Filha do imperador d’Austria, foi escolhida unicamente para inocular no

sangue de Bragança o sangue aristocratico das mais nobres familias da

Europa. De facto, desde a filha do Condestavel, as esposas dos duques

não primavam pela nobreza do seu nascimento. Só D. Izabel de Lencastre,

esposa de D. Fernando II, filha do infante D. Fernando, irmão de Affonso

V; e D. Catharina, esposa de D. João I, como filha do infante D. Duarte,

é que proporcionaram á casa de Bragança allianças mais conformes com

a sua regia origem e viver realengo. As outras:—D. Beatriz Pereira,

filha de Nun’Alvares, D. Constança de Noronha, filha do conde Gijon,

esposas do duque Affonso; D. Joanna de Castro, filha do senhor do

Cadaval,[48] esposa do duque D. Fernando I; D. Leonor de Mendonça, filha

do duque de Medina Sidonia, D. Joanna de Mendonça, filha do Alcaide-mór

d’Alvôr, esposas de D. Jayme I; D. Izabel de Lencastre, filha do conde

de Lemos, esposa de D. Theodosio I; D. Brites de Lencastre, filha do

commendador-mór d’Aviz, segunda esposa do mesmo duque; D. Anna de

Velasco, filha do duque de Frias, esposa de D. Theodosio II; D. Luiza de

Gusmão, filha do duque de Medina Sidonia, esposa de D. João II, depois

rei D. João IV; e mesmo D. Maria Sophia de Neubourg, filha do Eleitor

Palatino do Rheno, segunda esposa d’el-rei D. Pedro II, não foram

senhoras que aparentassem a casa reinante de Portugal com as familias

soberanas do universo. N’este ponto, depois dos Bourbons, achava-se

incontestavelmente os Habsburgs, cuja alliança era provavel, em vista

dos soccorros prestados pelos nossos reis ao archiduque Carlos, na sua

pretensão ao throno hespanhol. O movel, pois, d’este consorcio foi a

nobreza da noiva, que juntava a esse predicado uma notavel cultura

d’espirito e uma formosura digna de seduzir outro homem que não fosse tão

voluvel como D. João V.

O contracto assignou-se em Vienna, a 24 de junho de 1708, estipulando-se

que a rainha seria dotada com cem mil escudos ou corôas de ouro de quatro

placas de Flandres pelo imperador seu irmão e pelo rei de Portugal com a

casa e estado das suas antecessoras.[49]

A 13 de setembro do mesmo anno, saiu D. Marianna d’Austria, de Rotterdam,

chegando a Lisboa a 27 de outubro, sendo os regios esposos abençoados

n’esse mesmo dia.

Quarenta e dois annos viveu em companhia de D. João V (27 de outubro de

1708—31 de julho de 1750) não nos apontando a Historia uma unica falta

que lhe maculasse a honra e o lar, que seu marido de todo abandonára.

Muito devota, entregava-se á piedade, seguindo como D. Maria Sophia o

caminho da virtude que converte em flôres os espinhos do viver terreno.

Pouca ou nenhuma intervenção teve nos negocios publicos, limitando-se á

vida domestica, até que falleceu em Belem, aos 14 de agosto de 1754,

tendo nascido em Lintz a 7 de setembro de 1683. Sepultaram-n’a no

mosteiro de S. João Nepomuceno, por ella fundado, onde se conservou o seu

corpo até 1855, em que foi trasladado para S. Vicente de Fóra.

É um exemplo de virtude austera que ahi descança e que a Historia abençoa

como mulher que soube conservar-se no posto que lhe marcou o sexo e que

comprehendeu a digna missão que lhe impoz a sorte nos seus inexplicaveis

destinos.

Este pouco que ha a dizer d’ella, é muito para o pensador que se não

limita a admirar os heroes cujo nome gigantesco assombra os humildes,

cuja vida deslisou na sublime comprehensão da honestidade.

A virtude que a enaltece, torna-a digna dos applausos dos posteros,

erguendo-a do olvido e coroando-lhe a memoria da mais gloriosa corôa que

a justiça do historiador póde depôr na fronte das que hoje são invocadas

como exemplo do bem.

D. Marianna Victoria de Bourbon

Seguindo a politica de seus maiores, D. João V entendeu conveniente

reatar os laços de antiga amizade com a visinha Hespanha; e como as

allianças de familia se lhe figuravam mais vantajosas do que todos os

tractados internacionaes, resolveu el-rei acceder aos desejos do monarcha

castelhano, que manifestára ao nosso embaixador quanto anhelava que

fossem seguidas, então, as reciprocas tradições dos dois paizes.[50]

Assim se contractou a 7 de outubro de 1725 o casamento do principe D.

José com a infanta D. Marianna Victoria de Bourbon, filha de Filippe V e

de Izabel Farnése. A 25 de dezembro de 1727, o marquez d’Abrantes fazia o

seu pedido em fórma á côrte de Madrid, que foi secundado por outro que a

6 de janeiro do anno seguinte o ministro hespanhol, marquez de Belvases,

dirigiu ao rei de Portugal, sollicitando a mão da princeza D. Maria

Barbara de Bragança para o principe das Asturias, D. Fernando de Bourbon.

Um anno depois (19 de janeiro de 1729) encontraram-se as duas familias

nas margens do Caia, onde se procedeu á entrega das noivas dos herdeiros

das corôas portugueza e castelhana.

Como dote, recebeu D. Marianna Victoria quinhentos mil escudos do Sol,

por parte d’el-rei seu pae; obrigando-se D. João V a dar-lhe para os seus

alfinetes o valor correspondente a oitenta mil pesos e um rendimento

annual que equivalesse a vinte mil escudos do Sol.[51] Foram estes os

bens da princeza, até ao fallecimento de D. Marianna d’Austria, que teve

logar depois de seu marido subir ao throno com o titulo de D. José I.

O reinado d’este soberano foi um dos mais notaveis da Historia de

Portugal. Teve medidas que mostram o talento do ministro que as decretou,

e teve barbaros sacrificios, que deshonram a memoria do homem que os

commetteu e do vingador que as iniciou. Os juizos dos historiadores

são geralmente oppostos quanto ao merito do personagem que foi senhor

do animo de D. José. De facto, a individualidade do marquez de Pombal,

Sebastião José de Carvalho e Mello, o grande heroe da situação, é tão

complexa, abrange phases tão diversas, que do lado dos seus sequazes

e dos seus inimigos teem surgido louvores demasiados e depreciações

excessivas. Fidalgo de provincia, o seu valimento assombrava a

aristocracia, acostumada a dirigir os destinos do paiz; se alguma vez a

nobreza provinciana se ousava sentar nos conselhos da corôa, o applauso

aristocratico tinha referendado a concessão regia. Pombal, porém, subiu

ao maior fastigio do poder, elevou-se á grandeza, sem que o _veredictum_

dos cortezãos validasse a honraria. D’ahi toda a inveja das altas

classes, que injustamente lhe chamavam plebeu, e todo o odio do ministro

aos que se tinham por seus superiores.[52]

Entretanto, Pombal não fundou uma escola democratica, porque saiu da

craveira de fidalgo de provincia, ambicionando uma corôa de grande; e nos

seus proprios casamentos, como nos de seus filhos, está bem demonstrado

que o ministro não desadorava as proeminencias sociaes, e que talvez

todo o seu odio selvagem não fosse só motivado pela emulação dos nobres,

mas tambem pelo seu proprio ciume d’esses que se vangloriavam de ser os

immediatos do soberano, seus companheiros na defeza do throno, de que

tinham sido creadores e muitas vezes defensores nas suas mais perigosas

crises. O exterminio dos Tavoras e do duque d’Aveiro, os capatazes da

aristocracia, o foco d’onde se projectavam todas as iras contra elle,

calcou-lhe a sepultura da arvore derribada pela sua erronea conducta

desde o reinado anterior.

Esta face do marquez de Pombal não é sympathica, nem attrahente; revela

a baixeza e indica a velhacaria que elle possuiu no mais alto grau. O

seguinte facto é bem significativo:

Era o conde d’Obidos, D. Manuel d’Assis Mascarenhas, meirinho-mór do

reino, brigadeiro de cavallaria, gentilhomem da real camara, muito

privado de D. José, com quem se creára e com o qual sempre mantivera

as melhores relações d’amisade.[53] Uma vez o conde advertiu el-rei

de que não seria bom dar tanta confiança a Sebastião de Carvalho, que

então principiava a dominar o animo do monarcha; este communicou-lhe

em conversa o recado do fidalgo, o que foi sufficiente para o ministro

se lhe ir ajoelhar aos pés, pedindo-lhe pelo amor de Deus que o não

desviasse da intimidade do soberano... Depois, seguro o valimento por

fortes laços, o conde d’Obidos foi preso nos carceres da Junqueira, o

theatro dos horrores, das vinganças e dos infames despeitos do marquez de

Pombal.

O terramoto de Lisboa (1 de novembro de 1755) veiu de todo convencer

D. José do alto valor do seu predilecto. De facto, maior prova se não

poderia exigir para experiencia da energia de um homem. Derribada a

cidade, devoradas as ruinas pelo incendio, estimulados os malfeitores

pela confusão da necropole, no meio da anarchia que se apoderou no animo

de todos, o espirito do ministro manteve-se sobranceiro e forte, arcando

com a violencia da natureza. Era na verdade um genio descommunal! não

admirava que destruisse o passado, que abalasse as velhas tradições, como

a catastrophe destruira os edificios e abalára a terra, se, perante a

hecatombe, foi elle o unico que lhe resistiu de frente. E Lisboa ergue-se

alinhada, symetrica, magestosa e soberba, como rindo-se do que fôra e

applaudindo o castigo da sua antiga depravação... Depois d’isto, para

o rei já não existiam duvidas; adormeceu tranquillo, fazendo da corôa

repouso e do manto agasalho para o vento do remorso, impellido pela voz

do dever, se é que essa voz se atreveu a fazer-se alguma vez ouvir da

consciencia d’um homem como foi D. José.

O sceptro entregou-o ao ministro. D’ahi por diante, de rei só teve a sua

assignatura nos diplomas, alvarás, decretos, cartas regias e despachos de

mercês. De resto, foi uma creança para quem Pombal fazia Tapadas para seu

divertimento... Mais nada a Historia póde dizer d’elle.

A reforma da pauta de commercio (1755), a companhia dos vinhos do Alto

Douro (1756), o Erario e o Collegio dos Nobres (1761), a reforma da

Universidade (1772), e a abolição da escravatura no continente (1773)

são as principaes medidas da dictadura pombalina. Quem escrever a

Historia com a imparcialidade devida, tem de se curvar á sabedoria d’esta

legislação e applaudir, se não em absoluto, pelo menos em parte, estes

actos do ministro, embora reprove o seu procedimento cruel, selvagem

mesmo, para com a nobreza e para com o clero, os dois potentados que lhe

disputavam a influencia e o poderio. Este era tão grande no animo do

monarcha, quanto diminuto no espirito da rainha.

D. Marianna de Bourbon odiava-o e quando D. José se viu prostrado pela

doença e lhe entregou (29 de dezembro de 1776) as redeas do governo, o

poderio do ministro foi descendo gradualmente. Mandado retirar da camara

do seu agonisante amo, dispensado das funcções de mordomo-mór, que

exercia, o marquez politicamente succumbiu tambem quando D. José, cuja

morte teve logar a 24 de fevereiro de 1777. Subindo ao throno D. Maria

I, começaram as represalias contra Pombal, para o que a viuva influiu

bastante perante sua filha. Conhecedor do novo terreno, o ministro

demittiu-se, recebeu a commenda de S. Thiago de Lanhoso, e ordem de

desterro para a terra que lhe servia de titulo, onde falleceu aos 8

de maio de 1782. Este acto de D. Marianna Victoria de Bourbon foi o

seu unico acto politico que a Historia nos aponta. Durante a sua vida,

occupou-se unicamente na lide domestica e em conciliar as rixas entre

Portugal e Hespanha, que deram motivo á guerra de 1762-63. No mais, foi

alheia aos negocios do Estado, e só a perseguição ao marquez de Pombal é

que poderá tornar o seu nome pouco sympathico para muitos, cujo idolo é

o grande estadista do seculo XVIII.

Notaremos que as duas pessoas que mais influiram no banimento do

ministro, ambas tiveram um fim desgraçado.

D. Marianna de Bourbon, inchada, hydropica, n’uma agonia cruciante,

falleceu no paço d’Ajuda, em 15 de janeiro de 1781. D. Maria I, essa

viu-se doida e fugitiva em estranhos hemispherios. Ignorante de que tinha

vencido o primeiro soldado d’este seculo, a herdeira de D. José falleceu

no Rio de Janeiro, aos 20 de março de 1816.

Apesar de todas as circumstancias, esta soberana, no que diz respeito a

Pombal, reconheceu os serviços do estadista, condemnando as demasias do

vingador.

Aquella mulher, attribulada por tanto crime, junto a tanto beneficio; a

tanta compaixão pelos desgraçados e a tanto respeito pela memoria do pae,

viu-se nas trevas da loucura que foram fataes a ella e a Portugal.

Que D. Maria I tomou a serio o seu cargo, ninguem o contesta. As medidas

uteis dos primeiros tempos do seu governo não mostram unicamente o tino

dos ministros (conde da Barca e Martinho de Mello e Castro), mas tambem

o são criterio e boa vontade da rainha, tão desgraçada, quão digna, pelo

seu caracter, de mais prosperas venturas e de mais explendorosos fins.

* * * * *

Aqui termino o meu trabalho, não me querendo constituir em juiz de

personagens contemporaneos, aggravar feridas ainda mal saradas,

remexer muito episodio que já está olvidado. Comtudo, se algum dia,

amansadas mais as furias partidarias, alguem julgar util o meu concurso,

procurarei satisfazel-o, seguindo a mesma orientação—a imparcialidade e a

independencia.

O que está feito obedece a um impulso natural, a uma tendencia

irresistivel para o estudo da Historia patria; não foi a politica,

que puz de parte, nem o interesse, que é nullo. Se assim fosse e me

visse obrigado a sacrificar o proprio sentir a inspirações alheias, a

consciencia vergar-me-hia hoje sob o peso do remorso de ter prostituido a

penna. Tal não aconteceu, e embora não conseguisse triumphos litterarios

que nunca se acastellaram na minha phantasia, sinto-me satisfeito de ter

exposto o que me domina o espirito, o fructo de longo estudo e de concisa

meditação.

NOTAS E DOCUMENTOS

O fallecimento de D. Beatriz de Gusmão

O Visconde de Figanière na sua obra _Memorias das Rainhas de Portugal_

(D. Theresa—Santa Izabel) diz que a ultima noticia que existe d’esta

soberana é a doação de 300 libras, á sua creada Maria Nunes, para lhe

comprar uma herdade que por morte da dita Maria Nunes devia pertencer ão

mosteiro d’Almoster. Como esta carta é datada de Torres de Vedras, 30 de

julho de 1300, e a rainha falleceu oito dias depois, é licito suppor-se,

como Figanière suppõe, que a morte teve logar na citada villa.

Frei Antonio de Falla, da ordem dos pregadores, escreveu por mandado

d’el-rei D. Sebastião, uma _Relaçam dos Reys e Raynhas que estam

sepultados em Alcobaça_; n’ella se lê este notavel depoimento do mesmo

frade, que diz respeito á segunda mulher d’Affonso III:

«Eu a vi na Era mil e quinhentos e sessenta e nove, o primeiro dia

d’Agosto, e jaz inteira como aquella hora que ali a sepultáram, jaz

mirrada segundo parece, a roupa com que foi sepultada esta como aquelle

dia que ali a puzeram, ao menos o lançol, que a colcha que tem debaixo

do lançol estava algum tanto damnificada, e ja pode ser que o fosse ao

tempo que ali a lançaram; como quer que seja, nam esta tão inteira,

e fresca como o lançol; jaz enfeitada, e a cabeça apertada; tem huns

cabellos castanhos que parece que foram formosos, mostra que foram

cortados estando doente, porque estam em huma parte mais compridos

que na outra, e estam mal cortados; tem hum lenço na cabeça sobre os

cabellos assaz nouo; tem calçadas humas çapatas pretas apantufadas,

como naquella hora que lhas calçaram, do pé ainda estam quasi justos ao

menos do comprimento; finalmente ella parece ser reuerenda mulher em seu

tempo. Algus dizem que ella tinha hum rabo, e que vinha por parte da may,

de huma casta que em Castella naciam com rabos. Dizem que S. Bernardo

lhe tirou este rabo, e mostrão hum manto que ella lhe deu por isso. O

manto eu o vi, mas se foi dado por isso, ou nam, nam o acho escrito, nem

menos que ella tivesse rabo mais que affirmaremme pessoas lidas nestas

historias, que o lêram, que se chamava a Raynha rabuda: ao menos ella

agora nam tem sinal disto, porque não faltou fazer sobre isso diligencias

para saber a verdade disto. E desta maneira que tenho escripto jaz

esperando sêr chamada. Prazerá ao Senhor que seja para gloria sua, porque

esta Rainha fez n’este Reino muito boas obras, e teue fama de mui santa,

e deuota, e affeiçoada á Religiam Christã.»

Fr. Francisco Brandão na _Monarchia Lusitana_ e Figanière na obra

acima citada, concordam que a origem d’esta lenda provêm da rainha ter

introduzido em Portugal a moda das cotas caudatas, ou de rabo.

Unicamente pelo comico da crença que se não pode chamar popular, pois

chegou a convencer os proprios reis, trasladamos para aqui o texto do

padre examinador do cadaver de D. Beatriz, quando D. Sebastião, seu nono

neto, enthusiasmado e possuido da gloria que o perdeu, andou pelo reino

contemplando os restos mortaes dos seus antecessores.

Arrhas de D. Constança

«Dom Affonso pela graça de Deos Rey de Portugal e do Algarve a quantos

esta carta virem Faço saber que eu querendo attendêr cumprir, e guardar

aquello, que ante mim, e Dom Joam filho do Infante Dom Manoel he posto,

e outorgado, e firmado em rezom do casamento de Infante Dom Pedro meu

filho, e de Donna Constança filha desse Dom Joam, dó, e assino a essa

Donna Constança a Cidade de Vizeu e Monte mayor o novo e Alanquer com

todas sas Aldeas, e termos, rendas, jurdiçõens, direitos, e pertenças

que as aja e pessua essa Donna Constança por sas arras, e donadio bem,

e compridamente em toda sa vida asim como as melhor ouveram as Raynhas

de Portugal e tiro de mim a posse que ei das dittas Cidades, e Villas,

termos, e couzas sobreditas, e ponhoa na dita Donna Constança, para as

aver, e possuir livremente no dito tempo como dito he, e demais conhosco

e affirmo que a posse e tença que ora hei das ditas Cidades e Villas e

couzas sobreditas que os ei e tenho em nome da ditta Donna Constança e

por ella como uzofructuario até que ella per si ou per outrem filhe ou

mande filhar a posse corporal da dita Cidade, Villas, e termos, e couzas

sobredictas em testimonio desto mandei dar áa dita Donna Constança esta

minha carta aberta, e sellada do meu sello. Dante em Lisboa sette dias de

julho ElRey o mandou Pero Esteves a fez era de mil e trezentos e settenta

e outo annos ElRey o vio.» (Tomo 1.ᵒ das _Provas da Hist. genealogica da

Casa Real_, pag. 285.)[54]

O tumulo de D. Constança foi profanado, não existindo hoje as suas

cinzas. O sarcophago encontra-se no Museu Archeologico de Lisboa,

estabelecido no Convento do Carmo, obra do Condestavel D. Nuno Alvares

Pereira.

É digna de notar-se a sorte das duas mulheres de D. Pedro I; D.

Constança, violado o sepulchro, nem lhe escaparam as cinzas á avidez

dos profanos; Ignez de Castro, coroada depois de morta, repousando

tranquillamente n’um mausoleu que photographava a grandeza do amor

do seu principe, tambem padeceu em 1810 as consequencias ferozes dos

vandalos do seculo XIX. Triste sorte a das mulheres de Pedro I!...

Dote de D. Filippa e de D. Leonor d’Aragão

Extrahimos para aqui uma parte do Contracto do casamento d’el-rei D.

Duarte, que diz respeito á casa e estado de D. Leonor d’Aragão.

«Item porq̃ em hu dos Capitulos de suso ditos ja segundo dito he, antre

as ditas partes firmadas, se contem q̃ da dita Camera, q̃ tinha a

Senhora Rainha D. Felipa, q̃ são as Villas de Alamquer, Cintra, Obidos,

Alvayazere, Torres Novas, Torres Vedras e outras quaesquer Villas e

Lugares e erdamentos e rendas della, q̃ a dita Senhora Raynha tinha em

Camera, sejão feitas duas partes pelo dito Senhor Rey de Portugal (D.

João I), ou por quem elle mandar, e asim feitas, a dita Infante houvesse,

e escolhese para si, qualquer parte dellas, qual ella mais queira e

aquella parte q̃ ella escolhera, lhe seja dada em Camera e aquella aja

e tenha tanto quanto Senhora Infante, e q̃ logo quando a Deus plazera,

q̃ seja Raynha, q̃ per aquel mesmo feito, sem aver outra doaçom, nem

provizom algua, ouvese inteiramente a dita Camera, q̃ avia e tinha a

Senhora Raynha D. Fellipa e leve para si as rendas e molimentos, e

proveitos della e admenistraçom della, de presente o dito Senhor Rey de

Portugal faz a dita divisom em duas partes, convem a saber Torres Novas,

e Torres Vedras e Alvayazere, por uma parte, e a outra parte Alamquer,

Cintra e Obidos e a dita Senhora Infante toma e escolhe por sua parte as

ditas Villas de Alamquer, Cintra e Obidos.»

(Tomo II das _Provas da Historia Genealogica da Casa Real_, por

D. Ant.ᵒ C. de Souza, pag. 523.)

Contracto do casamento de D. Affonso V

As donatarias d'Alemquer Historia das Rainhas de Portugal e da sua casa e estado · 第 5 / 8 段