ao rei. Temia vel-o. O espectro do prisioneiro parece que o segurava
no seu ninho de Sagres. Por seu lado, D. Duarte sentia o remorso a
pungir-lhe a existencia. A esposa consolava-o, mas o pobre homem, em
cada caricia d’ella via a causa da sua ruina e da ruina do paiz. Tinha
um só refugio: era D. Pedro. Esse sim; esse fôra o leal conselheiro, o
homem de senso, justo e prudente, que previra a derrota e condemnára a
expedição. Era o que lhe valia.
Tal preferencia azedou ainda mais o animo de D. Leonor para com o
cunhado, esposo de uma princeza da casa d’Urgel, rival da de Aragão.[19]
Mais tarde esse antagonismo teve os seus effeitos quando aos 9 de
septembro de 1438 falleceu el-rei em Thomar, tendo declarado em
testamento que, na menoridade do filho (Affonso V) entregava a regencia
do reino a sua mulher.
A nova sublevou Lisboa como outrora acontecêra com Leonor Telles. Todos
indicavam D. Pedro como regente. Principiava a desharmonia, quasi a
guerra civil.
Alemquer desempenhou um papel importante n’esta questão, como na da
esposa de D. Fernando. A rainha fôra para Sacavem, onde o duque de
Coimbra a procurou para se entender com ella. D. Leonor veiu para
Alemquer, onde já na vida do marido residira algumas vezes. A resolução
das côrtes de Lisboa (1439) obrigára D. Pedro a tomar parte no leme do
estado; mas este voto do paiz não foi acceite pela viuva de D. Duarte,
que preferiu abandonar a familia a humilhar-se ao cunhado. A soberba,
alimentada pela fraqueza do defuncto rei, possuia de todo aquella alma
aliás casta e boa. Se ella não fosse formosa, se o marido tivesse o
pratico conhecimento do mundo como D. João I, D. Leonor seria em tudo um
fiel setellite da veneravel D. Filippa, sabio modelo de rainha, de mãe e
de esposa.
Mas dos encantos de que a natureza a dotou tinha ella todo o
conhecimento, e a influencia da vaidade de si mesma, juncta á desastrada
submissão do rei, converteram-n’a em promotora de lamentaveis desgraças,
em logar de anjo de paz.
A historia, julgando-a, tem tambem de julgar D. Duarte, que sem ella
seria um grande rei. Estas duas almas perverteram-se uma á outra, para
fatalidade da Patria.
De Alemquer, D. Leonor foi para o exilio onde falleceu a 18 de fevereiro
de 1445. O seu corpo não ficou em terra estranha, como o da adultera
Leonor Telles; actualmente jaz no mosteiro da Batalha, ao pé do de seu
apaixonado esposo.
Que a critica lhe seja leve.
D. Isabel de Lencastre
(MULHER DE D. AFFONSO V)
A intriga campeava outra vez na côrte portugueza; tinha-se volvido aos
tempos passados, á epocha fatal, marcada na Historia com a nodoa negra do
desbragamento de Leonor Telles.
D. João I fôra então o eleito do povo para a defeza dos legitimos
interesses do paiz; agora n’esta scena, pallida sombra dos acontecimentos
posteriores, a vontade popular elegeu tambem um dos seus mais illustres
filhos, o qual, estadista como era, conhecedor do mundo pelas suas
grandes viagens e pela sua vasta erudição, soube guiar proveitosamente o
leme do Estado, não obstante os obstaculos suggeridos pelos contrarios.
Sabio como D. Duarte, apesar de lhe não carecer o animo, tambem teve um
defeito que lhe foi fatal: o desprezo do mundo.
Chegado á maioridade de Affonso V, D. Pedro entregou-lhe o reino; o
monarcha não o acceitou; pois, apesar de moço, teve em conta os serviços
prestados por seu tio, que lhe serviu de pae e que o era verdadeiramente
da terna companheira que as côrtes de Torres Vedras (1440) lhe tinham
destinado.
Este procedimento generoso, que bem agourava a prosperidade do novo
reinado, accendeu a labareda amortecida na alma damnada dos parciaes do
infante. Perdel-o, acabar-lhe com a raça generosa,[20] era o fito do
movimento, que teve por chefes o duque de Bragança, D. Affonso; seu filho
o conde d’Ourem; o devasso arcebispo de Lisboa, D. Pedro de Noronha; e o
protonotario apostolico Vasco Pereira de Berredo.
Combinado o trama, trataram de conquistar o fraco espirito do rei, então
de dezeseis annos. Baldados foram os esforços de D. Pedro para desfazer a
calumnia; retirou-se da côrte a ver se o fogo se extinguia, mas com a sua
ausencia as chammas fortaleceram-se.
De Ceuta viera o conde d’Avranches D. Alvaro Vaz de Almada, no proposito
de á ponta da lança tomar a sua defeza. O infante e o conde, confrades
da santa ordem da Garrotêa,[21] tinham a Cavallaria como uma religião,
santificada por D. Filippa, no leito da morte, quando recommendava ao
filho a honra das donas e donzellas.
Era a Cavallaria o unico tribunal admittido por Alvaro Vaz, para julgar
os actos da regencia. Viessem a campo os detractores, montados em seus
corceis e batessem-se com elle...
Os outros preferiam as devassas tiradas por ordem régia; tinham a mentira
na mão, achavam quem jurasse ter o regente envenenado seu irmão D. Duarte
e sua cunhada D. Leonor, mas não encontravam quem se medisse com o
Avranches...
Como homem prudente, D. Pedro quiz valer-se da filha que soluçava aos
pés do esposo, supplicando-lhe clemencia. D. Affonso redarguia-lhe que
seu tio lhe pedisse perdão. Perdão de quê? Isso seria humilhar-se não
ao soberano, mas aos inimigos; seria declarar-se reu de crimes que não
commettêra.
A Cavallaria aconselhava-lhe a morte honrada e não a vida humilhante; a
sciencia ensinava-lhe o desprezo do mundo; e o espirito purissimo da mãe,
nos conselhos finaes, apontava ao cavalleiro e ao philosopho a honra de
tres damas que a elle deviam o sêr.[22]
Desgraçado do homem que vem ao mundo como pensador; para esse a scentelha
divina do talento é chamma que illumina sim, mas como o tocheiro que
allumia um cadaver.
Alvaro Vaz, durante estas hesitações, fôra para Coimbra acompanhar o
amigo. Decidiram partir e, á força d’armas, pedir aos detractores o rol
das culpas. D. Pedro esse o que queria era desabafar com o sobrinho, com
a meiga creança que outrora lhe sorria nos joelhos, como se fosse um
filho. Tinha a consciencia tranquilla, porque não defender sua justiça?
Foram em bellico apparato. Logo na côrte roncaram os primeiros rumores
da expedição. O rei partiu tambem ao som de guerra e junto ao ribeiro de
Alfarrobeira acharam-se frente a frente.
Muitos—os leaes—desejavam uma entrevista diplomatica; mas aos parciaes do
Infante o que convinha era um combate; cousa mais simples e talvez mais
segura.
Começaram varias refregas, méras expansões da soldadesca; uma setta
arremessada ao acaso foi bater na tenda real. Já não havia duvidas sobre
as tenções do Infante... Podia, sem escrupulos, dar-se a carnificina.
Os pelouros das bombardas cruzavam-se nos ares com as flechas e com os
golpes de montante; craneos esmigalhados pelos projectis juncavam o chão,
havia heroes que abriam caminho com a espada ensanguentada, e entre esses
D. Pedro.
Que queria elle? A Historia não o diz. Talvez fallar ao rei.
De repente um pelouro prostra-o por terra; Alvaro Vaz avisado d’isto
redobrou de energia. Ao chegar junto do corpo do infante ajoelhou, e
quando depunha o osculo na fronte do amigo, conheceram-n’o os contrarios.
D. Alvaro olhou-os de frente; de braço estendido para a morte, disse
estas palavras: _Fartar rapazes! vingar agora villanagem_.
Uma turba de settas choveu sobre elle; a alma sentiu o corpo fraco e
despediu-se do mundo. Era o ultimo cavalleiro.
Destruidos os dois baluartes da honra, findou a batalha, começando logo
depois o saque, não dos despojos dos vencidos, mas dos bens do Grande
Morto, que esteve tres dias insepulto.
Principia aqui a agonia da existencia de D. Izabel, joven de dezesete
annos, com um coração bondoso, mas dilacerado de desgostos.
Seu pae, julgando amparal-a dignamente, casou-a com o sobrinho; enlace
que as côrtes de Torres Vedras approvaram com enthusiasmo.
O consorcio realisou-se em 1447, ou em 6 de maio de 1448,[23] tendo a
rainha sido dotada com todas as villas que pertenceram a sua sogra D.
Leonor e a sua avó D. Filippa.
Entre as nossas soberanas, D. Izabel de Lencastre é uma das mais
sympathicas; basta para lhe dar jus a este titulo a sua qualidade de fiel
esposa do homem que assassinára seu pae e que era o pae de seus filhos.
N’estes, porém, a excelsa princeza depôz todas as suas esperanças que não
foram infundadas.
Tendo tido um filho varão (3 de maio de 1455), a rainha conseguiu que se
rehabilitasse a memoria de D. Pedro e que o seu corpo, então depositado
na egreja de Santo Eloy, em Lisboa, fosse recolhido no Mosteiro da
Batalha, junto dos de D. João I e de D. Filippa.[24]
Essa creancinha que ella, mãe extremosa, acalentava, era D. João II, o
futuro Grande Rei que, com barbara, mas bem merecida justiça, vingaria a
morte de seu avô.
No emtanto, os odios ainda não estavam extinctos e os promotores da
catastrophe da Alfarrobeira estimulados pela rehabilitação do antigo
regente, decidiram pôr termo á vida da filha, causadora de tal desgosto.
Apezar de não ser ponto averiguado, é tradição seguida, que a causa da
morte d’esta rainha (2 de dezembro de 1455) foi a peçonha ministrada
pelos inimigos de seu pae, terriveis feras que depararam mais tarde com
um terrivel vingador.
Hoje D. Izabel jaz na Batalha, a grande epopeia de pedra da nossa
nacionalidade. A Historia presta-lhe o culto da santificação pelo
martyrio que enaltece as almas na perpetuidade dos seculos.
D. Leonor de Lencastre
A Historia retrata-nos Affonso V como um dos soberanos mais voluveis e
ambiciosos que se tem sentado no throno portuguez. Filho de D. Duarte o
fraco mas sabio rei, e de D. Leonor, casta mas censuravel rainha, Affonso
V mostrou que não degenerára dos seus progenitores.
Amou as lettras e protegeu-as, proseguiu no augmento da bibliotheca de
seu pae, e continuou as emprezas africanas conforme os desejos de D.
Henrique.
Alcacer Ceguer (1458) Tanger e Arzilla (1463) são monumentos que attestam
o patriotismo que lhe adornava a alma, áparte a volubilidade e a ambição.
Talvez fosse esta que o levasse a consentir na morte do regente D.
Pedro; póde ser que mesmo afastado da côrte, o rei visse em seu tio um
estorvo para dar largas á sua absoluta vontade. De facto, aquelle homem
fleugmatico, methodico, grande em tudo, que o tinha creado como um pae,
impunha-se-lhe involuntariamente. Não obstante a sua pouca edade, a
Historia não o póde absolver da sanguinolenta tragedia d’Alfarrobeira e
do condemnavel procedimento de ter durante tres dias insepulto o cadaver
do mallogrado infante e de o privar, por espaço de annos, da sepultura
que D. João I lhe destinára no Mosteiro da Batalha.
Uma guerra injusta alvoreceu com o seu reinado; outra lhe terminou
a existencia, crivando de desgostos o desgraçado monarcha, cheio de
desenganos e de crueis penas do triste passado.
Velho aos quarenta e nove annos, desanimado de todo pela sorte das armas,
que lhe refreavam os vôos, abatido no Toro (1476), Affonso V falleceu em
Cintra aos 28 de agosto de 1481.
Logo depois subiu ao throno seu filho D. João II, que já nos ultimos
tempos da vida do pae governava de facto o reino.
N’este principe depozera as suas esperanças, nas horas amargosas do
infortunio, a pobre e desgraçada mãe; a elle, por consequencia cabia
vingar a memoria do avô, memoria de todo rehabilitada quando o neto
lavasse as mãos no sangue dos assassinos.
A morte do duque de Bragança (21 de junho de 1483) e a do duque de Vizeu
(23 d’agosto de 1484) foram golpes crueis vibrados por braço herculeo
contra o poder descommunal que assassinára D. Pedro.
Consummada a vingança e consolidado o cesarismo, o rei converteu-se em
senhor, apoiado no poder absoluto, uma das más feições da Renascença.
N’este empenho, D. João II sacrificou os proprios membros da familia,
alanceando o coração da esposa que vira aos pés do marido morto ás
punhaladas, o cadaver do louco e desgraçado irmão.
Tendo apenas dezeseis annos (22 de janeiro de 1471), o pae casára-o com
D. Leonor de Lencastre, filha do infante D. Fernando e D. Izabel de
Bragança.[25]
Toda a generosidade da raça d’Aviz actuou n’esta princeza, digna
successora de D. Filippa; todas as virtudes domesticas, todo o zelo pelo
bem da patria e pelos progressos das sciencias tiveram o seu culto no
animo generoso de D. Leonor, que, para não desmentir o destino fatal das
suas predecessoras, tambem teve o martyrio a crucificar-lhe a existencia.
No cerebro do marido desenrolava-se o imperio do mundo; as descobertas
continuavam-se e o nome portuguez dilatava-se triumphante por toda a
terra; Diogo Cão descobrira o Zaire (1484-1485), João Affonso d’Aveiro
chegára á Guiné (1486) e Bartholomeu Dias dobrou o _Tormentoso cabo_,
primeiro indicio da derrota da India.
O commercio desenvolvia-se activamente, tornando Lisboa quasi rival
de Veneza. Um futuro brilhante como o fulgor de uma joia naturalmente
parecia sorrir ao principe D. Affonso, esposo da herdeira de Castella e
filho de D. João II e de D. Leonor; n’elle se haviam de reunir todos os
potentados da peninsula e dos Dois Mundos, todas as riquezas do Oriente e
do Occidente!
Havia de ser o primeiro monarcha do universo! na sua fronte repousaria
a corôa que mais tarde foi cingida pela casa d’Austria. O sonho d’esta
felicidade plausivel florescia perante os espinhos que o espirito
vingador do rei semeára no lar domestico.
Apezar de mortificada, D. Leonor via no marido o soberano illustrado e
audaz, que preparava para o filho um futuro inegualavel.
Essa creança era o espirito de conciliação que existia entre os dois;
era o élo que os ligava ao commum interesse do povo. Mas como a nuvem
altaneira trepa a grimpa dos montes e esconde o sol radioso, a morte
surgiu a derribar o arbusto que alargava as suas raizes por todo o sólo
conhecido.
Morto D. Affonso (13 de julho de 1491), o sonho idealista desappareceu e
com elle a existencia do rei (25 de outubro de 1495).
Depois de viuva, D. Leonor dedicou-se á caridade e ao desenvolvimento das
lettras e artes; introduziu a imprensa em Portugal;[26] fundou a Egreja
da Merceana, no termo de Alemquer, o hospital das Caldas da Rainha, as
Misericordias, e deu principio á construcção das capellas imperfeitas da
Batalha, mais tarde mandada suspender por seu irmão el-rei D. Manuel.
No reinado d’este soberano, a rainha recebeu o lenitivo de todos os seus
passados desgostos; viu o auge da prosperidade da patria, deixando-a
grande e feliz quando falleceu em Lisboa aos 17 de novembro de 1525.
Jaz no convento da Madre Deus.
Quem fôr ao mais eloquente monumento da nossa nacionalidade, quem visitar
os athaudes de D. João I, de D. Filippa e de seus illustres filhos,
sentirá que na crypta murtuaria da Batalha estão vagos dois logares.
Nuno Alvares e Leonor de Lencastre ausentaram-se d’aquelle épico
conjuncto de tumulos, onde dormem o somno eterno os mais brilhantes
vultos da unica épocha de verdadeiro progresso que existiu n’esta terra.
D. Leonor d’Austria
D. João II, apezar do grande amor que consagrava a seu filho D. Jorge,
mais tarde duque de Coimbra, cedeu á luz da razão, indicando como
herdeiro da corôa o duque de Beja D. Manuel, irmão do desgraçado duque de
Vizeu e da rainha D. Leonor, de quem já nos occupámos.
Como grande rei, o neto do infante D. Pedro continuou as descobertas
maritimas; no entanto é licito ao historiador notar a hesitação d’este
monarcha em acolher os serviços de Christovão Colombo, serviços que foram
acceites por Fernando e Izabel de Castella, graças ao lucido espirito da
rainha, predisposto pelo immortal Pedro Gonzalez de Mendóça, arcebispo de
Toledo.
É esta a unica mancha do reinado de D. João II.
Nem a morte do duque de Bragança nem o assassinato do duque de Vizeu
maculam a memoria do rei, que se viu obrigado a recorrer ao cutello e
ao punhal para extinguir as desintelligencias do feudalismo perturbador
constante da paz interna dos povos. Seu primo, el-rei D. Manuel,
continuou-lhe a obra grandiosa, porém com politica e astucia e não com
sangue e cadaveres, attitude esta que os golpes fundos e radicaes do seu
illustre predecessôr lhe permettiam tomar.
Um tanto injusta a Historia, designa D. Manuel simplesmente como soberano
_venturoso_. D. Manuel foi feliz pelo acaso de successão, pelos homens
que encontrou e por essa serie d’epopeias grandiosas, obliteradas depois
pela voracidade do ganho; mas _foi grande_ pela sua politica de ferro,
pelo seu espirito conciliador e pela attenção que, não obstante a
influencia das preciosidades da India, sempre dispensou ao bem estar do
continente: bastando para lhe dar jus á gloria de estadista a diplomacia
com que soube tratar a visinha Hespanha.
Perdidas as esperanças de cingir a corôa de toda a peninsula, em vista
do fallecimento da rainha D. Izabel, viuva do principe D. Affonso e
herdeiro dos reis catholicos (24 d’agosto de 1498),[27] com quem se havia
desposado, e do unico fructo do seu matrimonio, o principe D. Miguel da
Paz (20 de junho de 1500),[28] o rei portuguez entendeu que a continuação
de allianças com a nossa rival no poderio ultramarino era materia do mais
alto alcance para a estabilidade das pacificas relações entre os dois
paizes.
Tratára elle o casamento do sobrinho predilecto, o duque de Bragança D.
Jayme com Leonor de Mendóça, filha do duque de Medina Sidonia no intuito
de procrear amizade com o poderoso hespanhol, senhor de quasi toda a
Andaluzia, de que era Fronteiro Mór.
Não pensava o rei, nos seus planos de diplomata, que o coração não se
molda ao capricho dos politicos e que a desgraçada creança, inteiramente
extranha aos tramas das conveniencias sociaes, seria, volvidos poucos
annos, victima da justa vingança do marido, offendido na sua honra e no
pundonor.
A deploravel catastrophe de 2 de novembro de 1512, em que o treçado do
primeiro senhor do reino assassinava a esposa adultera, e as mallogradas
pretenções á successão do throno de Castella, pretenções que já tinham
sido alimentadas por seu tio D. Affonso V e por seu primo D. João II,
foram os unicos desgostos que D. Manuel experimentou nos vinte e seis
annos do seu reinado.
De resto a fortuna bafejava o pavilhão das Quinas; Vasco da Gama saiu do
Tejo (sabbado 8 de julho de 1497)[29] no intuito de achar o caminho das
Indias, dobrando o cabo da Boa Esperança. Na sua viagem descobriu a Terra
do Natal, Moçambique, Mombaça e Melinde, cujo rei foi um fiel alliado dos
portuguezes. Surgiu finalmente defronte do Calecut, onde a principio o
receberam com enthusiasmo, que mais tarde esfriou em vista das intrigas
dos mercadores musulmanos, os quaes adivinhavam no altivo estrangeiro a
quéda da sua influencia commercial. Abriam-se de par em par as portas da
riqueza; D. Manuel podia julgar-se o monarcha mais poderoso e mais rico
d’então. Não tardariam as perolas, os rubis, as esmeraldas, a canella, o
gengibre e a pimenta, monopolio da corôa.
Não tardariam as victorias de D. Francisco d’Almeida e de Affonso
d’Albuquerque. E coberto de louros, incensado em fumo, precedido da força
brutal das armas e do genio épico dos grandes capitães, o nome do rei
subjugou o oceano e avassallou o Oriente.
Malaca, Ormuz e Gôa, renderam-se ao pulso rijo de Albuquerque. Gôa foi
convertida em capital do projectado imperio que o grande capitão, nos
seus planos de estadista, pretendeu fundar. Era necessario um cruzamento
de raças: casassem os portuguezes com as mulheres da India; alijassem
essas ideias puritanas, lembrando-se que toda a humanidade vinha de
Adão...
João das Regras, Nun’Alvares e Albuquerque são as figuras mais valiosas
do reinado d’Aviz. Um pela sua eloquencia que produziu uma autonomia;
outro pela sua candura; e o ultimo pela rijeza do seu pulso de guerreiro
e pela fortaleza do seu cerebro de politico.
Os dois primeiros morreram honrados no seu catre de louros. Nun’Alvares,
mystico asceta, na solidão de um mosteiro. João das Regras, pae
extremoso, no seio da familia. Albuquerque esse viu ao desprender-se do
mundo a ingratidão real, remedeada já tarde,[30] e o seu corpo affeito ás
luctas em prol da patria, levado aos hombros dos companheiros das suas
glorias, com a barba branca, comprida e magestosa como a do Condestavel,
é o retrato prophetico do futuro do emporio portuguez, cujas raizes
tentára consolidar e que a desenfreada ambição do lucro, a sensualidade
do Oriente, em que os soldados eram sultões e as casernas harens,
deitaram por terra, como o vento do deserto abate a palmeira verdejante.
Albuquerque foi a personificação da lealdade, e a India nas nossas mãos
foi um campo d’aleivosias.[31]
Mancha negra que ennodôa a Historia, o dominio portuguez no Oriente
assemelha-se á impudica figura de Leonor Telles. Corrompeu côrte,
costumes, homens e crenças. Com o pensamento na riqueza, o sentimento
cavalheiresco afastava-se do soldado convertido em mercador. Já não
havia essa simplicidade de outras eras. Sedas, joias e alfaias jorravam
a olhos vistos, sem que ninguem sentisse que entre a descommunal riqueza
se ia lavrando a sentença de morte de uma nação. O sensualismo entorpecia
os espiritos, aconselhando os estofos perfumados dos salões com portas
de ebano, paredes de damasco e pregaria de ouro á rudeza do marinheiro
ou á espada do militar. Riqueza e gozo era o ideal de todos, n’aquelles
tempos, cuja apparencia é tão risonha e cujo fundo é tão funebre.
Na metropole, D. Manuel, como feitor n’esta immensa fazenda, via-se
assaltado pela multidão de operarios que não pediam trabalho, mas
solicitavam mercês. A inveja mordia os feitos dos benemeritos e o
rei deixava-se vencer por falsos conselheiros que vindos da India
pintavam-lhe com negras côres as obras dos grandes homens. Feliz no
poderio e na familia, casado em segundas nupcias com D. Maria de
Castella,[32] irmã de sua primeira esposa, pae de numerosa descendencia,
um tanto illustre, é certo, mas bem longe de ser um arremedo da de D.
João I, o poderoso rajah da Europa, cego por tanto brilho, deu ouvido aos
embustes aventureiros, maculando o seu nome na ingratidão para com os
servidores leaes.
De novo casára em Alcacer do Sal (30 d’outubro de 1500) e passados dois
annos a successão do throno estava assegurada pelo nascimento do principe
D. João. Além d’este, oito filhos lhe garantiam a independencia da corôa:
D. Izabel, esposa do imperador Carlos V; D. Brites, duqueza de Saboya; D.
Luiz, duque de Beja, poeta distincto e discipulo do grande mathematico
Pedro Nunes; D. Fernando, duque da Guarda, que casou com D. Guiomar
Coutinho, herdeira do conde de Marialva; D. Affonso, que foi cardeal,
bispo de varias dioceses e arcebispo de Lisboa; D. Henrique, cardeal,
arcebispo e mais tarde rei; D. Duarte, duque de Guimarães, casado com
D. Izabel de Bragança, filha do duque D. Jayme e pae de D. Catharina,
esposa de seu primo o duque D. João I, d’onde proveio á casa de Bragança
o direito de successão por morte do cardeal rei.
Extremoso chefe de familia, sem ter amante nem bastardo, doido pela
mulher que foi um anjo do lar, a morte arrebatou-lh’a (7 de março de
1517), volvidos dezesete annos de íntima convivencia.
Estava vago o logar que assegurava a Portugal a amizade de Castella.
Cumpria prehenchel-o novamente, e D. Manuel, como homem pratico e
politico habilissimo, incumbiu-se d’esta missão. Viuvo e saudoso da
esposa que perdêra, o filho do infante D. Fernando, o obscuro duque de
Beja, chamado á corôa por um acaso feliz, raro na Historia, o monarcha
senhor de meio mundo, o rei de vassallos tão illustres quão sabios e
leaes, determina um bello dia abdicar no primogenito e ir-se ao Algarve,
como Fronteiro Mór, guerrear os sectarios de Islam.
Porém, o piedoso intento só se realisaria consummado o matrimonio do
principe com D. Leonor d’Austria, filha de Joanna _a louca_ e de Filippe
I de Castella.
Recusada a proposta de D. João, que se achava embeiçado em amores
desiguaes,[33] D. Manuel cumpriu a palavra dada desposando a princeza que
destinára ao filho. O consorcio realisou-se no Crato (24 de novembro de
1518).
No contracto lavrado a 16 de julho do mesmo anno ficou tratada a dotação
da nova soberana, que entraria na posse da Caza das Rainhas logo que
fallecesse D. Leonor de Lencastre, viuva de D. João II e irmã d’el-rei D.
Manuel.
Leonor d’Austria tambem tem a fronte aureolada pelos louros do martyrio.