Tanger e Bombaim foram os penhores da amizade portugueza e o dote da

noiva de tão alto soberano. D. Luiza alienava uma pequena parte das

colonias para ajudar o bom resultado da causa nacional; effeitos de

necessidades que se impõem e que, por desconhecimento de razões só

sabidas dos coévos, a Historia mais tarde aprecia um tanto injustamente.

Se Luiza de Gusmão comprou, com a entrega d’aquellas duas praças, a

soberania da casa de Bragança, deve-se notar tambem que com a realeza da

dynastia estava consubstanciada a independencia do paiz, que junto a

Castella não era senhor do seu proprio torrão. E se mais tarde se tornou

perniciosa a alliança de Portugal com a Inglaterra, ninguem tem direito a

arguir a viuva de D. João IV, exigindo que, embora fosse politica sagaz,

podesse prever factos tão posteriores e filhos de circumstancias que á

epocha pessoa alguma saberia divisar no horisonte. A Historia deve ser

justa e como tal abençoar D. Luiza, que trabalhou varonilmente pela causa

da sua patria adoptiva; e mesmo que então a alliança ingleza fosse um

erro, bastava considerar o objectivo que a iniciou, para o historiador

absolver essa falta venial, praticada inconscientemente, filha da

imperfeição da fraca humanidade.

Sejamos justos e verdadeiros. Se a Inglaterra nos tem sido traiçoeira,

tambem a França então nos chamou a si e nos abandonou conforme lhe

convinha. Luiz XIV favoreceu a guerra com Castella, unicamente para

abater o poderio da Casa d’Austria; consentiu no enlace da filha do duque

de Nemours com Affonso VI para avassalar este paiz á sua politica de

ferro, para dar principio á sua ambição de dominio na peninsula, revelada

por elle, mais tarde, no celebre dito de despedida a seu neto Filippe V:

_Meu filho, já não ha Pyreneus_.

Não foi o amor da justiça a causa do soccorro da França, mas o mesmo

ideal de rapina que a Inglaterra levou ávante. E se esta soube vencer,

não devemos esquecer aquella que da sua parte fez quanto poude para

alcançar victoria.

Afinal effectuou-se o casamento do rei de Portugal com a princeza Maria

Francisca Izabel de Saboya, filha do principe Carlos de Saboya, duque

de Nemours, e da princeza Izabel de Bourbon, neta de Henrique IV, de

França. O contracto nupcial foi assignado em Paris aos 24 de fevereiro

de 1666, sendo procurador de Affonso VI o marquez de Sande, Francisco

de Mello e Torres, tronco da casa dos condes da Ponte, nosso ministro

junto de Luiz XIV, e representantes da noiva o marechal duque d’Estrées

e o bispo de Laon. Affonso VI era indifferente a todos os passos dos

seus ministros para lhe arranjarem esposa. Desequilibrado pela paralysia

que lhe tolhêra na infancia a alma e o corpo, o monarcha entregava-se á

pratica dos vicios mais vis, descia aos principios mais condemnaveis,

desauthorisando-se perante o povo que, apesar d’isso, venerava o rei

como symbolo do principio augusto a quem devia a livre existencia.

Como contraste, o infante D. Pedro, irmão de Affonso VI, um galhardo

rapaz, moreno, olhos e cabellos negros, typo peninsular, ardente, seduzia

as mulheres á primeira vista e esgotava o amor em repetidos galanteios.

Corpulento e robusto, cavalleiro e namorado, o infante attingia a méta do

ideal das populações occidentaes; encarnára o amor da plebe e o amor das

salas, dominava as massas com os golpes certos da sua farpa de toureiro

e attrahia as damas dos salões aristocraticos com o faiscar dos seus

olhos bellos e com a contemplação sedenta da sua estatuaria varonil.

Tinha tudo—formosura, valentia, garbo, gentileza; mas não tinha corôa.

Era filho d’um rei, cujo sceptro sustentava um impotente, quasi um doido.

Para o principe subalterno a visão d’esse throno, que a elle, no seu

entender, só devia competir, foi-lhe inoculada inconscientemente pela

mãe, ao ver os desvarios do filho primogenito; e d’ahi a semente lançada

em terreno fertil, desabrochou, cresceu e desprezou obstaculos que lhe

atrophiassem o desenvolvimento precoce.

Apesar de tudo, Affonso VI conheceu as intenções do irmão, que não

tinha ainda quem lhe secundasse os esforços, quem tivesse força para

erguer um throno e derrubar outro. Quando D. Pedro soube do casamento do

rei, talvez visse n’esse facto o mallogro infallivel de todos os seus

projectos. D. Affonso, mesmo meio tolhido, poderia continuar a dynastia,

e então as pretensões do infante ficariam de todo nullas.

Afinal alvoreceu o dia da chegada da rainha (2 d’agosto de 1666). Lisboa

vestiu galas, quando a artilheria salvou a esquadra franceza. O coração

de D. Pedro palpitava ancioso, abatido, ao ver desfolharem-se, uma por

uma, as flores das suas sorridentes chimeras. Mal diria que nas naus de

França se guardava o seu unico amor, o ente criminoso que o ajudaria

a realisar o sonho infame. N’essa mesma tarde, rei, infante, côrte e

auctoridades foram a bordo prestar homenagem á nova soberana. Tinham

forçado D. Affonso a assim proceder. Não queria ir, entretido com a

Calcanhares, expandindo as furias do seu genio violento que assassinava

um desgraçado por entre beijos e caricias na sacrificada amante.

Quando D. Maria Francisca viu pela primeira vez o homem que a politica

lhe destinára, viu tambem a negação completa das suas aspirações.

Aquelle homem o que tinha de bom era ser rei... o contrario do infante,

que desde esse momento, com a sua figura peninsular, conquistou a alma

da franceza, alma depravada, affeita aos costumes libertinos da côrte

de Paris. Já possuida d’esta ideia, desembarcou a rainha no caes da

Junqueira, seguindo d’alli para a egreja de Santa Clara, onde o bispo

de Targa abençoou o seu consorcio. Pouco depois adoeceu; D. Pedro

visitava-a amiudadas vezes e n’essas continuas visitas o amor de ambos

fundiu-se n’um só. Inconscientemente, levado pelo impulso do coração,

o infante adquirira a grande influencia que carecia para se sentar no

throno. A amante queria ser rainha, mas não com um rei como D. Affonso

VI; elle queria ser amado, mas não da esposa do seu proprio irmão... Era

indispensavel o anullar o matrimonio, para que o monarcha se mostrava

inhabil, e era necessario tambem que se conservasse aquella mulher no

seu pedestal, apartada de um marido que a desprezava e junto de um outro

que a adorava do intimo da alma... Tudo foi uma comedia. Maria Francisca

recolheu-se ao convento da Esperança (21 de novembro de 1667) e d’ahi

mandou ás auctoridades ecclesiasticas o seu libello de divorcio (11 de

janeiro de 1668). Instaurou-se o processo, dando-se então uma das mais

vergonhosas scenas da Historia de Portugal. A franceza excedeu Leonor

Telles no desbragamento publico. Teve um Andeiro que foi D. Pedro,

mas não teve a sinceridade rude de o apresentar como tal. Fallava em

_consciencia_ e queria o _veridictum_ dos canonistas.

Jesus Christo era invocado por aquella mulher, não para a soccorrer nas

tribulações do crime, mas para a julgar na justiça da causa; e os que

representavam o Redemptor—diga-se desassombradamente, escreva-se com a

imparcialidade que a Historia exige—deram a sua sentença como aprazia

a dois infames, abençoaram o indigno conluio como causa sacratissima,

merecedora dos applausos sacrosantos. Em seguida uma revolução de palacio

desthronou Affonso VI (23 de novembro de 1667), tomando conta do governo

seu irmão o infante D. Pedro. Reuniram-se as côrtes de Lisboa (1 de

janeiro de 1668) appoiando o procedimento revolucionario e a regencia do

ambicioso principe. Poucos mezes depois (2 d’abril do mesmo anno), o

regente e D. Maria Francisca uniam-se pelos laços do matrimonio, coroando

com a lithurgia o seu amor maldito. Era uma comedia, dissemos.

Cada um dos seus actos mais significativo e mais comico, mostrava bem

claramente o estado de adeantada decomposição da sociedade portugueza,

afogada ainda nos restos do grande naufragio das conquistas da India.

No tempo de D. Fernando, que fez da côrte um harem e do reino um

brinquedo de Leonor Telles, o povo, depois de 1385, rejuvenesceu,

mostrou-se forte e viril, epico mesmo; agora, estimulado pelo proceder

heroico de 1640, não teve força para reagir contra os tramas do paço

da Ribeira; cortejava, submisso, o regente e lamentava, condoido, o

rei... Não houve um Fernão Vasques que intercedesse por Affonso VI, pelo

vencedor das linhas de Elvas, do Ameixial, de Castello Rodrigo e de

Montes Claros, deposto em nome da Patria que seu irmão mais tarde havia

de arruinar n’um tratado inqualificavel. Apezar d’isso, o seu nome é hoje

glorificado á luz da Historia, porque teve a leal amizade de um homem

da estatura de Castello Melhor. No coração d’esse homem sempre existiu

a soberania de Affonso VI; sendo mais valioso o seu imperio que o summo

poder do infante, atordoado pelo remorso e azorragado pela voz da indigna

consciencia. Recluso em Cintra, sujeito aos limites do seu aposento,

perseguido da desgraça que purifica as almas, a razão filtrou-se-lhe no

meio do infortunio. Deu depois provas de innegavel lucidez. E quando

elle lançasse os olhos sobre os amores da mulher e do irmão e os visse

meigos, risonhos, estreitando-se em amplo abraço, n’uma felicidade

mahometana, celestial, havia de sorrir ferozmente, com o riso da vingança

consoladora, porque veria a imagem d’um pobre, encarcerado, como elle

era, percorrer as salas da regia vivenda e como punhal brandido pela mão

do remorso, rasgar a tela d’uma apparente ventura. É que por mais infames

que sejam as almas, sempre a consciencia como a percursora do castigo

sem fim, as atormenta com a lembrança horripilante de crimes que se

desejariam esquecer. Esta convicção e a lealdade de Castello Melhor foram

os unicos lenitivos que Affonso VI encontrou na desgraça, foram anjos que

lhe afagavam a vida, segredando-lhe que não era indigno de ser rei de

um grande vassalo que resurgira um reino, e que a sua memoria servia de

tufão devastador á felicidade roubada.

Felizes dos opprimidos quando têem a consciencia que são oppressores.

Affonso VI falleceu em Cintra aos 12 de setembro de 1683; a sua adultera

esposa não tardou em seguil-o na jornada do tumulo.

Quatro mezes depois (27 de dezembro), succumbiu D. Maria Francisca Izabel

de Saboya, sendo sepultada nas Francezinhas.

D. Maria Sophia de Neuburg

Depois da morte de D. Maria Francisca, a tristeza apossou-se do coração

de D. Pedro II; ao mesmo tempo, o remorso pungia-lhe a consciencia, vendo

sempre o espectro do irmão apontar-lhe do outro mundo o negro trama de

que fôra o protagonista. Resava, orava, esmolava os desgraçados de que

era rei; mas ao depor o obulo na mão do esfarrapado mendigo accudia-lhe

o vulto de Affonso VI, que elle apeára do throno, transformando-lhe a

existencia ainda em mais cruel que a do pobre, porque esse ao menos tinha

liberdade. Entregue, como estava, ás suas dôres, D. Pedro não cuidava de

outras nupcias.

Foram precisas para o arrancar á dorida memoria da sua fallecida consorte

as instancias de Innocencio XI e as supplicas dos amigos: todos á uma lhe

aconselhavam novo casamento, evitando-se assim que a corôa passasse á

princeza D. Izabel, o que traria sérias complicações politicas.[42]

Resolvido o sensato plano, partiu o conde de Villar Maior (8 de dezembro

de 1686) para Heidelberg, capital dos estados do Eleitor Palatino do

Rheno, pae da princeza Maria Sophia de Neuburg, á qual a escolha do

monarcha designára para nova rainha. A 22 de maio do anno seguinte

assignou-se o contracto, estipulando-se que a noiva fosse dotada por seu

pae com cem mil florins e pelo rei de Portugal com a casa e estado das

soberanas suas predecessoras. Realisado o consorcio (2 de junho) seguiu

D. Maria Sophia a sua viagem para Lisboa, onde chegou a 11 d’agosto;

sendo, n’essa mesma tarde, abençoados os conjuges pelo arcebispo, no meio

das acclamações enthusiasticas d’um povo que, fóra da capella, saudava

inconscientemente uma mãe carinhosa de todos os seus subditos.

E na verdade, d’esta vez os applausos não foram lançados em vão. D.

Maria Sophia, como D. Filippa de Lencastre, compensou as leviandades da

primeira mulher de seu marido. Reinou, mas não governou, conservou-se na

sua esphera, dedicando-se á educação dos filhos e em adquirir o amor de

D. Pedro, que, possuido sempre da lembrança da primeira consorte, nunca

soube apreciar os rarissimos dotes da nova companheira.

Para quem fosse menos beneficiada da conformidade imposta pelo dever, a

indifferença régia seria pezarosa; porém, a princeza soube mostrar que

era allemã: o seu temperamento, frio como o norte, não era inclinado

a paixões; conformou-se com a sorte, limitando-se unicamente ás lides

domesticas.

O rei, ao que parece, desejava ser um heroe e talvez mesmo se convencesse

de que o era. Queria a fronte aureolada, como o irmão, o _victorioso_;

sentia a nostalgia do triumpho, apesar de _pacifico_, como lhe chamava a

Historia.

Terminada a guerra da independencia, desapparecêra o campo dos louros, e

a paz firmada com Castella (13 de fevereiro de 1668)[43] ainda na vida

de D. Affonso veiu cortar quaesquer probabilidades de adquirir glorias

proprias. Ao tempo, D. Pedro só tinha por si a quéda d’um throno; de mais

cousa alguma a posteridade fallaria d’elle, ficando sujeito a desigual

partilha nos fastos da realeza.

Vago o throno de Castella pela morte de Carlos II (1 de novembro de

1700) foi acclamado rei o duque d’Anjou, neto de Luiz XIV, com o nome de

Filippe V; D. Pedro reconheceu-lhe a soberania, continuando assim a paz;

mas a influencia franceza assombrava a Inglaterra, a Hollanda e Allemanha

que, além d’isso, pretendia a corôa para o archiduque Carlos, filho do

imperador Leopoldo I. Portugal mudou de rumo e acompanhou a politica

europeia na sua opposição ao francez; D. Pedro procedeu assim obrigado

pela Inglaterra, que o amarrára no tractado de Methwen, e pelo desejo

ardente da fama conquistada pela força das armas.

Dispostas as cousas d’este modo, o archiduque chegou a Lisboa (7 de março

de 1704) n’uma esquadra ingleza e hollandeza e fez d’aqui o ponto de

partida para as suas operações.

O nosso exercito, tendo á sua frente o principe e o conde das Galveias,

Diniz de Mello e Castro, entrou no territorio hespanhol, e tomando

Salvaterra, Valença e Albuquerque, retirou para Lisboa, d’onde o

archiduque saiu outra vez (24 de junho de 1705) com destino a Barcelona,

que depois d’um combate naval se rendeu a 9 de novembro do mesmo anno.

No seguinte, em 2 de junho, o marquez das Minas penetrava em Madrid,

onde fez acclamar o austriaco com o nome de Carlos III. Até esta

epocha o destino parecia secundar, á custa de pesados sacrificios e

derrotas internas, os marciaes desejos de D. Pedro II; o successo era

na apparencia prospero e o rei zeloso do seu nome e pouco dos povos,

contente de si, só tinha que se queixar do nenhum repouso da consciencia

attribulada, porque no mais tudo lhe corrêra ás mil maravilhas. Esta

illusão acompanhou-o ao tumulo; D. Pedro, doente, gasto, moribundo,

succumbiu (9 de dezembro de 1706), cinco mezes após a victoria, que foi

seguida pela retirada do marquez, batido por Berwick a 25 de abril de

1707.

Hoje é licito analysar os feitos e acções do homem que ousou possuir

a estima d’um povo. De facto, foi a personificação do caracter

portuguez—aventureiro, valente, viril, com uns longes de justiceiro,

um arremedo do seu homonymo[44]—; e se as suas virtudes não brilharam

pela quantidade, o seu feitio compensou-lhe a falta perante os coévos

acostumados a venerarem o rei, sem examinarem o merito do individuo.

Entretanto, os soffrimentos que a Historia nos aponta e que lhe

atormentaram os ultimos dias, se não conseguem absolvel-o de todo,

attenuam-lhe um pouco a gravidade do mal.

Moralmente foi um grande desgraçado, e a compaixão a que têem jus os

infelizes é uma das faces sympathicas que o pincel do historiador ousa

desenhar na téla da verdade. Teve o amor d’uma mulher, mas este facto não

levanta o caracter de nenhum dos dois amantes, porque o amor santifica

quando é licito e condemna quando é preverso.

Teve a fidelidade de uma resignada martyr que nunca lhe viu sorrisos,

que foi possuida pela força da politica; e esta virtude se directamente

o não exalta, reflecte-lhe, comtudo, como sol benefico. D. Pedro ainda

mereceu a pósse de uma honesta esposa! Compassiva foi a Providencia, se

no recondito d’aquella alma não existia algum merito que, qual violeta

escondida por entre as balsas, viveu ignorado da justiça dos criticos.

Maria Sophia não lhe proporcionou dias felizes, porque o remorso lhe

aniquilava toda a felicidade; não lhe partilhou os dias de gloria,

porque a morte a veiu colher (4 de agosto de 1699) antes que a guerra

lhe trouxesse os triumphos militares; mas hoje ajuda-lhe a rehabilitar o

nome, o nome que era seu e de cuja dignidade foi fiel depositaria.

Triste e só, viveu deixando na Historia não a reputação faustosa de

heroica soberana, ou de astuta politica, mas a de mulher respeitavel

que soube purificar o lar extinguindo-lhe as manchas do rasto da sua

antecessora. O diadema não lhe serviu de cruz, porque no cumprimento dos

seus deveres encontrava sorrisos. Nem lhe foi motivo de ambições, porque

a corôa que o seu ideal almejava era a corôa de espinhos do Crucificado.

Que lhe importava o olhar melancholico do verdugo de Affonso VI, amante

ainda do cadaver da sua cumplice? Que lhe importava isso, se nos filhos

d’esse homem que a não podia amar, se na prece quotidiana ao esposo das

almas santificadas pela resignação existia um amor mais bello, mais

radiante que todo o idyllio de um amor terreno? E as lagrimas, sêccas por

essa philosophia santa, nunca lhe sulcaram o rosto sympathico. Foi feliz

no meio do seu infortunio. Abençoada creatura cujas ambições não existiam

n’este mundo. Bemdita a sua fé que lhe impediu o martyrio, que lhe

encaminhou os passos para a senda do dever. Por isso a Historia ajoelha

na lousa do seu sepulchro, esculpindo-lhe na lapide um epitaphio modesto

como a sua existencia, mas venerando como a sua memoria.[45]

D. Marianna d’Austria

Depois do fallecimento de D. Pedro II, subiu ao throno seu filho o

principe D. João, que ao tempo contava dezesete annos d’edade. A herança

não era coroada pela paz, e o rei não tinha a experiencia necessaria

para dirigir o leme do Estado ao ponto que mais influisse ao progresso e

desenvolvimento nacional.

Continuou, pois, a orientação do pae, envolvendo-se na guerra de

Hespanha, só concluida a 11 d’abril de 1713, pelo tratado de Ultrecht.

Ahi, Portugal não recebeu a minima compensação dos seus pesados

sacrificios; o duque d’Anjou foi reconhecido como rei, e o archiduque, já

imperador d’Austria, teve na partilha os Paizes Baixos, Napoles e Milão.

Depois da contenda tivemos de libertar o Rio de Janeiro da occupação do

almirante francez Duguay Trouin, e mais tarde (1716-1717) a perseguição

dos turcos, em soccorro do papa Clemente XI, que o havia sollicitado

por intermedio da rainha D. Marianna d’Austria, com quem D. João V se

desposára no dia 27 de outubro de 1708.[46]

De resto, um longo periodo de paz envolveu sempre este reinado.

O rei tinha a preoccupação do fausto e da magnificencia; entendia que sem

a ostentação requintada da realeza, a corôa seria um mytho indigno do

mais plebeu dos seus vassallos. Esta idéa de D. João V foi coherente com

a de D. Manuel desde o diluvio do ouro da India, agora substituido pelas

minas do Brazil.

Acabára a Asia, mas ficára a America para farto manancial do genio

degenerado e decadente do portuguez. Para cumulo d’estimulo tinha o rei o

exemplo de Luiz XIV, seu mestre e seu espelho; havia de ser grande, não

como alguns dos seus pacatos avós, bons homens e bons guerreiros, paes

dos povos que militavam a seu lado no campo da batalha, e que, saradas as

feridas da refrega, lhe vinham administrar justiça, de aldeia em aldeia,

como bons pastores, zelosos do seu rebanho. N’aquella epoca, das virtudes

antigas só existia a memoria; rei e fidalgos dormiam sobre os louros

adquiridos pelos antepassados, não cuidando de outros novos; ferindo

inconscientemente a virilidade da sua existencia, que pouco resistiu aos

tombos das evoluções sociaes. Começava a pragmatica, acabando-se a antiga

rudeza nacional; extremavam-se as classes, vedando-se ao povo nobilitação

pelo proprio merito; e um odio profundo entre a aristocracia cortezã, que

se alimentava dos bens da corôa, e a nobreza de provincia, que lavrava a

terra com o proletario, veiu accender o facho da discordia, cujo tragico

desfecho teve logar no reinado seguinte.

O caminho que o historiador tem a seguir quando vier a lume a época de D.

João V não é plano e florido, mas accidentado como serra espinhosa; ainda

ha muitos para quem o filho de D. Pedro II, visto como homem moderno,

attinge proporções épicas; para nós, aliás interessados naturalmente em

exaltar o monarcha,[47] não vemos n’elle um unico reflexo de grandeza,

a não ser na sua intelligencia e no zelo que dispensou ás lettras e

ás artes, não como sabio ou artista, que nunca foi, mas como Salomão,

que pretendeu ser. Os seus monumentos são attestados mudos da leviana

atmosphera em que nasceram; não enthusiasmam como a Batalha e Belem,

padrões que definem uma consagração historica; são molles de pedra,

espelhos de provecta decadencia—o crusamento do incenso do altar christão

e do luxo Cesar romano.

Mafra é um collosso, onde está escripto o diagnostico da enfermidade que

assolava o paiz: a nevrose da pompa, apoiada no absolutismo de que D.

João V se fizera prototypo. De resto, a sua causa, ôcca e sem historia,

não lhe proporciona interesse, nem cunho nacional; é um simples capricho

de monarcha gastador, convicto que a trombeta da Fama só apregoa os

grandes feitos quando eccôa em montanhas de ouro.

Esse espalhava-o D. João V ás mãos largas, pouco zeloso do erario e muito

da bolsa dos subditos. Os livros da sua chancellaria estão cheios de

tenças, em que o motivo era a vontade regia e não o mérito pessoal do

agraciado.

Diga-se, no emtanto, que os thesouros espalhados pelo rei, não afogavam

a ira do povo, que o adorava, porque via n’elle a personificação de

todos os seus defeitos e de todas as suas virtudes. Poucos reis lograram

possuir a estima dos subditos como D. João V. Foi um galanteador

aventuroso e audaz, porque entreviveu n’uma epocha de aventuras

licenciosas e ninguem tem direito a criticar-lhe as faltas domesticas,

as traições á esposa, porque esse exemplo tomou-o elle dos vassallos, de

quem não seria rei, se não os avantajasse. Toda a sua grandeza, toda a

causa da sua superioridade está em ter comprehendido a sua epocha, em ter

alcançado o objectivo dos seus contemporaneos.

Incontestavelmente o ultimo Cesar que se sentou no throno, não foi

tyranno, nem tomou ligeiramente o officio de reinar. Teve erros, porque

viveu n’uma epocha de decomposição, vendo-se obrigado a seguil-a por

natural tendencia, como homem do seu tempo, impellido pela voragem

que o arrastava a um ponto que todos almejavam. Se assim não fosse,

nunca conseguiria ser amado, porque nunca poderia adquirir o espirito

portuguez. Ao menos não foi hypocrita; não procurou sequer occultar

as leviandades das suas aventuras galantes, que passavam, como coisa

naturalissima, que a ninguem melindrava, porque era commum... N’este

quadro, que se não póde desenhar com côres estudadas, que sae natural,

sem atavios que lhe falsifiquem a authenticidade, está bem patente a

decadencia precoce de uma sociedade perdida. Quando o historiador ama

a sua terra, as flôres dos seus campos, o sol que allumia e o ceu que

a domina, as tradições que a exaltam, todo esse conjuncto diverso, mas

ligado entre si n’uma cadeia cujo elo é a Patria, sente desfallecer

a penna ao tocar este periodo, todo de ruinas, embora matizadas

d’abundancia. Mas por entre a hecatombe lenta que devastava o meio

social, não ha a lamentar a corrupção do paço; D. João V praticou

sem duvida erros de homem, mas teve o lar purificado pela conducta

irreprehensivel da esposa, allemã como a sua antecessora, e martyr como

ella, não pela feia catadura d’um marido apaixonado pelo cadaver da

eleita da sua alma, mas pelo procedimento do rei, que sem escrupulos de

christão nem respeito pela dignidade real, escolhia concubinas onde quer

que as paixões o arrastavam.

As donatarias d'Alemquer Historia das Rainhas de Portugal e da sua casa e estado · 第 4 / 8 段