--Então o que?... Já lhe não disse quanto basta? Minha afilhada

pertença tanto a Manecão, como uma garrucha ou um _guampo

lavrado_[121] que Pereira lhe tivesse dado... Não ha meios e modos de

voltar atraz...

Não desanimou o mancebo.

Falou por muito tempo com verdadeira eloquencia, appellando

principalmente para a protecção que todo o christão tem obrigação

de dispensar ao ente que leva á pia baptismal, a seu segundo filho, ao

pagãosinho por quem o padrinho se torna responsavel perante Deus.

Feriu o sentimento religioso do mineiro e commoveu-o.

--Não me falle assim, contrariou este, o senhor quer ver se me puxa

para o seu lado... E quem me assegura que, _Nocencia_ gosta tanto da sua

pessoa?... Quem?

O coração está-lh'o dizendo baixinho, respondeu com calma Cyrino. O

senhor, que é homem de honra, acredita que eu esteja mentindo? Que tudo

isso é falso? ... diga, acredita?

Cesario tartamudeou:

--Sim... _Assumpto_ verdades, mas...

--Ah! exclamou Cyrino, o Sr. sente a consciencia bater-lhe que sua

afilhada está desamparada, que vae ser sacrificada ... e agora tapa os

ouvidos e diz: Não quero ouvir, não quero cumprir a minha palavra!

Porque a deu então o Sr ... essa palavra de honra de que tanto fala?...

Nossa Senhora que a proteja ... que a tire deste mundo... Isso ha de

pesar-lhe no peito ... e, quando um dia tiver noticia que Innocencia

morreu de desgostos, ha de dizer lá comsigo que ajudou a cavar-lhe a

sepultura.

Estava Cesario abalado: com verdadeira anciedade retorquiu:

Que historias me conta o Sr.? Eu mettido no meu canto ... vivendo tão

socegado ... não bulindo com ninguem, e agora _anarchisado_ por estes

mexericos!... Quem o mandou vir cá?

--Quem seria, retrucou Cyrino, senão Innocencia? Por ventura eu o

conhecia? ... algum dia o vi?... Não; foi aquelle anjo que me disse:

busca meu padrinho, é o ultimo recurso. Se elle não nos amparar,

então ... estamos perdidos de uma vez.

Estas palavras convenceram de todo Cesario.

Ficou em silencio, recolhido, a meditar; Cyrino o observava offegante.

--Pois bem, disse por fim o mineiro em tom grave e pausado, hei-de

pensar no que o Sr. me conta...

--Oh! Sr. Cesario!...

--Levarei dois dias a remoer sobre o caso... O que disse uma vez, não

digo duas... No fim desse tempo, monto a cavallo e appareço por casa de

Pereira...

--Sim, sim, balbuciou o moço.

--Amanhã mesmo, de madrugada, o Sr. sae daqui e vae esperar-me na

Senhora Sant'Anna.

--Irei ... salve-me...

Cesario parou um pouco.

--Agora, quero que o Sr. me faça um juramento ... pelas cinzas de sua

mãe.

--Estou prompto.

--Pela salvação da sua alma...

--Pela salvação de minha alma, repetiu Cyrino.

--Pela vida eterna...

Cyrino acenou com a cabeça.

--Jure!

O mancebo cruzou os dedos indices e beijou-os com uncção abaixando os

olhos e empallidecendo.

--O Sr., disse Cesario, jurou antes de saber o que era... Deu-me boa

idéa do seu caracter... Farei tudo por ajudal-o, mas exijo-lhe uma

condição... Se quizer aceital-a, fica valendo o juramento; senão ...

o dito por não dito...

--Que será, meu Deus? murmurou Cyrino.

--É ficar o Sr. esperando em Sant'Anna. Se eu apparecer por estes oito

dias, iremos juntos á casa do compadre. Se não, é que decidi o

contrario. Neste caso, virá o Sr. até cá e aqui esperará as suas

cargas que mandarei buscar. Será signal de que, nunca mais ha de

procurar botar as vistas em Innocencia ... nem sequer fallar nella.

Acceita?

--Aceito, respondeu o moço com exaltação; mas fique certo de uma

coisa: se o Sr., no tempo marcado, não estiver na villa, reze por alma

de Cyrino, porque elle terá deixado este mundo de afflicções.

Cesario meneou tristemente a cabeça e retirou-se, sem dizer mais

palavra.

[Nota 120: Trecho de rio encachoeirado.]

[Nota 121: Guampo é uma vasilha feita de chifre para tirar agua.

Chama-se lavrado quando tem desenhos de lavor.]

CAPITULO XXIX

RESISTENCIA DE CORÇA

Acasto--Não póde ella falar?

Oswaldo--Se ralar é tão somente fazer

ouvir sons por meio da lingua e dos

labios, é aquella creatura muda; mas

se tão maravilhosa faculdade consiste

tambem em tornar comprehensiveis os

menores pensamentos por accionados e

expressivos gestos, póde dizer-se que ella

a possue, pois seus olhos brilhantes como

estrellas do céu tem uma linguagem

intelligivel, bem que falha de sons

e de palavras.

SHAKESPEARE.

Deixámos Innocencia tão abatida de corpo, quanto resoluta de espirito.

Presentia os choques que tinha de supportar, e robustecia a alma na

meditação continua e firme da sua infelicidade.

Estava de joelhos deante da imagem de Nossa Senhora, quando a voz de seu

pae a fez levantar.

--_Nocencia_! chamava elle.

Rapidamente passou a pobresinha a mão pelo rosto para apagar os

vestigios de copioso pranto, e com passo quasi seguro penetrou na sala.

Estavam Pereira e Manecão sentados junto á mesa. O anãosinho Tico

aquecia-se aos pallidos raios de um sol meio encoberto e, sentado á

soleira da porta, brincava com umas palhinhas.

--Estou aqui, papae, disse Innocencia em voz alta e um pouco tremula.

Encarou-a Manecão com ar entre sombrio e apaixonado.

Julgou dever dizer alguma coisa.

--Até que afinal a dona sahiu do ninho... É que hoje o dia está de

sol, não é?

A moça nada lhe respondeu; fitou-o com tanta insistencia que fel-o

abaixar os olhos.

--Ella esteve doente, desculpou Pereira.

E voltando se para a filha:

--Sente-se aqui bem perto de nós... O Manecão quer conversar com você

em negocios particulares...

--Bem percebe ella, observou o desazado noivo intentando abrir o motivo

para risos.

Innocencia replicou em tom incisivo:

--Não percebo.

--Está se ... fazendo de ... engraçada, balbuciou Manecão. Pois já ... se

esqueceu ... do que tratei com seu pae?... Parece que comeu muito

queijo.

Com a mesma entoação, e cortando-lhe a palavra retorquiu ella:

--Não me lembro.

Houve uns minutos de silencio.

Accumulava-se a colera no peito de Pereira: seus olhares irados ião

rapidos de Manecão á imprudente filha.

--Pois, se você não se lembra, disse elle de repente, eu cá não sou

tão esquecido.

--Ora, recomeçou Manecão levantando-se e vindo recostar-se á beira da

mesa para ficar mais chegado á moça, faz-se de _enjoada_ a tôa ... o

nosso casamento...

--Seu casamento? perguntou Innocencia fingindo espanto.

--Sim...

--Mas com quem?

--Ué, exclamou Manecão, com quem ha de ser... Com mecê...

Pereira fôra-se tornando livido de raiva.

O anão acompanhava toda essa scena com muita attenção. Scintillavam

seus olhinhos como diamantes pretos; seu corpo rachitico estremecia do

impaciencia e susto.

Á resposta de Manecão, levantou-se rapida Innocencia e, como que

acastellando-se por detraz da sua cadeira, exclamou:

--Eu?... Casar com o senhor?! Antes uma boa morte!... Não quero ...

não quero... Nunca... Nunca...

Manecão bambaleou.

Pereira quiz pôr-se de pé, mas por instantes não pôde.

--Está doida, balbuciou, está doida.

E, segurando-se á mesa, ergueu-se terrivel.

--Então, você não quer? perguntou com os queixos a bater de raiva.

--Não, disse a moça com desespero, quero antes...

Não pôde terminar.

O pae agarrara-a pela mão, obrigando-a a curvar-se toda.

Depois, com violento empurrão, arrojou-a longe de encontro á parede.

Caiu a infeliz com abafado gemido e ficou estendida por terra, amparando

o peito com as mãos. Mortal pallidez cobria-lhe as faces, e de ligeira

brecha que se abrira na testa deslisavam gottas de sangue.

Ia Pereira a precipitar-se sobre ella como para esmagal-a debaixo dos

pés, mas parou de repente e, levando as mãos ao rosto, occultou as

lagrimas que dos olhos lhe saltavam a flux.

Manecão não fizera o menor gesto. Extatico assistira a toda essa

dolorosa scena. A physionomia estava impassivel, mas, por dentro, seu

coração era um vulcão.

Lugubre silencio reinou por algum tempo naquella sala.

O anão chegara-se a Innocencia, tomando-lhe uma das mãos: depois, a

fizera sentar e, no meio de carinhos, mostrara-lhe por signaes a

necessidade de retirar-se.

A custo pôde ella seguir aquelle conselho. Quasi de rastos e ajudada

por Tico é que saiu da presença do pae e de seu perseguidor.

Nenhum movimento fizeram os dois para retel-a. Calados como estavam,

deixaram-se ficar de pé, um ao lado do outro, ambos acabrunhados pela

grandeza daquella desgraça.

Com frenesi cofiava Manecão o basto bigode.

Pereira tinha a cabeça pendida sobre o peito.

Afinal, exclamou:

--É preciso que eu _desembuche_ o que tenho cá dentro, senão

estouro... Quem for homem que seja ... Manecão, _Nocencia_ para nós

está perdida ... para nós, porque um homem lhe deitou um mau olhado...

--E que homem é esse? perguntou em tom surdo e ameaçador o outro.

--Agora vejo como tudo foi... Eu mesmo metti o diabo em casa... Estive

alerta ... mas o mal já caminhava.

--Mas, quem é elle? tornou a perguntar com impaciencia Manecão.

--Um maldito! um infame, um estrangeiro que aqui esteve... Roubou-me o

socego que Deus me deu...

Contou então ás pressas Pereira todas as tentativas do allemão Meyer,

tentativas que haviam sido descobertas, mas que infelizmente, pelo menos

assim suppunha, já haviam produzido os seus damnosos fructos.

--Ah! disse por fim abaixando a voz, pensou aquelle cachorro, que tudo

era namorar mulheres e depois dar com os pés em polvorosa, não é?...

Amanhã mesmo eu lhe saio no rasto.

--Para que? interrompeu Manecão.

--Respondam os urubús...

--Para matal-o?

--Sim...

Houve breve pausa.

--Não será, o senhor, disse o capataz, que lhe hade dar cabo da pelle.

--Porque?

--É negocio que me pertence. O senhor é pae ... eu porém sou ...

noivo. Mangaram com os dois ... mas o _allamão_ fica no chão.

--Pois seja, concordou Pereira, parta amanhã mesmo ou hoje ... agora, se

possivel fôr. Cão damnado deve logo ser morto, para que a baba não

dê raiva... Vá depressa e venha contar-me que aquelle homem já não

existe... Como velho, como pae ... abençôo a mão que o hade matar.

Caia o sangue que correr ... sobre os meus cabellos brancos...

Havia toda esta conversa sido attentamente ouvida por alguem; o anão

Tico.

Viera a pouco e pouco approximando-se da mesa com os olhos a fulgir.

De repente, collocou-se resolutamente entre Manecão e Pereira.

--Que quer você aqui? perguntou o mineiro com aspereza.

Começou então o homunculo a explicar por gestos vagarosos, mas muito

expressivos, que de tudo estava sciente, participando de todos os

projectos e do mesmo sentimento de indignação e desespero que enchia

os dois offendidos.

Depois, apressando mais a gesticulação e por sons meio articulados,

fez ver que Pereira laborava em engano, tão somente quanto á pessoa.

Com muita propriedade de imitação e perfeita mimica, ora levantando o

braço para caracterisar as physionomias, tão exactamente representou

Meyer e Cyrino, que o mineiro logo os reconheceu.

--Bem sei, bem sei Tico, murmurou elle. Você fala do doutor e

daquelle...

Ahi o anão fez um gesto de negação e, apontando para o quarto de

Innocencia, indicou que nada tinha ella com o allemão.

Ficaram pasmos os dois.

--Então, balbuciou Pereira, quem será?... Cy ... rino, meu Deus?!

--Sim... Sim! gritou o anão com violento esforço abaixando muitas

vezes a cabeça.

--Qual! protestou Pereira, o doutor?...

Com muita habilidade e segurança Tico desenvolveu as provas que tinha.

Gesticulou como um possesso; correu para fóra de casa; denunciou as

entrevistas; reproduziu ao vivo todas as passadas de Cyrino: mostrou o

lugar do laranjal donde vira tudo, o galho quebrado em razão da sua

queda; repetiu o grito que dera; lembrou a scena da madrugada, findando

com aquelles tiros; exprimiu-se por signaes tão adequados e taes

movimentos de cabeça e physionomia, que toda a duvida desappareceu do

espirito de Pereira.

Então tudo se lhe descortinou claro e deslumbrante, e sua colera subiu a

um grau de violencia inexprimivel.

Esteve a cahir fulminado.

--Infame murmurou roxo de ira, tu me pagas! Infame... Infame!

Depois voltando-se para Manecão:

--Dê-me esse ... eu o quero...

Abanou o capataz a cabeça.

--Não, respondeu surdamente. Esse me pertence... Caçoou com o

senhor ... e fez de mim chacota.

--Então, disse apressadamente Pereira, parta hoje ... parta já... E

quando voltar, diga só: estamos desaggravados... Innocencia será

sua...

Parando um pouco concluiu tomado de enleio:

--Se quizer aceital-a.

--Havemos de conversar...

Teve o mineiro uma explosão de desespero.

--Meu Deus, exclamou com dor, em que mundo vivemos nós? Um homem entra

na minha casa, come do que eu como, dorme debaixo do meu tecto, bebe da

agua que, carrego da fonte, esse homem chega aqui e, de uma morada de

paz e de honra, faz um lugar de desordem e vergonha! Não, mil raios me

partam!... Não quero mais saber que esse miseravel respire o ar que

respiro. Não! mil vezes, não! E desde já enxoto a canalhada que

trouxe, gente do inferno como elle!... Heide cuspir-lhes na cara...

_Pinchal-os_ fóra como cães que são!.. Ladrões!... Eu...

Interrompeu-o Manecão com calma:

--Não faça nada... É preciso que ninguem saiba do que se está

passando aqui... Ninguem!... percebe?

--E então?

--Faça de conta[122] que recebeu uma _letra_[123] de Sant'Anna. O

_cujo_ foi quem a mandou, para que os camaradas o vão esperar no

Leal... Ouviu?

Pereira fez signal de tudo comprehender.

--Depois, acrescentou Manecão com voz sinistra, mãos a obra.

--Você diz bem, retorquiu Pereira, tenha pena de mim... Estou com esta

cabeça como um cortiço de guaxupés... É um zumbido!... Mostre que

já é dono desta casa e faça como entender... Entrego-me de pés e

mãos atadas a você... Tudo lhe pertence... Emquanto a honra do mineiro

não for desaffrontada ... não levanto o rosto... Meu Deus, meu Deus,

que vergonha!...

--Coragem, coragem, aconselhou o outro.

--Se este _socavão_ não chegar para esconder minhas miserias ... mudo-me

para as bandas do Apa... Parece que vou morrer ... sinto fogo dentro da

cabeça...

E vencido pela emoção encostou a testa á mesa, deixando cahir os

braços.

Bateu-lhe Manecão no hombro.

--Que é isso, meu pae? animo! De que serve ser homem?... Olhe, cara a

cara a sua desgraça ... que tambem é minha. Não o consola a certeza

de que aquelle homem brevemente...

--Sim, replicou Pereira levantando a cabeça e reparando que o anão se

retirara, mas que faremos deste _tico_ de gente, que sabe tudo?

--Não o deixe sair mais de casa.

--Qual!... É que nem _mussú_. Quando a gente mal pensa, surge no

Sucuriú e até no Corredor.

--Pois bem... Ficará elle sabendo que ... um só piscar de olho ...

pode sahir-lhe caro ... muito caro.

--Então, implorou Pereira, vá quanto antes limpar o meu paiol daquella

gente ... vá... Se eu pudesse ainda dormir ... esquecia um pouco,

mas...

Com estas palavras retirou-se a custo o mineiro.

Incontinenti foi Manecão despachar os camaradas de Cyrino, os quaes,

pouco depois sahiam com destino á casa do Leal.

Em seguida, montando o tropeiro a cavallo, partiu em carreira

desapoderada para a villa do Sant'Anna do Paranahyba, onde chegou alta

noite.

[Nota 122: Fingir.]

[Nota 123: Carta.]

CAPITULO XXX

DESENLACE

Estão contados os grãos de areia

que compõem a minha vida. É aqui

que devo tombar. É aqui que ella

hade acabar.

SHAKESPEARE.--_Henrique V_, Acto I.

Eis que vi um cavallo amarello,

e quem o montava, era a morte.

S. JOÃO.--_Apocalypse._

Durante tres dias, foi Cyrino rigorosamente espreitado pelo noivo de

Innocencia.

Com a cautela propria dos seus habitos esquivos, soube Manecão

acompanhar-lhe todos os passos sem ser presentido.

Assim notou que o rival montava a cavallo e ia até certo ponto da

estrada como que esperar por alguem que não chegava. Na ida, mostrava

impaciencia e inquietação; na volta vinha melancolico e curvado sobre

si mesmo, absorto em fundo meditar.

Ia o infeliz mancebo ao encontro de Cesario; mas este não apparecia.

Estava quasi expirado o prazo combinado, e prestes a soar a hora do

completo desengano.

Oh! se elle pudera!... Agarraria com forças de Josué esse sol que lhe

marcava os dias e o deixaria immovel, até que o seu salvador se

resolvesse a estender-lhe a mão.

E já ia findando a semana!...

Completo o circulo de horas, se Cesario não apparecesse, começava a

imperar o juramento que dera, irrevogavel, implacavel!

--Matar-me-hei, dizia Cyrino; ficarão sabendo que não menti ás minhas

palavras.

Nessa firme resolução sahiu da villa; passou o rio Paranahyba e, como

costumava, caminhou pela estrada de S. Francisco de Salles, talvez tres

leguas. Contava pousar por aquelles sitios, de modo que alongava o seu

passeio.

Claro era o dia; lindo.

Por toda a parte cantavam mil passaros. Gritavam as gralhas nos

cerrados; piavam as perdizes no relvoso chão.

Cyrino ia muito agitado. Nada ouvia; os seus olhos, fitos sempre na

frente, buscavam na estrada, anciosos o vulto de um cavalleiro.

Soou-lhe de repente aos ouvidos o tropel de um animal.

Alguem vinha a galope.

Seu coração pulsou que parecia ter entrado tambem a galopar.

Mas o som partia de detraz.

Sem duvida, algum viajante vindo da villa.

Continuou Cyrino na vagarosa marcha.

O estrupido vinha indicando carreira folgada e que breve comsigo estaria

emparelhando, quem extravagantemente em hora tão impropria corria á

desfilada.

O mancebo de nada cuidava, tanto que mal reparou que alguem a trote

largo passara por perto de si, quasi a roçar animal contra animal.

Dalli a pouco, novo galope se fez ouvir.

Parecia que o mesmo cavalleiro havia dado de redeas, cortando o rumo que

levava.

Dessa vez, porem, Cyrino accordou do lethargo, esporeou vigorosamente a

sua cavalgadura e ... esbarrou com Manecão.

Instinctivamente empallideceu. O outro estava tambem muito descorado.

Estacaram elles os animaes e fitaram-se alguns minutos, de um lado com

desconfiança e pasmo, de outro com mal concentrado furor.

--Patricio, interpellou por fim o capataz em tom provocador, que faz

mecê por aqui?

--Eu? perguntou Cyrino.

--Nhôr sim, mecê mesmo.

--É boa ... viajo.

--Ah! viaja! replicou Manecão. Então é andejo?

--Andejo, não, contestou Cyrino com força. Não sou nenhum bruto.

E por prevenção levantou a capa do coldre em que havia uma pistola,

fazendo menção de a sacar.

--Não será andejo, continuou o capataz, mas então o que é?

--Sou o que sou, não é da sua conta.

Contrahiu-se o rosto de Manecão.

De um tranco chegou o cavallo bem junto a Cyrino e disse-lhe em voz

surda:

--É um ladrão ... é um cachorro!

A esse insulto, puxou Cyrino a pistola.

--Mato-o já, bradou com violencia se continua a _destratar-me_...

Sorriu-se o capataz com desprezo.

--Gentes, observou cuspindo para um lado, vejam só que valentão... E

sabe manejar garrucha!...

--Acabemos com isso, gritou Cyrino.

--Acabemos, retorquiu Manecão com fingida calma.

--Mas quem é o Sr.? perguntou Cyrino.

--Eu?

--Sim!... sim!...

--Então não me conhece?

--Não, balbuciou Cyrino.

--Conhece _Nocencia_? uivou Manecão com voz terrivel.

E de sopetão tirando uma garrucha da cintura, desfechou-a á

queima-roupa em Cyrino.

Varou a bala o corpo do infeliz e o fez baquear por terra.

Dois gritos estrugiram.

Um de agonia, outro de triumpho.

Ficara Cyrino estendido de bruços. Reunindo as forças, que se lhe

escapavam com o sangue, voltou-se de costas e prorompeu em

vociferações contra o inimigo, que o contemplava sardonico.

--Matador! ... vil! ... sim! ... conheço Innocencia... Ela é minha...

Infame!... Mataste-me... mas mataste tambem a ela!... Que te fiz eu?...

Deus te hade amaldiçoar ... sim, meu Deus, meus Santos ... maldição

sobre este assassino... Foge, foge ... minha sombra hade seguir-te

sempre...

--Melhor, interrompeu Manecão do alto do cavallo, isso mesmo é o que

eu quero.

--Ah! queres? continuou Cyrino com voz rouquejante, não é?... Pois

bem!... De noite e de dia ... minha alma há de estar contigo ...

sempre, sempre!...

Calou-se por um pouco e, revolvendo-se no chão, passou a mão pela

testa. Lentejava-lhe dos póros o suor frio e visguento da morte.

Foi seu rosto abandonando a expressão de rancor; a respiração

tornou-se-lhe mais difficil.

--Não murmurou com pausa e gravidade, não quero morrer ... assim. Devo

sair desta vida ... como christão... Hei de saber perdoar... E reunindo

as forças, acrescentou com uncção e energia: Manecão ... eu te

perdôo ... por Christo ... que morreu ... na cruz, para nos salvar ...

eu te perdôo... Nosso Senhor tenha pena de ti... Eu te perdôo,

ouviste?

Á medida que o moribundo pronunciava estas palavras, esbugalhara

Manecão os olhos de horror com o corpo todo a tremer.

--Não quero o teu perdão, bradou elle a custo.

--Não importa, respondeu-lhe Cyrino com voz suave. Ele é ... dado do

fundo d'alma... Cáia sobre tua cabeça...

Quero, quero morrer como christão... Que me importa agora o mundo, a

vingança ... tudo?... só Innocencia!... Coitada de Innocencia... Quem

sabe ... se ... ela ... não morrerá? Manecão, dá-me agua. Agua pelo

amor de Deus!... Desce do cavallo, homem... É um defunto que te pede...

Desce!...

E com os braços erguidos acenava para Manecão.

--Agua, bradou o mancebo forcejando por levantar-se, dá-me agua ... eu

te dou a salvação...

Sentia o capataz escorrer-lhe o suor dentre os cabellos. Queria fugir e

não podia. Parecia que os seus olhos tinham de acompanhar passo a passo

a agonia da sua victima. Aquella scena se lhe afigurava um pesadello, e

completo torpor lhe tolhia os membros.

Tirou-o desse enleio o bater das patas de um animal que vinha pela

estrada a trote.

Ouvira tambem Cyrino o estrupido e arregalara com anciedade os olhos.

Desabrochou-lhe nos labios um sorriso de acre tristeza.

Alguem vinha chegando.

Esporeou Manecão com vigor o cavallo e, levantando uma nuvem de poeira,

desappareceu num abrir e fechar de olhos.

Nisto assomava um cavalleiro numa das voltas do caminho.

Era Antonio Cesario.

Vendo um homem estirado por terra apressou o passo.

--O doutor?! exclamou apeando-se rapidamente e todo horrorisado.

--Eu mesmo, respondeu Cyrino com voz fraca.

--Mas, quem lhe fez este damno, santo Deus?

E correndo para o moço, ajoelhou-se junto delle e levantou-lhe o corpo.

--Quem foi o assassino?

--Ninguem, rouquejou o misero, foi ... destino... Morro contente...

Dê-me agua ... e fale-me de Innocencia...

--Agua? exclamou Cesario com desespero, aqui no meio do cerrado?... O

corrego fica a tres leguas pelo menos...

--Ah! replicou Cyrino meio desvairado, se não ha ... com que estancar a

sêde do corpo ... estanque a ... da alma... Innocencia ... onde está?

quero vel-a... Diga-lhe que morri ... por causa della...

--Mas, quem o matou? bradou o mineiro.

--Não vale a pena dizel-o respondeu o mancebo entre gemidos. Cuide

agora ... só de mim... Olhe ... nunca fui mau ... não tenho

peccados ... grandes... Acha que Deus me ... hade perdoar?

--Acho, respondeu Cesario com força...

--Que fiz eu ... na minha vida? Talvez ... enganasse os outros ... dizendo

que era ... medico... Mas ... tambem curei alguns... De nada mais

me recordo... Ah! sim ... uma divida de honra... Na minha carteira ... ha

uns seis centos mil reis; pague ... trezentos ao Totó Siqueira,

da villa; dê ... cincoenta mil reis ... a cada camarada ... meu ... o

mais ... distribua ... todo ... pelos pobres, sobretudo ... morpheticos ...

depois das ... missas ... que por mim ... mandar ... rezar ...

ouviu? ... ouviu?

Fez o mineiro signal que sim.

Vinha a morte desdobrando as suas sombras no rosto de Cyrino. Ia-se-lhe

empanando o brilho dos olhos; ficara a lingua tropega, afilara-se-lhe o

nariz, e sinistro pallor mais realçava a negra cor dos seus cabellos e

barbas.

Sentara-se Cesario no chão para segurar com mais geito o corpo do

moribundo. Duas lagrimas vinham-lhe sulcando as masculas faces.

Ligeiro estremecimento agitava o corpo de Cyrino.

--Agora, acrescentou com voz muito sumida, chegou ... o meu

dia... Mas ... eu lhe peço ... nada diga ... á sua afilhada... Não

consinta ... que case com ... Manecão.

--Então, interrompeu Cesario, foi elle quem?...

--Não, não, contestou Cyrino, mas ... ella havia de ser ... infeliz...

Ouviu? Promette-me?

--Prometto, respondeu Cesario com firmeza. Juro até...

--Pois bem, suspirou o agonisante, agora ... agradeço a morte... Quero

apegar-me ... ás Santas do Paraiso ... e chamo por...

E com esforço, no ultimo alento, murmurou mais e mais baixo:

--Innocencia!

* * * * * * *

Innocencia · 第 12 / 13 段