Durante este desterro, a princeza mostrou-se digna da terra

AS DONATARIAS DE ALEMQUER

Historia das Rainhas de Portugal e da sua casa e estado

J. P. FRANCO MONTEIRO

AS

DONATARIAS D’ALEMQUER

_Historia das Rainhas de Portugal

e da sua casa e estado_

com uma carta-prefacio

POR

OLIVEIRA MARTINS

[Illustration]

LISBOA

M. GOMES—EDITOR

LIVREIRO DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS

_Rua Garrett (Chiado) 70-72_

1893

Typ. Castro Irmão

A MEU PAE

Ill.ᵐᵒ e Ex.ᵐᵒ Sr.

A sua muito obsequiosa deferencia reclama de mim umas palavras para

acompanhar perante o publico o livrinho com que V. Ex.ᵃ vem sentar praça

n’este batalhão das letras patrias, desmantelado como quasi tudo que é

portuguez. Ahi vae satisfeito o seu desejo. Não carecia d’este adminiculo

a sua obra, para ser acolhida por todos com a benevolencia devida aos

bons intuitos; e que o necessitasse, não era decerto eu o competente para

lhe assignar o passaporte da viagem. Estas linhas não são portanto mais

do que o agradecimento da sua nimia deferencia para commigo.

Algures diz V. Ex.ᵃ no seu livro que a parte local d’elle está só no

titulo. É o que eu sinto. _As donatarias de Alemquer_ são as rainhas de

Portugal a que V. Ex.ᵃ, ampliando por vezes os trabalhos de Figanière

e do sr. Benevides, escreveu uma serie de biographias summarias. É

excellente para provar a mão; e a maneira como deu conta do trabalho

prova serem estas paginas as primicias de um escriptor.

Não desanime, portanto. É moço, e tem em si o que vale mais do que tudo:

a vocação, a quéda irresistivel para o estudo, e o dom de imprimir

fórma communicavel ao seu pensamento. Trabalhe pois; moireje e rumine.

Folheie e decifre muito papel velho. Deixe-se arrastar pela curiosidade.

Desconfie dos planos geraes e syntheticos, atraz dos quaes muito boa

gente se deixa affogar pelo palavriado, julgando descobrir maravilhas.

O trabalho mais meritorio é nas letras o do cabouqueiro, por isso mesmo

que não dá que fallar. É sómente, porém, esgaravatando rijo no chão, que

se encontram diamantes.

Como vê, não o lisongeio. É o triste condão de quem chega á minha edade

poder fallar aos moços em nome da experiencia propria. Não me leve, pois,

a mal estas curtas observações, que eu não faria decerto se julgasse

serem tempo perdido.

Dando-lhe cordiaes parabens pela sua estreia que o publico ha de

apreciar, como é dever, consinta V. Ex.ᵃ que me assigne

Seu

M.ᵗᵒ Obr.ᵒ V.ᵒʳ

_Oliveira Martins_

Casa de V. Ex.ᵃ

25 de março

ADVERTENCIA

No seu principio, as _Donatarias_ foram uns simples artigos de

_dilletantismo_ litterario, não se concebendo ainda o plano d’um volume.

Destinadas á publicação em periodico, accommodei-as ao pequeno espaço que

me dispensava um dos mais honrosos jornaes da capital; porém, estimulado

pelo favor e cortezia dos collegas, foi-se desenvolvendo o pensamento,

chegando emfim ao projecto de as colleccionar em separado.

É o que faço hoje, não lhe alterando a fórma primitiva; corrigindo-as

em parte, mas não lhe transtornando o molde, por lealdade, talvez

exaggerada, ao meu primeiro pensamento.

Tambem não quiz mudar de titulo, que parece de uma obra local—feição esta

que se encontra um tanto accentuada na primeira dynastia.

Como vi a luz n’uma aldeia do concelho d’Alemquer, entendi que bem

proprio era o meu primeiro livro ser dedicado á terra que me foi berço.

Começa-se a amar a Patria amando os campos e as flores do nosso lar; é

ahi que desabrocha o sentimento civico, é ahi que se enraiza a adoração

por todo o conjuncto ligado n’uma homogeneidade de sentimentos, de

linguagem, d’aspirações e de crenças, que fórma o Paiz.

Além d’isso, Alemquer desempenhou na Historia portugueza um papel

importante, embora hoje esteja reduzida ás suas tradições e ao movimento

industrial das fabricas, que actualmente lhe tornam conhecido o nome,

que, sem essa circumstancia, estaria de todo olvidado.

Outr’ora capital da Casa das Rainhas, villa predilecta das soberanas, que

nas suas muralhas encontravam defeza leal, que nos seus montes e nos seus

vergeis buscavam o desenfado da vida cortezã, é justo que essas memorias

hoje sejam invocadas[1] por quem nasceu no seu termo, por quem viu ao

despontar da vida, as ruinas do velho castello que Affonso Henriques

tomou aos mussulmanos e que D. João I destruiu como padrão d’ingloriosas,

ainda que valentes recordações!

Aconselharam-me que ampliasse o livro e o intitulasse—_A Casa das

Rainhas_; era mais genérico, mais vasto e exigia ligeiro trabalho...

Reagi, conhecendo a justiça do conselho, pelos motivos que acima expuz,

despretenciosamente, sem outros calculos que não sejam os da lealdade do

sentimento.

Procurei julgar os diversos personagens que menciono, conforme o meu

sentir os define. Na philosophia da Historia, o leitor me julgará,

porque quem escreve é um reu que tem de sujeitar-se ás impressões que

suggeriu aos cultos e até aos incultos. Ahi é que o historiador sobrepuja

o erudicto na manifestação da sua intellectualidade. Isto não é julgar-me

a mim proprio. Digo-o em geral, como regra assente. O erudicto busca,

trabalha, cansa-se a procurar nos escaninhos dos archivos o pergaminho

desejado. Não o impelle a sua philosophia, mas sim as suas aspirações;

porém, ao resolver do problema, nos mostra na critica do documento

achado, os dotes da sua intuição, revela-nos bem qual é a grandeza da

sua alma, qual a força do seu raciocinio. Entretanto, sem erudictos

não poderia haver philosophos; uns completam os outros, no ideal dos

que escrevem a Historia:—mostrar aos presentes, para sua licção e dos

futuros, o que foram os passados, o rigor dos seus defeitos e a suavidade

de suas virtudes.

Alicerce da minha vida litteraria, as _Donatarias_ vêem a luz sem

pretenções, mas com o apoio favoravel d’um dos nossos primeiros

escriptores, que obsequiosamente, se promptificou a prefacial-as.

Agradeço-lh’o com legitimo orgulho; bem como servir-me-hei das suas

palavras, como incentivo tenaz para o trabalho que mesmo que não traga

gloria, sempre traz proveito.

Egualmente me confesso reconhecido aos srs. dr. Xavier da Cunha,

conservador da Bibliotheca Publica de Lisboa, e José Manuel da Costa

Basto, director do Archivo da Torre do Tombo, pelos bons serviços com que

me brindaram no decurso das minhas buscas investigadoras.

_Franco Monteiro_

Cortegana, março de 1893.

A CASA DAS RAINHAS

(NOTICIA SUMMARIA)

Para sustento de suas consortes costumavam os antigos reis doar-lhes o

rendimento de algumas villas, juncto a varias attribuições civis que

variavam conforme a confiança que o soberano depositava na esposa.

Em 1188 Sancho I tencionou visitar a Palestina; na duvida de succumbir na

empreza, doára a sua mulher a rainha D. Dulce os rendimentos de Alemquer,

Terras do Vouga, do Porto e de Santa Maria; mas, retirada a idéa da

jornada, não se sabe se D. Dulce continuou a usufruir os bens testados,

ou se elles voltaram para a corôa.

O sr. visconde de Figanière no seu explendido livro _Memorias das Rainhas

de Portugal_, pag. 63 e 64, quasi que affirma que esta senhora foi

donataria de Alemquer; Francisco da Fonseca Benevides nas _Rainhas de

Portugal_ (1.ᵒ vol. pag. 36 e 104) segue o mesmo caminho. Entretanto, são

simples conjecturas as opiniões dos dois illustres e sabios escriptores.

Que D. Dulce possuiu propriedades no termo de Alemquer, é innegavel;[2]

assim como possuiu na Beira varias fazendas ao sul do Mondego;[3] mas que

tivesse o senhorio d’esta villa, não é certo, embora com probabilidades.

A D. Dulce succedeu D. Urraca, esposa de seu filho Affonso II; esta

princeza teve os senhorios de Torres Vedras, Obidos e Lafões, existindo

na Torre do Tombo um documento em que o herdeiro de D. Sancho regula a

applicação dos rendimentos de D. Urraca. Notamos que Torres Vedras e

Obidos são vinculadas na casa das Rainhas, e como da mulher de D. Affonso

II existem provas de haver casa propria, não nos parece fóra de razão

enumeral-a como a primeira _senhora_ (não _proprietaria_) de terras.

De D. Mecia Lopes de Haro não ha noticia que viesse a possuir quaesquer

villas em Portugal; porém D. Beatriz de Gusmão teve Torres Novas,

Alemquer e Torres Vedras, que lhe foram doadas por seu esposo, D. Affonso

III, sendo-lhe mais tarde concedido o padroado d’estas villas. Santa

Izabel, mulher del-rei D. Diniz, recebeu em dote Abrantes, Obidos e Porto

de Moz, por carta d’arrhas dada em 24 d’abril de 1281.[4] Mais tarde

teve os castellos de Villa Viçosa, Monforte, Cintra, Ourem, Feira, Gaia,

Lamoso, Nobrega, Santo Estevão de Chaves, Monforte de Rio Livre, Portel e

Monte Alegre; sendo esta concessão ampliada com varias rendas em dinheiro

e com as villas de Leiria e Arruda (1300), Torres Novas (24 de junho de

1304)[5] e Athouguia (19 de outubro de 1307). Possuiu além d’isso os

reguengos de Rebordãos, de Gondomar, de Çodões; a Quinta de Fandega da

Fé, em Torres Vedras e a leziria d’Atalaya.

Não ha documentos que affiancem que Izabel d’Aragão possuisse Torres

Vedras e Alemquer; no que diz respeito a esta segunda villa, o amor que

a rainha sempre lhe consagrou, leva-nos a suppor que de facto fosse sua

proprietaria.

Depois de Santa Izabel apparece-nos D. Brites, esposa d’el-rei D. Affonso

IV. Esta soberana nasceu no Toro (1293), sendo filha de Sancho IV de

Castella e da rainha D. Maria de Leão. Casou a 12 de septembro de 1309

com o infante D. Affonso, que mais tarde, por morte de seu pae (7 de

janeiro de 1325), succedeu na corôa portugueza.

Em 23 d’outubro de 1321 D. Diniz confirmou-lhe a doação que o marido lhe

havia feito (20 de outubro do mesmo anno) da villa de Vianna do Alemtejo,

com todos os poderes civis e criminaes. O mesmo seu sogro deu-lhe em

arrhas Evora, Villa Viçosa, Villa Real, Gaia e Villa Nova, sendo estas

duas ultimas trocadas por Cintra (26 de maio de 1334) com todos os seus

pertences.

Teve varias herdades em Santarem, que pertenceram a Fernão Sanches; e

a leziria d’Atalaya (5 de novembro de 1337).[6] Em 7 de junho de 1357

el-rei D. Pedro I, para lhe mostrar o seu amor filial, fez-lhe mercê

de Torres Novas. D. Beatriz de Castella procurou imitar Santa Izabel

no exercicio da caridade; legou muitas rendas a estabelecimentos pios,

influiu por destruir o antagonismo entre Affonso XI de Castella e Affonso

IV de Portugal, e o resentimento de seu filho D. Pedro para com o pae, o

infame assassino de Ignez de Castro. Falleceu esta rainha em Lisboa, e

jaz sepultada na sé da mesma cidade.

D. Constança Manuel, primeira mulher de D. Pedro I, teve em arrhas as

villas de Montemór-o-Novo, Alemquer e Vizeu. D. Leonor Telles, esposa de

D. Fernando, foi presenteada por seu marido com Villa Viçosa, Almada,

Cintra, Alemquer, Abrantes, Sacavem, Torres Vedras, Obidos, Athouguia,

Aveiro, reguengos de Sacavem, Frielas, Unhos, e Terras de Meréles.

Esta carta de arrhas foi dada em Eixo, aos 5 de janeiro de 1372.[7]

Passados dois annos fez-se a troca de Villa Viçosa por Villa Real de

Traz-os-Montes, onde D. Leonor exerceu toda a jurisdicção. A 20 de março

de 1376 a seductora do mallogrado soberano de Portugal ainda teve artes

de adquirir Pinhel.

D. Filippa de Lencastre, mulher de D. João I, dotou-se com as rendas da

Alfandega de Lisboa, da portagem e do paço da Madeira e com as villas de

Alemquer, Cintra, Obidos, Alvayazere, Torres Novas e Torres Vedras.

D. Leonor d’Aragão recebeu em arrhas de seu marido trinta mil florins de

ouro de Aragão, e por hypotheca Santarem com todos os seus rendimentos.

Em 1453 D. Duarte doou a sua esposa Alvayazere, Cintra e Torres Vedras,

vindo mais tarde a possuir outras terras da rainha sua sogra. D. Isabel

de Lencastre, filha do grande infante D. Pedro, o das _Sete Partidas_,

foi donataria de todas as villas da sua predecessora. D. Leonor de

Lencastre, além d’estas mesmas villas, teve por doação de seu marido

D. João II as cidades de Silves e Faro e as villas de Aldeiagallega e

Aldeiagavinha, tendo tambem Caldas, de que foi fundadora. Desde esta

epocha ficou constituida a _Casa e Estado das Senhoras Rainhas de

Portugal_.[8]

Tinham as augustas esposas dos nossos soberanos a faculdade da nomeação

dos empregados do fisco, os recebedores das rendas, das patentes

d’officiaes, etc., ficando o senhorio eminente na posse da corôa.

D. Luiza de Gusmão instituiu (16 de julho de 1643) um _Tribunal da

Fazenda da Casa e Estado das Senhoras Rainhas_, que a administrou até que

o alvará de 25 de janeiro de 1770 transmittiu o seu governo para o Erario.

Foi este o primeiro golpe na Casa das Rainhas, de todo extincta por

decreto de 9 d’agosto de 1833.

AS DONATARIAS DE ALEMQUER

D. Dulce

Morto Affonso Henriques, em 1185, succedeu-lhe no throno seu filho Sancho

I, que ao tempo contava trinta e um annos de edade.

Achára traçadas as linhas da monarchia portugueza pela espada e pela

politica do pae, continuando a sua obra com a tomada de Silves, a

primeira tentativa da conquista do Algarve, mais tarde gloriosamente

seguida por seu neto Sancho II e só ultimada por Affonso III, graças ao

valor incomparavel de D. Paio Peres Correia.

Sancho I foi digno predecessor de D. Diniz e de D. Pedro, o _cru_, na

administração interna do paiz. Tendo outros horizontes que não só os da

guerra, tomou a hombros o povoar as praças e logares conquistados, em

proteger a agricultura, tanto quanto lh’o permittia essa edade média

bulhenta, que vivia da conquista e tinha por unico objectivo a gloria da

cruz e o engrandecimento do territorio.

Ainda na vida do pae (1175), ligára-se o principe a D. Dulce de Aragão,

filha de D. Ramon Berenguer, decimo quinto conde de Barcelona e de D.

Petronilha, rainha do Aragão, filha de Ramiro, o _monge_. Longos e

abençoados foram os fructos d’este consorcio; D. Dulce deu á luz onze

filhos, entre os quaes trez filhas se elevaram aos altares.

Depois de vinte e tres annos de casada, a rainha succumbiu em Coimbra

(primeiro de septembro de 1198), sendo sepultada em Santa Cruz.

Apesar de não haver documentos que provem que esta princeza foi senhora

de Alemquer, auctores ha que a têem como tal, parecendo corroborar esta

opinião o facto de seus bens serem repartidos pelas filhas (D. Constança,

D. Thereza, D. Sancha, D. Mafalda, D. Branca e D. Berenguella) e ser D.

Sancha possuidora da villa.

Não nos embrenharemos na discussão d’este assumpto embora estejamos

convencidos do contrario (permitta-se-nos dizel-o), apesar do senhorio

de D. Sancho e da rainha possuir terras n’este concelho, segundo

julgamos, proximas á quinta da Condessa.

No emtanto, como temos por nullo o nosso sentir, curvaremos a cabeça

ás baseadas affirmações dos mestres, mencionando-a como a primeira

donataria.

D. Sancha

Deve-se escrever com animo grato a biographia d’esta princeza. Sympathica

e boa, religiosa e casta, foi sem duvida um dos grandes premios que a

Providencia destinou ás virtudes da mãe. Possuia a piedade caracteristica

das epochas medievaes, procurando com o cilicio a expiação da carne, que

nunca abandonára o pudor!

Virgem, formosa como sua irmã D. Thereza, a sacrificada esposa d’Affonso

IX, de Leão, predilecta filha do rei _povoador_, a ella o paiz deve

relevantes serviços, porque foi ella a introductora dos franciscanos em

Portugal, que tantos sabios nos deram e tantos beneficios nos prestaram.

D. Sancha tinha por Alemquer uma predilecção especial; fôra-lhe doada

pelo pae, que a enriquecêra com um paço, em que a santa senhora recebeu

os cinco martyres de Marrocos, e onde buscou, muitas vezes, a retirada

residencia, no alto monte, em que á vontade contemplava a maravilhosa

obra do Creador!

D’este paço só resta a chamada _capella de Santa Sancha_, unica reliquia

d’uma das maiores bemfeitoras que tem tido Alemquer.

Lendo a historia, examinando a guerra um tanto justa que Affonso II

moveu ao feudalismo, e em especial ás irmãs, com quem o pae, no seu

testamento, se houve d’um modo liberal de mais, vemos na resistencia de

D. Sancha, não a ambição do poder, nem da fortuna, que sempre desprezou,

mas, talvez, _visionariamente_, o amor á terra de quem ella se teria de

apartar, uma vez expulsa do seu senhorio.

Estas guerras civis tomaram proporções que o rei, se unicamente

fosse dominado pelo desejo da concentração do poder, poderia evitar.

Excommungado pelo pontifice e perseguido pelo soberano de Leão, o

monarcha portuguez encaminhou a contenda para uma via diplomatica.

Enviado a Roma um embaixador, foi o pleito julgado por dois abbades de

Cistér, que condemnaram D. Affonso a uma multa extraordinaria, para

satisfazer as custas da peleja encetada por elle.

Não se conformando com a sorte, foram os castellos entregues aos

templarios, como depositarios e administradores dos bens. O papa morreu;

rixas intestinas entre o clero e a corôa portugueza interromperam a

demanda, que ficou por decidir no reinado d’Affonso II, fallecido a 25

de março de 1223. Succedeu-lhe seu filho D. Sancho II, rei illustrado e

valente, mas de todo infeliz. Este monarcha acabou o litigio com as irmãs

de seu pae, não só por conveniencias, mas por decencia.

_Era uma vergonha_ a desharmonia da familia real; e o chefe, reprovando

no seu intimo a generosidade do avô, cedeu ás imposições do mundo... nem

parecia da edade média.

Combinou-se que as donatarias prestassem homenagem ao soberano e

contribuissem com gente para a hoste real, obrigando-se o rei a

defender-lhes a propriedade.

Como dissemos, D. Sancha residiu algumas vezes em Alemquer, até que,

movida do seu instincto religioso, professou no mosteiro de Cellas, onde

falleceu em 13 de março de 1229. Jaz em Lorvão.

O senhorio da villa passou á irmã, _D. Thereza_, esposa do rei de Leão,

D. Affonso IX, de quem se separou por motivos de parentesco. Recolhida

a Portugal, fez-se monja em Lorvão, fallecendo n’este mosteiro a 17 de

junho de 1250.

No reinado de D. João V foram estas senhoras beatificadas pelo Papa

Clemente XI; os seus corpos trasladaram-se, com pompa digna do Salomão

portuguez, para o altar mór da egreja onde ambas jaziam.

Depois d’estas princezas, passou Alemquer para o dominio das rainhas.

Só mais tarde D. Izabel de Lencastre, filha d’el-rei D. João I, teve o

senhorio da villa por successão a sua mãe, D. Filippa, até que D. Leonor

d’Aragão, esposa de D. Duarte, tomou posse da terra que estava destinada

para joia preciosa do diadema brilhante das Soberanas de Portugal.

D. Beatriz de Gusmão

Como fica dito, Affonso II falleceu em 25 de março de 1223. Subira ao

throno pela morte de seu pae, o rei D. Sancho (27 de março de 1211), de

quem foi herdeiro, conforme o direito de primogenitura.

Ainda infante, casou com D. Urraca, filha de Affonso VIII, de Castella, e

de D. Leonor, filha de Henrique II, rei d’Inglaterra.[9]

D’este consorcio nasceram quatro filhos: Sancho, que herdou a corôa e foi

o segundo no nome; Affonso, que casou em França com Mathilde, Condessa de

Bolonha; Leonor, esposa de Valdemaro III, de Dinamarca; e D. Fernando, o

_infante de Serpa_, desposado de D. Sancha de Lara, filha do Alferes-mór

de Castella.

O Conde de Bolonha foi o primeiro principe que deu exemplo de perfidia

na corôa portugueza. Instrumento e ao mesmo tempo alma dos magnates que

depozeram D. Sancho (1245), por não lhe servir as ambições, negando

a politica do avô, investira o poder depois de exilado o irmão,

conquistador valeroso, a quem a patria, mesmo depois de seiscentos annos,

só tem dispensado palavras vãs, recusando-lhe quatro palmos de terra no

pantheon dos monarchas![10]

Póde ser que nos ultimos tempos do seu governo D. Sancho cedesse á

amante a vontade de rei; póde ser—e foi—que o soberano, inebriado pelos

fascinadores olhares de Mecia, olvidasse a justiça e o bem do seu povo;

mas Juromenha, Serpa, Aljezur e Ayamonte, praças que tomou ao islamismo,

mereciam melhor recompensa que a proscripção e o exilio em Castella.

Que tempos os medievaes! No castello de Coimbra, depois do osculo de

mais intenso amor; depois de mutuas juras de fidelidade, passadas as

scenas que tornam celestial o remanso do lár, um vulto de guerreiro

assoma á camara real. Approxima-se D. Mecia, contempla o marido, que

dorme, e, tão bella como perfida, lança-se nos braços de Raymundo Viegas

de Portocarrero, cavalga o fogoso corcel do raptor, e amparada no corpo

do cavalleiro, que a roubára pela politica do infante bolonhez, penetra

os muros d’Ourem, onde esforços do apaixonado D. Sancho não conseguem

escalar!

Abandonado pela mulher a quem confiára o seu coração, perseguido

pelo clero que o intrigava na Curia, deposto pelo proprio Pontifice,

refugiou-se em Toledo, onde falleceu aos 4 de janeiro de 1248. Conhecida

a sua morte, o conde de Bolonha tomou o titulo de rei. Este soberano

para quem a historia só encontrou o cognome de _bolonhez_, apezar de

ter conseguido a libertação do Algarve, foi tão perfido com a condessa

Mathilde, como traidor ao irmão.

Desprezada a esposa, Affonso III, em 1253, contrahiu segundas nupcias com

D. Beatriz de Gusmão, filha bastarda d’Affonso X, de Castella, e de D.

Maria Guillen de Gusmão.

Embora fosse o primeiro coito damnado que se sentou no throno, D. Brites

foi um anjo de paz como a sua successora, Santa Izabel. Ella serviu de

medianeira quando a guerra rebentou entre Castella e Portugal, e mais

tarde Affonso X, desthronado pelo herdeiro ambicioso, encontrou na filha

um thesouro de virtudes, unico lenitivo no meio da desgraça.

O marido, que a idolatrava, fez-lhe doação d’Alemquer, em 1267.[11] A

estima de Affonso III demonstra a importancia que a villa então possuia,

pois é licito acreditar que a generosidade do rei condissesse com o amor

consagrado á esposa. Dezesete annos estivera Alemquer annexa á corôa,

encontrando na mercê do monarcha uma donataria virtuosa, digna herdeira

de D. Dulce e de suas filhas, D. Sancha e D. Thereza. Mas para a terra

em si, embora as suas virtudes lhe servissem d’ornamento, materialmente

nada lucraria, se a rainha só cuidasse de receber as rendas, deixando no

olvido os beneficios com que a poderia dotar. Não foi assim; D. Brites

alcançára do esposo (28 de junho de 1277)[12] o padroado das egrejas e

capellas do seu senhorio, e, conscia do cumprimento dos deveres, deu

principio á construcção da egreja de S. Francisco, onde outr’ora foram os

paços reaes, em que Santa Sancha recebeu os cinco martyres de Marrocos.

Acanhado e pequeno o primitivo templo, começou-se a obra da nova egreja,

em 1280. Não a poude vêr concluida a rainha, que falleceu em 7 d’agosto

de 1300, e a egreja só foi sagrada cinco annos depois. No emtanto, seu

filho, el-rei D. Diniz, continuou, dignamente, o empenho da mãe, como o

attesta a seguinte inscripção:

_Esta igreja fundou

A muy nobre rai(nh)a Dona

Beatr(ix) e acabou a o muy jostiçoso

seu filho nobre

Rey de Port(ugal) comprido de vertude

Do(m) Denis_[13]

Santa Izabel

Tres annos após o fallecimento de Affonso III (16 de fevereiro de 1279),

seu filho, o rei D. Diniz, tomou por esposa a D. Izabel de Aragão, filha

de D. Pedro, o _grande_, e de D. Constança de Napoles. O consorcio

realisou-se em 24 de julho de 1282, nascendo, passados oito annos, a

infanta D. Constança, desposada de Fernando IV, rei de Castella, e logo

depois (8 de fevereiro de 1291) viu a luz o herdeiro, Affonso IV, cuja

ambição tanto alanceou a rainha sua mãe.

Exactamente como de D. Dulce, não existem documentos que provem o dominio

d’esta senhora na villa d’Alemquer; mas a sua residencia aqui, os seus

beneficios á terra que foi apanagio das rainhas, leva-nos a contal-a

entre as donatarias, enchendo-nos de orgulho por possuirmos uma senhora

tão grande.

Perseguida e intrigada, como todas as almas virtuosas e nobres, soube

impôr o seu vulto á calumnia, incutindo uma veneração no espirito do

marido, que a perfidia não conseguiu debellar.

Convencido o rei de que sua mulher subsidiava o filho nas revoltas que

o ciume e ambição lhe movera, ordenou a D. Izabel que se recolhesse em

Alemquer, onde esteve algum tempo.

Durante este desterro, a princeza mostrou-se digna da terra que lhe dera

hospitalidade. Fixou residencia nos novos paços que Santa Sancha erigira

depois de transformar os antigos em recolhimento da ordem seraphica. Ali

surgiu-lhe á memoria as virtudes e os feitos da bemaventurada fundadora,

e, ardendo-lhe o peito em caridade, transformou o palacio em albergaria,

onde poisavam os forasteiros e se acoitavam os doentes.

Não contente com isso, levantou a egreja do Espirito Santo, junto aos

paços, creando-lhe duas festas annuaes e doando-a aos alemquerenses; mas,

como o fogo da caridade a obrigava a ir mais além, instituiu na egreja de

Santo Estevão umas mercieiras para subsidiar doze viuvas de boa nota,

com obrigação de ouvirem missa diaria pela alma da fundadora.

Abalados os restos da antiga piedade, em 1834, acabou esta pia

instituição, e a incuria, ligada ao vandalismo, destruiu o templo mais

antigo de Alemquer, edificando no seu logar uma escola primaria. Vamos

com Deus...

Temos por desnecessario descrever as virtudes domesticas da esposa do

illustrado e sabio rei D. Diniz; são ellas bem conhecidas e apreciadas

por todos, que não regateiam a Santa Izabel o logar proeminente entre as

rainhas de Portugal.[14]

D. Constança

Santa Izabel falleceu aos 4 de julho de 1336, e, quatro annos depois, foi

Alemquer doada a D. Constança, malograda esposa de D. Pedro, _o cru_.

Era filha, a Infanta, do Principe de Vilhena, D. João Manoel e de sua

primeira esposa, D. Constança; bisneta de D. Fernando; _o santo_, rei de

Castella, e neta materna de D. Jayme II d’Aragão.

O monarcha castelhano, comprehendendo a politica do astuto visinho,

oppoz-se á sahida da princeza, tolhendo-lhe a passagem pelo seu

territorio. O portuguez declarou-lhe guerra, e, se não fossem Roma e

França, esta contenda seria prolongada e inutil, porque o capricho do

castelhano e as forças de Affonso IV eram indomaveis.

Acabada a pendencia, graças á intervenção estrangeira, entrou D.

Constança no paiz de seu marido.

Foi pouco duradouro o consorcio; a princeza, poucos annos depois, exhalou

o ultimo suspiro, sendo sepultada em Santarem.[15]

Viera acompanhada de brilhante sequito de damas, resplandecendo entre

todas a peregrina Ignez de Castro, a quem D. Pedro immolou o coração.

Talvez que na morte da desgraçada senhora os olhos do esposo brilhassem,

ao encontrarem-se com os da formosa Ignez! Talvez que a esposa, no leito

de dôr, não sentisse ao seu lado o palpitar ancioso do coração do marido,

que suspirava de jubilo por ver surgir no horisonte o momento feliz de

poder, mais á vontade, chamar sua áquella que _só_ amava!...

Tudo póde ser! mas, se assim foi, a hora da justiça soou tremenda e

lugubre, quando a felicidade deslizava tranquilla por entre aquelle amor

louco, immenso, incomparavel!

Não se póde fixar quando começaram as relações de D. Pedro com a dama

de sua mulher; o supposto casamento é datado de 1354, tendo o principe

quatro filhos. Um anno depois, a politica regia desfazia criminosamente

este amoroso idyllio.

A tragica morte de Ignez é de sobejo conhecida. Camões a cantou em

estrophes immortaes, traduzidas em todas as linguas. O vulto da

desventurada apparece-nos como visão, na adolescencia, quando o nosso

pensamento começa a divisar um novo ideal, quando o peito anhela um novo

sentir, e o espirito, sahido da infancia, ao levantar-se para o céo

é acompanhado de uma ideia vaga e forte, poetica e doce, pura como a

castidade d’um seraphim. Tal é o amor ao principio!

Entrado no mundo, o homem, corrupto pela força das circumstancias,

folheia o livro do passado, detem a vista sobre o começo da sua

existencia viril e analysa esses ideaes crystallinos, sente no peito

uma commoção triste, mas risonha, doce, mas dolorosa, que só nós, os

portuguezes, sabemos bem definir—é a saudade!

Não que a carne ainda retenha o mesmo prisma; a mulher desapparece como

o meteóro, mas o que fica arreigado ao coração, é a innocencia bonançosa

que torna o espirito, amante sim, mas ao abrigo de Deus...

D. Affonso IV escolheu epocha propicia (7 de janeiro de 1355) para a sua

fatidica empresa. Estavam desfolhadas as arvores: caudaloso o Mondego,

espelho d’aquella ternura sem egual; brancos os cumes dos montes; o sol,

defendido pelos negros torreões de nuvens, não quiz, condoido e triste,

presenciar o espectaculo.

Dentro de seus paços, nos aposentos de uma fraca mulher, dois assassinos

a apunhalavam com barbaridade sem parceiro na historia. Animava-os a

politica do rei e o espirito da defunta Constança. Estava vingado o seu

ciume.

D. Leonor Telles

Duzentos e vinte cinco annos eram decorridos desde que Affonso I se

ligára á virtuosa Mafalda de Saboya (1146-1371), e n’este longo periodo

não houve uma unica soberana que manchasse a purpura com o labéo da

devassidão.

Só D. Mecia destoára um pouco das suas predecessoras; no entanto o papel

impudico só o representou como comedia.

Foi preciso que no throno se sentasse o filho d’um monarcha justiceiro,

respeitador do lar e da honra de seus vassallos, para que esse brazão de

perto de trez seculos fosse eclypsado pelo desbragamento mais devasso.

Pedro I espumava de raiva quando o thalamo era profanado. Constante na

sua louca paixão, o vulto d’Ignez nunca lhe abandonou a existencia.

Via-a quando açoutava o salteador e quando queimava o adultero; a imagem

d’ella fortalecia-lhe o pulso e animava-lhe a fogueira.

D. Fernando, esse tinha um pensar inteiramente opposto. Tratára o

consorcio com D. Leonor d’Aragão, na esperança de dominar Castella,

guerreando a posse d’aquella monarchia a Henrique II.

Mais tarde esqueceu-se do contracto e escolheu por esposa a outra

Leonor, filha do seu rival. Tambem faltou a esta promessa. O caracter

rijo do pae, herdára-o unicamente o bastardo; os outros bandearam-se em

Castella, e o herdeiro, embora possuisse boas qualidades administrativas,

não passou de um ambicioso, covarde, sacrificador do paiz ao seu amor

adultero.

Ainda mulher alguma soubera impressionar verdadeiramente aquelle homem.

Fôra frascario, mas amor propriamente dito jámais o perseguira. Era bello

e era rei, e a lascivia, na edade media, não tinha os fóros de vicio—era

um costume.

Vira Leonor Telles quando o marido, cançado da monotona vida de

provincia, partiu para Lisboa, cioso de ver os ouropeis da realeza e

o faustoso brilho da côrte. No peito do rei o coração ardia-lhe e no

cerebro forjavam-se-lhe mil idéas pouco lisonjeiras para elle e pouco

honrosas para o senhor de Pombeiro; mas não passou, ao principio, de

idyllios imaginarios.

D. Leonor percebeu-o. Os olhos são uns espias preversos em casos d’amor,

e por mais que fizesse, o rei não deixava de a contemplar.

Ella retrahia-se. Na sua alma damnada brotou o pensamento que a

honestidade poderia servir de degrau para o throno. Talvez até se

recostasse na fronte do esposo, para mais exasperar a paixão do pobre

soberano!

Afinal, D. Fernando abandonou a timidez—sempre a ha quando o coração

sente.—Receava magoar a _honra_ d’aquella mulher. Poz de parte o receio;

mas, como ainda lhe ficassem restos, não se lhe dirigiu, fallou com a

irmã, chorou aos pés de Maria Telles, supplicou-lhe que advogasse aquelle

amor louco, que o faria abandonar a corôa se preciso fosse. Movida D.

Maria de tão instantes rogos, procurou convencer a irmã. Convencida

estava ella ha muito, desde que farejára os olhares do rei. Não o amava,

mas endoudecera-a a perspectiva da realeza—d’um modo legitimo, bem

entendido. Barregan d’el-rei... nunca; esposa, isso sim.

Lisboa alvoraçou-se com a nova.

Todos, á uma, estranharam o procedimento do filho do saudoso D. Pedro.

A cidade resolveu representar n’este sentido nomeando seu interprete o

alfaiate Fernão Vasques, a quem D. Fernando assegurou ser falso o boato.

Socegaram os animos.

Entretanto a côrte partiu para o norte do reino, e ao chegar a Leça do

Bailio (1371), el-rei apresentou Leonor Telles, em publico, como sua

mulher.

Desligára-a de João Lourenço da Cunha, pretextando motivos de parentesco,

e no logar do Eixo (5 de janeiro de 1372) lhe doou Alemquer e seus

pertences.

Principia aqui a mais nojenta tragedia da historia de Portugal. Leonor

Telles foi o Alcacerquibir da dynastia de Borgonha. Começára esta em

Affonso Henriques, o valente fundador da nossa nacionalidade, acabára em

D. Fernando, o fraco apaixonado de uma Messalina! Succedeu-lhe o Mestre

d’Aviz, o reorganisador da nação, equiparando Aljubarrota a Ourique.

Germen da nova dynastia, teve fructos dignos de si e de seus passados:

D. Duarte, sabio como D. Diniz; D. Affonso V, patriota como Sancho

II; D. João II, politico e justiceiro como D. Pedro I; e D. Sebastião

(coincidencia notavel) amante da gloria, como D. Fernando o fôra de uma

mulher, arrastou o paiz aos areaes da Africa, como este o arrastára á

perdição infallivel, nas graças seductoras da sua amada!

O decorrer dos seculos ainda não poude absolver os crimes d’esta soberana.

O seu reinado é uma scena continua d’adulterios e de assassinios.

Invejosa por natureza, convenceu seu cunhado, o Infante D. João, de que

a mulher d’este (a D. Maria Telles que lhe approximára a corôa) lhe

commettia infidelidade. Cioso, o principe matou-a. D. Leonor respirou;

assim desfez o seu receio, porque temia a morte do marido e via com

inveja que o throno seria occupado pela irmã e pelo infante, querido do

povo, como filho d’esse rei de que elle conservava saudosa memoria.

O susto que a movêra a mais uma infamia, realisou-se no dia 22 d’outubro

de 1383, epocha em que falleceu D. Fernando, aos trinta e oito annos

d’existencia, talvez a mais amargurada e com certeza a mais vergonhosa de

todos os nossos monarchas.

Depois da sua morte, a viuva assumiu a regencia, fazendo logo acclamar

sua filha D. Beatriz, casada com D. João de Castella. Reinava emfim!

Podia livremente fazer o que lhe aprouvesse, sem falsificar as firmas de

ninguem; escusava de se valer dos seus dotes para obter uma vingança ou

uma desforra. Ella era o poder supremo, grande, inegualavel!

Odiava Lisboa, e a cidade pagava-lhe na mesma moeda. Toda a gente sabia

da _privança_ do Conde Andeiro; revoltaram-se e convidaram o bastardo de

D. Pedro, o Mestre d’Aviz, para assassinar o _valido_. Consumado este

acto, D. Leonor recolheu-se em Alemquer, fiada na lealdade do povo e na

fortaleza das muralhas. Foi a primeira vez que se lembrou do seu senhorio!

D. João mandou á villa dois embaixadores, a ver se negociava o casamento

com a rainha. Recusada a proposta, o principe cercou-a; mas depois de

varias refregas, veiu a noticia de que o rei de Castella já estava em

Santarem, onde D. Leonor, temerosa, se refugiára. A maior parte dos

sitiantes tinha abandonado o seu posto. Todos temiam o estrangeiro,

quando os habitantes, lealissimos portuguezes, declaram, ao saber-se da

entrega do reino, que punham as suas vidas ao serviço da independencia.

No emtanto, a força subjugou-lhes a vontade, e o castelhano penetrou

nas muralhas, arvorando a sua bandeira. Sciente o Mestre do occorrido,

embarca no Tejo com varias forças e vem-lhe pôr novo cerco.

Houveram então valentes combates!

Aquellas encostas foram um vasto campo de batalha; ali pereceram muitas

esperanças, ali se fortaleceu muita valentia, ali se deu um grande passo

para a causa de Portugal.

Como a guarnição era valorosa, tiveram os do Mestre de recorrer ao

prolongado sitio, vendo se assim se rendia.

Foi o que aconteceu a 10 de dezembro de 1384. Mais tarde (janeiro de

1385), a traição de Vasco Pires de Camões obrigou o _Defensor do Reino_ a

faltar aos compromissos tractados na capitulação.

Este, acclamado rei nas côrtes de Coimbra (1385), mandou demolir parte

dos muros d’Alemquer, terra que, pela infamia da viuva de D. Fernando e

pela fatal inclinação do Alcaide, tão pouco sympathica se lhe tornára.

Leonor Telles falleceu encarcerada nas Tordesillas aos 27 d’abril de

1386,[16] talvez arrependida das suas culpas e seguramente convencida de

que o echo da maldade é aborrecido por todos e em toda a parte.

SEGUNDA DYNASTIA

D. Filippa

Como dissemos, D. João de Castella transpozera a fronteira, preparando-se

para cingir a corôa de Affonso Henriques. O paiz achava-se desunido e

fraco, abatido pelo contagio da maldade que de tão alto o enervava; a

nobreza, na maior parte, seguia o castelhano; só o povo se mostrava

contrario ao usurpador e á rainha, que sempre odiára altivamente, apesar

dos laços da forca apertados pelas bellas mas ferozes mãos de D. Leonor.

No entanto, n’este cahos em que Portugal se encontrava, quatro homens

appareceram destinados pela Providencia para a restauração da patria—o

Mestre d’Aviz, João das Regras, Alvaro Paes e Nuno Alvares—quatro vultos

cujos nomes a historia gravou em letras de ouro e a arte na sua linguagem

sublime esculpiu homericamente no mosteiro da Batalha, echo perpetuo

dos vencedores d’Aljubarrota, padrão eterno de uma das maravilhas do

universo, portal da gloria que Camões immortalisou nos _Lusiadas_; que

é e será sempre o santuario do portuguez, romeiro patriota que, como

o mahometano, pelo menos uma vez na vida, se prostra ante o tumulo do

propheta.

O Mestre d’Aviz foi o instrumento da independencia; João das Regras, o

defensor da sua causa; Alvaro Paes, o instigador tenaz e prepotente; o

Condestavel, o general habilissimo que soube vencer os exercitos, como o

advogado soubéra dominar a legislação.

Esta foi a gente que capitaneou a hoste popular, exaltada e patriotica,

symbolo vivo de toda a nobreza de caracter. Juntos, alliando o direito

com a melicia e a diplomacia, venceram o estrangeiro, conservaram a

autonomia e encetaram o progresso no nosso torrão. A posteridade não lhes

foi injusta—honra lhe seja—mas nos tempos de hoje, em que os chatins têem

estatuas, elles dormem tranquillos nos seus tumulos, sem que nas praças

publicas o povo, outrora soldado das suas fileiras, os venere no bronze,

como em vida lhes votou todo o seu amor!

Apezar da nossa decidida abnegação e de termos vencido o inimigo (14

d’agosto de 1385), entendeu D. João I ser conveniente uma alliança

politica; fôra ella tractada com o Duque de Lencastre, João de Gant,

pretendente de Castella e consumado pelo casamento do rei com D. Filippa,

filha do principe inglez, a qual recebeu em dote o senhorio de Alemquer,

Cintra, Obidos, Torres Vedras e outras villas.

O consorcio realisou-se na cidade do Porto (2 de fevereiro de 1387),

debaixo das bençãos dos prelados e dos applausos dos populares, que

adivinhavam uma nova éra para a corôa e para o paiz.

Fóra de duvida, foi mais que vergonhosa a scena do reinado anterior;

mas se a mancha da impudicicia póde ser apagada na historia d’um povo,

certamente a virtude que se lhe seguiu, que rivalisava em fortaleza com

o desbragamento de Leonor Telles, compensou o interregno infame em que o

pudor não só foi olvidado mas tambem escarnecido.

D. Filippa de Lencastre reatou os laços de honestidade que sempre

existiram no throno. Mãe de heroes, que soube crear, esposa d’um soberano

illustre, que sempre allumiou com o facho da virtude; rainha, mas dona

de casa, sem se intrometter na politica, como desastradamente depois fez

sua nora Leonor d’Aragão, ella é o symbolo do que ha de mais grandioso na

nossa historia e do que ha de mais nobre n’uma mulher.

Como tudo tem fim, esse brilhante ornamento da nossa monarchia succumbiu

em Odivellas (19 de julho de 1415) d’um ataque de peste que assolava

Lisboa; depois de vinte e oito annos ter sido a fiel companheira do rei

de _boa memoria_, e de ter gerado em seu ventre

...........quem governasse,

Quem augmentasse a terra mais que d’antes,

Inclyta geração, altos Infantes.

(LUSIADAS—canto IV, est. 50.)

D. Izabel de Lencastre

(Duqueza de Borgonha)

Não ha ninguem por menos lido na historia, que desconheça as virtudes e o

valor dos filhos de D. João I. Cada um de per si constitue uma epopeia de

honra e de dignidade, desde D. Duarte, o primogenito, até D. Fernando, o

martyr benjamim da familia.

Foram oito os legitimos: D. Branca e D. Affonso, fallecidos na meninice;

D. Duarte, successor; D. Pedro, duque de Coimbra, regente do reino, homem

de sciencia, e homem politico; D. Henrique, duque de Vizeu, iniciador

das descobertas, perante o que tudo sacrificou; D. Izabel, duqueza de

Borgonha; D. João, o condestavel, modelo de impoluta dignidade; e D.

Fernando, que morreu sacrificado pela Patria e pela sorte da guerra nas

masmorras de Fez.

Havia mais um bastardo, filho não do rei circumspecto, mas do rapaz

folgazão, que cevava a mocidade nas camponezas dos seus feudos. Foi

o producto da perfeita carnalidade animal, livre de todo o sentimento

generoso que Jesus Christo abençoou nas bodas de Canaan. Filho de coito

damnado, sempre se lhe resentiu os effeitos da baixa origem; por isso

se refugiou nas suas terras, lá no norte, que obtivera por consorcio

com a filha unigenita do Santo Condestavel. Evitava assim a presença

da madrasta, cujos olhares, d’um sereno azul celeste, parecia que

chicoteavam o crime da sua existencia. Mais tarde, em varios de seus

successores, brotou a semente generosa do Mestre d’Aviz e de Nun’alvares:

em D. Jayme e nos dois Theodozios, mui accentuadamente.

Os outros filhos d’el-rei, _altos infantes_ que Camões cantou, foram

modelo de principes e modelo d’irmãos.[17]

Nunca a fraternidade foi seguida com mais fervor, nunca os laços

familiares predominaram mais, dentro do lar, do que n’esta geração

abençoada, dignissimo producto de dois esposos redemptores, abençoados

tambem pelas jaculatorias d’um povo.

Devia ser commovente o passamento de D. Filippa, rodeada do marido,

dos filhos, da filha, do enteado e da criadagem que fraternisava com a

familia as lagrimas e os soluços.

Tendo armado cavalleiros D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique; pedindo

ao primogenito que a sua espada fosse a espada da justiça, a D.

Pedro a defeza das donas e donzellas, e a D. Henrique o zelo por

todos os escudeiros, cavalleiros e fidalgos do reino; feitas outras

recommendações, dados conselhos tendentes á união e á obediencia dos mais

novos aos mais velhos, se chegou Brites Gonçalves de Moura a lembrar á

rainha a infanta sua filha.

D. Izabel chorava a um canto o desenlace proximo; a mãe olhou-a

com meiguice, e, voltando-se para a dama, mostrou-lhe que se tinha

recommendado ao herdeiro a felicidade de seus vassallos, escusava de

fallar n’ella, a quem a tinha em tanta estimação.

N’este momento, no peito de D. Pedro pulsou mais uma vez a generosidade

que sempre foi seu apanagio; e dirigindo-se para D. Filippa, disse-lhe

que seria bom chamarem el-rei para a esposa lhe pedir que as terras de

que era possuidora se dessem á filha, emquanto não tomasse estado.

Approvada a proposta, sahiu D. Henrique a procurar o pae.

Não tardou D. João I, e ali, perante o leito de dôr da virtuosa

companheira, confirmou a sympathica doação, que mesmo sem essa

formalidade seria sagrada por todos os titulos.

Foi assim que a Princeza possuiu Alemquer.

No emtanto, cumpria cazal-a como D. Filippa deixava recommendado; e

apezar do atrazo material da epocha, a fama dos infantes portuguezes soou

por toda a terra. D. Pedro, de todos os filhos de D. João I com certeza

um dos mais preclaros, deixava espalhado pelas _Sete Partidas_ quão

fructifera tinha sido a influencia de D. Filippa na côrte de Lisboa. O

brutalismo da Edade-Media desapparecera em Aljubarrota e o espirito claro

da Renascença, (que teve a sua aurora na esposa do rei de _boa memoria_,

e em Nun’alvares, o candido guerreiro; e o seu occaso na infanta D.

Maria, a sympathica filha do _rei venturoso_, e em Camões, a expressão

mais pura da nossa nacionalidade) expandia-se illuminado pela figura

angelica da rainha que soubera calcar, sepultando-o de vez, o impudor de

Leonor Telles. Entreabria-se uma nova era, tendo por promotores a gente

mais valorosa que nasceu n’esta terra. Ceuta, a Madeira e os Açores foram

os alicerces das emprezas de além-mar; Ceuta, o ultimo golpe do vencedor

de Castella, e o baptismo dos seus tres primogenitos; Açores e Madeira,

os primeiros padrões da vassallagem do oceano á _gente ousada_ que lhe

rasgava o corpo virginal.

Com todo este conjuncto de sublimes predicados, não escasseavam os

pretendentes; assim D. Izabel desposou em Bruges (10 de janeiro de 1430)

o duque de Borgonha, Filippe, o _bom_, conde de Flandres.[18]

Digna herdeira das virtudes da mãe, enalteceu o lar domestico com aquella

dignidade perante a qual o decorrer dos seculos se curva respeitoso; e

mais tarde soube desempenhar com abnegação sublime os deveres do amor

fraternal, requerendo a seu sobrinho D. Affonso V o corpo e os filhos do

desventurado infante D. Pedro, morto em Alfarrobeira.

Bella aureola a da honra e a da gratidão!

D. Izabel de Lencastre nasceu a 21 de fevereiro de 1397 e falleceu em 17

de dezembro, de 1471.

Sepultaram-n’a na Cartuja de Dijon.

D. Leonor d’Aragão

Cinco annos antes da morte de seu pae (14 d’agosto de 1433—22 de

septembro de 1428), desposou el-rei D. Duarte a D. Leonor, filha de

Fernando I d’Aragão. Esta princeza succedeu á rainha sua sogra na posse

d’Alemquer e d’outras terras que formavam a chamada _casa das rainhas_,

verdadeiramente constituida no tempo da sympathica Leonor de Lencastre,

mulher de D. João II.

Começavam a desapparecer os soldados da independencia. A morte ceifava

uns e outros; a acção do tempo curvava-lhes a fronte varonil, como

presagio do descanço eterno.

O rei já não era o mesmo homem d’antes: o mocetão galhardo e forte, mas

o velho experimentado e prudente, o companheiro de vinte e oito annos da

virtuosa D. Filippa, que lhe reformára o espirito e o paiz.

As illusões e o amor fugiam-lhe impellidos pelo vento rijo dos annos;

esse campo deixava-o elle aos rapazes, aos filhos, sabios como elle,

vivos reflexos do espirito purissimo da mãe.

Em D. Duarte talvez esse sentimento influisse com primazia. Almas ternas

como a d’elle, exigem uma outra que lhes sirva de alento. Sem a candura

da mulher a alma do poeta é um jardim sem flores, um sol radiante toldado

por uma nuvem negra.

Tinha trinta e sete annos quando o casaram; estava na força da

virilidade, retida pelo celibato. O espirito queria expandir-se, e quando

os olhos viram pela primeira vez a gentil aragoneza, formosa e meiga, o

amor, satisfeito no seu ideal, algemou-lhe o coração.

Leonor desde o dia das nupcias dominou de facto o marido. Bastava uma

caricia para lhe subjugar a vontade.

Desgraçado do homem que encontra uma mulher d’estas, se em vez de ser o

anjo que faça da familia a ante camara celestial, se converte em demonio

que lhe transforme o lar em inferno intoleravel.

Era ella a segunda Leonor que se sentava no throno, notando-se que

embora fosse o symbolo vivo da honra e do pudor, tem um ponto de

contacto com a sua pouco illustre predecessora. Ambas escravisaram os

maridos, e escravos os arrastaram ao tumulo; ambas, devido á loucura

inteiramente opposta uma á outra, vieram depois de desagradaveis

peripecias a fallecer no exilio!

Senhora do animo do esposo, tomou sobre si as redeas do governo. Não se

limitou a ser terna e fiel como D. Filippa. Foi mais além; affastou-se

do trilho que a natureza impoz á mulher, trazendo com o seu procedimento

desastrosas desgraças que offuscam um tanto os brilhantes feitos da

dynastia d’Aviz.

A Renascença abrira novos horisontes, e os filhos de D. João I apoiaram

com todas as suas forças o objectivo da nova edade.

Ceuta fôra o alicerce que D. Henrique lançára para o imperio ultramarino.

Desejava proseguir na sua ideia, continuar a ultima façanha emprehendida

pelo pae; vendo ao seu lado o irmão, D. Fernando, cioso dos primogenitos

amestrados já no valor da arte da guerra.

Queriam a conquista de Tanger. Houve debates n’este ponto. O rei

e D. Pedro oppozeram-se, em vista do pessimo estado economico do

paiz. Demais, não havia gente com que guarnecer as praças tomadas. D.

Henrique, vendo a clara luz da razão, voltou-se para D. Leonor, certo da

influencia d’esta perante o marido, que, movido pelas ternuras da formosa

companheira, teve a fraqueza de ceder.

Partiram, levando seis mil homens, lançando-se mão, para guarnecer a

armada, dos mais pesados tributos. Dada a batalha, a sorte voltou-se para

o musulmano. O Alcorão sobrepujava o Evangelho, devido á imprudencia de

dois principes que talvez mais attendessem á dilatação da fé do que ao

accrescimo do imperio.

D. Fernando ficou captivo (1437) e captivo morreu em Fez aos cinco de

junho de 1443.

As donatarias d'Alemquer Historia das Rainhas de Portugal e da sua casa e estado · 第 1 / 8 段