Principiemos pelo honrado fazendeiro, cuja desastrada sina choram em

côro as visinhas e as comadres da aldeia. Como o encontramos de repente

são e escorreito com profundo terror dos sicarios, que se julgavam

livres do seu nodoso cajado de marmeleiro? Que santo obrou o milagre de

levantar da sepultura este Lazaro de japona para confusão e ruina dos

inimigos? Como dormiu elle no reino das sombras tantas horas, e só

accordou, como ao rebate da trombeta final, com o dobre fatidico da meia

noite, hora fadada a visões, a trasgos e a feitiços?

As tres perguntas são razoaveis, e a curiosidade do leitor é natural.

Desejariamos de bom grado asseverar-lhe, sem faltar á verdade, que o

sabido condão do palacio deserto fôra o auctor de todos os prodigios,

porém somos obrigados a confessar como sinceros chronistas, que até aqui

o maravilhoso e o sobrenatural só existiram na imaginação escandecida de

alguns dos actores, que pozemos em scena. Tudo o que passou se explica

perfeitamente sem ser preciso prevalecermo-nos da má reputação da Casa

Negra.

Em primeiro logar o Manuel Simões não resurgiu á sexta hora de entre os

mortos, embora padecesse sob o poder do sargento Cabrinha, porque para

resuscitar era necessario estar morto, e elle nunca chegou a fallecer! A

bala do _Sapo_ roçou-lhe pela testa, ferindo-o de raspão, e lançando-o

por terra sem sentidos; mas não penetrou na cabeça.

Quando vieram as mulheres, e entoaram em roda do seu corpo as nenias

costumadas, principiava elle a voltar a si; e quando o João da Ventosa

se approximou, suando e esbaforido, porque do alto de um cabeço ouvira o

tiro, e dois minutos depois descobrira no luz-que-fusque o _Sapo_,

correndo em saltos de gafanhoto com a espingarda na mão, já achou o

corpulento fazendeiro sentado no chão, muito tonto ainda como se

recolhesse de alguma feira, ou romaria, porém sem lesão grave, e

apalpando escrupulosamente todos os ossos e costellas.

--Ah! Ah! Compadre! gritou o rendeiro extendendo a mão ao amigo e

contentissimo de o ter vivo. Com que então os caçadores andam pelo

sitio, e fizeram-lhe alvo da cabeça? Safa demonio! ajuntou

examinando-lhe a fronte mais de perto. Escapou mesmo por uma unha

negra!... O maldito tinha-lhe vontade, e não queria perder a polvora.

Upa!... Póde vir outra ameixa detraz do vallado, e custar-nos mais a

engulir... Se foi só isso não é nada. Mas!...

--Ainda não foi d'esta, sôr compadre, e se eu soubesse quem me fez a

esmola... com seiscentos milheiros... de cobras!... Moia-lhe os ossos

com este cajado mais moidos que pimenta em almofariz... Patife!

Atirou-me como a um lobo! Ah, sôr João, vossa mercê acaso veria quem foi

o alma ruim?!... Parece que tenho dentro da cabeça a mó do moinho a

zoar, e que me anda tudo á roda! Ora esta!...

--Olhe compadre, o melhor é mudarmos de pouso; depois falaremos. Alli em

baixo, na fonte, ata um lenço molhado na cabeça, e lá em casa lhe

diremos o que vimos. Agarre-se a mim, não tenha vergonha. Forte

historia!

--Antonio me não chame eu, sôr compadre, se me ficar inteiro uma semana

o ladrão, que me pregou esta bala! Hei de achal-o, mas que haja de

descer vestido e calçado em busca d'elle aos infernos...

--Não será preciso, homem!... Agarra-o cá em cima sem ir tão longe. Mas

ha de fazer o que eu disser.

--Pois vá! Olhe que o dito, dito! Isto não se leva a rir.

--Tem razão, compadre; vamos. Trago cá uma idéa!... Emfim! O que for

soará...

Os dois pozeram-se a caminho, porém muito devagar, porque Manuel Simões

de cinco em cinco passos cambaleava com vertigens, a que chamava

nobremente vagados. Era noite fechada, quando avistaram a Ponte da

Asseca, e a casa. Chovia e trovejava que mettia mêdo.

O João da Ventosa, que em todo o tempo não soltára palavra, labutando,

contava elle depois, com a sua idéa, virou-se então para o fazendeiro e

disse-lhe que se deitasse e se fingisse morto emquanto ía chamar os

creados.

--Que me deite e faça morto, salva tal logar?! Oh sôr compadre?!

exclamou o ferido. E para quê com um milheiro de cobras?...

--Para apanhar a raposa e as gallinhas na capoeira. Você não sabe,

homem!? Não vê que se quem lhe atirou atinar que perdeu a bala muda-se

com vento fresco, e nunca mais lhe pomos os olhos em cima...

Estire-se-me já n'esse chão, não venha alguem. Nem trus, nem buz! Pela

lingua morre o peixe.

--Ora essa!... Sempre tem cousas, este sôr compadre! Com que então ainda

em cima quer que me espoje n'este charco, e que feche a bôcca a

cadeado?... Vá lá! Por esta não esperava eu. Arrenego!

--Viu pescar á linha sem anzol, sôr casmurro? Vamos. Esse corpanzil já

por terra, e caluda! Não me demoro.

Manuel Simões, resmungando, e praguejando, sempre se foi deitando no

sitio mais enchuto.

Minutos depois tornou o compadre com o maioral e o abegão, em grandes

lastimas por tamanha desgraça, e levaram-o por morto em braços até á

cozinha da casa, aonde o vieram encontrar, como vimos, os dois

assassinos.

Os creados, apezar de conhecerem por experiencia a força herculea do

João da Ventosa, benziam-se de que elle tivesse carregado só com aquelle

corpo, tão pesado, desde a azinhaga, como lhes disséra. Sentiam os

braços derreados só de o trazerem de tão perto!

O lavrador mandou accender fogo, e pôr agua ao lume; pediu um alentado

cangirão de vinho, uma tigela de assucar mascavado, e chamou de parte a

tia Margarida, ministro feminino de todas as repartições domesticas da

granja, para lhe confiar o occorrido, exigindo o maior segredo. A velha

esconjurou-se, louvou a Deus pelo milagre visivel, e saíu, trotando e

rosnando, para fazer a cama ao fazendeiro em um vão escuro, e desviar da

cozinha a vista e as orelhas dos curiosos.

Seguiu-se um entre-acto bacchico, durante o qual a agua quente e o

assucar serviram de pretexto ao vinho, o qual representou a parte

principal. Estava já menos de meio o cangirão, quando a voz esganiçada

de José Vardasca, diabrete de quinze annos, sobrinho do rendeiro, em

altercação com o contralto enrouquecido da tia Margarida, obrigou os

dois campeões a suspender as hostilidades. Manuel Simões amarrou o lenço

manchado de sangue á roda da testa, de modo que lhe cobrisse a cara, e

extendeu-se sobre a mesa de pedra. Um feixe de palha serviu-lhe de

cabeceira, e uma manta cobriu-o até aos pés.

Ensaiada assim a peça, João da Ventosa abriu a porta, e com

um--Olá!--que fez tremer as paredes, poz termo ao dueto da velha e do

rapaz.

José Vardasca não vinha só. Acompanhava tres sujeitos, envoltos em

capotes de baetão grosso de gola alta, cobertos com sombreiros de abas

derrubadas, os quaes esperavam fóra da porta, no escuro, que elle désse

ao tio o seu recado.

Ao que parece os viajantes eram conhecidos do rendeiro, porque apenas o

rapaz lhe disse, quasi ao ouvido, algumas palavras, este correu sem

chapéu apezar da chuva, e encaminhou-se para elles. Ninguem ouviu o que

falaram, mas os creados viram desapparecer o amo e os hospedes por

detraz do muro da horta, e recolher-se passado um pedaço o João da

Ventosa só, em ar de quem se não tinha cansado com o passeio. As

conjecturas dos servos não foram adeante. Cuidaram que elle saíra a

metter os tres embuçados no atalho da azinhaga, e se acaso se admiraram

foi, sendo tão largo e generoso, de lhes não ter dado agasalho em sua

casa por uma noite, em que a agua era tanta, diziam os rusticos, que a

podiam os cães beber de pé!

Mas o lavrador sabia melhor do que elles o que fazia. E nós, que não

somos de segredos, e que não receiamos que a policia dos francezes nos

tome contas em 1864, das conspirações de 1808, não duvidaremos revelar

as razões do seu procedimento.

Os tres sujeitos eram nada menos do que tres delegados do conselho

conservador de Lisboa, associação composta de patriotas dedicados á

restauração da independencia e do throno legitimo, e decididos a todos

os sacrificios para arrojarem da sua terra os soldados de Bonaparte.

Tinham atado relações em todo o Ribatejo com os homens que podiam

ajudal-os em seu arriscado proposito, e haviam partido dias antes da

capital para se reunirem em Santarem com Manuel Coutinho e alguns

cavalheiros do Sardoal, Leiria, Pernes e Rio Maior, no intento de

assoprarem de mais perto a irritação popular, e de irem dispondo os

animos para a sublevação geral, que meditavam, apenas as cousas lhes

proporcionassem ensejo favoravel.

João da Ventosa, assim como o Manuel da Cruz, e outros visinhos,

iniciados em parte do plano, executavam com cega fidelidade todas as

ordens emanadas d'este governo occulto e revolucionario, que na ausencia

da familia real, e em presença do jugo estrangeiro, representava para

elles a unica e verdadeira auctoridade do paiz.

O rendeiro, pois, assim que os tres desconhecidos lhe repetiram as

palavras, que serviam de senha aos amigos da liberdade--pelo rei e pela

patria--largou tudo, e offereceu-se logo para o que mandassem com a

maior submissão.

A reputação diabolica da Casa Negra, guardava-a por tal modo da

curiosidade, que nenhum refugio mais seguro podiam encontrar os

conspiradores, não só para pernoitar, mas afim de celebrarem as

conferencias. Explicaram os seus desejos ao lavrador, e este, que o medo

dos fantasmas não vexava, guiou-os pela horta a uma entrada secreta,

disfarçada com um tapume de tábuas, e introduziu-os nas salas e

aposentos do primeiro andar do palacio. Accendeu luz com o fuzil,

ensinou-lhes alguns dos segredos dos quartos e corredores, e prometteu

trazer-lhes vinho e refrescos.

A chegada do sargento e dos presos, espertando a imaginação do malicioso

rendeiro, e a coincidencia de abrigar debaixo do mesmo tecto a victima e

os assassinos, suscitou-lhe a idéa de salvar Paulo de Azevedo e sua

filha das garras dos agentes de Lagarde, castigando ao mesmo tempo a

perversidade de Cabrinha e do seu acolyto. Avisou os delegados do

conselho de Lisboa, ajustou com elles a maneira de fazer evadir o

cavalheiro de Mafra e Leonor, condemnou o fazendeiro á immobilidade,

assegurando-lhe em premio da sua paciencia as delicias da vingança, e

para não omittir nenhum episodio distribuiu ao travesso José Vardasca o

papel conspicuo de phantasma branco, marcando a todos a meia noite, como

a hora mais opportuna para o feliz exito do drama.

Sabemos qual foi o resultado. Os milicianos fugindo, o _Sapo_ correndo

até perder o folego, e o sargento estatelado sem sentidos no meio da

cozinha! O que se tornou mais difficil foi calar os berros do intrepido

José Vardasca, assombrado com a vista do fazendeiro, e convencel-o de

que não estava com um defunto, mas com um homem vivo e inteiro. O rapaz

não se rendeu á evidencia, senão depois que viu e apalpou como S. Thomé.

O sargento, cujos ossos ameaçou por umas poucas de vezes o cajado, ou

antes a clava de Manuel Simões, e que o João da Ventosa não trabalhou

pouco por salvar ainda d'esta vez, o sargento, desmaiado e inerte, foi

levado para cima de um catre e vigiado por um dos moços com ordem de

chamar o lavrador assim que abrisse os olhos. O fazendeiro da Aramanha,

mal rompia a aurora, tomando o conselho do compadre, montou n'uma egua,

e partiu para casa a descançar, não sem primeiro rezar um responso ás

costellas do virtuoso Cabrinha e ao pescoço de Gaspar Preto, aonde quer

que os encontrasse.

O sargento esteve duas horas sem accordo. Quando voltou a si não via

senão fantasmas em redor da cama. Custou a socegal-o.

O que mais abalára aquella alma seraphica fôra a fuga dos seus presos!

Não podia conceber como lhe tivessem escapado, e na sua dor pharisaica

arrepellava as melenas, e blasphemava como um possesso, jurando contra

Satanaz, contra a Casa Maldita, e contra si. Mesmo de noite quiz saír.

Pediu o cavallo, outro espectro na transparencia e magreza, e

cravando-lhe as esporas voou a Santarem, talvez na esperança de ainda

pôr a mão em cima da presa.

Voltemos agora á Azenha de Cima, aonde deixámos Manuel Coutinho e o

Antonio da Cruz, esperando pelas horas mortas da noite afim de

emprehenderem a campanha planeada por ambos.

Apezar da chuva caudal e dos relampagos, o moço do moinho, garoto leve

como um ginete, que via de noite como os gatos, e era capaz de entrar

pela bôcca de uma manilha, tinha sido mandado pelo amo á descoberta até

á Casa Negra com ordem expressa de não se deixar agarrar, e de espreitar

em roda com a sua curiosidade habitual. O rapaz partiu a correr, como se

a agua lhe não batesse em cima ás torrentes, e uma hora depois voltava

com a noticia de que os presos estavam na Casa Maldita, de que o

sargento, o _Sapo_, e os milicianos ceiavam regaladamente com o João da

Ventosa, e de que o corpo do Manuel Simões fôra recolhido pelo lavrador,

e jazia com uma véla aos pés e outra á cabeceira na mesma cozinha, aonde

o beleguim emerito e seus sequazes se estavam banqueteando.

Em toda esta chronica, narrada pelo moço com incrivel volubilidade, o

que mais socegou o animo de Antonio da Cruz foi a certeza, de que o

cadaver do fazendeiro da Aramanha não desapparecêra, como se dizia, por

artes do demonio. Estava prompto a medir-se e a arcar com uma companhia

inteira de milicias, mas o inimigo do genero humano tremia só de cuidar

que poderia encontrar-se com elle um só instante!

--Ah José! disse depois de certa pausa. Então o sôr João da Ventosa é

que levantou o corpo do Manuel e o levou para casa?... Estás bem certo?

Viste?...

--Com estes dois que ha de comer a terra, respondeu elle, fazendo uma

cruz com os dedos, e beijando-a. Assim me Deus salve a minha alma. Ah

patrão, que _diluivo_ de agua que vae por ahi abaixo! Parece que quer

alagar-se hoje o mundo. Credo!...

--É verdade! accudiu o moleiro. Vens um pinto... Vamos! Que tal te sabia

um trago, ou dois de agua pé, ein? A roupa não te pesa e estás tiritando

que parece que te apanhou uma sezão...

O liquido medido com largueza pagou os trabalhos do moço, e o amo

despediu-o logo depois, em quanto Manuel Coutinho passeiava de um lado

para o outro inquieto e murmurando por entre dentes algumas palavras.

--Antonio! observou o mancebo, parando de repente defronte do moleiro, e

encarando-o firme. Atreves-te a ires commigo á Casa Negra, para

enxotarmos de lá o sargento e a sua quadrilha? Elles são oito, ou nove,

mas nós dois bem armados e decididos?!...

--Valemos por dez ou doze. Vá feito, senhor! A espingarda é de dois

canos e a choupa está amolada... V. s.^a quer a outra espingarda? É um

instante em quanto se carrega?

--Não!... Sim!... Carrega! Guardarei as pistolas e a espada para o fim

se for preciso.

--Quer que vamos já?... Sinto uns formigueiros n'este braço, que não me

deixam senão quando assentar em cheio duas boas lambadas nas costas do

sargento e na cabeça d'aquelle alma ruim do _Sapo_...

--Não as perdem, mas espera!... Que bebam até caír. Nós os faremos

erguer. Podes fumar homem!

--Com sua licença.

O dialogo acabou aqui. Manuel Coutinho sentou-se com a cabeça entre os

punhos e os cotovellos na mesa, scismando, e o Antonio poz-se com todo o

vagar a carregar e escorvar a espingarda. Depois foi ver as mós se

tinham grão, abriu o ladrão da presa, e quando tornou, veiu encontrar

ainda o patrão na mesma posição com o relogio deante de si e os olhos

cravados nos ponteiros.

--Agora! exclamou o mancebo levantando-se com impeto. É meia noite!

Esperam por nós. Vamos! E cobrindo-se com a manta, que o Antonio

extendera a enxugar ao lume, passou as pistolas no cinto, apertou o

boldrié da espada mais alto, e pegou na espingarda.

O moleiro ainda se apromptou mais depressa. Enrolou-se na manta, cobriu

com ella a coronha e os fechos da clavina, metteu-a debaixo do braço

esquerdo, e empunhou com a mão direita o inseparavel varapau rematado

pela choupa. No momento, em que estava dando volta á chave da porta um

immenso clarão livido abriu os céus, o outeiro illuminou-se de fulgores

sinistros, e a casa tremeu com a terra ao ribombo do trovão

perpendicular. Apezar da sua intrepidez os dois recuaram quasi

assombrados até ao meio do aposento: Santa Barbara! bradou o Antonio

benzendo-se. Jesus! clamou o amo ao mesmo tempo. Ficaram immoveis ambos

olhando um para o outro.

--Deixemos passar a maior, senhor! disse d'ahi a instantes o vigoroso

aldeão. Ella anda mesmo por cima da nossa cabeça...

--Pois sim. Deixemos! redarguiu Manuel Coutinho sentando-se no banco

defronte da porta.

Minutos depois outro relampago menor allumiou o campo, e á luz d'elle

viram vir correndo ennovellado direito ao moinho um vulto, que mais

parecia na velocidade um furacão, do que um homem.

--Oh lá! disse em voz cheia o moleiro. Castelhanos por aqui á meia

noite?! Quem temos? É bom vêr sempre!...

Não teve tempo para mais, do que para se desviar, extender o braço, e

segurar pela golla o impetuoso vulto, tão cego na partida, que se elle

não se arreda a tempo, colhe-o pelos peitos, despedido como uma bala de

canhão, e atira-o ao chão, porque trazia força para arrombar portas e

paredes.

--Ah, sô amigo, aonde vamos com tanta pressa? exclamou o Antonio, o qual

affeito a apanhar na praça os bois de cara, amarrava ao limiar com o

vigoroso pulso o desconhecido, que, estafado e convulso, estacou

arquejante e sem poder falar.

Manuel Coutinho, callado e quasi indifferente, havia-se approximado da

porta, e contemplava a scena, como quem só desejava, que ella se não

prolongasse. Antonio da Cruz adivinhou a impaciencia do mancebo, e

voltando-se para elle disse-lhe:

--É um instantinho, meu amo! Entretanto amaina mais a chuva... mas nadar

por estas horas com mouros na costa, nada!... Vamos, patrão, desate-me

já a lingua, como desatava as pernas pelo cabeço arriba, e diga para ahi

quem é, e o que faz correndo por esta linda noite até á porta da gente

de bem!... Vamos, desembuche, senão!...

--Sou... Sou...

--É! É... Quem? Cousa boa, não decerto. Com a breca! Entre que lhe

queremos ver o focinho á candeia. Melros ás escuras podem saír

morcegos!...

E ao mesmo passo arrastava para dentro da cozinha o vulto, que

escorrendo em agua, e cortado de frio e medo, nem lhe resistia, nem

tinha animo para articular palavra. Apenas lhe metteu a luz ao rosto, o

moleiro, fitando-o, voou de um salto á porta, fechou-a, e voltando-se

para Manuel Coutinho, disse-lhe com um riso amarello:

--Aposto que v. s.^a não é capaz de adivinhar quem o diabo nos trouxe

por aqui? Sabe quem é este cara de fuinha?...

--Nunca o vi. Não o conheço.

--Pois olhe que perde!... Isto é o maior heroe cá dos sitios... Nem mais

nem menos, do que o sôr Gaspar Preto, por alcunha o _Sapo_!...

--O _Sapo_? Já te ouvi esse nome... Será?!...

--O maior ladrão e traidor da cafila dos jacobinos... Oh, mas por aqui a

esta hora, não é natural! O sargento Cabrinha não anda longe, aposto!...

Este velhaco é o seu braço direito...

--Percebo!... bradou o mancebo, deitando tambem a mão ao _Sapo_, e

saccudindo-o de modo, que se repetisse, ameaçava desconjuntal-o.

Antonio! Não o deixes escapar! Foi Deus que o trouxe...

--Deus?!... Antes o demonio, cujo é!... Não importa. Veiu por guloso?

Pagará as dividas que tem na minha conta. Se havia de ser ámanhã é hoje.

Gaspar! Toma sentido! Se não me respondes direito, por alma de minha mãe

te juro, e sabes que nunca jurei em vão, que deixas aqui a pelle pelos

nós d'essa corda, ou os ossos na vara do meu cajado...

--Sôr Antonio, por quem é!...

--Por quem sou mesmo. Prometti, e costumo cumprir.

--Nunca lhe fiz mal...

--Hum! Nem bem!... Vamos! Cabeça alta e lingua solta. D'onde vens?

--Da Casa Negra, aonde appareceu o demonio ao sargento, a mim, e aos

milicianos.

--Ah! Ah! accudiu Manuel Coutinho. Deixa-me perguntar. Este fio póde

levar-nos longe.

Interrogado pelo mancebo, entre o pavor dos espectros e o medo das

ameaças de Antonio da Cruz, Gaspar Preto fez uma confissão geral tão

sincera, que até o segredo do tiro dado em Manuel Simões lhe saltou

quasi todo da bôcca sem se sentir. O pavor ensandecia-o.

--E affirmas não estar já ninguem na casa, senão os presos?

--Ninguem, a todos os vi fugir, como lebres...

--E o sargento?

--Desappareceu. Foi o primeiro.

--Bem! Agora nós! atalhou o moleiro. O que vinhas tu aqui cheirar

ante-hontem? Se disseres a verdade não te toco.

--Eu!... Eu!...

--Tu sim!

--Vinha ver... se havia gente de fóra por cá!... redarguiu o malsim

contido pelo olhar firme de Antonio, e estorcendo-se como se lhe

estivessem dando tratos.

--Ora graças a Deus! Já confessas!... Vinhas então como espia! Está bom.

Outra pergunta. Quem foi ao Casal do Ouro? Fala!...

--Eu!... Suspirou tremulo o miseravel.

--Quem te mandou?

--O sargento... Que eu por mim!...

--Bem sei. Vamos a outra historia. Esta tarde deram um tiro no Manuel

Simões?... Vê bem! Quem foi? Olha lá se mentes!...

Gaspar sentiu dobrarem-se-lhe os joelhos, fugir-lhe a vista, e

zumbirem-lhe os ouvidos. Esbugalhou os olhos, e por mais que quizesse

não poude pronunciar uma syllaba.

--Quem deu o tiro, quero saber! repetiu o moleiro, meneando o varapau e

encarando o assassino com terrivel gesto.

--Não sei... Não sei...

--Sabes e viste. Essa cara de réo o está confessando. Fala. Quem foi?

--Eu!... por descuido...

--Descuidos teus, já sei. É o que suppunha. Agora vê lá!... O sargento

não te tinha dito nada?...

Houve uma pausa longa. O _Sapo_ chorava, supplicava, mas não redarguia á

interrogação.

--V. s.^a já viu esmagar uma osga contra uma parede? bradou o Antonio

fuzilando-lhe as pupillas, e convulso de cholera. Pois vae ver.

Juro-lhe, se este cão se cala um minuto, que deixa os miolos n'aquelle

muro.

--Pelo amor de Deus!... Sôr Antonio não me deite a perder!...

--O sargento sabia?... replicou o outro alçando o cajado.

--Jesus!... Não me mate!

--Sabia ou não?...

--Sabia!... rosnou o malsim quasi sem sentidos de terror.

--Quanto te prometteu... pelo tiro? Conheço-te. Tu de graça não o

disparavas.

--Agora isso não! Póde matar-me, mas não confesso.

--Eu matar-te?... Para que? O carrasco não come pão de graça.

--Então entrega-me?!...

--Com anginhos nos dedos e ferros aos pés. Juro-te! Dize a verdade,

homem. Do mal o menos. Quanto te prometteu? Olha que a corda, que ha de

pendurar-te na forca, já está fiada e torcida...

--Se eu disser não me descobre?

--Não! O teu crime te descobrirá. Quanto?

--Seis moedas...

--Por conta, ou ao todo?

--Por conta. As outras seis... havia dar-m'as em Lisboa... quando

levassemos os presos.

--Ah! Agora repara. Vamos ás nossas contas. Gaspar, devo-te uma sova

mestra pelo natal passado e outra por este entrudo. Bem te has de

lembrar por quê!... Mas perdôo-te, tudo, e até no tiro dado em Manuel

Simões não hei de boquejar... se juras fazer ao sargento o que elle te

mandou fazer aos outros...

--Matal-o?!... exclamou o _Sapo_, cuja vista feroz se inflammou.

--Não, maldito! A justiça que o mate, quando o sentencear!

--Então?!...

--Quero que vejas, que ouças, e que me digas tudo quanto elle fizer?

Percebeste?

--Sim senhor...

--Vê lá. Se te escorrega um pé, ou a lingua, e eu o sei... guarda-te!

--Não ha de ter razão de queixa. Sou-lhe muito obrigado.

--Não me dês mel pelos beiços, que não sou abelha. Cuidado commigo.

Depois!...

--Já lhe disse. Fique descançado.

--Fico, fico! Não tem duvida. Agora vens comnosco á Casa Negra.

--Oh, sôr Antonio, por alma de sua mãe, pela sua boa sorte, tudo quanto

mandar, menos isso... Sirvo-o de rastos, estou prompto a lamber o chão

aonde pozer os pés, mas tornar alli... isso não!

--Ah! Tens medo do diabo?...

--Mate-me, entregue-me, faça de mim o que quizer, mas não volto lá.

E as feições repulsivas do malsim exprimiam por tal modo o medo e o

espanto, e revelavam uma resolução tão decidida de se expor a tudo para

não obedecer, que Manuel Coutinho disse algumas palavras ao ouvido de

Antonio da Cruz.

--Pois bem, esperarás por nós. Ahi te deixo agua pé e brôa. Mas sentido!

Olha que te quero encontrar á volta!... Forte homem! Ter pavor assim de

almas do outro mundo!...

--Ah! sôr Antonio! Se você visse!... O fantasma branco alto como um

cypreste crescer para si, e o defunto sentar-se de repente e olhar... Ai

Jesus! Parece que os estou vendo ainda! Quando me lembro cuido que

enlouqueço!...

--Está bom! Está bom! Até logo! Com que viste o defunto e o fantasma?...

insistia o moleiro serio e apprehensivo, olhando para o amo com certo

enleio.

--Como o estou vendo a você, sôr Antonio. Credo!...

A Casa dos Fantasmas - Volume I Episodio do Tempo dos Francezes · 第 5 / 11 段