DUODECIMA LIÇÃO

Já na lição passada nos referimos ao ditongo _ou_, usado nas provincias do

norte, e que bem se póde ter por vicioso. Agora diremos que nas provincias

do sul cerceiam o delicado ditongo _ei_, dizendo em logar de _lêi lêito dêi

dêitêi_, simples e desengraçadamente _lê lêto dê dêtê_. Tambem é vulgar

nestas provincias _mé_ pai, _té_ primo; e não menos, _jantí andí cantí_, em

vez de _meu pai_, _teu primo_, _jantêi andêi cantêi_.

Não imaginamos circumstancias que recommendem ao mestre contemplação alguma

com essas crassas deturpações da lingua. Os mais rudes acceitam a emenda

sem escandalo, e sem surpreza, lembrados duma ou outra pessoa culta que tem

ouvido.

Mas voltando ao _êi_, objecto especial desta lição, bom é notar que esse

ditongo nem sempre é expresso, mormente na orthografia antiga. Os antigos

escreviam regularmente _têa fêo cêa recêo_: os modernos escrevem geralmente

mais conforme a pronuncia. Seja como fôr, o estylo da lingua não admitte o

ditongo _êo êa_; e em taes casos, esteja o _i_ expresso ou não, ha de se

ouvir o ditongo _êi_ antes da voz final.

A razão popular, ainda mais que as academias, tende sempre a racionalisar a

orthografia ajustando-a com a falla; e por isso, como já indicámos, hoje o

mais ordinario é escrever-se _feio receio teia aldeia_. E ainda bem. Mas o

que parece equívoco da parte dalguns autores é escreverem, por exemplo

_grangeiar receiar_, porque em certas vozes (do presente do indicativo,

imperativo e conjuntivo) de similhantes verbos soa _êi_. Sempre ouvimos

dizer _cêio_ e _recêio_; mas ainda não ouvimos dizer _cêiêi_ e _recêiêi_. O

_i_, que o estylo da lingua insinua naquellas vozes, é um accidente do

verbo e não o mesmo verbo na sua forma primitiva. Se as alterações que

soffrem as vogaes durante a conjugação dos verbos devessem figurar no

infinito, não havia modo de os escrever. _Escrever_, por exemplo; segundo

_e_, grave; _escrevo_, segundo _e_, agudo: _velar_, _e_, grave; _velo_,

_e_, aberto; _vele_, _e_, agudo (o mesmo da primeira syllaba).

E sem fallarmos nos casos em que até as consoantes variam, como nos verbos

acabados em _gar_ e _car_, aqui se mostra que a lingua portugueza não

guarda nos derivados a prosodia radical, por outra, que não é uma lingua

etymologica, como era a latina: assim como não é uma lingua metrica, com

syllabas longas e breves, como o latim; e assim como não é uma lingua

declinavel, com sete, oito, nove, dez e mais formas do mesmo nome, pronome

ou adjectivo, como havia no latim. Ora não sabemos que traços mais

profundos de divergencia pode separar uma lingua de outra. Em que se fundam

pois os argumentos de analogia com que o pedantismo nos tem sempre querido

impor a orthografia latina? Bem fez a Hispanha que importando-lhe mais os

seus grandes interesses, do que os embaraços do filologo em descobrir a

origem e significação de _Cristo_ escrito sem _h_, tem hoje a mais perfeita

orthografia do mundo. E nisso se podem fundar boas esperanças da enorme

civilisação que espera aquelle generoso povo, tantos seculos á espessa

sombra da monarchia.

ei = êi

dê lê

dei lei a|tei

pa|pei la|vei

a|ba|lei fei|ta

fei|to fei|ti|o

dei|to dei|tou

dei|tei ba|bei

bei|ja bei|jo

bei|jou bei|jei

dei-a dei-o

vei|a vei|o

fei|a fei|o

lei|a lei|o

pei|a tei|a

Cartilha Maternal; ou, Arte de Leitura · 第 19 / 52 题