tomou o caminho do Rocio. De feito ahi se ajuntavam a divisão portuguêsa
e os batalhões brasileiros sob o commando do general Caretti. O
governador das armas, em nome do ministro da guerra, intimou-o a não
mover as tropas para a cidade antes que viesse de S. Christovão, onde ia
pedir a el-rei esclarecimentos ácerca de tão extranho facto. Silvestre
Pinheiro postou-se numa das ruas para sustar a marcha das forças. Não
tardou Caula em volver com a nova, annunciada a Silvestre Pinheiro, da
desfilada impendente dos regimentos lusitanos contra a Praça de
conformidade com as instrucções regias. Ahi acabara-se de proceder á
eleição e muitos já se haviam retirado. O secretario arranjava os
documentos, quando correu voz, que os soldados avançavam. Todos acudiram
á porta, atravancada pelos que, sahidos ha pouco, retrocediam aterrados:
approximava-se a artilheria e nas ruas lateraes scintillavam as
bayonetas aos primeiros clarões do dia. Uma companhia de caçadores
postando-se defronte da entrada principal descarregou no interior do
edificio cincoenta tiros sem aviso prévio. Os assaltados fecharam as
portas. Uns atiraram-se ao mar e outros esconderam-se. O desembargador
J. da Cruz Ferreira salvou-se a nado e o lente de mathematicas, o sabio
Antonio José do Amaral, achou abrigo numa sumaca. Arrombadas as portas,
a soldadesca perseguiu os desventurados como se fossem lobos, diria o
conde dos Arcos. Houve tres mortes, entre as quaes a de um eleitor a
quem os annos tolhiam os passos. Muitos foram gravemente feridos; José
Clemente Pereira recebeu uma profunda cutilada na coxa. Macamboa, o
padre advogado, a quem tanto deve a liberdade, e o brilhante Duprat,
recolhidos ao carcere, foram tratados com desapiedade. O conde dos Arcos
julgava conveniente enforcal-os «para exemplo».
Voltemos á quinta da Boa Vista. Partido Silvestre Pinheiro, a colera dos
cortezãos explodiu com violencia. Valiam-se da intimação ás fortalezas
para capitular de anarchico o eleitorado e constranger o monarcha a
dispersar á bala a reunião, punir os mais exaltados, não receber a
deputação dos eleitores que lhe devia submetter os nomes dos membros do
conselho e, até, revogar a outorga da constituição hespanhola. D. João
VI cedeu abjectamente em todos os pontos. Ordenado ataque á Bolsa,
decretou que resolvêra negar ao Brasil a carta constitucional de Cadix
por lhe ter sido sollicitada «por homens mal intencionados e que queriam
a anarchia».[75] O fundamento da nova deliberação não resiste á analyse.
Além dos eleitores, sobre os quaes demos o juizo dos coevos, constituiam
o comicio negociantes, medicos, advogados, officiaes e empregados do
commercio, a quem não aproveitava a desordem. A gentalha ficara excluida
da Praça, que não era logar publico. Os que apresentaram ao soberano as
decisões da assembléa, não mereciam tão pouco a imputação de demolidores
da sociedade. Eram varões de notoria respeitabilidade e dous delles
exerciam a magistratura. A verdade é que preoccupadas exclusivamente com
os seus interesses e animadas com a fidelidade do exercito, as facções
não hesitaram em induzir o rei a faltar ignominiosamente ao compromisso
solemne tomado com o seu ministro da guerra e com o eleitorado. Talvez
não caiba ao monarcha a responsabilidade das violencias das armas
portuguêsas, mas se lhe não pode tirar a auctoria da annullação do
decreto que punha em vigor provisoriamente a constituição hespanhola,
annullação praticada certamente sem energica suggestão alheia, porquanto
se ajustava á maravilha com o seu odio ao regimen representativo.
Silvestre Pinheiro assignala que na manhã de 22 achara o rei abatido. A
bondade de D. João VI não ultrapassava a affabilidade no trato e a
compaixão por infortunios de certos validos. Não era sanguinario mas lhe
faltava absolutamente a preoccupação de justiça para com os vassallos, e
a caridade publica interessava-lhe muito menos que a milicia e as artes.
Nas demasias dos soldados contra a Bolsa não foi a sua humanidade que se
affligiu senão a sua dignidade, mortificado com a revelação de haver no
paço outra vontade que a sua.
A commoção na cidade foi das mais intensas. Os commerciantes desertaram
para todo o sempre o edificio manchado de sangue, e o denominaram, num
cartaz affixado sobre a porta: «Açougue de Bragança»[76]. Não perdoaram
á corôa o ataque imprevisto contra homens inermes e congregados por
convite do ministro. Se os descommedimentos da assembléa auctorizavam a
intervenção da justiça, esta não devia começar por aggressão tão cruenta
quanto covarde.
Á administração mais inepta não era difficil apurar as responsabilidades
de uma assembléa, quando se conhecia quem a presidira e quem ahi
provocara desconcertos.
O rei, que se sentia dominado pela vontade mais energica do filho e por
conseguinte despojado da soberania, providenciou então ácerca do seu
embarque com diligencia singular em natureza tão apathica. Aos 22 lançou
a provisão que nomeava D. Pedro regente com as attribuições mais largas.
Na realidade só lhe era vedado fazer-se representar no estrangeiro,
prover os bispados e concluir tratados de paz definitivos; fóra disso,
exercia todos os actos de soberano, e as limitações impostas a alguns
exprimiam preito mais apparente que real ao monarcha. Assim cabia-lhe
escolher os funccionarios e estes entrarião immediatamente no exercicio
dos cargos; mas os diplomas seriam submettidos á assignatura do rei. Os
poderes da regencia vigorarião até á promulgação da carta constitucional
em preparo nas côrtes. Assistirião a D. Pedro o conde dos Arcos na pasta
dos negocios interiores e exteriores, e o conde de Lousan na da fazenda;
o marechal Carlos Frederico Caula na repartição da guerra, e Manoel
Antonio Farinha na secretaria da marinha.
No dia 24, ao cahir da noute, D. João VI esgueirou-se para bordo no
silencio tragico da cidade[77].
CAPITULO IV
SUMMARIO:
_As responsabilidades do crime de 21 de abril.--O conde dos Arcos._
Lançado o decreto de 22 de abril que prohibia a applicação provisoria ao
Brasil da lei fundamental da Hespanha, o rei aprestou-se para embarcar
immediatamente convencido de que «no meio do desenfreamento das paixões
e da insubordinação das tropas não tinha o livre exercicio de suas
attribuições soberánas»[78].
Declara-o a Silvestre Pinheiro, e a analyse de semelhante confissão
revela não ser infundado o sentir dos contemporaneos[79], que faziam D.
Pedro e o conde dos Arcos responsaveis da carnificina da Bolsa e do
quasi perjurio do soberano para com o ministro da guerra e para com os
eleitores. A gravidade da accusação e a circumstancia de se basear em
conjecturas exigem desenvolvimento da materia mais longo do que
desejavamos.
O rei «commovido» auctorizara Silvestre Pinheiro a despersar a reunião
da Praça conforme julgasse mais conveniente, e o ministro da guerra não
tinha a duvida mais tenue sobre a fidelidade das tropas. Não é licito
suspeitar da sinceridade do velho monarcha nem tão pouco suppôr que o
chefe do exercito, diligente e sagaz, se illudisse ácerca dos
sentimentos dos militares. O facto, pois, do soberano considerar-se
decahido do poder supremo significa que, em partindo o ministro da
guerra para executar os seus planos, houve alguem bastante poderoso para
constranger o rei a revogar as suas ordens sob pena de perder a
auctoridade sobre as tropas. E o rei cedeu para fugir a um conflicto que
lhe tiraria o resto do prestigio. Como nenhum dos ministros nem nenhum
dos cortesãos intimidava D. João VI, é no seio de sua familia que
devemos procurar quem se achava em condições de lhe impôr taes
villanias. O maior inimigo do rei era a esposa,[80], mas lhe não
assistia influencia alguma sobre o marido nem a cercavam o respeito e a
estima dos palacianos a termos de crear uma corrente bastante forte para
actuar sobre o chefe da dynastia. Os negocios publicos não interessavam
a D. Miguel, apenas com 19 annos. Resta D. Pedro. Principe herdeiro com
assistencia nos conselhos da corôa e muito querido do exercito, nenhum
outro se achava em melhor situação para agir sobre um espirito timorato,
qual o do Rei. Este, aliás, devia temel-o, porque a sua desconfiança
instinctiva, propria dos fracos, inclinava-o certamente a acolher o
rumor publico que considerava o successor da corôa um dos promotores do
levante de 26 de fevereiro. D. Pedro não era máu filho, mas soffria
facilmente a acção dos que o cercavam, e entre estes occupava agora a
preeminencia na privança o insinuante conde dos Arcos. «O conde dos
Arcos está com o principe no maior auge de valimento de que ha idéa,
escrevia em tres de abril á esposa o conde de Palmella, a ponto de ir S.
A. Real visital-o a casa todos os dias»[81].
O conde não era mais deshumano nem mais injusto que a maior parte dos
homens, mas o que o singularizava dos seus semelhantes, era o gosto
desenfreado do mando, para satisfazer o qual não recuava deante dos
excessos mais reprovados. A sua attitude tão arbitraria quanto feroz na
repressão do levante pernambucano de 1817 não teve outra causa. Receoso
de perder o governo da Bahia por causa do desfavor crescente do rei, a
sua inquietação confinava com o delirio aos tres de março. «Sou coberto
de affrontas, escrevia, e sou até ameaçado de castigo no tremendo nome
d'el-rei nosso senhor. Oh! meu Deus!»[82]
Aos seis de março estalou a revolução em Pernambuco, immediatamente
divulgada na Bahia. O conde aproveitou com soffreguidão o ensejo para
readquirir o valimente régio e assegurar o mando. Levantou forças
consideraveis e usurpou attribuições privativas da corôa com o fim de
inculcar a gravidade da conjuntura. Mandou executar o padre Roma julgado
por commissão militar tres dias depois de preso, sem por conseguinte,
submetter a sentença ao poder magestatico. Nas proclamações aos soldados
ordenava o fuzilamento sem processo dos pernambucanos, que não
marchassem immediatamente com as forças legaes contra os insurrectos.
Não lhe importavam as leis da humanidade e as garantias da defêsa, com
tanto que alcançasse victoria, tanto mais brilhante quanto mais rapida
para estar na graça do soberano. Como hesitaria semelhante indole em
arcabuzar os eleitores, se não havia outro meio para poder governar o
Brasil consoante os seus intentos?
Quem era o conde dos Arcos? De sua vida os livros e os archivos não
revelam senão o trecho decorrido na antiga colonia, e isto pela rama.
Por influencia do ministro das colonias, o visconde de Anadia viera ao
Brasil assumir o governo do Pará.[83] A intelligencia, a energia e a
habilidade patenteadas nesta administração, que o protector solicito não
deixava de salientar aos olhos do principe regente, deram-lhe aos trinta
e cinco annos de edade o logar mais proeminente a que podia aspirar um
português fóra da metropole, o vice-reinado da colonia transatlantica,
do qual foi investido aos 21 de agosto de 1806[84]. Pouco tempo, porém,
exerceu o cargo que o seu vehemente desejo de renome e dotes
assignalados de administrador auguravam fertil em beneficios para o
ultramar americano. De feito chegada a familia real ao Rio em 8 de
março, o principe regente tomou a direcção suprema do Brasil,
repartindo-a com os que o coadjuvavam em Lisboa.
Era o mesmo gabinete com a differença de que o conde de Linhares
substituia na pasta dos extrangeiros e da guerra a Antonio de Araujo,
excluido dos conselhos da corôa por intrigas e rivalidades da côrte. Não
havia nessa organização ministerial logar para o ex-vice-rei.
Superintendia a secretaria da Marinha o seu antigo protector, o conde de
Anadia; os negocios da fazenda publica estavam confiados ao egregio D.
Fernando de Portugal, que durante cinco annos exercera com applauso o
vice-reinado do Brasil e de quem recebera D. Marcos a investidura do
regimento da colonia. Não podia tão pouco o illustre fidalgo disputar a
pasta dos extrangeiros ao conde de Linhares, a qual, vista a situação
perturbada da Europa, precisava de homem experimentado nos meneios da
diplomacia e bem acceito da Inglaterra, mais que nunca arbitra dos
destinos de Portugal. Não consta que se queixasse então o conde. Parece,
porém, que a sua ambição insoffrida se manifestou em doestos aos que iam
preenchendo na alta administração as vagas abertas continuamente pela
morte de servidores de edade avançada ou que não resistiam á mudança de
clima ou de habitos. Morto o conde de Anadia, substituiu-o no ministerio
o conde das Galvêas; fallecido o commandante das armas, tomou-lhe o
posto o Marquês de Angeja[85]. Emquanto se davam cargos a homens cheios
de annos e de achaques, os quaes não podiam acudir ás necessidades de um
paiz em formação, falto dos melhoramentos mais elementares,
negligenciava-se a actividade do ex-vice-rei, malbaratadas as suas
forças em funcções secundarias que o tolhiam de dar expansão ao seu
genio administrativo. A injustiça era, em verdade, por demais flagrante
para não attrahir ao astuto preterido sympathias. Julgou acertado a
corôa, para enfraquecer, talvez, o partido dos descontentes, provel-o no
governo da Bahia por acto de 30 de outubro de 1810.
De feito os seus amigos e admiradores se não illudiam na apreciação de
sua capacidade governamental. Promoveu a marinha e o commercio; melhorou
as fortificações; creou novos corpos de milicias e construiu a Praça do
Commercio. Ao mesmo tempo que promovia a força e a riqueza, não se
esquecia de desenvolver a cultura intellectual, multiplicando as escolas
e fundando a bibliotheca publica. Não se descuidou tambem do recreio dos
moradores; abriu um jardim publico e favoreceu a terminação do theatro
S. João. O espirito de justiça e as maneiras captivantes do capitão
general e, de outro lado, o alvorecer das sciencias e das artes na velha
cidade, despertaram o reconhecimento dos seus filhos, caracterizado com
eloquencia no titulo de sua primeira gazeta,--A Idade de Ouro,
apparecida em 14 de maio de 1811[86]. Nunca houve talvez governador mais
querido. Depois de muitos testemunhos de estima e gratidão, os
habitantes, á sua partida, intentaram dar-lhe um que lhe aproveitasse
aos descendentes através dos seculos. Requereram ao rei licença para a
instituição de um vinculo de cem contos a favor de D. Marcos[87].
Não se enganava D. Marcos de Noronha e Brito, como se chamava Arcos,
quando suppunha que na repressão fulminante da revolta de Pernambuco se
lhe deparava opportunidade de reconquistar a bemquerença do monarcha. De
feito na organização ministerial de 24 de junho de 1817 coube-lhe a
pasta da marinha e do ultramar. A sua passagem n'esta importante
secretaria não deixou, todavia, traços dignos de menção. Na discussão
ardente sobre os acontecimentos revolucionarios de Portugal e as
providencias applicaveis a um e a outro reino, o seu papel foi tambem
dos mais apagados. Conhecem-se as idéas de Palmella e de Thomaz Antonio,
expendidas anteriormente; de Arcos apenas se sabe que «mostrava
sentimentos cavalheirescos e tambem boas intenções, posto que assás
vagas e indefinidas»[88].
Comprehende-se, até certo ponto, ahi a sua reserva, porque ao invez dos
collegas que pleitêavam a partida do principe, pretendia ficar com este
no Brasil. O que se não alcança, porém, é que continuasse a envolver em
mysterio os planos de governar o Brasil durante a regencia de D. Pedro.
Nem o velho monarcha logrou conhecel-os.[89].
A nosso parecer nada dizia porque nada tinha que dizer. Era
administrador e não politico. Contava reger o Brasil como governara a
Bahia, esquecido de que as circumstancias haviam mudado. Agora não
preoccupavam o povo os melhoramentos materiaes mas sim o empenho de
limitar a acção do poder e fixar as suas relações com os cidadãos e de
dar a estes parte activa na direcção dos negocios publicos.
CAPITULO V
SUMMARIO:
_Medidas da regencia--Descontentamento crescente do povo--Deputados
do Rio--Votação--Regulamento eleitoral--Recrutamento--As bases
constitucionaes--Revolução de 5 de junho--Destituição do conde dos
Arcos--Targini--A calumnia no Brasil e em Portugal._
Partido o monarcha, o regente sob a inspiração do conde dos Arcos,
intentou dar a edade de ouro ao Brasil, conforme a ironia de Silvestre
Pinheiro. Prohibiu a prisão sem culpa formada e sem ordem escripta do
juiz; aboliu as algemas, as torturas e açoutes[90]; augmentou os
vencimentos das tropas, que já murmuravam; supprimiu o imposto de 2%, o
qual agravava as mercadorias isentas de tributo especial. Dos actos
meritorios, porém, nenhum certamente mais o devia recommendar ao
reconhecimento dos povos que a reforma do imposto do sal. O tributo de
750 reis por alqueire, que pesava sobre esta parte essencial da
alimentação, opprimia as industrias pastoril e da pesca. Perdiam-se
couros e carnagens, a salga de um boi representando duas e tres vezes o
seu valor. A conserva do pescado era tambem impossivel, e com isto
padecia não só a gente que fazia do peixe salgado a principal
subsistencia senão ainda a industria de transportes com augmentar a
deficiencia dos carregamentos para a Europa, ao que attribuia o seu
deperecimento a marinha portuguêsa. Era tão precioso o sal que um prato
delle constituia no interior um dos presentes mais festejados[91]. A
regencia reduziu o imposto a oitenta reis por alqueire[92].
Nos derradeiros dias de maio, realizaram-se as eleições dos deputados
fluminentes para as côrtes geraes, e este acto que devia alvoroçar o
povo como o primeiro passo para o regimen representativo tão almejado,
correu sem enthusiasmo[93]. É que o governo não lograva grangear a
estima publica; ao contrario, quanto mais exercia actividade, tanto mais
a população o execrava na pessoa do conde dos Arcos, reputado a alma da
administração, sem attentar na excellencia das medidas. Nestas enxergava
actos de usurpação da assembléa legislativa e não reconhecia á regencia
outros direitos que os da conservação da ordem e fiscalização dos
serviços publicos, isto é, as rigorosas attribuições do poder executivo.
Todos sentiam a imminencia de graves acontecimentos no Rio, e mais
interessantes ao progresso do Brasil do que a collaboração de seus
filhos na futura carta constitucional da monarchia; e por isso ninguem
queria ser deputado, mas o desapêgo não ia ao ponto de se descuidar da
eleição. Assim a lei facultava o meio de remover o embaraço nascido da
falta de candidaturas brasileiras, e era nomear portuguêses domiciliados
na comarca ha mais de sete annos. Não escasseavam entre elles varões
distinctos por virtudes e letras, capazes de defender com dedicação os
interesses da terra de sua residencia, e que gostosamente aceitarião a
viagem á patria investidos da honra de figurar no congresso. Nem se
cogitou disso, porque o eleitorado, por commum sentir que nobilita os
portuguêses que delle faziam parte, não admittia para o Brasil outra
representação que não fosse constituida exclusivamente por seus
naturaes. Vencidas as resistencias do Dr. Luiz Nicoláu Fagundes Varella
e do bacharel J. S. Lemos Brandão, o bom homem da roça, como lhe chama
Vasconcellos Drummond[94] completou-se o numero com fluminenses
estabelecidos em Portugal. Eram elles o bispo de Coimbra, D. Francisco
de Lemos, o bispo d'Elvas, D. J. J. da Cunha de Azevedo Coutinho, o
bacharel Luiz Martins Bastos, e substitutos o medico Custodio Gonçalves
Ledo, residente no Porto, e o bacharel em mathematicas Francisco Villela
Barbosa. O egregio D. Francisco de Lemos, altamente conceituado por
Pombal,[95] que o incumbira da regencia da universidade de Coimbra, por
causa da edade excedente de 86 annos, não aceitou o encargo, e o
substituiu Villela Barbosa. A morte arrebatou D. José de Azevedo
Coutinho, inquisidor-mór e antigo bispo de Pernambuco, dous dias depois
de entrado nas côrtes. O ascendente, que lhe dava a intelligencia
exclarecida e a situação social, certamente se faria sentir na assembléa
de modo proveitoso. Era um espirito positivo mas não destituido de
originalidade. Na obra assás festejada--Ensaio Economico,--ao par de
idéas hoje banaes, ou até condemnadas, ha conceitos que mereciam a prova
da pratica. Assim suggeria de se utilizar na marinha o indio, cuja
natureza resistente mais incapaz de esforço prolongado no mesmo sentido,
se adaptaria, porventura, á variedade de occupações da vida do mar,
lardeada de regabofes nos portos.
Villela Barbosa, ulteriormente marquês de Paranaguá, deixara a marinha
de guerra com o posto de major para se applicar ao magisterio.
Leccionava com lustre mathematicas na academia Real de Marinha, e
trabalhos de valor lhe abriram as portas da Academia Real das Sciencias.
Era incontestavelmente o mais notavel membro da representação
fluminense, e a despeito de se achar ausente do Brasil desde 1878
concebeu as suas necessidades e participou da febre de suas aspirações
na crise proxima como se acabara de o deixar[96].
A harmonia do partido luso-brasilico, como se dizia, promanava não só da
perfeita unidade de vistas dos patriotas senão tambem do numero exiguo
de eleitores. Não passavam de 15, e a votação se repartiu do seguinte
modo: Fagundes Varella e D. José de Azevedo Coutinho, onze votos;
Martins Basto, nove; D. Francisco de Lemos e Lemos Brandão, oito; e os
supplentes Ledo, oito, e Villela Barbosa, 13[97].
Susposto já não matasse nem torturasse a inquisição, e se satisfizesse
com encarcerar os suspeitos de heresia, não deixa de causar extranheza,
visto o passado sinistro do temeroso tribunal, que haja sido dos mais
votados em periodo de reforma liberal o chefe da instituição D. José de
Azevedo Coutinho.
A explicação deve residir no prestigio do venerando fluminense assim
como na indulgencia e brandura com que os magistrados inquisitoriaes
exerciam desde alguns annos o seu formidavel ministerio.
O governo revolucionario de Portugal por decreto de 18 de abril
determinara a applicação ao ultramar americano do regulamento de 22 de
novembro observado pela antiga metropole nas eleições para as côrtes
geraes, sem mudança capaz de influir na representação. Cada provincia
daria tantos deputados quantas vezes tivesse o numero de trinta mil
moradores, e no caso do excesso da povoação chegar a 15 mil almas,
designaria mais um representante desprezada a differença que não
attingisse o ultimo algarismo.
Para o calculo da população se serviu em Portugal do cadastro de 1801 e
no Brasil aproveitou-se em geral do computo de 1808, o qual dava
2.323.386 habitantes livres[98].
Não era defeso á provincia que se julgasse lesada com aquelle calculo,
por não exprimir mais a verdade, proceder a novo recenseamento. Assim
aconteceu no Rio de Janeiro, mais, todavia, por não haverem sido
comprehendidas as instrucções de Silvestre Pinheiro do que pelo empenho
de corrigir o cadastro de 1808, e o resultado desfavoreceu a comarca. De
feito o novo arrolamento estimou os moradores livres em 159.281 ao passo
que pelo anterior a côrte e a comarca apresentavam 235.079. Por isso, em
vez de sete deputados como autorizava o calculo de 1808, se fôra
mantido, não mandamos a Portugal senão cinco.[99]. Os deputados além das
despezas da viagem, arbitradas e pagas por suas provincias, percebiam do
erario publico 4$800 réis fortes por dia. Os contemporaneos julgavam
excessivo o subsidio[100]. A eleição era de quatro graus e singularmente
complicada. Em cada freguesia sob a presidencia da auctoridade
judiciaria ou municipal, reuniam-se no concelho ou na Egreja, os
cidadãos domiciliados ahi para a eleição dos compromissarios. Nomeados,
estes designavam immediatamente o eleitor parochial. Por cada duzentos
fogos havia um eleitor paroquial escolhido por onze compromissarios. Os
eleitores parochiaes ajuntavam-se no domingo immediato na cabeça da
comarca para indicar por escrutinio secreto os derradeiros eleitores, os
quaes reunidos na capital da provincia no domingo seguinte, nomeavam os
deputados. O numero dos eleitores era trez vezes o numero dos eleitos.
Elegiam-se os deputados por escrutinio secreto e successivamente. Deviam
ter mais de vinte e cinco annos, ser natural da provincia ou residir
n'ella ha mais de sete annos[101].
Acaso com o intuito de dispensar as forças portuguêsas cada vez mais
ameaçadoras, a regencia commetteu nos ultimos dias de maio o acto mais
proprio para rematar a indignação do povo: mandou proceder a energico
recrutamento[102]. Das cousas que mais vexavam a população nenhuma
disputava a preeminencia ao alistamento forçado no exercito. Recaía
sobre infelizes privados de protectores e que de ordinario haviam
incorrido no desagrado caprichoso dos mandões. Os trabalhadores
desertavam os campos e as officinas em procura de esconderijos nas
mattas. A miseria surgia nas familias, desapparecido o varão laborioso
que as alimentava. Muitos amputavam dedos da mão direita para allegar a
impossibilidade de manejarem as armas de fogo, quando soava a noticia
que o governo recrutava. E o que tornava a violencia particularmente
odiosa era que os mancebos ricos ou poderosos escapavam ás garras da
auctoridade.