Estevam Cabrinha era muito capaz de encommendar a morte do fazendeiro, e

Gaspar Preto muito obediente servo, em se tractando de um crime, para

elle os não accusar secretamente do delicto, e não vêr as mãos de ambos

tintas no sangue do seu amigo. Sabia a historia da prisão de Antonio

Simões, não ignorava a promessa indiscreta que elle fizera, de varejar

as costellas do sargento e do _Sapo_, e o mau conceito que formava

d'elles, auctorizava-o a crer que o tiro e a espera haviam partido de um

plano concertado com a deliberação e perversidade, que tanto

caracterizavam o coxo, e o seu Mecenas.

Mas se o sargento era jubilado em velhacaria, e se o seu fiel Achates

tinha estanhadas a alma e as faces, João da Ventosa lisongeava-se de os

codilhar a ambos em esperteza, e armára uma rede, em que haviam de cair

por força. Calou-se, pois, e esperou.

D'ahi a pouco o moço dos bois appareceu com o velho e cansado lampião,

cuja luz mortiça só começou a avivar-se depois de pendurado. Logo atraz

outro creado atirava ao chão com um grande feixe de matto secco, e

arrastando para a lareira dois cepos de oliveira, petiscava lume com o

fuzil, e incendiando tudo ateava uma labareda, cujos clarões, lambendo

as paredes da vasta chaminé, derramaram por toda a casa viva e repentina

claridade. De subito o sargento, que se achava com o _Sapo_ junto da

mesa de pedra, olhou, viu o corpo, e por um gesto machinal e

irresistivel extendeu a mão, e levantou o panno que lhe cobria o rosto.

A vista encandeou-se-lhe, os cabellos erriçaram-se-lhe, e um grito de

espanto truncou-se-lhe suffocado na garganta. As côres rubicundas

amorteceram-se, e, se não se ampara com a hombreira, resvalava redondo

no chão, tão fracos lhe fugiam os joelhos.

Gaspar Preto ainda revelou mais horror. Recuando até á parede com as

mãos abertas como para afugentar de si a visão terrivel, parecia

metter-se pelo muro dentro, com os cabellos em pé, as pupillas

envidraçadas, e tal convulsão em todo o corpo, que o frio de uma sezão

mortal não podéra ser maior.

Os milicianos boquiabertos contemplavam o cadaver, e a figura singular

de Estevam Cabrinha e do coxo, que não eram santos da devoção de nenhum

d'elles.

João da Ventosa sorria-se para dentro. Dir-se-hia que fulminava os dois

cumplices com o sombrio fulgor dos olhos. Um instante depois pousou a

vista, sereno e temperado, sabendo conter-se e dissimular para não se

prender no mesmo laço, que tecia aos outros.

Seguiram-se as explicações. O rendeiro com a voz macia, cujo timbre era

quasi feminil, e aquelle ar de rir bondoso, que encobria tanta cousa,

desculpou-se da triste companhia, que era obrigado a dar aos hospedes.

Tinha encontrado, disse elle, Antonio Simões morto, apenas o conhecia de

vista, mas não tivera animo de deixar o corpo de uma creatura de Deus

exposto no caminho toda a noite. Não havia outra casa decente, aonde

esperasse a sepultura christã, e o tempo e a hora não permittiam chamar

o padre, e deposital-o na egreja. Ao passo que explicava isto, o

compassivo João accendia de vagar duas vellas de cêra, amarelladas dos

ocios da gavêta, e cravando-as nos castiçaes de estanho amolgados, punha

uma aos pés e outra á cabeceira do morto, completando com todo o socego,

e de proposito, a exposição funebre, que arripiava os circumstantes, e

especialmente o sargento e seu confidente, constrangidos a associar toda

a noite o banquete e o somno dos vivos ao espectaculo do cadaver

ensanguentado da sua victima. Se ambos podessem ler na alma do homem,

que lhes estava falando, ainda haviam de tremer mais!

Na mente d'elle tudo isto apenas era prologo!

VI

Ressurreição de Lazaro

Decorreram minutos sem que as mandibulas de Estevam Cabrinha, deslocadas

pelo terror, podessem volver ao estado natural. Nem articulava, nem

balbuciava. Só a pouco e pouco é que se foi restaurando do susto, e

maldizendo o _Sapo_, o rendeiro, e aquella funesta casa, regougou meio

desvairado uma evasiva para desculpar o pavôr, que o accommettêra, e que

não era senhor de disfarçar.

Os seus nervos estavam tão delicados, que a vista do sangue e do

cadaver, tirava-o de si, e tornava-o mais fraco, do que uma mulher!

Entretanto fazia o possivel por ser homem; mas pedia por tudo o que

havia de santo no céu e na terra, que o não obrigassem a velar a noite

ao pé do morto, se em vez de um, não queriam enterrar dois cadaveres.

João da Ventosa affectou clemencia. Capitulando com os terrores do

sargento prometteu dar-lhe um quarto retirado no fundo do corredor,

depois da ceia. Pediu-lhe depois licença para ir cuidar dos hospedes

presos, que desejava receber como pessoas nobres, e que a má reputação

da casa por certo assustaria, sobre tudo na escuridão, e com o temporal

que parecia arrancar as arvores e os telhados. Cabrinha suspirou, e com

um aceno respondeu que sim. Sentia-se gelado, e o coração batia-lhe com

tal força, que parecia querer saltar fóra do peito.

O lavrador accendeu dois candieiros de latão amarello de tres bicos,

pesados e disformes, pendurou pela argola um em cada mão, e começou a

subir a escada, escoltado por Cabrinha, que apezar de meio tonto, e de

tartamudo de mêdo, sempre desejou certificar-se outra vez de que a

gaiola, como dissera antes, era solida, e não deixaria escapar os

passaros.

Um creado poz a toalha, trouxe queijos e pão, e reanimou o alento dos

milicianos, collocando triumphalmente em cima da mesa um bojudo cangirão

e dois canecos de estatura descommunal, destinados ás libações. Os

soldados chegaram-se a principio timidos, partiram e saborearam o

queijo, acharam-o excellente, provaram o vinho, que estava ainda coberto

da espuma da pipa espichada de proposito, e romperam o assalto,

esquecendo gradualmente o morto, o sargento, e o _Sapo_, o qual,

agachado como fera medrosa a um canto da chaminé, só dava signal de vida

nos estremecimentos, que lhe saccudiam os membros.

A demora de Cabrinha em cima foi grande. Quiz assistir a todos os

arranjos, que a velha servente do rendeiro determinou, e que ia

executando com a mão vagarosa por entre as orações resmungadas entre

dentes a Santa Barbara e a S. Simeão Stelita, advogados contra os

trovões.

Viu, pois, lançar nas camas os lençoes de linho fino e defumados,

recheio das arcas do lavrador; viu enfiar as fronhas e os travesseiros

de folhos com fitas azues; viu deitar as colchas de seda da India

matizadas, e pregar as cortinas dos leitos. Immovel e calado os seus

olhos vigiavam tudo, mas o seu espirito ausente estava ao pé do morto.

Finalmente os moços trouxeram a ceia em bandejas largas, e a creada

velha despediu o amo e o sargento, declarando que ficava e dormia perto

dos presos para os servir.

Cabrinha saiu atraz do seu amphytrião, fechou a porta, e metteu a chave

no bolso. Por este lado estava tranquillo. Restava a ceia com o cadaver

defronte. Essa é que se lhe representava um supplicio insupportavel; e

se não fosse o receio, com que o remorso ata a lingua dos criminosos,

teria pedido um pedaço de pão secco, um ou dois goles de vinho, e iria

para o meio da estrada esperar que nascesse o dia, mesmo em risco de uma

pancada de agua o ensopar, ou de um raio o fulminar. Não se atreveu,

porém. De cabeça baixa e passos incertos, sem ousar olhar, e não

podendo, todavia, apartar a vista da mesa de pedra, veiu sentar-se ao

brazeiro, do outro lado, defronte do _Sapo_. Ao mesmo tempo o João da

Ventosa consultava o immenso relogio de prata, e, vendo apontadas no

mostrador as dez horas, gritava pelos creados, que apressassem a ceia,

se não queriam que elle e seus honrados amigos morressem alli todos de

fraqueza.

--Vamos! exclamou. Andar! Esse cabrito não acaba de sair do lume,

mandriões? Para temperar umas migas será preciso chamar o cozinheiro do

patriarcha? Oh Pedro? As batatas cozam-n'as no borralho!... Ficam mais

gostosas. Dêem-me d'aquellas laranjas de casca fina do pomar de cima,

que eu apanhei hontem. Tirem o vinho da pipa nova! Bem basta a

inferneira que logo ahi vae em sendo meia noite! E então com esta visita

em casa! E apontava para o morto. É preciso que o demonio e as almas do

outro mundo, quando vierem, nos achem confortados e quentes de estomago,

limpos de coração, e lavados de consciencia... Que tal é esse vinhinho,

camarada? Ajuntou pedindo o caneco a um dos milicianos, ao qual o seu

discurso petrificára os movimentos, conservando a taça rustica a meia

distancia da mesa e da bôcca sem animo de a depor, ou de a sorver. Os

outros, pallidos e sobresaltados, olhavam espavoridos para as portas,

para as paredes, e para a mesa de pedra, e benziam-se, suppondo ver já

um espectro em cada canto.

--Vamos! ajuntou. Á nossa saude! E que Deus nos livre por muitos e bons

annos de um amigo, como encontrou aquelle que alli jaz! E emboccando o

caneco deixou cair do bico o vinho em fio dentro da bôcca á moda

hespanhola, engorgitando-o lentamente com delicias.

O brinde funebre produzira o seu effeito. O sargento poz-se em pé e

desabotoou tres botões da farda. Sentia-se a arder. O _Sapo_ agachou-se

mais, e ouviam-se-lhe distinctamente bater os dentes.

--A ceia! A ceia! Rapazes! clamava o lavrador acompanhando o rebate das

vozes com fortes punhadas em cima da mesa.

Os creados acossados por estas impaciencias, verdadeiras, ou fingidas,

saccudiram a preguiça, e a correr acabaram de pôr a mesa, a correr

trouxeram as migas e o cabrito, e a correr tambem vieram com as batatas

e as laranjas. O cangirão refrescado por segunda visita á adega estava

cheio até á borda.

--Vamos a ella? gritou o dono da casa. Senhor sargento, chegue-se para

os bons, e será um d'elles! sente-se do meu lado. Tu, meu _Sapo_, com

essa cara de alvaiade vae para alli. És curioso, e quero que me

espreites o defunto a ver se bole com a alegria dos vivos! Os camaradas

accommodem-se aonde poderem! Desculpem as colheres de pau e os garfos de

ferro. A pratita, que tinhamos, está em Lisboa; nos tempos, em que

vivemos, digam lá o que disserem, sempre é o mais seguro... Nada de

tristezas! Longe vá quem mal nos quer! Senhor sargento á nossa! É bom

copo, tenho ouvido, mas o João tambem não arreia. Encha-me esse caneco

até cima, e despeje-m'o de um trago, senão digo que o vinho é mau, ou

que debaixo de boa capa ruim bebedor!

Por um esforço heroico Estevam Cabrinha conseguiu obedecer. Não tinha

sêde, nem fome, tinha medo. A ceia era para elle um martyrio, sobre tudo

com as costas viradas para o cadaver, cuja sombra se lhe figurava a cada

momento alevantada por cima dos hombros. O _Sapo_ não padecia menor

tormento. Com o morto e a vista do sudario ensanguentado defronte

enlouquecia de terror e de afflicção. Suas pupillas dilatadas não podiam

despregar-se d'aquelle testemunho irrecusavel, que lhe avivava o crime

pela bôcca das feridas, por onde fugira a alma. Deixou de ver o que o

rodeava para vêr só a victima silenciosa, e ameaçadora. Poz-se-lhe um nó

na garganta, e um véu nos olhos. A primeira colhér, que levou á bôcca,

tornou-se-lhe de fel; o primeiro trago de vinho, que sorveu, soube-lhe a

sangue. Sentia tentações de se atirar pela porta fóra, desatando em uma

corrida louca; mas os pés estavam grudados ao chão e as pernas mal o

sustinham. A cada instante entrava-lhe pelos ouvidos o som dos passos de

Antonio Simões, e ouvia o grito que elle arrancára caindo ferido. O suor

escorria-lhe em bagas da testa, e os beiços tremulos denunciavam a

intensidade da agonia.

O lavrador observava, e dissimulava. O seu ar de riso e a sua

jovialidade cresciam á proporção, que iam aggravando-se as dores moraes

de ambos.

--Que é isso, _Sapo_? accudiu elle apertando os tratos ao mais culpado.

Que é feito d'aquella galhofa do outro dia, meu velho? Estás com cara de

enterro. Terás tu morte de homem ás costas, diabo?!!...

A esta interpellação directa, que o rendeiro disfarçou em uma risada

larga e sonora, o remorso fez saltar involuntariamente dos bancos o

sargento, e o seu cumplice, como se a voz do sangue chamasse por elles

no tribunal de Deus. Á pergunta: Cain que fizeste de Abel, ao brado que

a consciencia repetia aos dois, ambos tremeram, mas não poderam

responder: não fui eu! Sentiam-se tomados de espanto até ás mais fundas

cavernas do coração.

João da Ventosa, entendendo que não devia ir mais longe para não se

descobrir, e vendo os dois de pé, mudos, e pasmados, tractou de os

tranquillizar a seu modo, isto é, vertendo-lhes o terror nas veias por

outro modo.

--Sente-se, meu sargento! disse elle mettendo o hospede no coração com o

tom assucarado. Que vespa o mordeu? Os ares da casa não são bons, sei

muito bem; mas o que quer? A gente toma amor ao ninho, e depois não ha

quem o despegue d'elle. Não tenho mulher, nem filhos; nasceu-me aqui o

dente do siso, e... É melhor não tocar em cousas más. Mas sempre lhe

digo que ha noites! Ainda antes de hontem foi um reboliço lá por cima de

cadêas arrastadas, de soluços e gemidos, que vinham os sobrados

abaixo...

--E nunca viu nada, senhor João? atalhou um dos milicianos meio

engasgado com um pedaço de cabrito, que o susto causado pelas reflexões

caridosas do rendeiro lhe atravessára na garganta.

Estevam Cabrinha desabotoára todos os botões da farda, e pelas frestas

da camisa aberta mostrava o peito vellôso como o de um cerdo. Tinha os

cotovellos na mesa, a cabeça entre as mãos, e os olhos espantados.

Gaspar Preto recaira, sem poder reprimir-se, no tremor das primeiras

horas.

Aquelles dois entes, tão fortes contra a consciencia, tão esquecidos de

Deus e da justiça humana, desmaiavam como creanças deante da sombra do

seu crime e dos pavores do invisivel.

--Se não vi nada?... Oh! redarguiu o dono da casa, tornando-se serio de

repente, e fazendo suppor com a reticencia, que não tinha animo para

dizer tudo.

--Conte-nos isso! accudiu um dos comensaes, que não era dos menos

timidos, mas que era de certo dos mais curiosos.

--Para que? Para não dormirem umas poucas de noites?!... respondeu João

da Ventosa. É melhor falarmos de cousas alegres.

--Não. Não! Diga!

--Depois não se queixem! Faz hoje um anno, e justamente chovia e

trovejava como agora, que parecia que se acabava o mundo. Tinha uma

cadella de perdizes, que era um brinco, a Pomba. Faltou-me todo o dia, e

cuidei logo que ficaria fechada lá em cima. A esse tempo ainda eu não

tinha mandado tapar as duas portas dos quartos, que viu o sargento, e

aonde estão os presos. Peguei n'uma lanterna e subi. Atravessei tres

salas. Apitei, chamei a Pomba, não me respondeu, ella, coitadinha, que

em me ouvindo era toda saltos e alegria. Olhei por acaso para um canto

mais escuro, e vi... a pobre da bruta morta com a cabeça torcida!... Não

sei o que me passou pela vista, mas tive medo, medo deveras, juro-lhes.

Peguei no corpo da Pomba, e arrastando-me, e tropeçando, vim até á

porta, que hoje está entaipada. De repente um sopro forte apaga-me a

luz, um clarão bate-me nos olhos, e uma figura branca apparece-me tão

alta e transparente, que se via através das roupas e do corpo (se era

corpo!) como através de um vidro fino. Não posso dizer-lhes o que senti,

mas quiz gritar e faltou-me a voz, quiz benzer-me e caiu-me a mão, quiz

fugir e fiquei parado.

«O Fantasma fitou-me dois instantes com um olhar frio, que gelava e

disse-me: Desgraçado de ti se tivesses sangue nas mãos! Nenhum matador

sae vivo d'esta casa! Perdi os sentidos. Quando tornei a mim era dia, e

estava deitado na minha cama. Suppuz ter sido tudo sonho; mas a cadella

morta jazia aos pés do leito. Enterrei-a, fiz uma parede das duas

portas, e andei um mez como doudo, malucando no caso, que podia ser

peior... Fóra com historias negras! exclamou mudando de tom. Estamos

hoje aqui muitos, e graças a Deus nenhum de nós tem de lavar as mãos de

sangue, que vertesse. Vae dar meia noite! ajuntou tirando um relogio de

prata. É a hora da senzala principiar lá por cima. Não se assustem! O

vinho é bom, festejemol-o, e o que for soará. Nossa Senhora, minha

madrinha, não ha de desamparar-nos.»

A consolação acabou de petrificar o auditorio, que a narração já não

tinha estultificado pouco. O sargento e o seu assessor, ainda mais

enfiados, trocaram um olhar desvairado, e gemeram um suspiro. Era a sua

sentença que o espectro annunciára pela bôcca do lavrador? Os canecos

ficaram cheios sobre a mesa; o cabrito, meio escarnado, viu suspensas as

hostilidades, que ameaçavam deixal-o na ossada; e só o dono da casa

levou aos beiços, e exgotou a libação, que propozera. O volumoso relogio

de caixas de prata posto a seu lado, attrahia a vista anciosa de todos.

Era tão profundo o silencio, que se sentia a leve pancada da machina

trabalhando. Finalmente o ponteiro pousou-se nas doze horas, e o

lavrador, como se obedecesse a um impulso espontaneo e invencivel,

poz-se de pé, e exclamou:

--Meia noite! Deus seja comnosco!

N'este momento, como se a natureza quizesse associar os seu terrores á

scena alli representada, um furacão espantoso saccudiu e abalou todo o

palacio com rugidos prolongados, um trovão rebentou perpendicular com o

estrondo de cem canhões no meio de medonhos estalos, fazendo tremer a

terra, a casa encheu-se de luz electrica por um instante, e a chuva,

açoutando com o seu granizo rijo e batido os telhados e os muros,

enxurrou dos tectos pelas chaminés arrombadas, e veiu quasi extinguir o

lume, que esmoreceu em chispas lividas por entre ondas de fumo. Ao mesmo

tempo as duas portas pregadas com travessas á entrada das escadas, que

desciam para a cozinha, vieram a terra com fragor, o cadaver deitado

sobre a mesa ergueu meio corpo sobre o cotovello, e arrancou o panno

cruento, soltando um gemido lugubre, e uma figura de altura descommunal,

envolta em sudario branco e fluctuante, assomou ao limiar. Tudo isto

occorreu em menos de um segundo, acompanhado do ruido de ferros

arrastados, do tropel de passos e de quedas tumultuosas, e de um

verdadeiro clamor de vozes e gemidos no andar de cima.

Os milicianos apavorados hesitaram um instante immoveis. Depois

correndo, como loucos, investiram pelo corredor, e como rebanho

tresmalhado e perseguido por alcateas de lobos, sentiram de repente azas

nos pés, e voaram pela estrada inundada por entre os relampagos e por

baixo das aguas da tempestade, gritando misericordia!

O sargento ao som das portas, que desabavam, e deante da apparição

inopinada, sem saber já de si, e sem ver o morto alçar-se, trepou em

dois pulos a escada de pedra, metteu a chave na porta, e acoutou-se nos

aposentos dos presos, tão cego e attonito que atropellou na carreira a

velha servente na sua cama, e foi cair de bruços ao pé da mesa, aonde se

apagava em vascas a véla consumida de um castiçal.

O _Sapo_, que observámos paralyzado momentos antes, vendo surgir o

fantasma, sentiu todos os instinctos ferozes irritados, e pegando da

espingarda, e apontando-a n'um abrir e fechar de olhos, só volveu em si,

quando o cão bateu na pederneira, e esta faiscou, sem queimar a escorva,

deixando-lhe nas mãos uma arma inutil. Então, como o tigre que rompe a

jaula, arremetteu pelo corredor do dormitorio, e de lá, galgando o muro

baixo do pateo, sem se deter a buscar a porta nas trevas, achou-se no

campo, e precipitando-se por sebes e vallados, veiu parar sem folego,

sem voz, e sem consciencia de si ao pé do moinho da Raposa.

Finalmente o proprio espectro, primeira causa de todo o alvoroço, não

escapou ao contagio geral, e deu tambem parte de fraco. Vendo o morto

levantar-se e saccudir os véus funebres, assaltou-o tal convulsão de

mêdo, que, tapando os olhos com um grande grito, desabou no chão do alto

das andas, em que estribava. Teve razão ainda d'esta vez o adagio.

Virou-se o feitiço contra o feiticeiro!

Mas as peripecias d'esta dramatica noite não estavam terminadas. No

momento, em que, afogado em riso, o João da Ventosa accudia a levantar o

fantasma demolido pelo susto, o sargento Cabrinha despenhava-se pela

escada, bradando possesso de espanto. Não era sem causa!

Seguimol-o quando subia os degraus a dois e dois para se refugiar na

camara dos presos; vimol-o enrolar-se e tropeçar no corpo tolhido de

rheumatismos da tia Margarida, a qual, pobre mulher (!), acordada em

sobresalto pelos trovões, tiritava de joelhos em anagua de estopa,

benzendo-se, e invocando todos os santos da côrte do céu, quando aquelle

furacão humano se ennovellou com ella, e lhe fez das costas escabello.

Os gritos da servente, a motinada do palacio, que alli soava mais

proxima, desembriagaram um pouco do medo do andar de baixo o virtuoso

agente de Lagarde, mas exaltando-lhe os terrores excitados pelo andar de

cima. Percebeu que o asylo, que buscára, era peior do que o perigo, e

tractou de apressar a retirada.

Mas apezar dos accessos de valor, que lhe notámos, era malsim na alma e

nos ossos, e a curiosidade prevaleceu. Antes de fugir quiz verificar de

novo se os outros podiam fugir. A tremer pegou em uma véla e abriu as

cortinas da cama de Paulo de Azevedo. Recuou pasmado. Estava vasia!

Correu ao quarto immediato de Leonor; achou-o deserto! O unico preso,

que não se bolira, fôra a inoffensiva e tropega Margarida! O sargento

sentiu estalar uma cousa dentro do peito. Se tivesse coração diria que

era o coração! Não o tendo acabou de se lhe varrer o sizo, e ficou por

minutos estatico a contemplar aquella solidão, obra visivel do demonio.

Por fim este ultimo golpe e uns suspiros em tremulos, exhalados do outro

lado da parede, venceram esses restos de vigor, que ainda conservára.

Consumou o seu destino, e despejou o campo como os seus milicianos,

porém com menos felicidade. Quiz descer a escada, os pés atraiçoaram-o,

e mediu-a com as costellas de cima até baixo. Quando tornou a si com a

dor, e por ella conheceu que vivia ainda, os seus olhos horrorizados

perderam a luz de assombro e de pavor.

No meio da casa o Manuel Simões da Aramanha, de pé, encarava-o sombrio e

terrivel. Ao pé da mesa o fantasma branco, entrouxado nos lençoes,

extendia o braço direito em ar de ameaça. Atraz d'elles João da Ventosa,

mudo e inerte, e como gelado, apontava-lhe para o corredor, sem falar,

como se o convidasse a fugir. Não poude mais. Atou as mãos na cabeça e

caíu sem sentidos.

VII

Segredos em toda a parte

Os aposentos aonde Paulo de Azevedo Carvalho e sua filha foram

encerrados, em um dos torreões do palacio, eram dos mais bem

conservados. Os tectos não estavam arrombados; os filetes, que

guarneciam as molduras das paredes, forradas de pannos de Arraz, ainda

não tinham perdido de todo o ouro; e a humidade não acabára tambem de

desvanecer inteiramente as tintas dos quadros de caçadas, batalhas e

scenas campestres, representados na tela. Apezar de velhos e de

ennegrecidos, os moveis ainda resistíam em parte aos seculos e ao

caruncho.

O venerando leito de cabeceira de talha alta e columnas enroscadas

occupava o centro da primeira casa, e podia quasi dizer-se um edificio,

um monumento, pelo descommunal das proporções. Um pesado baldaquino de

seda desbotada cobria o céu da cama, e largas cortinas do mesmo estofo

desciam dos lados a arrastar pelo chão.

Defronte um tremó, que na sua mocidade brilhára pelo esplendor dos

dourados, mas que na velhice, ou antes na decrepidez, apenas se

recommendava por bellos relevos de folhas e flores, com um espelho de

Veneza em cima, comido e manchado no aço, sustentava duas jarras do

Japão da mais preciosa porcellana, infelizmente rachadas. Cadeiras de

braços, mutiladas, um velador alto desgrudado, um bofete de almofadas

com sua escrevaninha de prata mareada, olhando para o espelho,

completavam a mobilia.

Na segunda camara havia um leito mais singelo sem cortinas, e um espelho

embutido na parede, que enchia de alto a baixo um vão inteiro. O bofete

liso com tinteiro de bronze antigo, e as quatro cadeiras que constituiam

todo o seu adorno, não accusavam pouco os annos pelo estado de ruina; e

as colgaduras[1] de couro, rotas ou tão coçadas, que não tinham já côr

possivel, deixavam em parte nus os muros, provando que o tempo as

respeitara menos, do que aos pannos de Arraz do quarto principal.

O cavalheiro de Mafra mal correu a vista em redor de si. Sentou-se

deante do bofete da sala grande, molhou a penna na tinta grossa da

escrevaninha, e começou machinalmente a traçar linhas e dezenhos

informes em um papel. Desde o Casal do Ouro até alli não descerrára os

labios, nem para falar á companheira do seu infortunio; e só o ardor

sombrio das pupillas denunciava a ira, preferindo consumir calado as

tristezas a desafogal-as em vozes, ou em queixas. Leonor contemplou-o

silenciosa por alguns momentos, e, avisinhando-se depois nas pontas dos

pés, pousou-lhe na fronte annuviada um beijo, que a ternura humedeceu de

lagrimas.

A Casa dos Fantasmas - Volume I Episodio do Tempo dos Francezes · 第 3 / 11 段