Quem roubára aquelle corpo á sepultura christã? Quem fôra o assassino? A

estas duas perguntas respondia a superstição, que só poderia ter sido o

inimigo do genero humano, porque a azinhaga não se via trilhada senão

dos pés curtos e deseguaes de um homem, que, fugindo, deixára

assignalada no vallado a feição dos joelhos. Aonde acabavam as passadas

fortes e largas dos sapatos de Antonio Simões não havia indicio de mais

nenhumas.

A chuva caíndo em torrentes, os relampagos allumiando as trevas de

clarões repentinos, e os trovões estalando uns após outros, depressa

dispersaram os curiosos, que a luz de dois archotes, saccudidos e

apagados pelo vento, não confortava muito contra os terrores do inferno,

sobre tudo em tão medonha noite.

Benzendo-se, e acotovellando-se uns aos outros, recolhiam-se transidos,

ensopados, e cheios de apprehensões, quando alguns mais audazes, que

tinham ousado arriscar a vista na direcção do palacio arruinado notaram,

que duas das janellas, sempre cerradas, deixavam transparecer por entre

as taboas mal juntas uma claridade livida, brilhante na escuridão como

os olhos de um demonio!

Esta ultima prova do poder sobrenatural do tentador foi tão decisiva

que, trocando o passo ligeiro pela mais despedida carreira, os bons dos

aldeãos, persuadidos de que Satanaz reunia na Casa Negra a sua côrte

plenaria, não pararam senão á porta da egreja parochial, chamando pelo

prior em altas vozes.

D'onde vinha ao palacio arruinado a má reputação, que afugentava de sua

visinhança os moradores dos logares proximos? Que trasgo, ou que duende

vexava com suas maleficas travessuras a casa ennegrecida pelo tempo, e

rodeada de eterna solidão?

Construida nos principios do seculo XVII, o gosto depravado do

architecto traduzia-se nos dois pavilhões lateraes, que acompanhavam o

corpo do edificio, esmagados pelos tectos, e massiços como duas

cidadellas, carregadas de tristeza. Revestidos de pesadas cantarias, com

as janellas estreitas e de volta baixa, e as portas abafadas de lavores

e ornamentos desgraciosos, o ar e a luz só a medo podiam circular pelas

immensas salas e pelos extensos e escuros corredores, em que se

repartia.

Solar desamparado, por mais de um seculo via-se as ervas crescerem nos

pateos e eirados, as eras enrolarem-se pelos muros gretados, e os

telhados verdejarem cobertos de plantas parasitas. Os anciãos mais

antigos na terra, não se lembravam de nunca terem visto o dono d'aquella

casa condemnada, e todos os annos os invernos, succedendo-se, e

penetrando pelas brechas não reparadas, accumulavam ruinas sobre ruinas,

estragos sobre estragos.

As lendas populares explicavam o destino singular d'aquelle palacio, o

qual de certo vira dias mais ditosos, quando as malvas e ortigas não

afogavam os canteiros de seus jardins, quando os entulhos não cegavam os

canos á fresca lympha, que jorrava em tórnos de agua crystallina para os

largos tanques de marmore, quando, finalmente, as colgaduras de couro e

os pannos de raz não pendiam em farrapos das paredes fendidas e

esverdeadas, e as manchas de humidade não desfiguravam os relevos e

molduras dos tectos.

Que horroroso crime expiava o palacio deserto, cujos vigamentos pôdres

estalavam com o peso de telhados arrombados, cujos moveis roidos de

caruncho se desfaziam no pó da velhice e do abandono?

Contava a tradição que dois irmãos rivaes haviam disputado a mão de uma

formosa dama, causa innocente do seu infortunio, e que o menos ditoso na

porfia, como Iago, convertêra em desespero a felicidade do competidor,

envenenando-lhe de suspeitas os amores. Não valeram prantos e supplicas

contra as allucinações do ciume! O sangue da esposa e o sangue do filho

innocente, doce fructo do seu enlace, vertido em um momento de delirio,

vingou os zelos do marido, que suppunha lavar com elle a nodoa do nome e

do brazão. Horas depois, mas sem remedio, descobriu-se a perfidia, e o

desgraçado caiu em si do delirio, e viu-se tornado o verdugo de si mesmo

e dos que mais estremecêra no mundo. O que passou n'aquella noite entre

os dois irmãos é segredo, que dorme com ambos na eternidade. Sómente ao

romper da aurora mais um cadaver descia ao jazigo da capella, e o

infeliz, sobrevivendo á morte de todos os affectos, e algoz de todos

elles, na edade de vinte e cinco annos, quando partiu para não voltar,

mettia horror á vista. Os cabellos e o rosto eram já os de um velho.

Bastaram poucas horas de remorso e de agonia para lhe consumirem a vida

e a mocidade.

O lucto do senhor cubriu a casa, theatro de tantos crimes. Deshabitada,

fugiam d'ella donos e creados como de um logar maldito. Sempre êrma, e

sempre muda, só os echos accordavam n'ella com o anniversario do

terrivel drama. O velho guarda, ao qual primeiro foram confiadas as

chaves, despertando sobresaltado por horas mortas, subiu ao andar nobre,

e caiu sem sentidos, paralyzado pela visão terrivel, que se lhe

representou alli.

Viu uma fórma branca e suave, com os cabellos esparzidos sobre o collo,

atravessar, chorando, as salas. Apertava ao peito uma creança

adormecida, e seguia-a outro espectro ameaçador com o punhal erguido.

Atraz, uma figura contemplava aquella scena rindo com satanica alegria.

Os lustres accesos por si mesmos entornavam torrentes de luz livida

sobre os aposentos. Os gemidos e soluços das victimas, o tinir dos

ferros, as risadas e as imprecações retratavam ao vivo o tremendo

espectaculo, em que o parricidio e o fratricidio tinham desempenhado os

principaes papeis. O velho enlouqueceu de terror.

Desde então ninguem mais quiz tomar conta do palacio. Os morgados

deixaram-o caír em ruinas a pouco e pouco, e quando os francezes

sequestraram por ausente os bens do fidalgo, aquellas paredes infamadas

não acharam comprador. O fisco não quiz para si senão a posse das

terras, e arrendou-as. Parece, todavia, que a invasão dos estrangeiros

excitára a cólera das potencias sobrenaturaes, porque nunca se tinham

mostrado tão malfazejas e ruidosas. Um allemão excentrico, apostando

hospedar-se alli uma noite inteira, foi achado ao amanhecer sem fala,

nem movimento, e seis mezes depois ainda tremia quando lhe lembravam a

aventura da Casa Negra.

Era, pois, desculpavel o susto dos aldeões. Vendo a luz coar-se através

d'aquellas janellas sempre escuras, e não achando o corpo de Antonio

Simões no sitio aonde fôra assassinado, tudo attribuiram aos maleficios,

e escudando-se com o amparo da egreja, invocaram a protecção do parocho,

persuadidos de que as iras divinas, provocadas pelas abominações dos

jacobinos, haviam quebrado a lousa das sepulturas, soltando os espiritos

das trevas para flagello e confusão dos inimigos de Deus e de el-rei.

Entretanto, cousa notavel (!) n'esta assembléa dos homens bons do logar,

como diria um foral de nossos avoengos, faltava o João da Ventosa, o

orador popular por excellencia, o Hortencio, o Eschino laureado

d'aquellas visinhanças! O que o detinha? Pouco timorato por indole, e

até para a epocha e para a educação assaz limpo de abusões, trazia de

renda as terras da Casa Negra, pegadas com uma horta sua; mas se alguem

lhe tocava na ruim visinhança do palacio, prendia-se-lhe de repente a

voz, e uma visagem avinagrada torcia-lhe o semblante. Era mais orthodoxo

n'este ponto, do que o cura. Os contos de visões e de almas penadas, que

repetia, não concorriam pouco para entreter o pavor dos companheiros de

copo e de touradas, os quaes se espantavam, de que elle tivesse animo

para metter o arado e a enchada em terras, que mais deviam reputar-se

vinculadas ao demonio, do que administradas pelo bondoso morgado, que as

disfructára.

Mas como as terras eram excellentes e criavam bem, e como, não sendo

affrontado por competidores, elle as trazia quasi pelo que queria dar

por ellas, o João da Ventosa continuava a amanhal-as, e a servir-se das

officinas do palacio, e até de algumas casas do andar terreo. Peccado de

avareza que as almas pias e tementes a Deus prognosticavam, que lhe

seria funesto um dia, arriscando-se a que o demonio, enfadado com o

atrevimento, levasse pelos ares n'um furacão os bois, as charruas, o

lavrador, os carros, e os telhados!

Nunca lhe viam o trigo e o milho na eira, que não rosnassem por entre

dentes: «Queira Deus que o meu compadre uma vez se não arrependa. De

parceria com o demo nunca ninguem medrou!» O João, como bom christão,

ouvia-os, suspirando, queixava-se da carestia dos tempos, que obrigava o

pobre a fazer pão até das pedras, e ia attestando de saccos o celleiro,

dizendo sempre que muitas noites não podia pregar olho com o alarido

infernal, que ía lá por cima.

Dadas estas informações essenciaes, que o leitor benevolo desculpará,

tornemos á nossa historia, e acompanhemos as diversas pessoas, que estão

em scena, esperando por nós, tanto no Moinho da Raposa, como na Casa

Maldita.

Quanto aos honrados aldeões, apinhados defronte da porta do reverendo

prior, não nos dê cuidado a sua inquietação. O parocho, consolando-os

com duas maximas em mau latim de orelha, prometteu-lhes exorcismar,

mesmo de longe o espirito maligno, e recommendou-lhes que se recolhessem

e abafassem depressa, porque a noite estava medonha, e o anno corria

infamado de pleurizes e catharraes. Dito isto lançou-lhes a benção da

janella, e foi sentar-se á mesa para não deixar esfriar a ceia. As

ovelhas imitaram o pastor, e meia hora depois, acalmado o alvoroço,

reinava na aldeia o mais profundo socego, apenas interrompido pelos

latidos de algum cão impertinente, e pelas rajadas da chuva e do vento,

com que a tempestade açoutava as copas das arvores, e fustigava os

telhados das casas.

V

Não ha atalho sem trabalho

Transportemo-nos sem demora ao andar baixo da Casa Negra.

As duas portas da fachada estão fechadas, mas um estreito postigo, que

abre para o pateo, apenas se acha cerrado. Entremos por elle, e,

seguindo o som das vozes, continuemos, apalpando no escuro as paredes,

que se esfarelam de humidade pelo comprido corredor.

É uma especie de dormitorio ladrilhado com portas á direita e á

esquerda, provavelmente accommodações dos creados do palacio, quando

fôra habitado. As taboas do tecto, podres e despregadas, ameaçam cahir

sobre a cabeça, e aqui e acolá montes de caliça dos muros esboroados

promettem um desabamento proximo. No topo uma porta derreia-se pendente

a meio cutelo do ultimo leme enferrujado.

Atravessemos depressa! Estamos em uma casa de abobada, fria e surda, com

duas frestas engradadas. Subamos aquelles tres degraus, e guiemo-nos

pela claridade baça, e pelo alarido que da extremidade de outro corredor

nos estão avisando de que na estancia immediata conversam, ou disputam

muitos homens.

No fim do corredor apercebem-se os vãos de duas escadas interiores,

cujas vigas e degraus carcomidos tremem de velhice. Uma fenda larga

racha ao meio a grossa parede, que as divide. Duas portas com travessas

cerram a entrada das escadas, lançadas dos lados em ramos divergentes

para o andar de cima.

Empurremos agora as taboas mal juntas de outra porta, que nos veda a

vista, e adeantemo-nos. O espectaculo que vamos presenciar vale a fadiga

a que nos sujeitámos.

É a cozinha, terrea e toda de abobada, com fornalhas ao fundo e chaminés

enormes. Uma immensa pia de pedra á direita, e uma mesa tambem de pedra

á esquerda, compunham a mobilia primitiva. Na lareira ardem e estalam

grossos troncos de arvores, cortadas em verdes, e á roda da chamma

afogueada e crepitante, sentam-se os novos hospedes do palacio. Pelas

tres janellas lateraes sem vidraças sopra o temporal ás rajadas, e a

chuva salpica dentro fustigada pelo vento; dos canos das chaminés, meio

alluidas, escorre a agua, e geme o vendaval, afogando os silvos em

sussurros prolongados. O clarão dos relampagos, golfando quasi sem

interrupção, allumia de phantasticos e subitos clarões as paredes e o

chão lageado da enfumnada, sombria, e vasta quadra.

No recanto, formado pelo angulo da chaminé, e pelo angulo de um grande

armario embocetado, esconde-se, quasi suspensa, uma escada de caracol,

toda de pedra, ainda menos mal conservada. Defronte da porta da sahida

dois arcos de volta mui baixa, parecidos a bôccas de furna, communicam

para a cave e para a arrecadação, ambas subterraneas e extensas.

Uma especie de lampião, em que são mais as folhas de papel azeitado, do

que os vidros, balouça-se pendente de cadeia de ferro presa no tecto.

Uma tosca mesa de quatro pés, coberta de toalha, cuja alvura

desappareceu debaixo da ramagem caprichosa das nodoas de vinho e de

gordura, levanta-se no meio da casa. Pratos e garfos, um tacho colossal

de migas com a classica colher de pau enterrada na appetitosa assorda;

dois cangirões de vinho, e canecos monstruosos, uma cesta de laranjas ao

pé de uma frigideira de queijos brancos, ladeiam a peça capital do

brodio campesino, um cabrito acerejado, rodeado de batatas, e credor de

tentar a gula do mais austero cenobita.

Finalmente, sobre a mesa de pedra, coberto com um capote de cabeções, do

talho pouco airoso dos chamados Josésinhos, com um tronco por

travesseiro, e um panno ensanguentado sobre a cara, jaz um vulto, que a

immobilidade rigida dos membros, e duas vellas uma aos pés, outra á

cabeceira, dizem claramente ser um cadaver.

De vez em quando os olhos dos que velam bem contra vontade o seu ultimo

somno, voltam-se para elle, e afastam-se rapidamente, como se temessem,

que a trombeta final, soando mais cêdo, o despertasse. O sargento

Cabrinha e o seu honrado confidente Gaspar Preto, o _Sapo_, as pessoas

conspicuas da assembléa nocturna, em que a nossa indiscreção introduz o

leitor, são as que olham mais a miudo, e de cada vez que fitam vista

n'aquelle corpo inerte, um calafrio arrepia-lhes a espinha dorsal, e um

suor de mau agouro, apezar da temperatura, borbulha na testa de ambas.

Dariam tudo por se verem a cem leguas da companhia d'aquelle morto, cujo

sangue o seu remorso, como que está avivando mais em manchas vermelhas

sobre o sudario, que lhes esconde o rosto.

Os principaes auctores concordam com o logar e com os accessorios.

Comecêmos pelo chefe, como é razão.

A physionomia de Estevam Cabrinha não desmente a reputação. Conta pelo

menos sessenta annos, mas póde melhor com elles, do que outros, menos

robustos, poderiam com quarenta. A testa esguia e deprimída lembra a

fronte felina, e a mobilidade de duas profundas rugas, cavadas logo por

cima dos sobrolhos, ainda torna mais sensivel a similhança. Faces

encovadas, beiços sorvidos, barba revirada, e por cima da pelle uma côr

assanhada de amora mansa, não lhe permittem suppor-se por certo nenhum

Cupido, nem seccar-se, como Narciso, de paixão pela belleza propria.

O nariz, adunco, em fórma de bico de papagaio, caía como apagador,

ornado de botões vinosos, sobre a bôcca. Os olhos, cujo raio visual se

torcia com sinistra expressão, tinham aquelle tom baço e frio de

pupillas, que revela quasi sempre as almas traiçoeiras. Curto de

pescoço, largo de hombros, e prendado com uma corcova assás volumosa,

imita nos movimentos lentos o pesado garbo do urso dos Alpes.

O ventre proeminente, e as pernas delgadas provam, que pouco tinha que

agradecer á providencia as graças do busto. Os cabellos hirsutos,

empastados na testa, alargam-se como duas orelhas derrubadas sobre as

fontes, e terminam por um rabicho esplendido de meio covado de comprido,

dançando enfeitado de seu laço de fita preta sobre a farda,

polvilhando-a de pós, e ensebando-a de banha.

Um bigode, quasi todo branco, espetado nas guias, como as sedas de um

chicote, e o resto da cara rapado e escanhoado cuidadosamente, afinam

perfeitamente o typo singular e repugnante d'este personagem funesto,

que as desgraças civis fizeram sobrenadar com as escumas sociaes, mas

que as galés cêdo, ou tarde, hão de recolher, como filho prodigo, se as

iras populares se lhes não anteciparem.

Trajava a farda de milicias, de panno azul ferrete, botões e vivos

brancos, abas de tesoura, e gola de espeque. Os calções de uniforme e as

polainas atraiçoavam-lhe a magreza das pernas. A espada de bainha preta

e copos de roca descançava fóra do boldrié a seu lado, e a alabarda,

insignia do posto, via-se encostada da outra parte.

O _Sapo_ merecia a alcunha. Teria trinta annos. Era todo branco-papel,

cara e cabellos, como se um moleiro o tivesse amortalhado em um sacco de

farinha, mas d'aquelle branco livido e sepulcral, que nos enoja e

repugna, quando contemplâmos qualquer reptil asqueroso. Uma queda em

pequeno tinha-lhe deixado em memoria a deslocação da perna esquerda,

que, torcida quasi em rosca de parafuso, o obrigava a andar aos saltos

como a rã, ou a agachar-se, como o animal immundo, cujo nome o baptismo

dos visinhos substituira ao seu.

Quasi sem nariz e beiços, vesgo, e da altura de um rapaz de nove annos,

não mostrava no rosto ponta de barba, e quando se ria escarnava as

gengivas e os dentes, de modo, que as mulheres lhe chamavam por escarneo

o bôcca de tubarão. Agil e matreiro, como a raposa, a sua actividade era

incansavel, a sua consciencia larga como o peccado, o seu coração duro

como um penhasco. Caçador dos mais destros, andarilho infatigavel apezar

das pernas, curioso e falador como um cento de comadres, ouvia, sabia, e

aproveitava tudo.

Accusavam-o de não perdoar aos outros a fealdade propria, e de se

felicitar com os alheios males. Auctor de alguns furtos industriosos,

espião e delator por officio, assassino por vocação, Gaspar Preto, como

o imperador romano, desejaria ao genero humano uma só cabeça para lh'a

decepar de golpe. Vestia calções curtos atacados sobre as meias de lã,

botas de couro branco e salto de prateleira, collete e vestia de

belbutina com botões ôccos de metal amarello, e cinta escarlate muito

apertada ao corpo.

A espingarda, sua fiel companheira, estava sempre á mão, e a tiracolo

encruzavam-se-lhe sobre o peito as correias do polvorinho e do

chumbeiro. A navalha de ponta e de cabo de osso, que trazia na cintura,

era afamada em toda a comarca pela habilidade, com que a jogava, ou com

que sabia atiral-a de arremesso aonde punha o alvo.

Os cinco homens da milicia e da ordenança, que acompanharam o sargento

na diligencia ao Casal do Ouro, não merecem menção especial. Aldeãos

corpulentos cabeceavam de somno ao calor do lume, e bocejavam de fome ao

tinir dos pratos, que um creado do João da Ventosa principiava a pôr em

cima da mesa. O João, sim, esse é que destaca de todo o grupo pela

figura, pelos gestos, e pelo aspecto na realidade digno de exame. Será

homem de quarenta e cinco annos, mas não inculca mais de trinta e oito.

Bem posto e proporcionado de membros, mais esbelto, do que robusto, á

primeira vista, mais engraçado, do que forçoso na apparencia. A cara

redonda e os beiços grossos e sensuaes, o olhar fino e malicioso, e a

bôcca cheia de riso, na sua mocidade tinham feito d'elle o enlevo e o

adonis das bellas e namoradas raparigas d'aquelles contornos; porém

debaixo d'estas fórmas quasi delicadas escondia elle vigor pouco vulgar,

assim como o sorriso meio travesso, que lhe bailava nos labios,

disfarçava uma firmeza e penetração mui pouco usuaes.

Sabia ler, escrever, e contar como um mestre--eschola. Se tivesse

nascido trinta annos depois, n'estes felizes tempos, era de certo juiz

eleito, regedor, vereador, e quem sabe (!) talvez mesmo deputado! Outros

muito peiores deu já á luz a urna rural. São os que, cerzindo umas abas

de paletó á jaqueta hereditaria, mascarram de interpellações boçaes e de

apoiados taurinos e beocios o extracto das sessões, acotovellando-se nos

aditos da tribuna.

O nosso amigo contentava-se, porém, com os seus trinta a quarenta moios

de colheita, com as vinte pipas de azeite, que expremia nos seus

lagares, com os toneis attestados de vinho puro e genuino, honra e

orgulho da sua adega, e com a vara de juiz de vintena, magistratura

exercida a contento de clero, nobreza e povo.

O João da Ventosa, ou João Bonito, como lhe chamavam as mulheres da sua

edade, gosava álém d'isso da fama de rico, pastava bons rebanhos na

charneca, fazia dinheiro de tudo, e abotoava-se com um bom par de

louras. Solteiro e jovial vivia só em companhia de um sobrinho de

quatorze annos, e de dois creados.

Ao pôr da tarde, vendo a trovoada armada, tinha ido de passeio rondar as

hortas e o olival, tinha deitado depois até ás abegoarias, e na volta de

uma das arribanas, por encurtar caminho, viera descair á azinhaga, aonde

a espingarda do _Sapo_ acabára de deitar por terra Antonio Simões da

Aramanha.

O estrondo do tiro, a hora e o grito do ferido obrigaram-n'o a apertar o

passo. Assim mesmo chegou tarde. O assassino já tinha saltado o vallado,

e o corpo do fazendeiro jazia prostrado. Era quasi noite, choviscava

rijo, e o ribombo dos trovões amiudava. Inclinou-se para o morto,

conheceu n'elle um amigo de vinte annos, exhalou um suspiro, rosnou uma

praga contra o homicida, e, depois de alguns momentos de hesitação,

levantou-o nos braços, como se o peso não o devesse ajoujar, e

deitando-lhe a cabeça sobre o hombro, sem vergar, encaminhou-se com elle

para casa. Á porta chamou o maioral e o abegão, e todos tres

transportaram o cadaver para a cozinha.

Duas horas depois batia á porta o sargento Cabrinha com os seus

milicianos, e da parte da justiça pedia agasalho por aquella noite para

elles e para os presos. O João da Ventosa, ao que parece, estava

occupado, porque os deixou repetir o recado terceira e quarta vez.

Por fim veiu abrir em pessoa, e desculpando-se com o mau tempo, metteu o

sargento na cozinha com os acolytos, e guiou Paulo de Azevedo ao andar

nobre, a um aposento mais bem reparado, aonde um leito antigo de

balaustres enroscados e baldaquino de seda carmezim, cama quasi regia,

parecia esperar por elle. O quarto de D. Leonor era ao lado, e

communicava por uma entrada baixa com o de seu pae. Cabrinha assistiu ao

aquartelamento dos presos, visitou o corredor e a escada, que era a que

dava para a cozinha, sondou a parede de duas portas entaipadas de

fresco, que abriam d'antes para o corpo do palacio, e não socegou senão

depois de ter fechado o cavalheiro de Mafra e sua filha a duas voltas de

chave nas duas camaras, que um official amigo do rendeiro havia separado

do resto da casa, enchendo de pedra e cal o vão das portas.

--A menos de não lhes nascerem azas de repente, murmurava o sargento,

para voarem, ou de passarem como espiritos através dos muros, os dois

estão seguros. A evasão pelas janellas, vista a altura, equivale a um

suicidio; e pela porta, mesmo que a arrombem, como não ha senão uma

escada e uma saida, e ambas vão dar á cozinha, aonde conto acampar,

qualquer tentativa serviria só de os tornar a metter nas goelas do lobo!

Tomadas todas as cautellas, que a prudencia aconselha, Estevam Cabrinha

desceu com o seu hospede, e principiou a apalpal-o, ácerca da

generosidade, que lhe suppunha de não consentir que elle e os seus

jejuassem só com o leve almoço, esmoido no largo passeio do Casal do

Ouro á Ponte da Asseca. João da Ventosa respondeu ás gargalhadas, que de

sua casa nunca saiam barrigas famintas, e gritando pelos creados, mandou

trazer luz e accender o lume.

N'este momento entrou o _Sapo_.

Rondando as visinhanças o virtuoso assessor do sargento achou a porta

meio cerrada, ouviu de fóra a voz aspera e roufenha do amo, e sem mais

ceremonia inseriu-se no texto, enfiou o corredor, e veiu farejar a ceia

e a pousada.

A manta, em que se enrolava, escorria como se fôra tirada de um tanque,

e as botas atascadas de barro denunciavam a larga excursão de que se

recolhia. Approximando-se de Cabrinha, tocou-lhe no hombro, e disse-lhe

ao ouvido duas palavras. O digno mandarim recuou sobresaltado, e não

poude conter uma exclamação em alta voz, exclamação de susto e de

alegria ao mesmo tempo, que não escapou á curiosa attenção, com que o

João da Ventosa espreitava e escutava com todos os sentidos vigilantes o

dialogo confidencial dos dois personagens, cujas proezas conhecia de

longa data.

As suspeitas, que desde o principio o tinham assaltado ácerca dos

verdadeiros auctores do homicidio da azinhaga, confirmaram-se.

A Casa dos Fantasmas - Volume I Episodio do Tempo dos Francezes · 第 2 / 11 段