ver uma cova coberta de fresco, sobre a qual se erguia uma cruz tosca
feita de dois grossos páus amarrados com cipós.
[Ilustração: Eram mostras da caridade do mineiro Antonio Cesario.]
Eram mostras da caridade do mineiro Antonio Cesario.
EPILOGO
REAPPARECE MEYER
Possue-te de justo orgulho e coroem
os louros de Apollo tua cabeça.
HORACIO.
No dia 18 de Agosto de 1863, presenciava a cidade de Magdeburgo pomposo
espectaculo, ha muito annunciado no mundo scientifico da sabia Germania.
Era uma sessão extraordinaria e solemme da Sociedade Geral Entomologica,
a qual chamava a postos não só todos os seus membros effectivos,
honorarios, correspondentes, como muitos convidados de oceasião, afim
de acolher e levar ao capitolio da gloria um dos seus mais distinctos
filhos, um dos mais infatigaveis investigadores dos segredos da
natureza, intrepido viajante, ausente da patria desde annos e de volta
da America Meridional, em cujas regiões centraes por tal fórma se
embrenhara, que impossivel havia sido seguir-lhe o roteiro, até nos
mappas e cartas especiaes do grande colleccionador Simão Schropp.
Revestira-se de mil galas a sciencia. Todos os socios de casaca preta,
gravata e luvas brancas, alguns com discursos nos bolsos, enchiam a sala
das sessões muito antes da hora marcada: a orchestra executava a sonata
n.° 26 de Luiz van Beethoven, e senhoras ostentavam _toilettes_ ricas
e de aprimorado gosto.
De repente atroou um grito:
--Vivat Meyer!! Hurrah! Vivat! Hoch! Hoch!...
E, ao passo que todos os pescoços se estiravam para ver quem entrava
sacudiam-se no ar com enthusiasmo lenços e chapéus.
Acalmada a ruidosa manifestação, levantou-se o presidente da Sociedade
Entomologica, um presidente magro como um espeto e ornamentado de ruiva
cabelleira que lhe dava aspecto de um projecto de incendio.
--Sim! exclamou elle depois de ter bebido uns goles d'agua assucarada e
de haver preparado a garganta; eis emfim, aqui, no meio de nós, o
grande, o vencedor, o incomparavel Guilherme Tembel Meyer!...
E neste gosto falou duas horas seguidas.
* * * * * * *
No dia seguinte, traziam as gazetas de Magdeburgo extensa relação da
festa, transcreviam o discurso do presidente e, como appendice ás notas
biographicas relativas a Meyer, enumeravam os prodigios entomologicos
que havia recolhido em suas dilatadas peregrinações.
«O que ha mais digno de admiração, dizia o _Tempo_ (Die Zeit), em
toda a immensa e preciosissima collecção trazida pelo Dr. Meyer das
suas viagens, é sem contestação uma borboleta, genero completamente
novo e de esplendor acima de qualquer concepção. É a _Papilio
Innocentia_... (Seguia-se uma descripção de minuciosidade
perfeitamente germanica).
«O nome, acrescentava a folha, dado pelo eminente naturalista áquelle
soberbo especimen, foi graciosa homenagem á belleza de uma donzella
(Mädchen) dos desertos da provincia de Matto-Grosso (Brazil), creatura,
segundo conta o Dr. Meyer, de fascinadora formosura. Vê-se, pois, que
tambem os sabios possuem coração tangivel e podem, por vezes, usar da
sciencia como meio de demonstrar impressões sentimentaes de que muitos
não os julgão susceptiveis.
* * *
Innocencia, coitadinha...
Exactamente nesse dia fazia dous annos que o seu gentil corpo fora
entregue á terra, no immenso sertão de Sant'Anna do Paranahyba, para
ahi dormir o somno da eternidade.
FIM