Não tinhamos outra palavra conveniente senão _kilo_, onde apresentassemos o
_k_, por ser esta consoante tão perfeita como rara.
Os gregos tinham uma inflexão irmã da que representa em portuguez o _k_,
mas aspirada; e figuravam-na por certa letra bastante similhante ao _k_, e
ainda mais similhante ao _x_.
Os romanos não tinham essa letra; e, como para elle _c_ valia _q_,
ajuntaram-lhe _h_ para significar aspiração, e nas palavras gregas de
origem, onde havia aquella inflexão guttural, escreviam _ch_ com
justificado motivo.
Mas isso, elles; nós só por imitação servil fazemos o mesmo; porque para
nós nem o _c_ vale _q_, e sim diversas inflexões; nem o _h_ significa
aspiração, que não ha em portuguez; nem _ch_ tem valor definido. Quanto
mais que em pontos de orthografia grega mais nos devia importar o grego que
o latim; e se ha maneira de falsear aquella excellente orthografia é
escrever dois caracteres representando um valor.
Donde resulta que em taes casos mais logica o etymologicamente se devera
escrever _k_. Todavia, recebendo esta letra na adopção do systema metrico
uma especie de cunho official, nem as _graças do poder_ lhe valeram a
benevolencia dos sabios: continúa em _kilo_ (significando mil) a ter curso
forçado; mas já em _chylo_ (succo de alimentos digeridos) insistem os
sabios a escrever _ch_, tendo a palavra igual origem e identica pronuncia.
É uma especie de antipathia, áquelle excellente caracter, que não se póde
attribuir ás suas quatro pernas. A mesma França, que toda se empenha em
disfarçar no apparato scientifico os absurdos da sua orthografia, expulsa o
_k_ de palavras a que elle pertencia _par droit de naissance_; reserva-o
para os termos arabes; e nos proprios de origem grega escreve _ch_ valendo,
note-se, ora _k_ ora _x_. Primores da coherencia etymologica!
Mas o alumno espera-nos. Ao _k_ seguia-se o _q_ segundo o nosso plano; mas
já sabemos que esta consoante, embora certa, offerece circumstancias
absurdas: servirá pois de introducção ás consoantes incertas; e vamos
entretanto a outras regras sem excepção, em respeito a vogaes.
Ensinámos na lição passada que _o_ final vale _u_. Ensinemos agora que _ou_
vale _ô_.
Nas provincias do norte diz-se _amôu_, _comprôu_; mas em Coimbra, Lisboa e
no mais Portugal não se profere tal ditongo. Escreve-se _ou_, mas o _u_ é
mudo, e o _o_ soa como em _avô_.
Este é o facto e, por consequencia, a lei fundada, não diremos na melodia
que é relativa, porem no uso mais autorisado e aliás mais vasto.
Com isto não queremos dizer que em tal ou tal logar, onde reine sem
contradicção aquella variante, o professor se empenhe em arrancar aos seus
discipulos talvez um hábito invencivel. A toada é singularmente ingrata a
ouvidos estranhos e illegítima; porém não é essencial que os filhos do povo
fallem classicamente; o essencial é fazel-os quebrar o circulo da
animalidade e dar-lhes, por meio da leitura e da escrita, o horisonte
infinito do homem. Em parte onde convier, exercitai-os no ditongo.
ou = ô
a|vô
vou a|vi|ou
vi|u|vou vi|a|jou
dou a|tou fi|ou
ba|bou pi|ou
pa|pou a|pu|pou
ta|pou pu|lou
fa|llou a|lli|vi|ou
a|ba|fou ou|vi
ou|vi|a ou|viu
ou|vi|do lou|va
lou|vo lou|vou
pou|pa pou|po
pou|pou