Já na lição passada nos referimos ao ditongo _ou_, usado nas provincias do
norte, e que bem se póde ter por vicioso. Agora diremos que nas provincias
do sul cerceiam o delicado ditongo _ei_, dizendo em logar de _lêi lêito dêi
dêitêi_, simples e desengraçadamente _lê lêto dê dêtê_. Tambem é vulgar
nestas provincias _mé_ pai, _té_ primo; e não menos, _jantí andí cantí_, em
vez de _meu pai_, _teu primo_, _jantêi andêi cantêi_.
Não imaginamos circumstancias que recommendem ao mestre contemplação alguma
com essas crassas deturpações da lingua. Os mais rudes acceitam a emenda
sem escandalo, e sem surpreza, lembrados duma ou outra pessoa culta que tem
ouvido.
Mas voltando ao _êi_, objecto especial desta lição, bom é notar que esse
ditongo nem sempre é expresso, mormente na orthografia antiga. Os antigos
escreviam regularmente _têa fêo cêa recêo_: os modernos escrevem geralmente
mais conforme a pronuncia. Seja como fôr, o estylo da lingua não admitte o
ditongo _êo êa_; e em taes casos, esteja o _i_ expresso ou não, ha de se
ouvir o ditongo _êi_ antes da voz final.
A razão popular, ainda mais que as academias, tende sempre a racionalisar a
orthografia ajustando-a com a falla; e por isso, como já indicámos, hoje o
mais ordinario é escrever-se _feio receio teia aldeia_. E ainda bem. Mas o
que parece equívoco da parte dalguns autores é escreverem, por exemplo
_grangeiar receiar_, porque em certas vozes (do presente do indicativo,
imperativo e conjuntivo) de similhantes verbos soa _êi_. Sempre ouvimos
dizer _cêio_ e _recêio_; mas ainda não ouvimos dizer _cêiêi_ e _recêiêi_. O
_i_, que o estylo da lingua insinua naquellas vozes, é um accidente do
verbo e não o mesmo verbo na sua forma primitiva. Se as alterações que
soffrem as vogaes durante a conjugação dos verbos devessem figurar no
infinito, não havia modo de os escrever. _Escrever_, por exemplo; segundo
_e_, grave; _escrevo_, segundo _e_, agudo: _velar_, _e_, grave; _velo_,
_e_, aberto; _vele_, _e_, agudo (o mesmo da primeira syllaba).
E sem fallarmos nos casos em que até as consoantes variam, como nos verbos
acabados em _gar_ e _car_, aqui se mostra que a lingua portugueza não
guarda nos derivados a prosodia radical, por outra, que não é uma lingua
etymologica, como era a latina: assim como não é uma lingua metrica, com
syllabas longas e breves, como o latim; e assim como não é uma lingua
declinavel, com sete, oito, nove, dez e mais formas do mesmo nome, pronome
ou adjectivo, como havia no latim. Ora não sabemos que traços mais
profundos de divergencia pode separar uma lingua de outra. Em que se fundam
pois os argumentos de analogia com que o pedantismo nos tem sempre querido
impor a orthografia latina? Bem fez a Hispanha que importando-lhe mais os
seus grandes interesses, do que os embaraços do filologo em descobrir a
origem e significação de _Cristo_ escrito sem _h_, tem hoje a mais perfeita
orthografia do mundo. E nisso se podem fundar boas esperanças da enorme
civilisação que espera aquelle generoso povo, tantos seculos á espessa
sombra da monarchia.
ei = êi
dê lê
dei lei a|tei
pa|pei la|vei
a|ba|lei fei|ta
fei|to fei|ti|o
dei|to dei|tou
dei|tei ba|bei
bei|ja bei|jo
bei|jou bei|jei
dei-a dei-o
vei|a vei|o
fei|a fei|o
lei|a lei|o
pei|a tei|a