O facto de se apparelharem os barcos não significava na realidade que

largarião ferro. Podiam ahi apodrecer. Quem assegurava que não metterião

n'elles D. Pedro e outras pessoas desagradaveis ao governo? O unico meio

de o fazer partir é empurral-o para bordo, porque o homem não anda senão

a toque de caixa. A toque de caixa deixou Portugal, a toque de caixa deu

a constituição, a toque de caixa tomará o caminho da Europa.

A ditos semelhantes, transmittidos ao governo por informantes seguros,

succederam avisos de que ia estalar um motim dentro de tres dias, para

estimular o desventurado D. João VI a sair barra fóra. A tropa de linha

e as milicias, compostas de empregados do commercio, escorvavam as armas

e não falavam senão em voltar ao Rocio. Sem poder contar com a policia,

suspeita de connivencia com a opposição, o governo estava de antemão

condemnado a subscrever ignominiosamente todas as exigencias que

approuvesse á tropa formular. Silvestre Pinheiro entendeu que só um acto

extremado proveniente do soberano, e assás atrevido para atemorizar os

adversarios em tropel no paço e nas casernas, rehabilitaria a autoridade

desprestigiada e desopprimiria a cidade do medo de anarchia. O principe

real vivia cercado de «má gente»[70], e nem sempre se esquivava á

influencia de «homens depravados», os quaes certos do seu apoio

commettiam insolencias e aconselhavam sublevações. Para o resguardar do

contacto com tal gente, não o bastava reter no palacio, porque ahi iriam

procural-o: devia el-rei ordenar-lhe se recolhesse á fortaleza de Santa

Cruz. O acto que tomava assim a fórma de prisão, ganhava mais força por

testemunhar a resolução do rei de punir os suspeitos de mais alta

graduação. D. João VI rejeitou o alvitre, demasiado audaz para a sua

natureza timorata. O principe, informado do conselho, detestou desde

então o ministro e não lhe chamava senão «Pinheiro Silvestre»[71].

Silvestre Pinheiro foi mais feliz com outro parecer: D. Pedro convocaria

a officiaes para lhe expôr os boatos de insubordinação attribuidos ao

exercito e exigiria de cada um d'elles o protesto solemne de não agir

senão de conformidade com as instrucções emanadas «por via regular da

secretaria do Estado». Era fazel-os jurar que não obedecessem ao

principe sob qualquer pretexto. D. Pedro desmentiu o rumor, e os outros

ministros julgaram risivel a proposição. Como, porém, não tinham outro

argumento, e ao principe regular e decentemente não era licito furtar-se

á incumbencia, vingou o alvitre, e a opposição adormeceu por algum

tempo.

O jurar uma carta constitucional por fazer, creava um problema que se

antolhava insoluvel: como governar emquanto se não constituisse a nova

lei? O rei e os seus ministros sem hesitação entenderam que a machina

administrativa continuaria a marchar sob o impulso dos usos e alvarás em

vigor. O povo com acerto ponderava que sendo o fundamento do regimen

constitucional a sua participação nos negocios publicos, nada mais

legitimo que a creação de um conselho sem cujo assentimento não poderia

a corôa agir em casos de monta. Urgia, de mais, o estabelecimento da

junta para varrer a suspeita de que o juramento da constituição não

passara de farça do despotismo para illudir a cidade. Os liberaes

representaram ao ministerio n'esse sentido. O governo sem coragem para

repellir de frente a proposta, considerada destruidora do principio da

auctoridade, differiu o despacho com intuito de frustrar a petição.

A este erro grave, a corôa sobrepôs outro que sobresaltou grandemente a

população. Nos primeiros dias de março mandou recolher á fortaleza de

Santa Cruz, sem o communicar a Silvestre Pinheiro, a cujo cargo estava o

forte como ministro da guerra, o visconde de S. Lourenço, Targini, o

famoso thesoureiro-mór, o almirante Rodrigo Pinto Guedes e os

desembargadores Luiz José de Carvalho e Mello e João Severiano Maciel da

Costa. O almirante avisado a tempo logrou fugir.

Por muito viva que fosse a alegria do povo com a prisão de Targini

execrado por causa dos peculatos que se lhe attribuiam, não attenuou a

indignação formidavel provocada pela violencia contra aquelles

magistrados merecedores do respeito publico, e cujas opiniões liberaes

não eram ignoradas. Do ultimo formava Silvestre Pinheiro o mais subido

conceito: alliava á energia grande capacidade e tinha «a mais bem

merecida reputação de liberalismo, mas de liberalismo, fundado em

principios de moderação e de solida doutrina».

Não demonstravam estas arbitrariedades a urgencia de um conselho saído

do povo para cohibir os abusos do poder? Não tinham os patriotas razão

de crer que a adhesão do rei ao regimen constitucional era mais de

apparencia que de substancia?

Até hoje se não sabe porque foram presos. Para ficarem ao abrigo dos

desacatos da multidão, allegava o rei; argumento improcedente por serem

os reclusos, salvo Targini, geralmente bemquisitos.

Por causa de suas idéas republicanas, informa Mello Moraes,[72]

Silvestre Pinheiro explicava a violencia como manifestação da anarchia

governamental. Parece, em verdade, não haver outra causa. Se todos

sentiam a liberdade ameaçada com tão flagrante acto de despotismo,

mostravam-se por egual inquietos ácerca da situação economica. O

desapparecimento do ouro e a insolvencia do banco emissor, do banco do

Brasil, em razão de não saldarem os seus compromissos o governo e os

fidalgos, depreciando continuamente o papel moeda, reduzia a fortuna

particular, affectados particularmente os trabalhadores, porque o

salario não augmentava na proporção da alta do ouro.

Como se não bastassem esses motivos de descontentamento, a corôa e os

seus ministros irritaram a susceptibilidade dos patriotas com

desconhecer, acaso mais por ignorancia ou por força de habitos seculares

do que por calculo, a solicitude d'elles pela causa publica. Estavam

prestes as naus, imminente a partida do monarca e se não conheciam os

secretarios de estado de D. Pedro nem, até, as attribuições da regencia.

Murmurava-se apenas que estas conferiam ao principe real a autoridade

mais ampla. Os partidarios do constitucionalismo bradavam que se

infringia o novo regimen, deixando de submetter ao povo as instrucções

com as quaes governaria o paiz o preposto d'el-rei, clamor tanto mais

justo que o verdor dos annos de D. Pedro e a influencia exercida sobre

elle por homens violentos ou de moralidade suspeita, faziam temer

praticasse desatinos, se lhe não assistissem ministros experimentados.

Cada dia que passava, desenvolvia o sobresalto da cidade. Silvestre

Pinheiro julgando legitima a anciedade publica, propôs um alvitre para a

dissipar. O ministro do reino convocaria os eleitores das comarcas, os

quaes concorriam ao Rio, para a designação dos que deviam nomear os

deputados ás côrtes, e lhes apresentaria os nomes dos ministros do

principe assim como o regimento com que este administraria o Brasil,

regimento que o rei sanccionaria depois de ouvido o parecer do

eleitorado[73].

Certamente que algumas dezenas de cidadãos, que não exprimiam nem, até,

o sentir da provincia do Rio, não eram o orgão legitimo da vontade

nacional, mas significava o facto a disposição do monarcha de seguir,

tanto quanto lhe permittia o aperto das circumstancias, o novo regimen.

A proposta passou no conselho com a modificação, suggerida pelo ministro

do reino, de presidir a assembléa o desembargador ouvidor Joaquim José

de Queiroz, e deram-se logo as providencias necessarias ao seu

cumprimento immediato e á tranquillidade publica. Antes de tudo urgia

conter o exercito. Convocados na sala do Theatro S. João os commandantes

e officiaes da 1.^a e 2.^a linha que desassocegavam o governo, o

governador das armas, Carlos Frederico Caula, depois de haver em termos

breves demonstrado o dever do exercito de se conservar neutro nas lutas

politicas, jurou fidelidade á constituição portuguêsa e á familia real e

que não seria instrumento de nenhum dos partidos. Um a um os officiaes

repetiram o protesto solemne. Ao mesmo tempo publicava-se o edital

convidando os eleitores a se reunirem no dia immediato na praça do

commercio a fim de apresentarem os seus diplomas e de tratarem de

assumptos connexos. Através do vago de um dos fins da convocação,

propositalmente feito para não despertar a curiosidade, o povo descobriu

o verdadeiro objecto da assembléa: el-rei ia submetter ao eleitorado as

instrucções que intentava deixar á regencia e os nomes dos ministros de

D. Pedro. Sem embargo de ser sexta-feira da Paixão, observada com

gravidade no povo, que n'esse dia trajava de preto, elle esqueceu os

deveres religiosos para se occupar inteiramente da politica. A escassez

do tempo visto que a reunião se effectuava no dia immediato, determinou

actividade febril nos que tomavam a peito os negocios publicos.

Construiram-se bancadas, com dinheiro recolhido por subscripção, para o

publico na sala da proxima assembléa, adornando-se o local reservado aos

eleitores. Publicaram-se memorias que corriam de mão em mão com

assentimento da policia. Os typographos renunciaram ao descanço e

protestavam não deixar os prelos emquanto houvesse trabalho.

O enthusiasmo animava todos na marcha para a liberdade, um dos estadios

da qual ia ser transposto, por coincidencia, reputada auspiciosa, no

mesmo dia em que se festejava a resurreição de Christo. Os mais

exaltados lembravam á surdina que era tambem o anniversario da execução

de Tiradentes. Já havia mais de 160 eleitores e continuavam a affluir

dos outros recantos remotos da provincia. Eram na maioria lavradores,

commerciantes e medicos, que deviam ter as particularidades dos que

vivem no campo, onde vêm quasi sempre as mesmas pessoas e estas em

pequeno numero; simples e acanhados, reflectidos e de pouco falar. Em

desempenho do mandato recebido dos concidadãos, affrontaram as

descommodidades de longa jornada, através de caminhos difficeis, e o

movimento estonteador da capital. Alguns eram tão carregados de annos

que mal podiam andar, outros traziam a saude compromettida. Todos homens

dignos e devotados ao bem publico. Diz um contemporaneo que eram «a flôr

da provincia». Silvestre Pinheiro reconhece que eram «pessoas das mais

capazes que se poderião imaginar».

Cedo as archibancadas se encheram de espectadores. Os soldados entravam

sem armas e os paisanos depositavam no vestibulo as bengalas. Mal soaram

quatro horas, o ouvidor tomou a presidencia e convidou para secretarios

o português José Clemente Pereira, um dos promotores da Independencia, e

o brasileiro Joaquim Gonçalves Ledo, muito conceituado pela eloquencia

incisiva e mais tarde um dos redactores intemeratos do Reverbero. No

recinto reservado, dividido das archibancadas por solida balaustrada,

estavam a mêsa da presidencia e os eleitores, desageitados nas roupas

das ceremonias solemnes, muito amarrotadas por causa da estreiteza das

canastrinhas de onde acabavam de emergir. O silencio não podia ser mais

profundo quando o presidente começou a lêr o decreto dos poderes da

regencia. Finda a leitura, das bancadas pediram a repetição, por haverem

escapado muitas phrases. O presidente passou o papel ao coronel José

Manoel de Moraes, que de logar elevado e em voz resoante e pausada,

satisfez a solicitação. De accordo com a determinação da corôa, o

presidente perguntou aos eleitores se tinham alguma observação que fazer

a respeito do assumpto. Os chefes de partido, conforme se ajustara

préviamente, podiam fallar, e o presidente aguardava, acaso, um

discurso, quando, em côro, a maioria proclamou se adoptasse

interinamente a constituição hespanhola. Era o voto do partido

brasileiro composto dos indigenas e dos portuguêses domiciliados no novo

reino. A maior parte d'elles não conheciam a carta constitucional

invocada, mas o bom senso indicando que devia garantir a liberdade e a

propriedade, á mingua de outra adoptava essa lei para subtrahir os

interesses geraes e particulares ao arbitrio de um principe muito joven

e accessivel a influencias suspeitas, tanto mais que n'ella, consoante o

compromisso tomado pelos revolucionarios da metropole, se deviam

inspirar os constituintes para a feitura do pacto social. Os partidarios

de D. Pedro e do conde dos Arcos, assás numerosos, aterrados de

semelhante resolução, que tolhia os planos de seus chefes, balbuciaram

apenas alguns protestos timidos. Os que hostilizavam com egual

desabrimento o conde dos Arcos e a acção dos brasileiros nos negocios

publicos, defensores do absolutismo e do mais rigoroso regimen colonial

para o reino americano, fracos em numero mas fortes pela intensidade da

paixão, que constituiam a terceira parcialidade, aventuraram ditos

cheios de odio e fel.

Nem a estes energumenos nem aos protestos da facção de D. Pedro, a

maioria, no prazer da victoria, prestou attenção, e pediu se lavrasse

immediatamente o auto do juramento da constituição acclamada. Emquanto

se lançava o termo, alguem,--seria Macambôa?--ponderou a utilidade de

haver com a regencia, além dos ministros escolhidos pela corôa, um

conselho que os eleitores designarião. Era a renovação da idéa contida

no requerimento, que o governo recalcitrava em não despachar. O parecer

vingou a despeito da impugnação de Duprat, de Lisboa. Este «mancebo

ardente e espirituoso», que trazia no cerebro idéas claras e precisas

dos ascendentes francêses, declarou com energia que se não devia cuidar

de outra cousa que mandar in-continentí uma deputação levar a el-rei o

têrmo do juramento.

Era a questão primaria e urgente, da qual convinha não divertir os

espiritos.

O lente de mathematicas Antonio José do Amaral, o padre dr. Francisco

Ayres da Gama, o illustrado Antonio Rodrigues Velloso de Oliveira,

desembargador do Paço e ex-chanceller do Maranhão, e o desembargador

Francisco Lopes de Sousa, que formavam a commissão incumbida de levar a

el-rei as resoluções da assembléa, não puderam saír senão tarde. A noite

era tenebrosa e chovia. Dirigiram-se a pé ao paço da cidade seguidos da

caixeirada que os acclamava. Presentidos, os moradores assomavam ás

janellas, illuminadas em festa: os homens saudavam-nos com enthusiasmo e

as mulheres atiravam-lhes beijos e flores.

Informados pela rainha em pessoa que D. João VI se achava na quinta da

Boa Vista, transportam-se para lá em seges. O rei escolheu-os com

urbanidade na presença do principe real e dos semanarios. Um dos membros

da deputação explicou os votos da assembléa. Adoptada a carta

constitucional da Hespanha, ponderou, o principe tinha regras fixas de

comportamento e resguardava-se do risco de comprometer a sua

popularidade com decisões mal acolhidas do povo. D. João VI pediu tempo

para consultar os secretarios d'Estado, reunidos em outra sala. A

materia era, todavia, conhecida de todos; emissarios d'el-rei e dos

ministros da guerra e do reino, presentes á assembléa já lhes haviam

communicado os desejos dos eleitores, e então ficara assentado, sem

opposição de D. Pedro, que o monarcha aceitaria, a constituição de Cadix

e não daria juizo sobre o conselho antes de conhecer os nomes dos que o

deviam compôr. Novamente submettida a questão aos ministros, estes

mantiveram o voto anterior. Lavrou-se então o decreto mandando observar

«estrícta e litteralmente no reino do Brasil a constituição hespanhola

até o momento em que se ache inteira e definitivamente estabelecida a

constituição deliberada e decidida pelas côrtes de Lisboa»[74].

Logo que teve noticia da partida da commissão para S. Christovão, D.

Pedro, persuadido de que o populacho a acompanharia e receoso de

desacatos por parte delle, mandara defender por um batalhão de

infanteria e um parque de artilheria a Quinta e destacára outro corpo

para o campo de Sant'Anna, passagem forçada para S. Christovão. Ao mesmo

tempo o governador das armas por prudencia retinha promptos nos quarteis

os batalhões portuguêses. Foram aquellas manobras que determinaram os

boatos de movimento de forças contra a praça do commercio?

O que é certo é que os eleitores e os assistentes sobresaltados com a

ausencia prolongada dos deputados deram credito áquelle rumor e

começaram a crear conjecturas assustadoras, que tudo servia para

confirmar. Um assignalava que se não descobria na sala um só official da

divisão portuguêsa; outro dizia que as patrulhas se multiplicavam em

torno do edificio. As explicações sensatas dos mais calmos e a dispersão

dos policiaes pelo respectivo commandante, não logravam conter a

apprehensão em crescimento a cada minuto de demora da deputação.

Soou então um boato infernal: o rei retinha os commissarios e

apparelhava-se para embarcar ao romper da alvorada. Houve a maior

agitação. Não se podia na verdade, imaginar mais doloroso desengano a

esses homens, que ha vinte e quatro horas viviam na espectativa anciosa

de uma nova era. Surgiram proposições extremas. Qual julgava conveniente

a opposição a todo o transe á partida do rei, qual entendia que para o

prender no Rio bastava remover das náus os cofres do Estado e as barras

de ouro.

Um eleitor da Candelaria propôz uma ordem, estrondosamente acclamada, ás

fortalezas para não deixar saír embarcação nacional ou estrangeira,

mercante ou de guerra, até que fossem deferidos os votos da assembléa. O

empenho de haver uma constituição avassallava todos os espiritos, tal

qual nas côrtes geraes da revolução francêsa. A junta eleitoral incumbiu

ao tenente general Joaquim Xavier Curado, valente militar brasileiro e

cheio de serviços á patria, e ao coronel José Manoel de Moraes de

transmittirem a resolução aos fortes, e a despeito da hora avançada da

noute se metteram em escaler para a cumprir acompanhados de alguns

curiosos. O governador das armas foi tambem constrangido a confirmar aos

commandantes das fortalezas a mesma injuncção.

Por um d'esses lances dramaticos que o Destino se compraz em crear na

vida dos homens, apenas haviam partido os portadores d'essa intimação

que chegavam os deputados. A assembléa resfolegou desopprimida e os

festejou, feliz de os vêr sãos e livres. Um eleitor, sargento-mór de

policia, de voz bem timbrada, leu mais de uma vez o novo decreto.

Renasceu a alegria tão ruidosa quanto commovente, soaram vivas;

abraçavam-se uns aos outros; muitos choraram e todos á porfia se

mostravam reconhecidos ao soberano, a quem se referiam com expressões de

ternura filial.

Em virtude de haver clareado a assembléa apenas conhecidas as resoluções

régias, o presidente propoz se fizesse em outra occasião a escolha do

conselho de D. Pedro. Os partidarios, porém, da eleição immediata,

tenazes e energicos, não tiveram difficuldade em triumphar da

resistencia, que a tal hora da noute podiam oppôr, eleitores, que o

cansaço e as commoções combaliam. Não havia n'esse empenho a intenção

mais leve de molestar o monarcha, senão de affirmar o direito do povo de

interferir nos negocios publicos, pois que os votos recahiram nas

pessoas designadas pela corôa para ministros da regencia, com excepção

do desembargador Sebastião Luiz Tinoco substituido por Martins Francisco

Ribeiro de Andrade.

Emquanto taes successos occorriam na praça do commercio, tomavam-se

graves alvitres na quinta da Boavista. O descontentamento dos cortezãos

e de algumas pessoas da familia real com a outorga da constituição

hespanhola se estendera e se transformara na mais vehemente indignação,

conhecida a intimação aos fortes. Os ministros a uma voz consideraram o

acto prova evidente de insubordinação e concordaram na urgencia de

reduzir a assembléa atrevida. Na maneira de executar a ultima

determinação é que appareceu a divergencia de Silvestre Pinheiro. O

ministro, que sem outro apoio que o talento e a illustração, galgára a

culminancia social, guardava a lembrança das angustias que na infancia e

adolescencia compartira com o povo. Conhecia quanto soffria dos abusos

da auctoridade e quanto fel deixam na alma os desenganos successivos na

longa jornada para o reinado da justiça. A explosão do desespero

exprimia tantas afflições acumuladas, que merecia mais piedade do que

repressão.

Aconselhou, todavia, restabelecer a supremacia da auctoridade punindo o

descommedimento mas com a benignidade compativel com a exaltação dos

animos nas côrtes. Oppunha-se a que as tropas sitiassem a praça do

commercio, attenta a impossibilidade de se poder contar com o sangue

frio d'ellas e dos officiaes perante as massas populares, os quaes, a

seu turno, se irritarião com o desdobramento imprevisto das forças.

Demais, não assistia ao governo o direito de cercar individuos reunidos

com o consentimento do mesmo governo para se occuparem de negocios

publicos. Em virtude da fermentação dos animos previra esses desatinos,

e, por isso aconselhara a consulta ao eleitorado em local reservado e

sem assistencia do publico.

Os que então o combateram intentavam agora conter os excessos

resultantes da propria imprevidencia com apparato militar mais

apropriado a provocar os brios de uma assembléa do que a acalmar meia

duzia de demagogos. A ordem dada ás fortalezas não passava de fraqueza

dos eleitores para com alguns violentos, no intuito de evitar propostas

mais desvairadas, fraqueza muito commum nas reuniões politicas. Não era

outrosim licito castigar a multidão por crimes de alguns. Propunha a

concentração dos regimentos nas ruas confluentes á Bolsa, mas á

consideravel distancia d'ella, e obrigava-se a fazer despejar o edificio

sem perturbação da ordem. Não receava tão pouco escapassem ás

auctoridades os demagogos, conhecidos de todos.

A eloquencia de Silvestre Pinheiro não dissuadiu os collegas do emprego

das armas para dissolver a reunião. Dous eram officiaes e enxergavam na

injuncção aos fortes a mais grave das indisciplinas; e o civil, o conde

de Lousan, absolutista ferrenho que mais tarde serviu a D. Miguel com

dedicação, entendia que o povo não tinha senão obrigações. Correu

violento o debate, e não faltaram doestos e ameaças ao mais humano dos

ministros.

Vencido, Silvestre solicitou a sua exoneração; recusava-se

terminantemente a cumprir a deliberação do conselho no sentido de

assaltar a Bolsa. Negou-lh'a o rei, e deu-lhe plena liberdade de acção.

Silvestre sahiu immediatamente a executar o seu plano. O governador das

armas iria á Praça communicar ao presidente a necessidade de encerrar a

assembléa, e distribuiria companhias pelas ruas adjacentes para tolherem

o transito para a Bolsa e apprehenderem os energumenos notorios, que

forçosamente passariam por ellas. O ouvidor, que continuava a presidir o

ajuntamento, á intimação do general Caula, pediu apenas meia hora para

concluir a nomeação do conselho e assignalou a boa tranquillidade e o

bom humor dos eleitores e do publico. N'isto se levantaram boatos de que

se congregavam no Rocio differentes batalhões. Duprat em termos

patheticos conjurou ao general velasse pela segurança dos cidadãos

reunidos com assentimento da corôa.

Os deputados brasileiros nas Côrtes Geraes de 1821 · 第 3 / 27 段