debruçado sobre o seu estremeceu. Um sorriso melancholico adoçou-lhe a
expressão severa. Cedendo ao carinho de tão suaves caricias, e tornando
os olhos meigos, fitou-os cheio de enlevo na formosura da filha.
Cingindo-lhe depois o collo com os braços, cobria-lhe de osculos os
cabellos e a fronte, e procurou tranquillizar-lhe a inquietação.
Leonor era todo o seu amor e toda a sua familia. Se desejava sobreviver
ás desgraças da patria é porque não queria deixal-a orphã e desamparada
n'uma edade, em que as illusões armam tantos laços á candura e á
innocencia.
Mas as palavras do velho cavalheiro não o enganavam a elle, nem á
donzella. Quando para a consolar affirmára, que um vago presentimento
lhe augurava, que não chegaria a entrar na prisão da villa, via-a aberta
para o receber, e o conselho de guerra convocado para o sentenciar!
Quando lhe lembrava, que seus amigos não dormiam, e que Manuel Coutinho,
e dois d'elles, andavam perto, sorria-se por dentro da invenção, porque
ignorava se a sorte d'elles não seria egual, ou peior n'este momento!
Leonor ouvia-o com a incredulidade do affecto. O fino instincto das
almas, que são todas sentimento, é adivinharem os verdadeiros motivos
dos sacrificios generosos. Palpava a verdade, e tremia que o futuro
fosse ainda mais funesto. Mas dotada de caracter varonil vencia-se para
não atormentar seu pae, devorando os prantos, e comprimindo os soluços.
Á ceia a visita do lavrador, e a presença odiosa do sargento de
sentinella, como vimos, á hospitalidade do rendeiro, interromperam a
conversação cortada, com que os dois se distraíam, e apenas as portas
tornaram a fechar-se, e Margarida poz a mesa, o pae e a filha, tomada
uma refeição mais do que sobria, e já cansados de dissimular,
despediram-se e cada um se recolheu á sua camara.
A creada no mesmo instante fez a cama para si em um recanto, e fatigada
adormeceu mal a cabeça tocou no travesseiro.
Leonor aproximou-se então do espelho, lançou sobre as espaduas núas um
penteador de cassa, e principiou a desatar as tranças, que, desfeitas,
se encresparam em madeixas negras, envolvendo-a no mais luxuoso véu.
Duas lagrimas, duas perolas, avelludavam-lhe o olhar tocado de branda
ternura, e as pupillas, pretas e languidas, ás quaes aquella nuvem leve
de melancholia toldava um pouco o brilho, levantavam-se armadas
d'aquelle requebro meio tristeza, meio reflexão, que fala com tanta
eloquencia; e prende com tão irresistivel poder até os mais isentos. A
bôcca, pequena e graciosa, abria aos cantos duas covinhas assetinadas,
berços de lyrios aonde se embuscava a malicia espirituosa, tornando o
sorriso fascinador. Os dentes, ora appareciam finos e eguaes, como fios
de aljofres entre rubis, ora se escondiam, quando a phisionomia tomava a
expressão contemplativa e serena, que era o seu maior triumpho. O collo
esbelto, disputando alvura ás açucenas, pousava-se com graça; as faces e
a fronte douravam-se d'aquella transparente e mimosa côr, em que as
rosas nascem e desmaiam á mais leve commoção, radiosa carnação, que
tanto realça a belleza meridional, mesmo quando não cede ás mulheres do
norte a palma dos niveos encantos. O seio virginal palpitava
sobresaltado. A mão estreita e leve deslaçava impaciente os nós de fita
do justilho; e a estatura elegante e flexivel prestava-se em ondulações
airosas a todos os movimentos.
Um suspiro e um gesto, que exprimiam a tribulação do animo combatido de
apprehensões, e uma pausa, em que a vista se perdeu pelos idilios do
primeiro amor, revelavam as duas correntes encontradas, com que luctava
áquella hora. O que lhe dizia a ternura filial repetiam-n'o as lagrimas
lentas e silenciosas, vertidas quasi sem as sentir. O que anciava e
assustava a timidez da paixão entre hesitações e receios, mais fortes
que a vontade, retratava-o a repentina chamma da vista, e o extasis em
que o rosto se transfigurava subitamente, illuminado pelo duplo clarão
da esperança e do pudor. Quem podesse colher n'este instante o segredo
da sua alma só encontraria n'ella duas imagens--a do pae extremosamente
querido, e outra mais viva, mais occulta, e mais funda ainda, a de
Manuel Coutinho, que o pejo quasi encobria de si mesma, mas que uma
ternura invencivel avivava a cada palpitação do peito!
Leonor sentou-se ao bofete no desalinho da meia nudez, dobrou uma folha
de papel, e contemplou-a por momentos com a cabeça entre as mãos e a
vista vaga e esquecida. Depois, meneando a fronte, como se quizesse
sacudir o peso dos cuidados, inclinou-se para a mesa, soltou a penna
sobre o papel, e começou a retratar as tristezas do captiveiro e os
sonhos do coração.
Usando do privilegio concedido aos auctores de historias, tão veridicas
como esta, introduzir-nos-hemos n'este ninho virginal, e por cima do
hombro da linda escriptora ao qual o véu diafano das rendas mais faz
sobresaír o marfim polido e a fórma admiravel, iremos lendo á medida que
ella as escrever, as confidencias, que julga depositar unicamente no
seio da mais discreta e mimosa de suas amigas de infancia, de D.
Marianna de Sousa, mais velha um anno, e tambem desterrada com toda a
familia para longe do antigo solar de seus paes em Lisboa.
Escutemos a conversação travada a distancia entre ellas. É de crer que
nos diga mais, do que extensos commentarios ácerca dos principaes
personagens, cujas aventuras emprehendemos esboçar com a fidelidade e
escrupulo proprios de narradores inaccessiveis á fabula e á lisonja.
Leonor de Azevedo a D. Marianna de Sousa
«Minha freirinha!... Deixa-me dar-te mais esta vez ainda o doce nome da
nossa amisade! Escrevo-te das portas de uma prisão, e talvez, ai! tremo
dizel-o! dos primeiros degraus do cadafalso de meu pae. Realizou-se o
que eu tanto receiava. Lagarde descobriu o nosso asylo. Estamos em suas
mãos. Offendi-lhe o orgulho; é capaz de tudo; e conto com a vingança
promettida. Não me arrependo. No meu logar, Marianna, farias tu o mesmo,
e esperavas resignada a tua sorte... Se não fosse meu pae, pouco ou
nenhum caso faria d'elle... O despreso até mata a aversão, e de certo
ninguem o despresa tanto, e com mais rasão.
«Lagarde veiu a Mafra a um baile que lhe deram. Tentaram-lhe a cubiça as
terras e os vinculos, que hei de herdar, Deus queira que bem tarde (!),
e por desgraça poz os olhos em mim para enriquecer um parente, que não
conheço, que me não conhece tambem, mas que elle ousou dizer que me
adorava pelo retrato, que lhe fizera de mim... dos bens da minha casa é
mais provavel! Marianna, lês na minha alma, e bem pódes imaginar o
espanto em que fiquei, ouvindo de um estrangeiro esta proposta, que me
offendia na ternura filial e no amor proprio... Nem lhe respondi!
Encarei-o, e, levantando-me, deixei-o acabar a ultima cortezia e o
ultimo sorriso deante de uma cadeira vasia. Dizes que me pareço com meu
pae, e que a natureza errou em mim o sexo. Talvez. Nunca senti tantos
desejos de ser homem! Mulher, senão fosse o mundo!... Ha affrontas,
porque choro amargamente a nossa fraqueza!
«Lagarde tem maneiras e grande uso da sociedade. Não sossobrou com o
revés, começando a girar pelas salas como o convidado mais jovial. Notei
que não tirava a vista de mim, e preparei-me para segunda instancia. Não
tardou. Veiu tirar-me para dançar, louvou o meu toucado, o meu vestido,
a delicadeza das mãos, a graça e a alvura das rendas; achou-me linda e
seductora; extasiou-se de lhe responder algumas palavras em francez; e
falou-me com enthusiasmo dos elogios que tinham feito da minha voz...
Constrangi-me e escutei-o sem colera, sem impaciencia, mas com aquelle
sorriso que tu dizias ás vezes, que era cortante como fio de dois gumes.
Que remedio! Estavamos em scena, e elle é actor consumado. Depois, e no
fim de tudo, por acanhada e esquerda não queria deshonrar a nossa
educação do convento, nem dar-lhe motivos para que me tomassem pela
provinciana boçal e nescia, que ao principio cuidára encontrar...
«Acabada a dança, em que te affirmo sem vaidade, que não envergonhei as
lições do nosso mestre mr. de Lisieux, tão airoso com a sua cabelleira
empoada, casaca direita, e rabequinha de estojo, ao apartarem-se os
pares, convidou-me para darmos um passeio pelas salas. Inclinei-me, e
acceitei-lhe o braço. Démos algumas voltas, e no meio de uma d'ellas,
junto de um tremó carregado de flores, teve o despejo de renovar a
supplica, assim lhe chamou, em ar de riso, porém o tom e a expressão
diziam assaz que era uma ordem.
«Ouvi-o estremecendo. Não acreditas a jactancia, a soberba, e por baixo
do verniz das phrases, o modo imperioso, com que este sultão me atirava
o lenço em nome da felicidade do seu parente, e da minha, em nome da
gloria e ornamento dos bailes de París e das recepções das Tulherias,
que a rosa do occidente iria realçar com seus encantos!... Contive-me.
Subiu-me em ondas a côr ao rosto. Empallideci depois. Aquelle escarneo
era tão pungente, que me custava a supportal-o, sem lhe explicar ao
menos que o entendia. Mas contive-me, protesto que me contive a ponto de
me saltarem as lagrimas pelos olhos seccos! Não é possivel exprimir-te o
que padeci nos minutos que durou este supplicio. Foram annos de angustia
e de anciedade! Lagarde, como se adivinhasse, tocava em todas as partes
melindrosas da minha alma e offendia-as. Tornou-se por tal fórma
transparente a ironia, que se me figurava ouvil-o rir por dentro da
eloquencia, que estava gastando em convencer a herdeira sómente
cobiçada, para remir do naufragio a mocidade tempestuosa d'aquelle
sobrinho, arruinado e invisivel, cuja causa advogava.
«Perguntarás, talvez, porque não fiz o que já tinha feito, porque o não
deixei? Não me atrevi. Meu pae estava perto; Manuel Coutinho tambem;
olhavam para nós, e ao menor signal que me escapasse, castigavam alli
mesmo o insolente! Vê tu o meu enleio e o meu martyrio! Quando se
afastaram, respirei. Podia mostrar a Lagarde, que a estatua vivia e
tinha brios para vingar a dignidade do seu sexo. Inflammou-se-me a vista
com a ira, fitando-a n'elle com um desdem tão altivo e firme que o
obriguei a calar-se de repente no meio das lisonjas impertinentes.
Percebi que não esperava tanto, e que se perturbava. Retirando então o
meu braço, dei dois passos atraz, e medi-o da cabeça aos pés com aquelle
olhar scintillante e frio ao mesmo tempo, que me achaste duas vezes, e
que depois contavas, sorrindo, que era o mais fero e fulminante olhar,
que nunca viras, porque gelava e queimava ao mesmo tempo. Não sei se foi
esse, ou outro peior, o que sei é que recuou lentamente e quasi pasmado
deante d'elle, como deante da ponta de uma espada; e quando lhe
respondi, que preferia a cella do mais austero convento, a pobreza, a
mendicidade até, á ignominia de me vêr em leilão na praça, á vergonha de
acceitar o nome de um homem, que nem ao menos guardava as exterioridades
hypocritas de um galanteio, julgando-me tão pouco que se propunha amar e
pedir esposa por terceiro, vi-o fazer-se branco como a tira da camisa,
esconder o sorriso nos cantos da bôcca, e olhar-me direito e serio como
deve olhar-se para alguem, quando recebemos uma injuria grave. Mas
polido, mesmo na sua colera foi senhor de si, e mordendo os beiços com
tal furia que lhe espirrou o sangue d'elles, cortejou-me, e retirou-se.
Á roda de mim tremiam todos. Eu levantára a voz, e tinha-o constrangido
a curvar a fronte deante de muitos. Foi o que não me perdoou.
«Todas as nossas desgraças datam d'esta noite. Jurou humilhar-me, mas
não o consegue. Livre, ou em ferros, o desprezo será egual... Antes a
clausura, antes a vida errante que levo ha mezes, antes as estreitezas
de uma prisão, do que a infamia de um laço apertado sem amor pela
avidez! Lagarde não tornou a falar-me. Sómente poucos dias depois, sahi
a cavallo, e encontrei-o com Loison, general maneta, que dizem ainda
mais perverso. Pararam para me vêr passar. Sabes que sou cavalleira, e
que um animal fogoso não me assusta. Montava a Estrella, a egua valida
de meu pae, e apenas os descobri, larguei-lhe a redea, e atravessei como
uma seta por meio d'elles. Saudaram-me, correspondi, e dentro em pouco
já não os avistava. Foi na vespera dos tumultos das Caldas e da
emboscada de Mafra. No dia seguinte, dia de terror e afflicção para os
habitantes, estava achado o pretexto que havia de manchar de sangue o
poder dos estrangeiros.
«O que nos reserva o futuro? Não ignoras quanto meu pae é altivo e
decidido. Se a sua vida dependesse de uma palavra, de um passo, que
reputasse de quebra para a honra, ou para os brios, preferiria morrer
mil vezes... Sei o que elle ha de fazer como se o estivesse vendo. Ha de
dizer a verdade, toda a verdade; ha de expor-se... Meu Deus! Parte-se-me
o coração, e não tenho animo de cuidar!... Não! Não! A providencia não o
póde permittir! Marianna!... As lagrimas que estou chorando, a dôr que
padeço são tão crueis, que ha momentos, em que a razão me foge. E Manuel
Coutinho?! Ainda me assusta mais!... Em sabendo a nossa prisão... com o
seu genio impetuoso e aquella intrepidez de cavalleiro andante, porque é
um verdadeiro paladino perdido n'estes dias de Junots e Lagardes, é
capaz de entrar só em Santarem para nos arrancar dos ferros á luz do sol
e deante de todos. Não rias?! Não creias que estou pintando de
imaginação um heroe de novella!... Perguntas-me desde quando o amei, e
se foi necessario o fulgor de Marte para vencer a isenção de Juno!?
Entendo-te! Viras contra mim as palavras, que eu soltava na ingenuidade
do orgulho, quando a inexperiente educanda te divertia com seus
encarecimentos de desdem pelas fraquezas apaixonadas. Ouve! Amei-o logo,
amei-o com extremo apenas o vi. Mal nos olhámos, sorrimos, e
conhecemo-nos sem lucta, sem resistencia, sem juras, nem protestos. Elle
sentiu que era meu; eu entreguei-lhe o coração com tanta confiança, como
se nos tivessemos creado juntos desde a infancia. Marianna!... Se és a
amiga, que eu creio, has de estimal-o tambem, e approvar a minha
escolha. Asseguro-te que o merece. Aquelle rosto nobre e gentil, mas um
pouco triste, é o espelho do seu caracter. Meu pae, e mais não é facil
em affeições e elogios, admira-o, e não vê por outros olhos em muitas
cousas. A palavra de Manuel Coutinho, que o não lisonjeia, que até o
contraria em algum dos habitos e idéas mais arraigadas, vale um
juramento para elle. Entre estes dois affectos, tão doces e acerbos,
reparte-se-me a alma, rasga-se-me em duas, e não ouso dizer-te a ti, a
mim propria, qual é maior, ou mais absoluto!...
«Accusas-me de dissimulada?! Não te encobri nada. Lês nos meus segredos
como em livro aberto. Amo, como não se torna a amar, como não imaginava
que podesse amar-se... Digo-te sem disfarce o que occultaria a outra, e
tu ingrata (!) ainda tens animo de me arguir! ...Lembras-te d'aquellas
nossas madrugadas nas Salesias, entre as rosas e jasmins do jardim, e os
vôos dos passarinhos, que chalreando não nos deixavam um instante?!...
Não tens saudades d'ellas e das brandas illusões, com que nos
embalavamos no meio das flores d'esses dias tão curtos, ai (!) e tão
depressa desvanecidos?! Com que dôr melancholica e agradavel, os estou
recordando, sobre tudo agora!... Como a esperança nos fazia palpitar!...
Que desejos pueris, que planos impossiveis, que doces contestações, e
que amuos logo esquecidos entre dois beijos! O nosso mundo era tão
pequeno, que alli principiava e acabava então!
«Meu pae, militar e arrebatado, a rogos meus ficou em casa. Por vezes o
vi ir direito á sua espada, e suspender-se com os olhos arrazados de
agua. O que o prendia era o receio de me deixar orphã, era a certeza de
que se arriscaria sem proveito. Que dia aquelle, e sobre tudo que
noite!... Os francezes em bandos pelas ruas alvoroçavam a terra com
vozes, affrontas, e tiros. Duas vezes as balas das espingardas vararam
as portas das nossas janellas. Sobre a madrugada appareceu Manuel
Coutinho. Vinha pallido e desfigurado. Nenhum de nós se tinha tambem
deitado. Chamou meu pae de parte, falaram em segredo, e minutos depois,
ás escuras, e sem ruido, fugiamos pelas hortas, e montavamos a cavallo.
Rompia o sol, quando entrámos em Torres Vedras, e só alli me disseram
que a nossa casa estava cercada, e que Lagarde expedira de Lisboa ordem
de prisão contra meu pae. Não lhe custou a implical-o na devassa, e
contava provavelmente fazer de mim o penhor da sua clemencia...
«Desde então trocámos o socego domestico pela vida attribulada, que ha
mezes nos não consente uma hora de repouso. Acossados, como feras,
vagueando de homizio em homizio, e de solidão em solidão, por toda a
parte a hospitalidade dos que nos accolhiam, não sem risco, nos foi leal
e caridosa. Rodeados de espias, inculcados aos delatores como presa
digna de subido premio, achámos na bondade rude, mas sincera, dos
casaes, corações de ouro, que nos agazalharam com o maior carinho, e
almas compadecidas, que nos ajudaram a supportar o peso da desgraça.
«Os mais pobres foram tão honrados como os ricos. Ninguem nos trahiu.
Perseguidos como réos de grandes crimes, todos os braços se abriram para
nos receber, todas as portas se fecharam cuidadosamente para nos
guardar... Descansámos, por fim, mas á porta de uma prisão, e nas mãos
de inimigos implacaveis! Meu pae dormia, e nem teve tempo de se
defender... Estimei! Já que havia de ser, foi melhor assim! Chegámos a
tempos em que é delicto até o valor! Um malvado, cego e venal
instrumento de Lagarde, descobriu o nosso ultimo asylo, e prendeu-nos á
traição...
«Com que socegada ignorancia te ouvia eu pintar a vida, que nos
aguardava fóra das grades da nossa prisão dourada!... Com que vaidade
infantil me compadecia das fragilidades das donzellas, cegas de amor,
que tudo arriscam por seguir o eleito da sua alma!... Castigou-me Deus!
Sou mais escrava, mais timida deante da minha fraqueza, do que nenhuma!
A ternura, que sinto por elle é tão grande, que me quebra a vontade e o
orgulho.
«Felizmente adoro um homem digno do meu coração. Mas se o não fosse!
Marianna! Não me vejas córar, não me vejas cobrir o rosto de pejo! Se o
não fosse... Perdôa! hei de ter animo de confessar a verdade, amava-o do
mesmo modo, sei que o amava tanto, porque mais é impossivel!... E agora
terás dó de mim?! Falarás ainda da soberba, que me fazia idolo
indifferente a todos os cultos?!...
«Cheguei áquelle excesso, em que parece que o coração não vive senão do
que é de outrem, do que o amor, que inspira e domina tudo, quer dar-lhe
quasi por esmola! A minha luz, todas as minhas esperanças, todo o
futuro, pendem de um olhar, de um sorriso, de uma palavra d'elle!... Vê
como o préso, e como deixei de ser a mesma!... Ha cinco annos, quando
iamos sentar-nos debaixo das madresilvas do caramanchão do convento, em
quanto as nossas amigas passavam, correndo e saltando com os seus risos
descuidados, porque suspiravas tu, e por mais que eu interrogasse a
minha alma, porque a achava sempre muda e insensivel!?... O que foi que
me acordou d'aquelle somno tranquillo, d'aquella apathia dos sentidos,
que só despertam com o primeiro alvoroço, quando entre jubilos e
sobresaltos o peito começa a agitar-se? Não sei se outras são assim.
Vivo desde que principiei a amar. Até ahi dormia. Era uma estatua! O meu
coração como que esperava _por elle_ para se abrir e brotar essa flor
tão mimosa, que um nada queima, tão rara que uma vez só na vida a
sentimos pelo perfume, pela alegria, pelo esplendor... Desejava ser
formosa, ser princeza, ser rainha, ser tudo, para elle subir, e eu me
saber invejada. Que loucuras! Vê! Agora mesmo estou perguntando, sem
querer, ao espelho baço e empanado da minha prisão, por esta noite
medonha de trovões, se me acha ainda bella?!...»
Neste ponto terminavam as confidencias. Leonor nem acabára de formar as
ultimas lettras. Quando, entre o meio sorriso e as rozas avivadas, de
que a travessura da revelação lhe animára o semblante, ergueu de repente
os olhos para o espelho, a que alludia na carta, pasmou, estremeceu de o
vêr mover-se lentamente com a moldura, e entre-abrir-se como uma porta.
Outra, menos varonil, teria soltado vozes de terror; ella não. Fez-se
pallida, sentiu-se fria, porém não articulou palavra, nem deixou escapar
um grito. De pé, tremula, com os olhos fitos e algum tanto dilatados
pelo espanto, aguardou a aventura, que esta singularidade lhe promettia.
Não esperou muito. O espelho girou, rangendo um pouco, e á entrada da
passagem occulta, que fechava, appareceu uma figura com um castiçal na
mão, avultando á medida que se adeantava e que a luz mortiça da véla lhe
batia no corpo, desfazendo a escuridade. Era um homem de carne e osso, e
não um fantasma. Podia ser um salteador, um assassino, ou um indiscreto,
não era de certo uma alma penada. A donzella respirou. Apezar da
fortaleza do seu espirito a visão tinha-lhe paralyzado os membros, e o
coração, pulando descompassado, trahia o susto, que os labios a custo
disfarçavam. O desconhecido trajava de preto, vinha envolto em um capote
de cabeções, e as largas abas do chapéu enchiam-lhe o rosto de sombras.
Quando percebeu que Leonor o contemplava, levou o dedo á bôcca e
recommendou silencio. No movimento de braço o capote descobriu os canos
luzentes de duas pistolas passadas em um cinto de couro, e a bainha de
uma espada larga e curta.
A filha de Paulo de Azevedo deixou-o approximar de si sem denunciar
terror. Só falava com a vista, e desvanecido o primeiro sobresalto, o
que o semblante exprimia era a curiosidade natural, excitada pela
visita, que, por tal modo e a taes deshoras se via obrigada a receber. O
hospede punha entretanto os pés no sobrado, roto e carunchoso, com tanto
resguardo, e pisava com tão grande subtileza, que os passos eram surdos,
como se caminhasse por cima de lã. Chegando ao pé d'ella, encarou de
perto a formosura intrepida, que sem receio olhava para elle firme, e um
sorriso alegrou a sua physionomia carregada, certo ar de sincera
admiração inculcou que não contára encontrar tanto valor.
--Vejo que não me enganaram! murmurou ao ouvido de Leonor. Tem mais
animo, do que muitos homens. É digna do que tentâmos para a salvar e a
seu pae!
--Mas quem é?... D'onde vem?... Como está aqui?!... perguntou a donzella
atropelladamente, mas no mesmo tom submisso.
--Somos tres. Os meus companheiros esperam no fim do corredor, que
desembocca n'esta porta secreta. Pertencemos ao conselho conservador de
Lisboa, soubemos da prisão de seu pae, e seguimos os milicianos de
longe. O lavrador, que traz esta casa de renda, é nosso, e ensinou o
modo de entrarmos aqui. Temos caminho facil para fugir.
--Ah! E Manuel Coutinho veiu tambem?... accudiu Leonor córando.
--Não! Pouco ha de tardar. Está perto, e mandou-se-lhe recado... Mas os
momentos são preciosos. Não podemos demorar-nos aqui. Quer ir acordar
seu pae sem bulha e dizer-lhe?...
--Já! Vou immediatamente. São dois minutos em quanto volto com elle.
--Pois sim. Aqui espero.
De feito, instantes depois Leonor tornava com Paulo de Azevedo, e este
apertava silenciosamente a mão ao desconhecido, que lhe dizia em voz
baixa:
--Venha! Temos os cavallos promptos e tudo a postos. Simão da Costa e
Nuno do Rio, seus amigos, estão alli dentro, Manuel Coutinho vem já
caminho da Ponte... São mais de onze horas. Ás duas saímos, se a noite
lhe mette menos medo, que a cadeia de Santarem...
--Quando quizer. Para onde?...
--Para Lisboa. Para o covil do Lobo. Aonde menos cuidem que póde estar,
ahi será o mais seguro.
Paulo inclinou a cabeça e seguiu-o com sua filha.
O espelho fechou-se. Quando o sargento veiu não achou nem o rasto de
seus presos.
VIII
Entre os bastidores
Lá sabemos como Leonor e seu pae conseguiram evadir-se sem as chaves da
prisão saírem do bolso do carcereiro. Agora cumpre-nos explicar a
resurreição dos mortos na casa maldita, e esboçar em duas palavras a
biographia do intrepido espectro, que, mascarado em alma do outro mundo
para assustar os valorosos milicianos da comarca, ás ordens do sargento,
baqueou das andas abaixo, transido de pavôr, por achar o defunto, de pé
tendo-o visto entrar em braços dos creados.
Nos acontecimentos d'esta infausta noite para os agentes da policia
franceza, o morto-vivo e o espectro medroso representaram um papel, que
os torna dignos de nos demorarmos com elles por algum tempo.