numerosa descendencia; e mais tarde, depois da morte d’esse rei (13 de
dezembro de 1521) que a não amava, nem por ella era amado, obrigam-n’a
a abandonar a filha idolatrada, a gloriosa infanta D. Maria, a futura
protectora das lettras, o penultimo lampejo da Renascença.
A politica endurece o coração dos soberanos. Carlos V queria fisgar
Francisco I, mas precisava d’um laço que o prendesse á sua obediencia.
Esse laço foi a viuva do rei de Portugal.
Casada com o soberano francez, D. Leonor teve de abandonar a filha, que
só viu trinta e quatro annos depois! Se foi cruel o seu martyrio, em
compensação, o ente que de longe abençoava, soube exaltar a sua memoria e
honrar o nome de quem lhe dera o ser, concorrendo para o engrandecimento
do seu paiz. A sciencia d’estes factos seria um lenitivo para a pobre
mãe, que, não obstante a distancia, lhe dirigia os passos. No entanto
a Providencia destinou-lhe n’este mundo um premio digno dos seus
soffrimentos. Aos cincoenta e nove annos de edade (1498-1558)[34] teve a
ventura de abraçar, em Badajoz, o enlevo da sua vida, a qual terminou em
breve.
Conforme o juramento que os habitantes de Lisboa lhe exigiram á
partida,[35] a infanta D. Maria deixou sua mãe nos territorios de
Hespanha e regressou á sua patria; porém, Leonor d’Austria tinha os
seus dias contados, e falleceu pouco depois, em Talaveruela, aos 25 de
fevereiro de 1558.[36]
Os dois thronos em que se assentou foram para esta princeza dois tumulos
precoces: um matou-lhe a mocidade algemada á velhice; outro amordaçou-lhe
o mais bello predicado do coração da mulher—o amor de mãe.
D. Catharina d’Austria
Fallecido D. Manoel em 1521, tomou as redeas do governo o principe D.
João.
Quatro annos depois de subir ao throno, o monarcha portuguez contrahiu
nupcias com a princeza Catharina, irmã de sua madrasta e do imperador
Carlos V.
Continuava assim a politica do pae, assegurando o poderoso visinho,
casado tambem em 1526 com a nossa princeza D. Izabel.
D. João III lidou sinceramente pelo progresso das lettras. É esta uma
feição caracteristica da dynastia de Aviz. O seu fundador escreveu o
_Livro das Horas do Espirito Santo_, os _Psalmos certos para os finados_,
o _Livro da Montaria_ e attribue-se-lhe tambem a _Côrte Imperial_; seus
filhos, el-rei D. Duarte o auctor do _Leal Conselheiro_ e da _Arte de bem
cavalgar em toda a sella_; D. Pedro, traductor de Cicero e escriptor das
_Horas de Confissão_ e do _Livro da virtuosa Bemfeitoria_, seguiram-lhe
as honradas tradições.
N’este reinado, porém, a litteratura portugueza attingiu o maior
brilho; n’elle floresceram João de Barros, Fernão Lopes de Cantanhede,
Damião de Goes, o doutor Antonio Ferreira, Diogo Bernardes e André
de Rezende; n’elle se levaram a effeito importantes reformas nos
estudos, importando-se mestres do estrangeiro para ensinarem na nossa
Universidade, transferida de vez para Coimbra.
As descobertas e as conquistas progrediam tambem; chegou-se ao Japão
(1542) e entabolaram-se relações com os chinezes, obtendo-se a faculdade
de podermos estabelecer uma colonia em Macau.
Na India, D. João de Castro, outra figura respeitavel, tomou a hombros
o continuar a obra grandiosa d’Albuquerque. Interrompia o manancial
d’iniquidades parecendo animado pelo espirito do grande capitão. Elle e
D. Luiz d’Athayde fecham o cyclo dos nossos feitos brilhantes no paiz das
especiarias.
A arte tambem teve o seu culto n’esta nova phase da vida nacional.
Belem é o monumento que a piedade de D. Manoel levantou em memoria do
grande feito de Vasco da Gama. Não obstante ser magestosa, a egreja
dos Jeronymos não possue a solemnidade da Batalha; no entanto falla ao
coração do patriota como symbolo d’um passado glorioso, que, embora
maculado mais tarde, tem uns traços semelhantes á autonomia de 1385.
Aberto o novo periodo das conquistas, Belem converteu-se em pantheon
da Casa d’Aviz; ficava mesmo junto da porta do _Mar Tenebroso_, cujos
segredos a audacia do infante D. Henrique, a astucia de D. João II e a
actividade de D. Manoel desvendaram para sempre. Os marmores dos seus
tumulos são bafejados pela maresia do Tejo, que lhes prende a existencia
eterna á vida terrestre. Ali, guardados em sarcophagos cinzelados pela
Arte da Renascença, n’uma crypta impregnada de ares salinos, descançam D.
Manoel, D. João III, D. Sebastião (?), D. Henrique e todos os principes
da familia real.
Hoje Belem parece destinado a mausoléu das grandes glorias do paiz.
Bom é que debaixo do mesmo tecto, n’uma fraternidade que a morte
estreita, durmam o somno eterno, reis e vassallos que nas differentes
epochas da historia lidaram pelo engrandecimento do torrão que os viu
nascer.
Bom é que junto dos ultimos descendentes d’Aviz, raça illustre, filha
da vontade popular, levantada pela eloquencia de João das Regras,
poetas, cuja musa é o breviario do sacerdocio da Patria; navegadores
cuja afoiteza é o testemunho da virilidade d’um povo; historiadores cuja
penna justiceira serve de modelo á critica dos vindoiros, se confundam
todos em amplo abraço, coroados pelas bençãos do suffragio, iguaes pela
realeza do talento que levanta os humildes á altura de semi-deuses. E
hoje, que o pensamento estende as suas raizes pelas regiões do Infinito;
que a justiça depõe as palmas do martyrio sobre a memoria das victimas do
genio, bom é que o patriota ajoelhe em Belem sobre as louzas dos heroes
do throno, do talento e da aventura, e, recolhido em si n’uma meditação
profunda, contemplando aquella téla sublime, invoque os manes dos que ahi
descançam, como os fieis do Christianismo levantam as suas preces aos que
adquiriram a Bemaventurança eterna.
Junto de seus maiores, tambem ahi está o principe D. João, filho de D.
João III, um desvelado cultor das lettras, vulto illustre em que Camões
depoz todas as suas esperanças. Começava a faltar a seiva á grande
arvore plantada em 1385; estava fraca e abatida pela ausencia do calor
vital, quando os vermes da corrupção lhe tragavam as ultimas raizes. O
mallogrado infante casára em Elvas (fins de novembro de 1552)[37] com sua
prima D. Joanna, filha do imperador Carlos V; d’este matrimonio nasceu
um filho posthumo, D. Sebastião (20 de janeiro de 1554), que subiu ao
throno logo depois do fallecimento do avô (Lisboa, 11 de julho de 1577).
A regencia do reino ficou entregue a D. Catharina, avó do joven monarcha,
que tomou a serio os encargos da realeza. Presidindo ao Conselho
d’Estado, a rainha não só recommendava a boa venda da pimenta, mas
tambem o augmento do territorio colonial. Angola mereceu-lhe as maiores
attenções e as conquistas da India desenvolveram-se com as tomadas de
Damão e de Jafanapatão.
Não obstante estes progressos, D. Catharina vivia desgostosa, suspirando
o descanço da vida particular. Reuniu côrtes em Lisboa (23 de dezembro
de 1562) e ahi entregou o poder a seu cunhado o cardeal D. Henrique.
Alcançada a almejada tranquillidade, residiu em varias terras de que era
senhora, e entre ellas em Alemquer, cujos habitantes menciona no seu
testamento.
Tendo setenta e um annos, terminou a existencia d’esta princeza, que
falleceu em Lisboa, aos 12 de fevereiro de 1578. Sepultaram-n’a em Belem.
Mezes depois (22 de agosto), Lisboa soluçava a perda do unico penhor da
sua independencia. Catharina de Austria succumbiu antes do tragico fim
de Alcacerquibir; talvez uma duvida da aventura, uma verde esperança de
poetica illusão lhe recolhesse o ultimo suspiro; talvez que moribunda, no
seu delirio abençoasse o neto, vendo-o triumphante, implantando a Cruz
nas mesquitas de Mahomet, realisando o sonho da Edade Média, desviado da
rotina da Renascença. Catholica extreme, a fé, que fortalece os fracos,
alental-a-hia na sua duvida sorridente. Deus havia de ajudar o cruzado,
cujo escudo era o baluarte do Evangelho! havia de erguer o braço do
heroe que fincava as Quinas no territorio do Islam...
Este sonho mystico de Catharina agonisante é o ultimo traço da nossa
grandeza épica. Camões tambem o alimentou com a mesma fé e com a mesma
pureza de uma alma gigantesca illudida na sua candura, que recebeu a mais
cruel das decepções: o desfolhar das suas esperanças e a perda do seu
paterno ninho.
(O Interregno dos Filippes)
Com a dynastia d’Aviz, filha do sentimento da independencia que animava
um povo já consciente do seu existir, já apegado ao seu lar, unido desde
o Minho ao Guadiana por uma palavra divina—PATRIA—o paiz succumbiu em
Alcacerquibir. Houveram ensaios para um arremedo d’Aljubarrota, mas já
não circulava aquelle sangue generoso e bom, tão forte na Edade Media,
como valente e fidalgo no alvorecer da Renascença.
A India inundára-nos de ouro e sugava-nos as forças vitaes. Extenuado por
essa amante que nos seduzira, procuravamos revestir-nos com a virilidade
de outras eras.
Tudo estava podre. Até os proprios que tinham exaltado a bandeira das
Quinas se deixaram arrastar pela corrente da corrupção. Reunidas as
côrtes em Lisboa (de junho de 1579), ahi se elegeram quinze cidadãos
para que o cardeal-rei escolhesse d’entre elles cinco governadores
que indicassem a quem de direito, no futuro, pertencia o throno e que
administrassem o reino dada a sua morte.
Realisado o funebre acontecimento (Almeirim, 31 de janeiro de 1580),
o Prior do Crato, D. Antonio, bastardo do infante D. Luiz, pretendeu
cingir a corôa, allegando um supposto casamento de seu pae com a famosa
Violante Gomes; Rainuncio, principe de Parma, filho de D. Maria e neto do
infante D. Duarte; Manuel Felisberto, duque de Saboya, filho da infanta
D. Brites; Filippe II, filho de D. Isabel; e D. Catharina, duqueza de
Bragança, filha do infante D. Duarte, concorreram tambem a disputar o
throno.
Até Catharina de Médicis se lembrou de ser rainha de Portugal, dando como
rasão uma ideada descendencia d’Affonso III e da condessa Mathilde! No
meio dos successivos desastres, por entre tantas vilanias tecidas pelo
ouro de Castella, espalhado largamente por D. Christovam de Moura, não
faltou esta nota comica. Faltava, porém, o _veridictum_ dos governadores,
depositarios da realeza, juizes irrevogaveis que haviam de sentencear a
quem pertencia a corôa.
No desempenho d’esta missão partiram para Badajoz, onde a 7 d’agosto de
1580 assignaram um alvará, conferindo a dignidade real a Filippe II.
Note-se, no entanto, que a entrega da Patria ao hespanhol foi recusada
pelo Arcebispo de Lisboa, D. Jorge de Almeida, e por D. João Tello
de Menezes. Os outros (D. Francisco de Sá e Menezes, D. João de
Mascarenhas—o defensor de Diu!—e Diogo Lopes de Sousa) acolheram-se
debaixo do manto castelhano, cuja sombra fortalecia, sem embargo da
tranquillidade das delapidadas consciencias.
N’este desabar do edificio, desmantelou-se tambem a Casa das Rainhas;
Alemquer serviu de titulo aos Silvas, alcaides-móres de Portalegre.
Achava-se, pois, desfeita a grande obra de Affonso Henriques, consolidada
em 1385; e Portugal era uma nacionalidade morta, abatida pela extincção
da grande dynastia que levou a sua fama aos confins do mundo. Era uma nau
grandiosa, equipada brilhantemente, veloz como o vento e segura como a
rocha, que atravessava o oceano em toda a sua vastidão, que sulcava os
mares, rasgando-lhe altiva o verde anil.
Uma vez descobriu no horisonte um forte almejado, um cachopo traiçoeiro
que lhe parecia abrigo fiel, e, com a audacia que a fortalecia, com a
confiança na sua força, com a lembrança do seu valor, inclina o rumo
para o precipicio, que julga o digno remate da sua proficua derrota.
Acompanham-n’a as alegrias, desfraldam-se alegres em seus mastros os
vistosos pavilhões; sonhos dourados adormecem a tripulação, e, ao cabo de
longa viagem pela campina maritima, o fado que outrora lhe proporcionou
os louros, a arrasta agora para o iman da perdição, para a
_.........................vã cubiça_
_d’esta vaidade a quem chamamos Fama._[38]
Tudo soffria as consequencias do mesmo genio audacioso que presidira a
todas as nossas emprezas, desde Ourique e Aljubarrota até ás descobertas
do mar, vasta arena das glorias de Portugal. Alcacerquibir vingou Ceuta,
calcada aos pés do venerando roble d’Aviz. A Africa assim como foi berço
da nobre epopeia portugueza, tambem foi seu tumulo, devorando o ultimo
representante de D. João I. Não lhe satisfez o martyrio do infante D.
Fernando; foi-lhe preciso aguilhoar um povo que ousára abater o vôo do
estandarte mussulmano; e esse povo, estrangulado pela raiva da hyena
africana, legava ao universo, a cujos destinos soubera presidir, uma
chronica immortal da fenecida grandeza.
Camões e o seu poema foram os elos, que, abatidos os grilhões, haviam de
reatar o passado ao futuro. Os _Luziadas_ tornaram-se o manual em que
oravam os crentes e os esperançosos; os que tinham por amante o alvorecer
da sua independencia.
Nos sessenta annos de captiveiro, quantas lagrimas derramadas pela
infidelidade dos traidores! Tantas como as que o vate sublime, synthese
da autonomia portugueza, chorára pelo _ninho seu paterno_, e tambem por
essa outra amante, a eleita da sua alma, cuja ingratidão lhe dictou estes
versos:
_Ah Nathercia cruel quem te desvia_
_Esse cuidado teu do meu cuidado?_
_Se tanto hei de penar desenganado,_
_Enganado de ti viver queria._
....................................
No coração do patriota reinava uma outra Nathercia, alimentando-se nas
aras do seu sacerdocio, os ultimos lampejos das gloriosas epochas que se
tornaram a nossa razão de ser como paiz independente.
QUARTA DYNASTIA
D. Luiza de Gusmão
Apesar dos apertados grilhões com que a politica de Castella nos algemou,
cuidando assim extinguir o sentimento da independencia, a ideia da
liberdade invadia o coração do povo portuguez.
Formavam-se phantasias, julgava-se vêr nos elementos uma certeza
prophetica da restauração. A Biblia e o Bandarra eram mananciaes com que
os embusteiros exploravam a crença popular.
De facto, a grande creança visionaria, a massa rude, com a sua alma leal
e supersticiosa, impossibilitada de outro meio que aliviasse a pesada
carga estrangeira, procurava nos dominios da phantasia um ephemero
lenitivo aos seus pezares.
Para ella o ideal começou em D. Sebastião, uma especie de moura
encantada, recolhida em paiz encoberto, mysterioso, sobrenatural, d’onde
em momento opportuno, marcado no ceu com signaes temiveis, como os do fim
do mundo, viria erguer o escudo lusitano, sobrepôr as Quinas aos Leões da
usurpadora Hespanha.
E a phantasia, só a phantasia, é que consolava o povo, só a superstição
é que lhe allumiava o espirito, fortalecendo-lh’o para a grande empreza,
que recordou n’aquelles tempos de provecta decadencia o genio audacioso,
valente e guerreiro da nação portugueza.
Ella ainda cortejava o vencedor, quando, arrogante e soberbo, percorria
as ruas da capital; ainda se curvava quando ouvia nomear o rei o symbolo
augusto que lhe fundára a nacionalidade e que combatêra a seu lado, na
infancia da monarchia, pela defeza dos seus interesses, pela consolidação
da sua existencia e da sua liberdade; mas n’este acto não se deprehende
hypocrisia, fraqueza ou adulação: o que aqui se vê é quanto impera na
alma popular o sentimento da realeza, com que foi creada desde tempos
immemoriaes. Não era uma abdicação perante o hespanhol, era o invocar
da alma leal para um principio que lhe gerára a Patria e que soubéra
confundir-se com ella, tornando-se o coração d’um grande corpo, d’onde se
expande a vida e a força por todo um paiz.
Se o duque de Bragança não quizesse annuir ás repetidas instancias dos
fidalgos, e se em vista da recusa do principe se levasse a effeito
aquelle celebre dito de D. João da Costa, _antes uma republica bem
portugueza que um rei estrangeiro_, a independencia de Portugal, em nossa
opinião, não ia ávante.
Faltava-lhe o ideal da alma popular, faltava-lhe o objecto d’esse amor,
que, embora ás vezes fosse cruel como os Filippes, fosse traiçoeiro como
D. Henrique, fosse efeminado como D. Fernando, fosse bom ou fosse mau,
era o possuidor do espirito do povo, era o pae da independencia, gerada
em Ourique e emancipada, feita homem e consciente no campo glorioso
d’Aljubarrota. Acclamou a monarchia, João das Regras, um filho do povo,
defenderam-n’a elles em todas as suas crises, abraçaram-n’a como religião
desde o seu principio e sempre essa ideia innata ao seu existir palpitará
em seu peito, como orgão que a natureza addicionou á sua alma tão leal
como cavalheiresca.
E como a realeza era o symbolo da autonomia, por isso Castella vigiava o
paço de Villa Viçosa temendo-se unicamente do _direito_ como impulsor do
brado heroico que havia de alijar para sempre o dominio estrangeiro.
E não conhecia a Hespanha o fraco animo do duque de Bragança? Conhecia,
é certo, mas tambem conhecia o amor do povo a _seu rei natural_, e que
esse mesmo, egoista e fraco, era quem se poderia atrever a romper os
laços da usurpação. Para Villa Viçosa convergiam as attenções de Castella
e as esperanças do paiz, a valente terra portugueza, que alimentava nas
suas entranhas um vulcão cujas lavas submergiram radicalmente o dominio
hespanhol.
As supplicas, quasi ameaças, dos fidalgos, decidiram o primeiro principe
feudal de todas as nações latinas a cingir a corôa d’Affonso Henriques.
Elle era neto de D. Catharina, filho do infante D. Duarte, e por
consequencia o unico representante portuguez d’el-rei D. Manuel.
D. Catharina, a gloriosa princeza a quem a Hespanha sempre respeitou,
transmittiu pelo seu casamento á casa de Bragança os direitos ao throno
de Portugal.[39]
D. Theodosio, seu digno filho, guardou a representação d’esses direitos
com immaculada fidelidade, hombreando altivamente com Filippe III (II de
Portugal) e obrigando o monarcha a descobrir-se perante o legitimo senhor
do paiz a que vinha apossar-se.[40] Se D. Theodosio chegasse a reinar,
certamente a historia lhe tributaria hoje egual homenagem á de D. João I;
n’elle actuou toda a grandeza da raça d’Aviz, cujo sangue generoso lhe
corria nas veias.
Do casamento de D. Theodosio com D. Anna de Velasco, filha do duque de
Frias, houveram quatro filhos: D. João, duque de Barcellos, D. Duarte, o
mallogrado infante, D. Catharina e D. Alexandre. Fallecido D. Theodosio
(Villa Viçosa, 20 de novembro de 1630), entrou o duque de Barcellos na
posse do vasto e poderoso Estado de Bragança, cuja capital, decorridos
tres annos (12 de janeiro de 1633), se alegrava com o casamento
de D. João II com sua prima D. Luiza de Gusmão, filha do duque de
Medina-Sidonia, D. João Manuel Peres de Gusmão e da duqueza D. Joanna de
Sandoval.
A velhaca politica d’Olivares fizera este enlace na esperança que a
princeza, como hespanhola por nascimento, advogasse junto do marido
a causa da sua terra natal; porém D. Luiza tinha a consciencia plena
dos seus deveres para não se dominar pela vontade do ministro, que
descançado na influencia da esposa de D. João e na crueldade de Miguel
de Vasconcellos, nem sequer suspeitava que alguma vez deixasse de ser
simples gemido dos afflictos prisioneiros o heroico brado de 1638.
Soou finalmente a hora da independencia (1 de dezembro de 1640). Era o
sol da nossa epica grandeza que raiava por entre as nuvens da oppressão
estrangeira. Luiza de Gusmão foi o primeiro satellite do grande astro,
arrastando na sua orbita esposo e vassallos. _Antes rainha uma hora que
duqueza toda a vida_, disse ella quando D. João lhe patenteou as suas
hesitações. Espirito superior, não consentia que ninguem sobrepujasse
o poderio adquirido logo que ligou os seus destinos aos do duque de
Bragança. No throno foi a mesma cousa: dominava sempre o marido, era ella
o rei, o poder que influia em todos os negocios do Estado, o braço que
impediu a libertação do tão grande como desgraçado infante D. Duarte,
a unica pessoa que se atrevia a desputar-lhe a confiança do monarcha.
Tambem a Historia só lhe nota este defeito, porque de resto ella foi tão
piedosa, como honesta, respeitavel e dedicada mãe de familia.
Depois do dominio castelhano, D. Luiza tomou posse dos bens da casa das
Rainhas, sendo-lhe esta mercê feita por alvará dado em Lisboa aos 10 de
janeiro de 1643.[41]
Os negocios do Estado em que o seu espirito ambicioso, a sua larga
prudencia e sabio conselho a obrigaram a tomar parte, obstou a que se
interessasse particularmente pelas terras de que era senhora; no emtanto,
devem ellas vangloriar-se de tão alta princeza, cuja energia, cuja
hombridade e independencia tanto favoreceu a causa do seu paiz adoptivo.
Morto D. João IV (6 de novembro de 1656), a rainha tomou as redeas do
governo em nome de seu filho desventurado D. Affonso VI, até 1662, anno
em que este monarcha se investiu de auctoridade real. D. Luiza desde
então dedicou-se á piedade, curtindo os amargos desgostos que lhe dava o
filho, que descia aos ultimos limites a que póde descer um homem.
Quatro annos durou esta turbulenta existencia que teve o seu fim a 27 de
fevereiro de 1666, epocha em que falleceu, sendo o seu corpo sepultado
no convento do Grillo, e, pela extincção d’este mosteiro, trasladado ha
pouco para o pantheon real de S. Vicente de Fóra.
Decorridos mais de dois seculos, as cinzas da esposa de D. João IV,
profanadas por mão ambiciosa como ella fôra em vida, vieram repousar
junto do tumulo do marido e dos dois filhos que lhe succederam.
Que a historia lhe seja severa como a morte, proferindo sem lisonja
e sem odio a sentença que lhe dictarem os bons ou maus actos dos que
exercerem o poder supremo.
O juizo imparcial da realeza não póde melindrar ninguem, porque o
magisterio d’um rei não é propriedade d’uma familia, mas é patrimonio
d’um povo, que tem direito a devassar os tumulos dos que o regerem e
procurar nas suas cinzas ou o merecimento que exige a exaltação dos
benemeritos, ou o crime que obriga o esquecimento dos precitos. A
Historia é o grande tribunal, onde reis e vassallos são julgados com
a mesma egualdade e com o mesmo rigor. Ella despreza Affonso III para
acclamar Martim de Freitas; lança o estigma da infamia sobre a memoria de
Leonor Telles, a rainha impudica, e abençoa a lousa ignorada de Fernão
Vasques, o artista humilde que em nome do povo soube zelar o decôro do
throno. Assim, quando o historiador penetra os humbraes da crypta de S.
Vicente, ajoelha no marmore do pavimento, e toca por sua vez nos ataúdes
de tantos personagens, esquece as corôas que adornam os seus tumulos e
julga-os como juiz, que não indaga a qualidade do réu.
E a Historia, para ser Historia, é necessario que não dobre a vara da
justiça e que guie sempre os seus passos pelo pharol da imparcialidade,
que rompe a nevoa do servilismo infame.
D. Maria Francisca Izabel de Saboya
Fallecido D. João IV, tomou as redeas do governo a rainha D. Luiza, a
isso obrigada pelo testamento do rei e pela menoridade de seu filho
Affonso VI. Os negocios do Estado não se alteraram em cousa alguma com a
administração da rainha viuva; mudou-se simplesmente o nome do imperante,
porque, como dissémos, D. Luiza foi sempre a vontade do marido; nem o
padre Vieira, favorito de D. João IV, nem Fr. Domingos do Rozario, seu
conselheiro privado, a dominaram alguma vez. Altiva e auctoritaria, ella
attendel-os-hia em certas occasiões, mas nunca se escravisava á sua
influencia.
Embora nos campos da batalha o valor do nosso exercito levasse, por
vezes, de vencida o arrogante castelhano, a regente, como astuta
politica, entendeu que sem allianças que amparassem a corôa aos
embates da fortuna, difficil seria a sustentação da independencia.
A França e a Inglaterra eram o alvo dos sonhos dourados de D. Luiza;
queria ella fisgar a amizade d’esses paizes com enlaces matrimoniaes
que identificassem os seus interesses aos interesses de Portugal;
seguia assim o procedimento de D. Manuel para com a visinha Hespanha,
procedimento este, que, apesar de todas as rivalidades, sustentou o
equilibrio da nossa tranquilla expansão ultramarina.
N’este empenho, realisou-se em 1662 o casamento da infanta D. Catharina,
irmã de Affonso VI, com Carlos II d’Inglaterra.