Os modos de começar e acabar a voz chamam-se ordinariamente _inflexões_ e
_articulações_, por serem como uns eixos, umas juntas da voz que lhe dão
contorno e melodia. A palavra _lampada_, por exemplo, é muito airosa; mas
tirando-lhe a parte que nella tomam a lingua, os beiços e os dentes
reduz-se a um vozeio de mudo, monotono e desengraçado: _ãââ_.
Donde se vê que a voz é como a perola que realça no engaste; e que as
inflexões, intermeando e recortando a voz, apezar da sua obscuridade não
são menos preciosas na palavra que as proprias vozes. Só a voz se canta, só
a voz se alteia e expande, segundo o folego e garganta de cada um, a ponto
de encher um templo, de retumbar no valle do alto da montanha; pelo
contrario as inflexões a poucos passos de distancia somem-se: todavia uma
lingua só de vozes seria uma lingua barbara.
Ora nós já sabemos que as inflexões na escrita se representam pelas
consoantes; mas em logar de haver tantas consoantes como inflexões,
correspondendo a cada inflexão a sua consoante, não succede assim.
Vejamos as inflexões contínuas de quantos modos se escrevem:
_f..._ (fé afflição phoca) f ff ph
_v..._ (vai) v
_ç..._ (suisso ceo aço maximo) s ss c ç x
_z..._ (aza uso existe) z s x
_x..._ (eixo chega ais faz) x ch s z
_j..._ (ja geme osga) j g s
_rr..._ (rua erro rhetorica) r rr rh
Achareis, para representar as sete inflexões continuas, vinte e duas formas
que, descontando repetições, se reduzem a dezeseis; mas, destas dezeseis,
sete teem diversos valores, a saber:
{ _c_ seu { _ch_ eixo { _ç_ ceo
s { _z_ uso x { _z_ existe c { _k_ cai
{ _x_ triste { _ç_ proximo { ... acto
{ _j_ tisna { _kç_ sexo
g { _g_elo ch { _x_ chefe z { _z_ zelo r { e_r_a
{ a_g_ua { _k_ chimica { _x_ fiz { _r_aio
Ora destas formas de valor incerto nenhuma convinha para os primeiros
exercicios. Das outras, uma tem valor certo e exclusivo, que é v: as mais
não teem valor exclusivo mas teem valor certo, que são f, ff, ph, ç, ss, j,
rr, rh; mas embora tenham valor certo, as compostas não seria bom methodo
antecipar ás simples; ç é uma letra anomala; ff comprehende-se em f. Isto
tudo supposto restam v f j.
Começámos pela mais perfeita, v, que maiuscula ou minuscula conserva a
mesma forma, nunca se annulla dobrando-se debalde ou escrevendo-se por amor
da etymologia, tem sempre o mesmo valor e só ella tem esse valor, presta-se
com as vogaes a muitas combinações familiares, e representa uma inflexão
_gemida_, isto é, duplamente apreciavel ao ouvido do principiante pela
continuidade e pela intensidade.
Do v passámos ao f, pela analogia da pronuncia. Passamos agora ao j.
Os antigos punham o valor da letra no primeiro elemento do nome que lhe
davam; razoavel systema de designações principalmente para as consoantes
instantaneas, que mal se podem proferir em separado sem lhes exagerar o
valor. _Jota_ e _xiz_ são os nomes que temos n'esse genero (preferiveis a
_éfe_ _éle_, etc. onde a inflexão vem encravada em duas vozes dum modo
obscuro); mas taes nomes constituem excepção, e impõem a necessidade de
fazer distincção entre o nome e o valor, o que o alumno embora perceba
facilmente, não deixa por isso de se embaraçar na prática, porque lhe
occorrem as duas cousas, nome e valor. Aquellas designações antigas
fundadas numa base até certo ponto filosofica, eram nomes geralmente
compostos, verdadeiros nomes, com toda a melodia da lingua, sem aquella
simplicidade d'algumas denominações nossas como _bê_, _dê_; por isso peores
de conciliar com a soletração. Ao _d_, por exemplo, chamavam _daleth_, ao
_a_ _aleph_, ao _l_ _lamed_. Em quantos annos chegaria o desgraçado alumno
a soletrar (claro está, inconscientemente, de memoria, á força de
repetições sem conto) _daleth aleph lamed_, _dal_?!
(_daleth_
_aleph_
_lamed_,