UNDECIMA LIÇÃO

Não tinhamos outra palavra conveniente senão _kilo_, onde apresentassemos o

_k_, por ser esta consoante tão perfeita como rara.

Os gregos tinham uma inflexão irmã da que representa em portuguez o _k_,

mas aspirada; e figuravam-na por certa letra bastante similhante ao _k_, e

ainda mais similhante ao _x_.

Os romanos não tinham essa letra; e, como para elle _c_ valia _q_,

ajuntaram-lhe _h_ para significar aspiração, e nas palavras gregas de

origem, onde havia aquella inflexão guttural, escreviam _ch_ com

justificado motivo.

Mas isso, elles; nós só por imitação servil fazemos o mesmo; porque para

nós nem o _c_ vale _q_, e sim diversas inflexões; nem o _h_ significa

aspiração, que não ha em portuguez; nem _ch_ tem valor definido. Quanto

mais que em pontos de orthografia grega mais nos devia importar o grego que

o latim; e se ha maneira de falsear aquella excellente orthografia é

escrever dois caracteres representando um valor.

Donde resulta que em taes casos mais logica o etymologicamente se devera

escrever _k_. Todavia, recebendo esta letra na adopção do systema metrico

uma especie de cunho official, nem as _graças do poder_ lhe valeram a

benevolencia dos sabios: continúa em _kilo_ (significando mil) a ter curso

forçado; mas já em _chylo_ (succo de alimentos digeridos) insistem os

sabios a escrever _ch_, tendo a palavra igual origem e identica pronuncia.

É uma especie de antipathia, áquelle excellente caracter, que não se póde

attribuir ás suas quatro pernas. A mesma França, que toda se empenha em

disfarçar no apparato scientifico os absurdos da sua orthografia, expulsa o

_k_ de palavras a que elle pertencia _par droit de naissance_; reserva-o

para os termos arabes; e nos proprios de origem grega escreve _ch_ valendo,

note-se, ora _k_ ora _x_. Primores da coherencia etymologica!

Mas o alumno espera-nos. Ao _k_ seguia-se o _q_ segundo o nosso plano; mas

já sabemos que esta consoante, embora certa, offerece circumstancias

absurdas: servirá pois de introducção ás consoantes incertas; e vamos

entretanto a outras regras sem excepção, em respeito a vogaes.

Ensinámos na lição passada que _o_ final vale _u_. Ensinemos agora que _ou_

vale _ô_.

Nas provincias do norte diz-se _amôu_, _comprôu_; mas em Coimbra, Lisboa e

no mais Portugal não se profere tal ditongo. Escreve-se _ou_, mas o _u_ é

mudo, e o _o_ soa como em _avô_.

Este é o facto e, por consequencia, a lei fundada, não diremos na melodia

que é relativa, porem no uso mais autorisado e aliás mais vasto.

Com isto não queremos dizer que em tal ou tal logar, onde reine sem

contradicção aquella variante, o professor se empenhe em arrancar aos seus

discipulos talvez um hábito invencivel. A toada é singularmente ingrata a

ouvidos estranhos e illegítima; porém não é essencial que os filhos do povo

fallem classicamente; o essencial é fazel-os quebrar o circulo da

animalidade e dar-lhes, por meio da leitura e da escrita, o horisonte

infinito do homem. Em parte onde convier, exercitai-os no ditongo.

ou = ô

a|vô

vou a|vi|ou

vi|u|vou vi|a|jou

dou a|tou fi|ou

ba|bou pi|ou

pa|pou a|pu|pou

ta|pou pu|lou

fa|llou a|lli|vi|ou

a|ba|fou ou|vi

ou|vi|a ou|viu

ou|vi|do lou|va

lou|vo lou|vou

pou|pa pou|po

pou|pou

Cartilha Maternal; ou, Arte de Leitura · 第 18 / 52 题