas da revolução, os revezes e os sacrificios não as desanimavam.

Diversas e oppostas muitas vezes no caracter e nos costumes, nenhuma

trahiu o seu juramento. Preferindo para mortalha da Hespanha os muros

voados e as torres arrazadas das praças de guerra e das antigas cidades,

todas rejeitaram a clemencia injuriosa, que lhes promettia o perdão em

troca do soberbo dominio a que a Europa quasi inteira curvava então a

cerviz.

Os successos correram como a impaciencia dos contendores.

A invasão, que talára a provincia de Granada, derrotadas por Castaños as

tropas imperiaes, foi obrigada a retroceder. A capitulação de Bailen

quebrou o prestigio das legiões invenciveis. Os francezes, acossados de

posto em posto, tiveram de evacuar Madrid, e recuando deante do impeto

da nação armada, só pararam ás margens do Ebro. Os capitães mais ousados

aprendiam, finalmente, a conhecer, que vale mais o esforço de um povo

unanime, do que a espada feliz do mais do maior homem de armas.

A junta central de Aranjuez, composta de deputados de todas as

provincias, constituiu-se como representante de Fernando VII, captivo em

Valençay, e assumiu a suprema direcção, conferida pelas necessidades e o

heroismo pelo paiz. A Inglaterra, senhora por tanto tempo do sceptro dos

mares, disputando a Napoleão em todos os campos de batalha a primazia no

continente, ouviu de repente os clamores dos descendentes de Pelaio, e

contemplando o arrojo, com que elles se atreviam contra o poder que

desmaiava os monarchas mais poderosos, estremeceu de jubilo, e saudou

n'este commettimento audaz a aurora do dia de Waterloo.

Em Portugal, apezar de não ser menos vivo e intenso o odio, não foi tão

prompta a explosão. Mas a chamma, por calar debaixo de cinzas, não

rompeu por isso com menor violencia.

No dia 5 de fevereiro de 1808, na occasião, em que as auctoridades

francezas se reputavam mais firmes, reuniram-se encobertamente em Lisboa

seis homens, que nenhuma distincção hierarchica apontava para chefes,

mas que a firmeza da vontade e o despreso dos perigos recommendam ao

louvor da posteridade. Chamavam-se Matheus Augusto, José Maximo Pinto da

Fonseca Rangel, José Carlos de Figueiredo, Antonio Gonçalves Pereira e

André da Ponte de Quental da Camera. Juraram na presença de Deus

empregar as forças, os bens, e a vida com fervor até conseguirem

restituir ao principe regente, a sua corôa, e á patria o seu esplendor e

liberdade.

Juntavam-se ás oito horas da noite alternadamente uns em casa dos

outros, e desde logo se occuparam de minar o chão debaixo dos passos dos

invasores, descobrindo no meio do seu cortejo os illudidos e os coactos

para os descriminar dos vendidos e traidores, e sondando o animo dos

officiaes militares, dos magistrados, e dos ecclesiasticos para indagar

a sua disposição, apurando aquelles com que podia contar.

Esboçada a conspiração, e protegida por inviolavel segredo, principiaram

os primeiros conjurados a attrahir outros, engrossando o numero dos

cumplices. Á policia, regida por Lagarde, chegaram cedo os echos d'esta

empreza, que, tomando corpo á proporção que os acontecimentos

caminhavam, era já na primavera de 1808 uma verdadeira potencia,

fortificada pelos votos concordes do patriotismo portuguez, e pela

coadjuvação de valiosos auxiliares recrutados nas fileiras do exercito

nacional, nas casas mais illustres da fidalguia, e nas classes

respeitadas do clero, da toga, e do commercio.

Quando Junot embarcou em virtude da capitulação de Cintra, só os cabeças

de bando, representantes, perante o Conselho Conservador, da multidão

dos adherentes, excediam de _cento e oitenta_, e os homens, de que

podiam dispor, não baixavam de tres, ou quatro mil, com sete peças de

artilheria, 370 cavallos do regimento da Luz, e da guarda real da

policia, 112 officiaes avulsos, e 710 bayonetas!

Saltemos agora as semanas, que nos separam dos meiados de junho de 1808,

e observemos o estado das cousas já bastante alterado no curto espaço de

sete mezes.

Determinára a Providencia que do excesso dos males, que flagellaram a

Peninsula se gerassem as causas, de que primeiro renasceu a

independencia, e depois a liberdade. As scenas de Bayona, e a repressão

cruel dos tumultos de Madrid despertaram a Hespanha do somno, em que a

falsa alliança dos francezes a embalava. Badajoz sublevou-se a par de

outras terras importantes no dia 30 de maio, e á sua voz principiou a

provincia do Alemtejo a agitar-se. Ao norte a Galliza, com os bellos

portos do Ferrol e da Corunha, e a sua população briosa e accumulada,

não hesitou egualmente em saccudir o jugo.

Os dez mil hespanhoes aquartelados no Porto, que depois da morte do

general Taranco obedeciam ao marechal de campo D. Domingos Ballesta,

receberam ordem da junta para recolherem, aprisionando o general

Quesnel, governador militar da cidade, e todos os officiaes e soldados,

de que podessem apoderar-se.

Ballesta executou a ordem, e chamando as auctoridades da segunda capital

do reino, perguntou-lhes, antes de partir, por quem se decidiam? Pela

patria, responderam alguns.

O castello de S. João da Foz, de que era major Raymundo José Pinheiro,

arvorou a bandeira portugueza, e a guarnição communicou com o brigue

inglez _Eclipse_, o qual esperava os acontecimentos, cruzando proximo da

costa. O povo não se moveu. A occasião ainda não estava madura.

Os timidos conselhos do brigadeiro Luiz de Oliveira prevaleceram. O

Porto tornou a submetter-se ao governo de Napoleão I.

A 9 de julho chegou a Lisboa a noticia da insurreição das tropas

hespanholas e da prisão de Quesnel.

O perigo eminente estimulou o duque de Abrantes.

A divisão Caraffa, composta de seis batalhões de infanteria, de um

regimento de cavallaria, e de algumas baterias de artilheria, ardia em

desejos de imitar seus irmãos de armas, provocada pelos emissarios

expedidos a toda a pressa de Sevilha e Badajoz. Junot antecipou-se.

Vinte e quatro horas depois os soldados de Fernando VII, presos e

desarmados, embarcavam para bordo dos pontões francezes, e sómente

poucas companhias do regimento de Murcia e alguns hussards do Maria

Luiza conseguiam escapar-se.

Por meio d'este golpe ousado o general em chefe, retaliando as

hostilidades dos patriotas, soube refrear a tempo as impaciencias e a

animosidade dos habitantes irritados. Loison saíu a 17 de Almeida sobre

o Porto com a sua columna, afim de se oppor ás tentativas da Junta de

Galliza, e a 20 passava o Douro no Pezo da Regua. Mas o dia das iras

populares tinha alvorecido. Rodeado por todas as partes de inimigos

invisiveis, que fuzilavam suas tropas por traz das vinhas e dos

rochedos, pendurados sobre a corrente torva e arrebatada do rio, volveu

já sobre a noite ao Pezo da Regua, e tornou a vadear o Douro para a

outra margem, abençoando a precipitação boçal dos camponezes, que o

salvára quasi por milagre de uma ruina completa.

O Minho e Traz os Montes, sublevadas em massa, acabavam de empunhar as

armas, proclamando a independencia. Mais alguns passos de Loison além de

Mesãofrio, mais prudencia e calculo da parte dos aggressores, e a

columna franceza encontrava a sepultura n'aquelles penhascos e

desfiladeiros immortalizados pela sua derrota!

Em quanto Junot quebrava por um lance audacioso a espada nas mãos dos

batalhões de Caraffa, Manuel Jorge Gomes Sepulveda, tenente general, e

governador militar do norte, em edade provecta, acclamava a restauração

da dynastia de Bragança, e era seguido pelas terras mais notaveis das

duas provincias.

No dia 18 a revolução rebentou no Porto, e no dia 19 foi nomeada a

primeira junta portugueza, cujo papel havia de ser tão importante nos

successos, que se precipitavam. Coimbra Pombal, e Leiria seguiram o

exemplo do Porto, e a insurreição crescendo e alargando-se, batia pouco

depois ás portas de Lisboa, ameaçando o dominio estrangeiro, tanto pelo

lado do norte, como pelo lado do sul. Desde os Algarves até Evora e Beja

levantou-se o mesmo grito de exterminio correspondido por milhares de

vozes.

Antes de combater a insurreição a ferro, o duque de Abrantes chamou em

seu auxilio o braço ecclesiastico, convidando-o a fulminar as populações

armadas.

Uma pastoral do cabido patriarchal representou como crime e peccado

inexpiavel a resistencia ao grande e invencivel Napoleão, declarando a

culpa sujeita a excommunhão maior sem prejuizo das penas temporaes. Esta

profanação sacrilega serviu só de aviltar aos olhos do paiz os ministros

do altar, que não se envergonhavam de offerecer o incenso do templo e o

beijo de Judas contra a liberdade á vontade despotica dos oppressores.

Os raios mal forjados nas sacristias caíram frios e inermes deante da

resolução e da perseverança dos que pelejavam pela patria, e a famosa

proclamação ao Divino, despresada como merecia, não roubou ás fileiras

nacionaes um só defensor.

A resposta de Bonaparte em Bayona á deputação portugueza foi mais

eloquente para fazer de nós soldados, do que as excommunhões dictadas no

quartel general francez. O imperador, julgando a occupação de Portugal

legitima depois da partida da familia de Bragança, tractava o pequeno

reino desamparado com os rigores devidos a uma colonia ingleza!

Era a sua idéa e a sua politica. Pouco lhe importavam o amor e a

confiança dos novos subditos. Não os temia nem o preoccupava o que havia

de dispor afinal ácerca do seu destino. Junot, que os conhecia melhor,

tinha procurado attrahil-os, e chegára a linsongear-se com a esperança

de os adormecer a ponto de lhes riscar da memoria as saudades da

dynastia e da independencia. A obediencia imposta pela força

afigurava-se-lhe esquecimento, e nos seus officios ao ministro da guerra

o governador de Paris traduzia os vivas venaes da plebe ao sabor dos

seus desejos, pintando a nação tranquilla, submissa, e satisfeita. A

explosão das provincias e os murmurios da capital vieram depressa

acordal-o d'este sonho!

Olhou. Não viu em volta de si, senão odios mal reprimidos, ou adhesões

falliveis e compradas. A pobreza e a miseria, filhas do bloqueio, que

paralysava o commercio, tornavam ainda mais critica a sua posição. O

cambio do papel moeda subira a 31 e a 32 por cento; o pão custava 75

réis o arratel. A carestia dos generos, tornando a vida difficil e

dolorosa para as classes indigentes, aggravava o descontentamento geral.

A Junta dos Tres Estados, reunida para pedir um rei a Napoleão,

proporcionou ao juiz do povo José de Abreu Campos, a occasião appetecida

de manifestar os verdadeiros sentimentos do paiz, desenganando o duque

de Abrantes, de que se achava só e detestado com o seu exercito no meio

de populações hostis, que suspiravam pela hora de restaurar a liberdade

e o throno de seus principes.

No mez de junho estavam dissipadas todas as illusões. Admirado do arrojo

com que paizanos quasi sem defeza se arriscavam ao encontro de legiões

aguerridas, Junot exclamava: «Portuguezes! Que delirio é o vosso? Em que

abysmo de males vos despenhaes? Ao cabo de sete mezes de paz e harmonia,

porque razão correis ás armas?» Concluindo com a lei marcial, ameaçava

as villas e cidades com o saque e o incendio, e os cidadãos com a morte!

Se estivesse mais lembrado da sua juventude deveria recordar-se do modo

por que a França respondêra heroicamente aos que lhe apontaram a espada

ao peito dizendo o mesmo.

X

Tolda-se o tempo

Transportemo-nos um pouco antes dos successos esboçados nas paginas

antecedentes aos paços da inquisição, situados no Rocio de Lisboa, aonde

hoje ergue o seu frontão votado ás Musas o theatro de D. Maria II. Em

algumas das salas e aposentos do antigo palacio dos Estáos, restaurado

pelo marquez de Pombal, assentou Lagarde as repartições da policia geral

do reino. Era justo! Ao lado do santo officio da fé o santo officio da

usurpação. As duas inquisições fraternalmente hospedadas uma a par da

outra não podiam offender-se do acaso que as unia! Soldados da guarda

real da policia, corpo fundado e disciplinado pelo conde de Novion,

emigrado francez que as victorias de Bonaparte e a invasão de 1807

lançaram outra vez nos braços dos seus compatriotas, guardavam as portas

de fóra, ou de espadas em punho vigiavam os corredores e camaras, que

precediam o quarto reservado aonde o proconsul se encerrava com os seus

confidentes.

Deixemos passar esses vultos, que pisam os sobrados nas pontas dos pés,

escorregando quasi como sombras. São rodas secundarias da machina. O

olhar enviezado e inquieto, o rosto meio escondido na dobra do capote, e

a humildade rasteira denunciam, sem necessidade de mais exame, os

delatores obscuros, ou os agentes provocadores, destacados nas ruas e

praças, ou nas tavernas para escutar e repetir os clamores de indignação

das multidões. Esperemos que algum personagem de elevada gerarchia

appareça, e nos introduza no gabinete discreto e só accessivel a poucos

eleitos, aonde o magistrado estrangeiro conta as pulsações do coração de

Portugal, e segue com a vista fria e penetrante os estremecimentos de

cholera, ou de impaciencia do paiz, cançado da oppressão e envergonhado

do silencio, em que a supporta ha sete mezes!

O general Junot, governador de Paris, entra pelo braço do conde da Ega,

seguido de seus ajudantes de campo. O ministro Herman, encarregado dos

negocios do reino e da fazenda, ex-commissario imperial, não se demora

atraz d'elle. Lunyt, secretario d'estado da marinha e da guerra já os

tinha precedido. A concorrencia de taes pessoas inculca acontecimento

notavel, e é de crer que o conselho se não separe sem que alguma

providencia venha esclarecer o segredo dos ultimos dias e dos ultimos

sucessos. Quem nos abrirá caminho até ao famoso reposteiro, que deante

da entrada da sala vedada representa para os profanos o papel de véu de

Pythagoras? As sentinellas, immoveis como estatuas, velam fieis ás

ordens recebidas. Os porteiros, em ar protector, ou mysterioso, despedem

os pretendentes e os importunos. Um cordão de empregados corta á

curiosidade todos os passos. Gritou-se, porém ás armas. O uniforme de um

official superior reluz na extremidade de extenso corredor. Os

subalternos inclinam-se profundamente, e respondem em voz submissa ás

perguntas imperiosas, que lhes dirige. Acompanhemos este iniciado. É o

capitão de mar e guerra Magendie, commandante da marinha. Seguindo-o,

temos a certeza de não encontrar obstaculos.

Quando o recem-chegado franziu o reposteiro de panno escarlate orlado de

branco, no meio do qual campêa uma aguia azul colossal, e empurrou de

leve um dos batentes da porta, a discussão já se havia travado, segundo

parecia, menos placida, do que promettiam os annos e auctoridade dos

diversos membros do governo, sentados á roda da comprida mesa, coberta

de couro, e cingida até ao chão de um rodapé de tela encarnada. A mesa

occupava o centro da casa. Junot, facil de conhecer pela estatura, boa

presença, e garbo do porte, achava-se em pé junto da cabeceira, com o

rosto inflammado, e a mão no punho da espada. Lagarde, á sua esquerda,

analyzava com o olhar prescrutador todas as physionomias, traçando com a

penna sobre uma folha de papel algumas palavras soltas. Pallido, ou

antes livido, retratava no rosto a astucia unida á expressão repulsiva

de um cynismo cruel e glacial.

Herman, á direita do general em chefe, sereno, aprazivel, e delicado,

com um lapis entre os dedos enfeitados de anneis, justificava ao

primeiro volver de olhos a reputação de melindre e de primor, merecida

desde que se estreára na carreira publica exercendo as funcções de

consul em Portugal. Vestia em todo o apuro da moda do seu tempo. Casaca

de lemiste talhada á franceza com botões de metal e golla alta, collete

branco aberto, que deixava sobresaír a finissima cambraia da camisa e da

tira engommadas em pregas miudissimas, calções de seda, meia a estalar

na perna, sapatos e fivelas de ouro cravejadas. Um espadim curto de

bainha dourada pendia-lhe da cinta, e uma caixa de rapé, mais preciosa

pelo lavor, do que pela qualidade, aberta a seu lado, e consultada a

miudo pelos dedos distrahidos de Junot, recommendava-se pela admiravel

miniatura, cercada de aljofres, que lhe ornava a tampa.

O conde da Ega, cuja intimidade no quartel general do largo do Quintella

as murmurações populares explicavam de um modo pouco airoso, e que dias

depois havia de substituir o Principal Castro na pasta da justiça,

escutava de pé, e com mostras de não pequeno sobresalto, talvez

provocado pelo desassocego da consciencia, a leitura nasal, lenta, e

accentuada, que Lunyt secretario de estado continuava sem mudar de tom,

estudando de vez em quando por baixo dos oculos de ouro o effeito

produzido no animo dos ouvintes.

A entrada de Magendie, accolhida por uma exclamação de alegria do duque

de Abrantes, por uma cortezia de Herman entre dois sorrisos, e por um

gesto de urbanidade de Lagarde, foi como o signal da explosão até ahi

contida das paixões e receios mal reprimidos. Todos diriam que o

Conselho aguardava a sua chegada para arrancar a mascara, que o

suffocava, dando largas á expressão sincera dos verdadeiros sentimentos.

--Bem vindo, capitão Magendie! A sua demora fazia-nos temer que

faltasse. O aviso chegou-lhe tarde?...

--Não foi o aviso, general! Mas a esquadra de sir Carlos Cotton

appareceu outra vez á barra, e julguei prudente ir a bordo das fragatas

_Carlota_ e _Benjamin_...

--E então?! interrompeu Lunyt, pondo de parte o papel que lia, e

encarando o capitão de mar e guerra.

--Fosquinhas por ora! respondeu este encolhendo os hombros.

Entretanto...

--Podem encobrir planos de hostilidade? atalhou Herman, sorvendo com

pausa uma pitada, e dispersando depois com um piparote os grãos que

tinham saltado sobre a tira alvissima da camisa.

A Casa dos Fantasmas - Volume I Episodio do Tempo dos Francezes · 第 6 / 11 段