Transformava-se para elle o caminho em dolorosa via, que numa vertiginosa

carreira quizera vencer, mas que era preciso ir tragando pouso a pouso,

ponto por ponto.

A magestosa impassibilidade da natureza exasperava-o.

Quando o homem soffre devéras, desejara nos raptos do allucinado

orgulho, ver tudo derrocado pela furia dos temporaes, em harmonia com a

tempestade que lhe vae no intimo.

--Meu Deus! murmurava Cyrino, tudo quanto me rodeia está tão alegre e

é tão bello! Com tanta leveza voam os passaros: as flores são tão

mimosas; os ribeirões tão claros ... tudo convida ao descanço ... só

eu a padecer! Antes a morte... Quem me dera arrancar do coração este

peso! esta certeza de uma desgraça immensa! Que é afinal o amor!...

Daqui a annos talvez nem me lembre mais da pobre Innocencia... Estarei

me atormentando á tôa... Oh não! Essa menina é a minha vida! é o

meu sangue ... o meu pharol para os céus... Quem m'a rouba, mata-me de

uma vez. Venha a morte ... fique ella para chorar por mim ... um dia

contará como um homem soube amar!...

Levantara Cyrino a voz. De repente, deu um grande grito, como que o

suffocava:

--Innocencia!... Innocencia!

E as sonoridades da solidão, doceis a qualquer ruido, repetiram aquelle

adorado nome, como repetiam o uivo selvatico da çuçuarana, a nota

plangente do sabiá ou a martellada metallica da araponga...

Como tudo, afinal, tem termo, alcançou Cyrino, no quarto dia, a casa de

Antonio Cesario. Acolheu-o este com toda a amabilidade e franqueza.

CAPITULO XXVI

RECEPÇÃO CORDIAL

Assignalemos este dia entre

os mais felizes; não se poupem

amphoras; e, como Sabios,

descanso não demos aos

nossos pés.

HORACIO.--_Ode XXVI._

Em breve chegara Manecão á casa do futuro sogro.

Não é grande a distancia de Sant'Anna até lá, e entretanto o animal

brioso e descansado que montava o tropeiro viera sempre estimulado do

ferreo acicate.

Batia de impaciencia o coração do capataz, e a lembrança da formosa

noiva que o esperava, enchia-o de desconhecido alvoroço. Tambem, por

vezes, fugia-lhe do rosto o toque habitual de severidade, e tenue

sorriso afastando a custo os densos bigodes, lhe pairava nos labios.

Acolheu-o Pereira com verdadeira explosão de alegria.

--Viva! viva! exclamou de longe acenando com os braços, seja bemvindo

neste rancho... Ora, até que afinal!... Faltam _rojões_ para festejar

a sua chegada... Que demora!... Pensei que não topava mais com o

caminho da casa... _Nocencia_ vae pular de contente...

Emquanto o mineiro enfiava estas palavras quasi em gritos, apeou-se o

sertanista que, de chapéu na mão, veiu pedir-lhe a benção.

--Deus o faça um santo, disse Pereira abençoando-o com fervor. Você

não queria chegar...

--Como vae a dona? perguntou Manecão.

--Agora, muito bem. Teve sezões; mas já está de toda boa...

--E lembrou-se de mim?

--Olhe, que _enjoado_!... Pois se elle enfeitiça a gente... Eu mesmo só

pensava em você... Quando estará por cá aquelle marreco? dizia eu commigo

mesmo ... e botava uns olhos compridos por essa estrada a fora ... quando

mais, mulher! Isto é um não acabar nunca de saudades. Mas,

observou elle, estamos a bater lingua e não o faço entrar...

_Agorinha_ mesmo, _Nocencia_ foi para o corrego... Desensilhe o _pingo_

e deixe-o por ahi...

Fez Manecão o que disse Pereira. Tirou os arreios, não de subito, mas

com cautela e lentidão para que o animal, encalmado como estava, não

ficasse _airado_: deixou sobre o lombo a manta e, apanhando um sabugo de

milho, esfregou de vagar a anca e o pescoço.

Depois de dar termo áquelles cuidados, penetrou na casa fazendo soar

ruidosamente as esporas, que pelas dimensões desproporcionadas o

obrigavam a caminhar firmado nos dedos do pé e com a planta levantada.

O mineiro não cabia em si de contente.

--Então, está tudo arranjado? perguntou alegremente.

--Tudo. Os papeis já foram tirados... Tive que ir até Uberaba, e foi o

que me atrazou... Quando mecê queira ... botamo-nos de partida para a

Senhora Sant'Anna... Amanhã cá chegam os cavallos que comprei... Está

falado o Lata ... o vigario avisado; só ... falta o dia...

--Nestes casos, quanto mais depressa melhor... Não acha?

--Certo que sim...

--Então, se quizer, daqui a dois domingos...

--Como queira... Eu, cá por mim... Bem sabe, isto de _casorios_, o que

custa é ... tomar resolução ... depois ... deve-se _pegar_ na

carreira... A rapariga está prompta?...

--Não sei ... hade estar... Vejo-a sempre cosendo... Quero ficar bem

certo do dia, porque mando chamar a gente do Roberto... Afinal, é

preciso matar a porcada e mandar buscar _restillo_[116]. Quando

se casa uma filha e ... filha unica, as algibeiras devem ficar

_velleiras_[117]... Já estão todos combinados ... é só dar o

signal... Tudo se arma logo... Aqui, em frente da casa, faz-se um grande

rancho... A latada para a _janta_ hade ser no oitão direito... Já

encommendei de Sant'Anna alguns rojões, e o mestre Trabuco prometteu-me

uns que deitam lagrimas... Depois, tiros de bacamarte e _ronqueiras_

hão de troar...

--Eu, interrompeu Manecão, mandei com a sua licença vir da _cidade_

duas duzias de garrafas de vinho da casa do major...

--Olaré! Você metteu-se em gastos!... Duas duzias de garrafas de

vinho?

--Nhôr-sim...

--Pois essas, meu caro, hão de ser reguladinhas da _silva_... Para o

vigario ... para o major ... o collector ... o professor ... emfim,

gente de alguma representação, porque com ella conto, sem falar na

_arraia miuda_. Isso ha de haver um _despotismo_. Quero que, dez dias

antes da _fonçonata_ venha a comadre do Ricardo com o seu povaréu para

prepararem sequilhos, tarecos, bróas, biscoitos de polvilho e

_brevidades_[118]. Haverá regalo de _chicolate_[119] todas as manhãs...

Você verá que desta festa falarão... E o _sapateado_ á noite? Os

descantes?... Talvez se possa arranjar um _cururú_ valente...

--Mas, perguntou Manecão, qu'é de sua filha?

Riu-se Pereira.

--Maganão! não pensa noutra coisa, hen? Tambem fui _ansim_ ... cada

qual tem o seu tempo... Isto é regra de Nosso-Senhor Jesus-Christo.

E, sahindo para o terreiro, gritou com força, fazendo das mãos buzina:

--_Nocencia_!... _Nocencia_!...

Não teve resposta.

--Coitadinha da pequena, disse elle, ha de saltar que nem veadinha,

quando voltar do rio.

E accrescentou:

--Já que ella não vem ... entremos. Você é de casa: tome por cá e

chegue até o meu quarto... Rede e pelles macias não faltam.

Ao dizer estas palavras, Pereira bateu amigavelmente no hombro de

Manecão e fel-o seguir para o lanço do fundo da casa.

[Nota 116: _Restillo_ é a aguardente distillada. No interior

empregam-se estas palavras como synonymas.]

[Nota 117: _Velleiras_, isto é, faceis no abrir.]

[Nota 118: Especie de pão de milho em que entram claras de ovo.]

[Nota 119: _Chicolate_ é café com leite e ovos batidos.]

CAPITULO XXXVII

SCENAS INTIMAS

Santa Maria, advogada nossa,

ouvi nossos rogos. Virgem

pura, ante Vós se prostra uma

infeliz donzella.

WALTER SCOTT.--_Os dois desposados._

Descrever o abalo que soffreu Innocencia ao dar, cara a cara, com

Manecão fora impossivel. Debuxaram-se-lhe tão vivos na physionomia o

espanto e o terror, que o reparo, não só da parte do noivo, como do

proprio pae habitualmente tão despreoccupado, foi repentino.

--Que tem você? perguntou Pereira apressadamente.

--Homem, a modos, observou Manecão com tristeza, que metto medo á

senhora dona...

Batiam de commoção os queixos da pobresinha; nervoso estremecimento

balanceava-lhe o corpo todo.

A ella se achegou o mineiro e pegou-lhe no braço.

--Mas você não tem febre?... Que é isto, rapariga de Deus?

Depois, meio risonho e voltando-se para Manecão:

--Já sei o que é... Ficou toda fóra de si ... vendo o que não

contava ver... Vamos, _Nocencia_, deixe-se de tolices.

--Eu quero, murmurou ella, voltar para o meu quarto.

E encostando-se a parede, com passo vacillante se encaminhou para

dentro.

Ficara sombrio o capataz.

De sobrecenho carregado, recostara-se á mesa e fôra, com a vista,

seguindo aquella a quem já chamava esposa.

Sentou-se defronte delle Pereira com ar de admiração.

--E que tal? exclamou por fim... Ninguem pode contar com mulheres,

_iche_!

Nada retorquiu o outro.

--Sua filha, indagou elle de repente com voz muito arrastada e parando a

cada palavra, viu alguem?

Descorou o mineiro e quasi a balbuciar.

--Não ... isto é viu ... mas todos os dias ... ella vê gente...

Porque me perguntas isso?

--Por nada...

--Não:... explique-se... Você faz assim uma pergunta que me deixa um

pouco ... _anarchizado_. Este negocio é muito, muito serio. Dei-lhe

palavra de honra que minha filha _havéra_ de ser sua mulher ... a

_cidade_ já sabe e ... commigo não quero historias... É o que lhe

digo.

--Está bom, replicou elle, nada de precipitações. _Toda a vida_ fui

_ansim_... Já volto: vou ver onde _pára_ o meu cavallo.

E sahiu, deixando Pereira entregue a encontradas supposições

Decorreram dias sem que os dois tocassem mais no assumpto que lhes moia

o coração. Ambos, calmos na apparencia, viviam vida commum, visitavam

as plantações, comiam juntos, caçavam, e só se separavam a hora de

dormir, quando o mineiro ia para dentro e Manecão para a sala dos

hospedes.

Innocencia não apparecia.

Mal sahia do quarto, pretextando recahida de sezões: entretanto, não

era o seu corpo o doente, não; a sua alma, sim, essa soffria morte e

paixão; e amargas lagrimas, sobretudo a noite, lhe inundavam o rosto.

--Meu Deus, exclamava ella, que será de mim? Nossa-Senhora da Guia me

soccorra. Que pode uma infeliz rapariga dos sertões contra tanta

desgraça? Eu vivia tão socegada n'este retiro, amparada por meu

pae ... que agora tanto medo me mette... Deus do ceu, piedade, piedade.

E de joelhos, deante de tosco oratorio allumiado por esguias velas de

cera, orava com fervor, balbuciando as preces que costumava recitar

antes de se deitar.

Uma noite, disse ella:

--Quizera uma reza que me enchesse mais o coração ... que mais me

alliviasse o peso da agonia de hoje...

E, como levada de inspiração, prostrou-se murmurando:

--_Minha Nossa Senhora_ mãe da Virgem que nunca peccou, ide deante de

Deus. Pedi-lhe que tenha pena de mim ... que não me deixe assim nesta

dor cá de dentro tão cruel. Estendei a vossa mão sobre mim. Se é

crime amar a Cyrino, mandai-me a morte. Que culpa tenho eu do que me

succede? Rezei tanto, para não gostar deste homem! Tudo ... tudo ...

foi inutil! Porque então este supplicio do todos os momentos? Nem

sequer tem allivio no somno? Sempre elle ... elle!

Ás vezes, sentia Innocencia em si impetos de resistencia: era a

natureza do pae que acordava, natureza forte, teimosa.

--Hei de ir, dizia então com olhos a chamejar, á igreja, mas de

rastos! No rosto do padre; gritarei: Não, não!... Matem-me... mas eu

não quero...

Quando a lembrança de Cyrino se lhe apresentava mais viva, estorcia-se

de desespero. A paixão punha-lhe o peito em fogo...

--Que é isto, Santo Deus? Aquelle homem me teria botado um mau olhado?

Cyrino, Cyrino volta, vem tomar-me ... leva-me! ... eu morro! Sou tua,

só tua ... de mais ninguem.

E cahia prostrada no leito, sacudida por arrepios nervosos.

Um dia, entrou inesperadamente Pereira e achou-a toda lacrymosa.

Vinha sereno, mas com ar decidido.

--Que tem você, menina, perguntou elle, meio terno, de alguns dias para

cá?

Innocencia encolheu-se toda como uma pombinha que se sente agarrar.

Puxou-a brandamente o pae e fel-a sentar no seu collo.

--Vamos, que é isto, _Nocencia_? Porque se _socou_ assim no quarto?...

Manecão lá fóra a toda a hora está perguntando por você ... isto

não é bonito... É, ou não, o seu noivo?

Redobraram as lagrymas.

--Mulher não deve atirar-se á cara dos homens ... mas também é bom

não se _canhar_ assim ... É de _enjoada_... Um marido quasi, como elle

já é...

De repente o pranto de Innocencia cessou.

Desvencilhou-se dos braços do pae e, de pé deante delle, encarou-o com

resolução:

--Papae sabe porque tudo isto?

--Sim...

--É porque eu ... não devo...

--Não devo o que?

--Casar.

Arregalou Pereira os olhos e de espanto abriu a boca.

--Que? perguntou elle elevando muito a voz. Comprehendeu a pobresinha

que a lucta ia travar-se. Era chegado o momento.

Revestiu-se de toda a coragem.

--Sim, meu pae, este casamento não deve fazer-se...

--Você está doida? observou Pereira com fingida tranquilidade.

Prosseguiu então Innocencia com muita rapidez, as faces incendiadas de

rubor:

--Conto-lhe tudo papae... Não me queira mal... Foi um sonho... O outro

dia, antes de Manecão chegar, estava sesteando e tive um sonho... Neste

sonho, ouviu, papae? minha mãe vinha descendo do céu... Coitada!

estava tão branca que mettia pena... Vinha _bem limpa_, com um vestido

todo azul ... leve, leve!

--Sua mãe? balbuciou Pereira tomado de ligeiro assombro.

--Nhôr sim, ella mesma...

--Mas você não a conheceu! Morreu, quando você era pequetita...

--Não faz nada, continuou Innocencia, logo vi que era minha mãe...

Olhava para mim tão amorosa!... Perguntou-me: _Cadê_ seu pae? Respondi

com medo. Está na roça; quer mecê, que elle venha?--Não, me disse

ella, não é _perciso_; diga-lhe a elle que eu vim até cá, para não

deixar Manecão casar com você, porque hade de ser infeliz ...

muito!... muito!...

--E depois? perguntou Pereira levantando a cabeça com ar sombrio,

gyrando os olhos.

--Depois ... disse mais... Se esse homem casar com você, uma grande

desgraça hade entrar ... nesta casa que foi minha e onde não haverá

mais socego. Bote seu pae bem sentido nisso. E sem mais palavra,

sumiu-se como uma luz que se apaga.

Cravou Pereira olhar inquiridor na filha.

Uma suspeita lhe atravessou o espirito.

--Que signal tinha sua mãe no rosto?

Innocencia empallideceu.

Levando ambas as mãos á cabeça e prorompendo em ruidoso pranto,

exclamou:

--Não sei ... eu estou mentindo ... Isto tudo é mentira! É mentira!

Não vi minha mãe!... Perdão, minha mãe, perdão!

E, cahindo de bruços sobre a cama, ficou immovel com os cabellos

esparsos pelas espaduas.

Contemplou-a Pereira largo tempo sem saber que pensar, que dizer.

Subito se inclinou sobre o corpo da filha e ao ouvido lhe segredou com

muita energia:

--_Nocencia_, daqui a bocadinho Manecão chega da roça... Você hade ir

para a sala ... se não fizer boa cara, eu a mato.

E erguendo a voz:

--Ouviu? Eu a mato!... Quero antes vel-a morta, estendida, do que ... a

casa de um mineiro deshonrada...

Ás pressas sahiu do quarto, deixando Innocencia na mesma posição.

--Pois bem murmurou ella, já que é preciso ... morra eu!

CAPITULO XXVIII

EM CASA DE CESARIO

Ah! a perspectiva que pode

mais docemente sorrir ao meu coração

é a do aniquilamento.

KLOPSTOCK.--_A Messiada._

Cyrino logo que se estabeleceu em casa do seu novo hospedeiro, tratou de

lhe captar as sympathias. Medicou um escravo que estava de cama, fez

valer o conhecimento e amizade que tinha com Pereira, conversou muito a

respeito delle e incidentemente deu noticias de Innocencia.

Atalhou-o Antonio Cesario neste ponto.

--Mecê a viu? perguntou elle.

--Pois não, respondeu o moço, por signal que a curei de sezões.

--Ah! É uma guapa rapariga...

--Parece-me...

--Isso é ... falo assim, porque afinal ... daqui a poucos dias está

casada ... não sabe?

--Ouvi contar.

--Pois é verdade. O noivo passou por cá e levou a minha licença. É

homem de mão cheia. A pequena deve estar contente. Ah! nem todas no

sertão são felizes assim. Tem-se por aqui o mau vezo de arranjar

casamentos ás cégas, e ás vezes, se _encambulha_ um mocetão com uma

fanadinha ou então uma sujeita de encher o olho com algum rapaz todo

engorovinhado... Cruz! E, uma vez dada a palavra, acabou-se...

Achou Cyrino a occasião propria e redarguiu com vivacidade:

--Então o senhor não é desse parecer?

--Conforme, respondeu logo Cesario com reserva. Aos paes é que convem

_inziminar_ essas coisas.

--Boa duvida... Mas ... se ... sua afilhada ... não gostasse de

Manecão?

--Não gostasse?

--Sim.

--E que nos importa isso? Uma menina como ella não sabe o que lhe fica

bem ou mal... Ninguem a vae consultar. Mulheres, o que querem é casar.

Não ouviu já o patricio dizer que ellas não casam com carrapato,

porque não sabem qual é o macho?

E Cesario sorriu.

Depois, fechando de repente a cara, perguntou:

--Porque é que estamos a dar de lingua nesse particular? Não sou amigo

disso. Quer-me parecer que mecê é um tanto namorador...

--Eu? protestou Cyrino com vivacidade.

--Boa duvida. Eu cá nem falar nellas quero. Mulher é para viver muito

quietinha perto do tear, tratar dos filhos e creal-os no temor de Deus;

não é nem para _parolar-se_ com ella, nem a respeito della.

Sempre as mesmas theorias de Pereira: a mesma grosseria repassada de

desprezo ao sexo fraco, a mesma susceptibilidade para desconfiar de

qualquer pessoa ou de qualquer palavra que lhes parecesse menos bem

soante aos prevenidos ouvidos.

--Minha afilhada, continuou Cesario, deve levantar as mãos para o céu.

Achou um marido que a hade fazer feliz e tornal-a mãe de uma boa duzia

de filhos.

Estremeceu Cyrino, mas nada disse.

Por toda a parte esbarrava de encontro a preconceitos que nada podia

vencer.

Nessa mesma tarde quiz montar a cavallo e voltar para Sant'Anna;

entretanto, o pensamento da resistencia com que Innocencia encetara a

terrivel lucta com seu pae, actuou em seu espirito e o reteve.

Decidiu-se a atacar o touro pelas aspas.

Restar-lhe-ia ao menos o consolo do desabafo, e num jogo perdido

arriscava ainda ousado lance.

--Sr. Cesario, disse elle na manhã seguinte, preciso muito falar-lhe em

particular.

--A mim?

--Sim, senhor.

--Pois, estou aqui ás suas ordens.

--Quizera que sahissemos. O que lhe vou dizer ... ninguem pode ...

ninguem deve ouvir.

--Oh! O senhor me assusta... Então tem segredos que me contar?

--Tenho...

--Pois vá lá... _Mapiaremos_ fóra... Ao meio-dia esteja na minha

roça ... sabe onde é?

--Sei...

--Espere-me num pau de peroba secco que esta derrubado.

--Lá estarei.

Muito antes da hora aprazada, achava-se Cyrino no lugar indicado.

Devorava-o a impaciencia.

Resolvido a desvendar sem rebuço os seus amores a esse homem a quem mal

conhecia, que por elle não tinha senão razões de passageira

sympathia, e de quem, comtudo, estava dependente sua felicidade,

considerava decisivos os momentos.

Quem em taes circumstancias se acha, enxerga em tudo quanto o rodeia

symptomas de bom ou mau agouro, e nesse instante a Cyrino pouco parecia

sorrir a natureza.

Não chovia; mas o tempo estava carregado e sombrio.

Tinha o ceu cor acinzentada e do lado do poente linhas negras e

continuas denunciavam trovoada talvez para a tarde.

Era o local, além disso, tristonho. Enfileiravam-se numa grande área,

pés de milho já pendoados, dentre os quaes surgiam possantes madeiros

de tronco rugoso e galhada completamente despida de ramagem; uns, da

base á extrema ponta, lugubremente ennegrecidos pelo fogo lançado

antes da sementeira; outros perdidas todas as folhas em consequencia da

incisão profunda e circular com que o machado impedira a ascensão da

seiva. Esses quedavam vivos, mas de uma vida latente e esmorecida,

denunciada por entanguidos brotos no mais alto do tope.

Quando o dia é claro, aquelles gigantes da floresta, que pela robustez

do cerne haviam desafiado as chammas e os esforços do homem, servem de

poleiro a innumeros bandos de papagaios, periquitos araçaris, ou de

graúnas que formam concertos capazes de ensurdecer os écos.

Naquella occasião; porém, tudo era silencio.

Só de vez em quando se ouviam pancadas surdas e intermittentes dos

pica-paus de crista vermelha, agarrados aos troncos das arvores e a

explorar-lhes os pontos carunchosos, subindo em zig-zags.

Á hora ajustada, apresentou-se Antonio Cesario.

Por cautela vinha armado de uma espingarda de caça, que bem serviria

para derrubar alguma onça, ou animal damninho.

Seu rosto, habitualmente sereno, indicava certa inquietação, repassada

de curiosidade.

--Aqui me tem, doutor, disse elle descançando a arma sobre o páu

derrubado e sentando-se ao lado de Cyrino. Estou prompto para ouvil-o

quanto tempo queira...

Muito pensara Cyrino nesse momento a que devia chegar e, entretanto,

não pudera achar o modo por que encetasse as suas declarações.

Parafusara de continuo mil pretextos sem nada assentar.

Foi, pois, a balbuciar que respondeu:

--O Sr ... hade me desculpar ... o incommodo que ... lhe dou...

--Incommodo nenhum.

--E deve estar ... espantado do que lhe pedi ... vir falar commigo ...

em lugar ermo ... commigo que sou como qualquer hospede, como tantos que

a sua casa tão franca todos os dias recebe...

--Com effeito, confirmou Cesario.

--Pois bem, daqui a nada tudo lhe ficará claro e explicado... Se

emquanto eu falar ... o offender, perdoe-me, ouviu?

--Sr. Cesario, continuou Cyrino após breve pausa, se o Sr. visse um

homem arrastado numa _corredeira_[120] e pudesse atirar-lhe uma corda e

salval-o ... o faria?

--Boa duvida! replicou o outro com força. Ainda que corra perigo de

vida, não deixarei homem nenhum, branco ou preto, livre ou escravo,

rico ou pobre, conhecido ou não, sem o soccorro de meu braço.

--Pois bem, exclamou Cyrino arrebatadamente, sou eu esse homem que vae

morrer, que está perdido e a quem o Sr. pode salvar...

E respondendo á tacita suspeita de quem o ouvia:

--Não acredite que esteja doido ... não. Estou tão são de juizo como

o Sr. e falo-lhe a verdade. Uma palavra esclarece-lhe tudo ... eu morro

de paixão por uma mulher e essa mulher é ... sua afilhada!...

Innocencia!

De um pulo levantou-se Cesario. Seus labios tremiam, os olhos de subito

injectados de sangue. A mão procurou a arma que lhe ficava ao lado.

--Que é isso? balbuciou encarando fixamente Cyrino.

Adivinhara-lhe este todos os pensamentos.

Erguera-se tambem, cara a cara com Cesario:

--Mate-me, bradou elle, mate-me... É um favor que me faz... Dê cabo

desta vida desgraçada.

Já arrependido do gesto que fizera e um tanto corrido da sua

precipitação, replicou o outro todo sombrio:

--Não tenho razões para matal-o... O Sr. nunca me fez mal...

--Não, proseguiu Cyrino meio desvairado, peço-lhe por favor... Se o

Sr. tem caridade, e é bom, se gosta de seus filhos, se tem pae e mãe

no céu ... por tudo isso eu lhe peço de joelhos! mate-me ... mate-me!

E deixou-se cahir aos pés de Cesario, occultando a cabeça entre as

mãos.

Contemplou-o largos instantes o mineiro com surpreza.

Inclinando-se para o moço, bateu-lhe no hombro e quasi com brandura lhe

disse:

--Que historia é essa, doutor?... Isso é loucura! Conte-me o que ha...

Quero saber se a sua bola está gyrando ou não. Sou homem do sertão,

mineiro de lei ... mas sei tratar com gente...

A estas palavras, recobrou Cyrino algum alento e pôz-se de pé.

Sentando-se então ao lado de Cesario, narrou-lhe tudo, o desespero que

o minava, a certeza que tinha do amor de Innocencia e a implacavel

sentença proferida por Pereira.

Ouvia-o Cesario attentamente. Só de vez em quando deixava escapar esta

exclamação:

--Ah! mulheres!... mulheres! É a nossa perdição.

Depois que Cyrino acabou de falar, encarou-o detidamente e, com ar

severo, perguntou:

--Fale-me a verdade, doutor, o senhor nunca trocou palavra com

Innocencia? Nunca esteve só com ella?

--Estive, respondeu o outro meio receioso.

As faces de Cesario subiu uma onda de sangue.

--Então, roquejou elle, a desgraça...

--Deus meu, atalhou Cyrino com fogo, caia a alma de minha mãe no

inferno, se Innocencia não é pura ... se...

Conteve-o Cesario com um gesto.

--Basta, moço: quem jura assim, não mente... Tambem no meu tempo tive

uma paixão infeliz ... e sei o que é soffrer...

--Oh! Sr. Cesario, salve-me!...

--Que posso eu fazer? Não sabe o senhor que ella hoje não pertence nem

mesmo ao pae, ao seu proprio pae? Pertence á palavra de honra, e

palavra de mineiro não volta atraz... Não sabia o senhor disso, quando

deixou que o amor lhe entrasse pelos olhos?... Mulheres não pensam ...

mulheres o que querem é ver os homens _derretidos_ por ellas ...

sacrificam tudo ... e por um requebro _pincham_ na rua a honra de suas

casas...

--Não, protestou Cyrino, ella não é assim...

--Então é melhor que as outras? objectou Cesario com desdem.

--Sim, sim, é melhor do que tudo deste mundo. Acima della, só

Nossa-Senhora!...

Ligeiramente sorriu o mineiro.

--Qual! observou elle, bem disse o _outro_: a paixão é um transtorno.

Fica um homem que nem uma miseria! É...

--Então? interrompeu Cyrino.

Innocencia · 第 11 / 13 段