A reconciliação de Portugal e Hespanha não fez os brasileiros largarem

mão do proposito. Allegavam agora que as commoções intestinas dos

estados platinos com trazerem em sobresalto os moradores da fronteira do

Rio Grande, os contragiam a procurar um ponto estrategico para conterem

as guerrilhas turbulentas, e esse não era outro que a margem esquerda do

Prata. D. João VI algum tempo hesitante, senão contrario á emprêsa,

adoptou-a com enthusiasmo, sendo informado de que o tratado de paz geral

de 1814 o mandava restituir a Guyana aos francêses sem compensação, e

que o congresso de Vienna não cogitava de devolver a Portugal Olivença,

retida pela Hespanha. O menos bellicoso dos monarchas resolveu então se

desaggravar na America da injustiça e menoscabo das grandes potencias,

desde que se não podia desforçar dellas na Europa. Mandou vir cinco mil

homens aguerridos do seu exercito e os collocou no extremo sul do Brasil

sob o commando do general Lecor.[336] A presença dessas tropas

disciplinadas, o desejo de socego por parte da população, a crença de

algumas personagens conspicuas que a sujeição ao vizinho mais poderoso

restauraria a ordem na patria e tambem o suborno dos chefes de algumas

facções, determinaram a Banda Oriental a encorporar-se na monarchia

portuguêsa por acto de 31 de julho de 1821. Aquillo, pois, que no começo

não passava de conquista insidiosa tornava-se por esse documento

annexação livre, que devia escapar á censura dos liberaes e punha D.

João VI em boa attitude perante a Hespanha, a Inglaterra e a França, que

viam com desprazer o alargamento dos dominios do soberano português.

Os brasileiros reprovaram com energia o alvitre da commissão

diplomatica, o qual, como vimos tendia a lhes tirar a fronteira cobiçada

ha seculos com as armas nas mãos e agora readquirida sem derramento de

sangue. Invocaram a posse primitiva sanccionada por differentes

convenios, a caducidade do tratado de 1777 em consequencia da guerra de

Hespanha com Portugal em 1801 e mais que tudo se firmaram no auto da

encorporação. Não concebiam que a Hespanha se pudesse magoar com a

annexação, porquanto os estados platinos absolutamente autonomos eram

livres de se associar consoante as suas conveniencias. Desfaziam o

argumento dos regeneradores baseado na miseria do thesouro de Portugal

com a proposta de assumir o Brasil o encargo da occupação, tanto mais

que já carregavam os paulistas a parte mais dura da emprêsa, que era a

defensão das fronteiras. Batidos em todos os pontos, os magnates da

regeneração acabaram zombando do empenho dos brasileiros em ter por

limites aguas navegaveis. Replicou-lhes com desdem o barão de Mollelos,

militar experimentado, que semelhante parvoice não merecia refutação. O

congresso depois de porfiados debates não acceitou o parecer de

Fernandes Thomaz, de Moura, da commissão diplomatica, em summa, não

porque os successos do Brasil o persuadissem da conveniencia de attender

aos americanos nos negocios da sua patria mas por outros motivos. Dos

constituintes uns não ousavam contrariar o soberano em cousa tão do seu

coração e outros pretendiam servir-se em tempo da occupação para futuras

transacções com os hespanhoes ou com outro povo no interesse exclusivo

de Portugal.[337]

Estreou então nas côrtes Fernandes Pinheiro deputado por S. Paulo, que

prestara juramento aos 27 de abril[338]. Ha mais tempo devêra tomar

assento, não o fizera, contudo, porque assistindo á sessão tempestuosa

de 15 de abril, intimidara-se a termos de hesitar em fazer parte de uma

assembléa hostil aos collegas de deputação. Trouxe para a bancada

cooperação valiosa, demonstrada nesses debates em discurso que merecêra

do Correio Brasiliense o mais bello elogio[339]. Infelizmente, como se

colherá da prosecução da narrativa, faltava-lhe a energia e a resolução

que caracterizavam a bancada paulista.

Dos mandatarios de além-mar se singularizou pelo voto o desembargador

Segurado, aconselhando o abandono prompto de Montevideu antes que

fossemos forçados a evacual-a vergonhosamente[340]. Os acontecimentos

consagraram a previsão do alemtejano, mas não deixa de causar mossa que

um representante da America désse semelhante aviso que tendia a por á

disposição da metropole forças destinadas a reduzir os brasileiros.

Seria tão inimigo da independencia, que tambem entrevira[341], a ponto

de a querer suffocar pelas armas? Custa crel-o. Provavelmente não

cogitara daquelle effeito do parecer da commissão diplomatica, e

suppunha que, decretado o despejo da Banda Oriental, se frustraria o

intento infernal da regeneração com a ordem de regresso ao Reino dos

voluntarios reaes.

A sessão de 30 de abril se não assignalou somente pela questão de

Montevideu mas tambem por incidente que deu a Barata mais renome que os

seus discursos de áspera ironia, que as suas convicções extremadas, que

a Sentinella da Liberdade[342] e que a sua prisão politica: Barata

aggrediu Pinto da França.

O episodio mereceria apenas rapida menção se não repercutira com

estrondo no Brasil e não andara associado ao nome do famoso bahiano como

o documento mais eloquente de seu fervor patriotico. Naquella reunião

receberam-se no congresso officios de Madeira expondo as occorrencias da

Bahia no acto de tomar posse do commando das armas. A municipalidade,

apoiada em representação de mais de quatrocentos cidadãos, protestou

contra a nomeação do official português e pedia continuasse no posto o

brigadeiro Manuel Pedro de Freitas Guimarães, natural do Brasil e muito

querido. A junta governativa, não ousando desatar a difficuldade, chamou

em conselho as autoridades, os membros proeminentes do clero, e as

personagens conspicuas da terra para resolverem o negocio que inquietava

a cidade. Depois de longa discussão, protrahida até a madrugada, a

assembléa entendeu dirimir a pendencia confiando o cargo disputado a uma

commissão presidida por Madeira e da qual farião parte Manuel Pedro e

mais cinco officiaes, dous escolhidos pelo militar português e dous pelo

seu rival brasileiro. A sorte designaria o setimo membro do governo

militar. Dizia Madeira que aceitara o alvitre, apesar da reluctancia de

seus subordinados em consentir fosse frustrada uma carta regia por outro

poder que não as Côrtes. Divulgada semelhante resolução, os soldados da

terra acommetteram o quartel português, pelo que as tropas do Reino

sahiram a repellir os aggressores e a lhes sitiar o forte. Restrugiu o

canhão de parte a parte, mas em menos de 24 horas, rendidas as

fortalezas e dispersos os batalhões brasileiros, com a fuga de uns e o

desarmamento de outros, Madeira restaurava a ordem e assumia o commando

contra a determinação da assembléa. Assim rezavam os officios.

Aos brasileiros não causou surprêsa a opposição movida contra a escolha

de Madeira, desestimado na terra desde a acclamação do nosso regimen.

Aconselhara nesse dia ao capitão general conde da Palma resistencia ao

movimento liberal, e se não fôra a audacia e destreza do brigadeiro

Manuel Pedro não se faria sem sangue e tão promptamente a adhesão da

Bahia á causa de Portugal. Não era o unico acto que desluzia o official

do Reino no conceito publico. Ignorante, estupido e singularmente

credulo, esteve a pique aos 12 de julho de lançar os reinoes contra os

indigenas, em consequencia de o ameaçarem de assassinato em carta

anonyma. A escolha de semelhante homem com preterição de Manoel Pedro de

patente superior e empossado no cargo desde 10 de fevereiro por assenso

dos povos, conculcava as conveniencias politicas, affrontava o

sentimento publico e por isso determinara a revolta. Pinto da França

concordava rigorosamente com os collegas ácerca do desacerto da

nomeação, e até o declarara aos ministros da marinha e de extrangeiros

em uma das reuniões da commissão dos negocios do Brasil[343], divergia

porém, dos amigos no tocante a Manuel Pedro. Sem contestar os seus

serviços valiosos prestados á causa liberal, não o julgava idoneo para o

cargo nas circunstancias actuaes, por lhe regatearem confiança as

classes conservadoras[344].

Encerrado o debate com a resolução de se submetterem ao governo os

officios de Madeira, Barata, que se conservara mudo, saíu do recinto, e

num dos corredores topou um grupo que discorria sobre o acontecimento da

Bahia. Nelle estava Pinto da França a exprobar Manuel Pedro por se haver

recusado entregar o commando militar a Madeira regularmente provido.

Assim o queria a disciplina. Barata, o idealista Barata a quem leis sem

espirito de justiça não passavam de abuso de poder, e não deviam ser

respeitadas, explodiu acerbamente contra o collega. Trocaram-se injurias

e os contendores resolveram desaffrontar-se por meio das armas. No alto

da escada, porém, o sexagenario, no paroxysmo da colera, atirou o

adversario pelos degráus abaixo[346]. Attribuir-lhe a intenção de

maltratar perfidamente o contrario, é desconhecer a força irresistivel

das naturezas violentas e impulsivas, as quaes se não compadecem com a

premeditação e estouram com a inconsciencia da polvora ao contacto do

fogo. Nas Côrtes, onde ainda se não dera episodio egual, a occorrencia

tomou proporções exageradas. A commissão de policia e a commissão de

regimento interno pronunciaram-se severamente contra o férvido ancião,

propondo a ultima a sua exclusão da assembléa até que a justiça

ordinaria julgasse o crime[347]. Lino Coutinho e Antonio Carlos

impugnavam o parecer por applicar pena sem devassa e prevenir, por

conseguinte, o animo dos juizes. Quem era o delinquente? perguntavam com

o intuito de crear confusão no interesse do collega querido. Borges

Carneiro com argumentos juridicos ponderosos vem-lhes em auxilio, e as

Côrtes subscreveram o seu alvitre, que era sujeitar o caso a um tribunal

de deputados consoante o regimento interno do congresso[348]. Neste meio

tempo correu voz de duello entre os adversarios, e Feijó aterrado

supplicou a intervenção do parlamento para os acalmar[349]. Não consta

dos annaes a decisão do tribunal, que chegou todavia, a se constituir em

25 de junho[350]. O restabelecimento de Pinto da França, ferido no rosto

e contundido em outras partes, a acção anesthesica do tempo sobre a

sensibilidade moral, os successos graves do Brasil e talvez, a

intervenção generosa do aggredido, fizeram os julgadores não exercer o

mandato. Barata que se excusava de não comparecer nas Côrtes, em 20 de

junho voltou a tomar parte nos trabalhos legislativos significando desse

modo que, se não considerava morto o incidente, ao menos já lhe não

temia as consequencias para o seu mandato.

Não cessavam de resoar na alma dos regeneradores as palavras

estonteadoras de Madeira lidas em 30 de abril. «Se V. M. quer conservar

esta parte da monarchia, precisam-se mais tropas... É tambem de primeira

necessidade que existam sempre aqui algumas embarcações de guerra.

Mediante taes providencias terei a felicidade de conservar nesta parte

do mundo a indivisibilidade da monarchia portuguêsa».

Negado pelas côrtes o despejo de Montevideu, que permittiria reforçar a

guarnição da Bahia com tres mil e quinhentos voluntarios reaes, não

havia outro meio de corresponder á sollicitude do commandante das armas

senão desfalcando o exercito do Reino. Era, porém, este tão minguado que

não soffreria reducção sem perigo para a patria, principalmente agora

que se toldavam os horisontes politicos da Peninsula. A reacção emergia

na Hespanha animada da Santa Alliança, e em Lisboa fôra decretada por um

mês a suspensão das garantias individuaes por melhor se acautelar a

ordem contra os absolutistas[351]. Nisto divulgaram-se aos nove de maio

os successos do Rio que demonstravam a disposição do ultramar de se

constituir sem dependencia do parlamento.

José Bonifacio ministro dos negocios do Reino e extrangeiros aconselhava

a D. Pedro a criação de um conselho de procuradores eleitos pelas

provincias com o duplo fim de restabelecer a auctoridade da regencia

sobre todo o Brasil e de prover ás necessidades geraes da antiga colonia

e ás particulares das capitanias. Como se não bastara tão pungente

menoscabo do poder legislativo do Reino, o principe communicava a

situação desesperada da divisão auxiliadora, que, acantoada em Nictheroy

ou havia de tomar aos 5 de fevereiro o caminho da Europa, que o povo lhe

apontava com arrogancia, ou morrer de fome[352].

Houve indignação por toda a Lisboa, e o governo tratou de servir

Madeira, que desaffrontava galhardamente os brios do velho Portugal nos

dominios revôltos, sem se preoccupar com o descalabro do thesouro e do

exercito. Publicaram-se editaes convidando os proprietarios de navios a

fazerem propostas para o transporte de tropas para a Bahia.

Nada irrita mais uma colonia em discussão com a mãe patria do que esta

trancar o debate com expedição militar. É a forma mais brutal do

despotismo e rebaixa o povo á condição de escravo que não póde pleitêar

os seus interesses com o senhor. Os individuos determinados julgam-se em

taes conjunturas com direito ás represalias mais extremadas. Os

americanos do Norte proeminentes legitimavam o assassinio não só

d'aquelle que pedia batalhões ao governo britannico, mas ainda dos

pobres soldados inglêses em serviço na America[253]. No Brasil, seja

dito de passagem, as cousas não chegaram a esse ponto: nunca um

brasileiro de valor intellectual ou social auctorizou violencias

sanguinolentas contra os reinoes.

Inquietaram-se os bahianos com a resolução do governo, e requereram ás

Côrtes fizessem o ministro sustar a expedição para serem ouvidos sobre

ella os mandatarios da America. Todos os pernambucanos, salvo Malaquias

impedido, todos os paulistas e os unicos representantes da Parahyba,

Espirito Santo e Santa Catharina, o alagoano Martins Ramos, o fluminense

Villela e o goyano Segurado se empenharam em assignar aquelle documento

em testemunho de solidariedade das suas provincias com a Bahia. O

Maranhão (Beckman e Belford) e o Pará (D. Romualdo) não accudiram ao

appello.

Houve, porém, uma terra vizinha, sem commercio e sem minas, conhecida da

metropole tão sómente por suas calamidades que revelou não ser esse

sentir commum ao Brasil septentrional e se associou aos irmãos do

Centro[354]. Era o Ceará. No primeiro decendio de maio haviam entrado no

congresso os seus representantes Antonio José Moreira, Manuel do

Nascimento Castro e Silva, Manuel Filippe Gonçalves e José Martiniano de

Alencar. O ultimo era o primeiro substituto e occupou a cadeira de José

Ignacio Gomes Parente, que, em razão de enfermidade chronica aggravada

recentemente, desistira do cargo apenas eleito[355]. Pedro José da Costa

Barros, outro deputado, que se achava no Rio de Janeiro no momento da

eleição, deixou-se ahi ficar sem que jamais lhe preenchesse o logar o

segundo supplente Manuel Pacheco Pimentel. Era notorio o liberalismo do

padre Moreira e de Castro e Silva. Aquelle mostrára sympathia pela

revolta pernambucana de 1817, e este promovêra o juramento das bases da

constituição e o estabelecimento da junta governativa vencendo a

reluctancia do capitão general Francisco Alberto Rubim[356]. Nos

serviços á liberdade, porém, ninguem se avantajava á Alencar. Ainda

menor e estudante em Olinda quando estalou o levante Pernambuco,

alcançou, todavia, dos chefes rebeldes a missão de fazer proselytos na

villa do Crato, terra de seu nascimento. Preso immediatamente e

transferido para as masmorras da Bahia, juntamente com a mãe, ahi

expiára duramente a sua imprudencia juvenil[357].

Julgado urgente o requerimento dos bahianos, nessa mesma noute em

conselho demorado reuniram-se os brasileiros em casa de Lino Coutinho

para determinar a orientação do debate[358]. No dia immediato

instaurou-se a discussão, não sem surprêsa dos ultramarinos, que,

attentos os usos do parlamento, não pensavam se iniciasse tão

promptamente o exame da proposta. O motivo da diligencia não podia ser

outro senão a anciedade do povo de Lisboa por conhecer a solução do

negocio. Os clubs e as lojas do Chiado regozijavam-se, em verdade, com o

acto do governo e verião com prazer o exercito inteiro de Portugal

escoar-se para a America afim de, sob o commando de Madeira,

restabelecer ahi o prestigio da metropole. Coube primeiro a palavra a

Lino Coutinho.

Não acerta, disse, com o motivo de expedição militar contra provincia

que não está em revolta. A Bahia presta adhesão ao regimen

constitucional com o fervor dos primeiros tempos e não cogita de se

separar da monarchia. O que ahi occorreu não passa de briga entre dous

militares, Madeira e Manuel Pedro. Este não queria largar mão do

commando das armas, que exercia provisoriamente, mas com applauso de

todos, e aquelle investido do mesmo posto pelo governo de Lisboa, tratou

de se apoderar delle, e conseguiu-o pela violencia. Para desfazer a

disputa cumpre prudencia e não armas; e porem-se batalhões ao serviço de

um dos adversarios revela a parcialidade de Portugal e vai accirrar o

descontentamento de outra parte, tanto mais que o Brasil não quer tropas

europeias. Devolveu-as Pernambuco, e o Rio acaba de as fazer sahir. Se

corre perigo a integridade da monarchia, não é a força armada que

restabelecerá a confiança, como judiciosamente assignalou o principe

regente, o principal interessado na união. De mais, que valeram os

regimentos britannicos e hespanhoes quando os Estados Unidos e Buenos

Ayres resolveram emancipar-se? Não contestava competir ao governo, em

consequencia de ser o responsavel pela tranquillidade publica, a

disposição da força armada; mas semelhante poder não é de natureza

especial para escapar á fiscalização do congresso.

A esse discurso moderado e prudente Moura respondeu com o desabrimento

de tribuno saborêado do vulgacho. Desvenda o pensamento hediondo da

regeneração, que é tornar a Bahia o acampamento de Portugal de onde se

irradiarão as hostes contra os povos recalcitrantes aos decretos das

Côrtes. Fala com desdem da população do Brasil, inclinada á anarchia em

consequencia de a constituirem «negros, mulatos, brancos creoulos e

brancos europeus»... «A heterogeneidade destas castas põe paixões

diversas em effervescencia, e esta agitação não pode ser contida nos

seus respectivos deveres senão pela força, e a força indigena não é

capaz de os conter: é sim antes capaz de promover as mesmas desavenças

porque se compõe dos mesmos elementos». Era difficil a esse liberal

ardente que pregava sem cessar o direito dos povos de se governarem a

seu gosto, conciliar a doutrina com a defesa de um acto que presuppunha

o desconhecimento formal daquelle direito. Esfalfou-se, por isso em

explicar que approvava a expedição, não por ser elle contrario á

independencia, mas porque esta contrariava a opinião dominante em

além-mar. Podia-se-lhe responder que não havia necessidade de batalhões,

e batalhões europeus, para reduzir semelhante minoria; mas Araujo Lima

teve uma replica fulminante. O respeito da vontade geral da America,

ponderou, que persuadia o brilhante regenerador a impugnar a facção

separatista, devia agora pol-o ao lado dos brasileiros; porquanto se

havia em além-mar um sentimento unanime e formulado com nitidez, era a

aversão aos regimentos da metropole. Delles todos se queixavam,

Pernambuco e Rio repelliram-nos com as armas; e no entanto qual era a

attitude do Moura? Promover e animar essas expedições negregadas.

Castello Branco, muito prolixo e mellifluo, se surprehendia da

apprehensão inspirada aos americanos pelas tropas do Reino possuidas do

mais fervente liberalismo. Os brasileiros advertiram que os militares

portuguêses que merecem louvor das cidades da metropole para onde são

transferidos, destacados ao ultramar, presumem que se acham entre povos

inferiores ou conquistados; tornam-se altaneiros e a cada passo molestam

o melindre dos camaradas da terra. Resentidos, estes não deixam escapar

ensejo de reagir, e d'ahi conflictos mais ou menos cruentos. Não são

isto assertos da imaginativa. Onde não ha forças portuguêsas domina a

tranquillidade; Pará, Maranhão, Ceará e Rio Grande do Sul que as não

tiveram, vivem em paz. Em Pernambuco a retirada do batalhão do Algarve e

do general Luiz do Rego restituiu á provincia socego, de que se achava

privada havia tantos annos. Está fresca na memoria de todos a

carnificina da Praça do Commercio fluminense pela divisão auxiliadora.

Na Bahia os regimentos lusitanos não procedem de modo diverso. Iniciaram

os seus feitos matando a abbadessa do convento da Lapa, venerada pela

prelazia, virtudes e edade, e vão servir ao general Madeira, detestado

dos povos, mal visto da Camara, cuja auctoridade desconheceu por haver

assumido o commando sem préviamente submetter ao «cumpra» d'ella o seu

titulo de nomeação.

Importa notar que Madeira com dispersar os batalhões indigenas e se

apoderar dos arsenaes, annullou os adversarios e pode, portanto, encarar

o futuro com desassombro sem necessidade de reforço, gravoso, aliás, ás

finanças depauperadas da provincia[359].

O debate proseguiu no dia immediato precedido de incidente que lhe deu

novo estimulo. Jorge de Avilez receoso de incorrer na censura do

monarcha, em consequencia do conflicto com o regente, procurou seduzir

as Côrtes com cumprimentos férvidos. O presidente devia archivar

simplesmente o documento, mas os regeneradores exaltados não consentiam

que o parlamento acolhesse sem expressão de gaudio as demonstrações de

estima de official determinado a guardar os decretos legislativos com a

espada. Os brasileiros e outros constituintes perfilhavam o voto de

Guerreiro: como D. Pedro accusava Avillez, emquanto este se não

justificasse perante os tribunaes, não era licito ás Côrtes exprimirem o

sentimento com que ouviram as suas congratulações. Antonio Carlos falou

com lucidez e independencia. «Este congresso não commetteu a execução

das suas ordens ao general Avillez; commetteu-as ao governo, e este ao

seu delegado. Se o delegado obrou mal, ao delegado cumpre responder, e

não ao general tomar contas ao delegado; aliás adeus, governo: ás duas

por tres estava tudo perdido. O principe regente ha de responder, ha de

se lhe pedir contas de sua conducta».

Venceu o alvitre de Guerreiro, depois de militares deputados terem

considerado suspeito de indisciplina o comportamento do commandante da

divisão auxiliadora. Mostrou a discussão que a divergencia do Pará e

Maranhão com as outras provincias se acentuava mais e mais. De feito o

bispo do Pará e Beckman, do Maranhão, acompanharam, não sabemos por que

motivo, os energumenos radiantes com o gesto do general[360].

Irritados com a derrota, os regeneradores se empenharam na discussão da

vespera com maior vehemencia. Encetou agora o debate Borges Carneiro,

que procurou avigorar a sua popularidade, abalada nos gremios e nas

ruas, em virtude da disposição generosa anterior de attender aos desejos

do ultramar, com as violencias habituaes de Moura. Como este, o luminoso

regenerador lamentou a exiguidade das forças destinadas ao Brasil; pedia

que fossem para a Bahia ao menos dous mil e seiscentos homens que,

reunidos aos 1.400 existentes na provincia, constituirião exercito assás

poderoso para conter as facções; mas, e nisto divergia dos consortes,

queria a expedição acompanhada de resoluções a favor da America.

«Mostre-se ao Brasil, exclamou todavia com estouvamento, que o não

queremos avassalar como os antigos despotas: porém contra os faciosos e

rebeldes, mostre-se que ainda temos cão de fila ou leão tal, que se o

soltarmos ha de os trazer a obdecer ás Côrtes, ao Rei, e ás authoridades

constituidas no Brasil por aquellas e por este».

Do longo discurso de Borges Carneiro nada commoveu mais os brasileiros

que esse trecho, e os proceres da deputação entenderam que não devia

passar despercebido. «Advirto o illustre deputado, bradou Villela

Barbosa, que ali tambem se sabe açaimar cães; que nas veias dos

brasileiros tambem gira sangue português e que já hoje ali se não hão de

receber leis com o arcabuz no rosto». Lino Coutinho exclamou: «Contra os

cães atiraremos onças e tigres.»

Ninguem, porém, ultrapassou em violencia e audacia Antonio Carlos:

«Declaro que o Brasil não está em estado de temer as fatuas ameaças com

que o pretendeu intimidar o snr. Borges Carneiro: para cães de fila ha

lá em abundancia páu, ferro e bala, e nem nos podem assustar cães de

fila aos quaes fizeram fugir dentadas de simples cães gozos.»

Referia-se á divisão auxiliadora recuando deante das milicias mal

armadas.

Os deputados brasileiros nas Côrtes Geraes de 1821 · 第 16 / 27 段