Estas notas são escritas ao correr da impressão; e, recebendo agora do
Porto a primeira folha (que em Lisboa nem de graça, como chegámos a
offerecer a um editor notavel, demais a mais poeta e prosador, conseguimos
a publicação desta curiosidade) vemos nessa folha que na segunda lição,
onde se trata da combinação do _v_ com as vogaes, dissemos que vos podieis
demorar na leitura de cada letra sem distincção, por serem todas igualmente
prolongaveis. Assim é: mas esqueceu-nos advertir que haja cuidado em não
separar a inflexão da voz; senão, basta a minima pausa para terdes de as
ajuntar depois, o que vem a dar na mesma que soletrar. A advertencia era
por ventura escusada.
No ensino individual, que é só onde temos experimentado este systema, com
os resultados previstos (em lições manuscritas imitando letra redonda)
costumamo-nos collocar a um canto da mesa, mais o alumno, elle dum lado á
esquerda e nós do outro; pomos-lhe a lição diante convenientemente; e
emquanto, nas primeiras quatro lições, percorremos com o ponteiro pela
parte de cima as letras da palavra, imol-as simultaneamente pronunciando.
Ora como do intervallo das letras naturalmente se abstrahe, nem esse
intervallo é apreciavel na marcha do ponteiro, a palavra afigura-se aos
olhos do principiante como uma pequena escala, cujas notas se vibram na sua
ordem natural.
E o que é a leitura senão a pronúncia successiva dos elementos simples ou
compostos, certos ou incertos da palavra escrita? Por isso é que a leitura
é a verdadeira soletração; porque só na leitura se dá aos caracteres o seu
justo valor.
Ha duas soletrações, a antiga e a moderna. A soletração antiga vai chamando
as letras pelos seus nomes, para apresentar depois, não a somma desses
nomes, mas a somma dos valores dessas letras. Esta soletração é absurda, e
desmoralisa o raciocinio do principiante. Como quereis vós que uma alminha,
ainda com aquella luz tão pura que traz de Deus, entenda que _cê_, _agá_,
_á_, junto, sommado, é _xá_?!
Isto será ensinar a ler, mas é ao mesmo tempo embrutecer. Ora mil vezes
antes analfabeto que idiota.
Porem esta soletração, que aliás reina em Portugal e seus dominios, está
condemnada. A outra, a soletração moderna que procede por valores, é
incomparavelmente superior; mas ou é inexequivel ou escusada.
Modernamente, como se soletra _chá_? Deste modo: _x'_, _á_, _xá_. Mas se o
alumno sabe, pelo conhecimento das regras ou por intuição, o valor
hypotetico de _ch_, lê igualmente _xá_; e se não sabe, não pode soletrar á
moderna. É claro.
Daqui resulta que a soletração é a leitura. Ensinemos as regras; e a
pratica fará o resto.
Segue-se o _k_, pela ordem estabelecida; e como só o podemos apresentar em
_kilo_, aproveitemos a occasião de exercitar o principiante no _o_ final,
ensinando-lhe que o _o_ no fim vale _u_. Explicai-lhe o symbolo, se vos
parecer: a curva ondeada indica as mais letras da palavra acabada em _o_,
que faltam; as duas parallelas querem dizer _vale_.
k
ki|lo
~~~o = u
vi|vo vi|u|vo
vi|a|jo ve|jo
fu|jo fa|vo fa|to
a|to ba|to ba|fo
a|ba|fo ba|fi|o
a|ba|lo fa|llo
lu|to la|do li|do
pa|to pa|vi|o
pu|lo pa|pal|vo
bal|do bal|di|o
bo|lo lo|bo lo|do
o|vo to|lo tòl|do