amanhã a estas mesmas horas ou mais cedo, trago para aqui dois bons
animaes... Você monta num, eu noutro ... batemos para Sant'Anna e, a
galope sempre, havemos de chegar a Uberaba ... onde acharemos um padre
que nos case... Vamos, ouviu?
--E mecê havia de me estimar _toda a vida_?
--Sempre... Diga, sim ... diga pelo amor de Deus, e estamos salvos ...
diga!...
--E meu pae, Cyrino? Que _havéra_ de ser?... Atirava-me a maldição ... eu
ficava perdida ... uma mulher de má vida ... sem a benção de
seu pae... Não ... mecê está me tentando... Não quero fugir... Antes
a desgraça para toda a existencia ... mas fique eu sendo o que meu nome
diz que sou... Já muito pecco, fazendo o que faço... Mecê é moço da
cidade: não lhe custa enganar uma creatura como eu... Até...
--Pois bem, interrompeu Cyrino, você não quer?... não falemos mais
nisso... Não heide querer, senão aquillo que achar bom... E se eu, por
fim, me decidir a falar a seu pae?
--Deus nos livre! retorquiu ella aterrada. Pensei a principio que pudera
ser, mas depois vi que era peior... Mecê não conhece o que é palavra
de mineiro ... ferro quebra, ella não... Manecão hade ser genro
delle...
--Quem sabe, Innocencia? Heide falar tanto ... pedir com tanta
humildade...
--Ché, que esperança! ... de nada serviria...
--Então, que fazer? bradou o moço. A que Santa agarrar-nos? Porque é
que o céu nos quer tanto mal?
E occultando a cabeça entre as mãos, desatou a chorar ruidosamente.
Innocencia, por seu lado encostou a fronte ao hombro do amante, e ambos,
unidos, choraram como duas creanças que eram.
Foi ella quem primeiro rompeu o silencio.
--Ah! meu Deus, se o padrinho quizesse!...
--Seu padrinho? perguntou Cyrino. Quem é? ... quem é elle?
--Um homem que mora para lá das Parnahybas, já nos terrenos Geraes.
--Onde?... É longe?...
Meio longe, meio perto... Mecê não conhece o _Pauda_[109]?
--Conheço... A 16 leguas do rio Paranahyba...
--Pois é ahi que padrinho _pára_[110]... A esquerda da fazenda do
Pauda, n'umas terras de sesmaria...
--E como se chama elle?
--Antonio Cesario... Papae lhe deve favores de dinheiro e faz tudo
quanto elle manda... Se dissesse uma palavra, Manecão havéra de ficar
atrapalhado...
--Oh! exclamou Cyrino com confiança, estamos salvos então!... Amanhã
mesmo, monto a cavallo e toco para lá... Daqui á villa são sete
leguas... Até lá, umas dezesete... É um passeio... Chego ...
conto-lhe tudo ... ponho-me de rastos aos seus pés ... e...
--Mas, interrompeu Innocencia, não lhe falle em mim, ouviu? Não lhe
diga que tratou commigo ... que commigo _mapiou_... Estava tudo
perdido... Invente umas historias ... faça-se de rico ... nem de leve
deixe _assumptar_ que foi por meu _juizo_ que mecê bateu a porta
delle... Hi! com gente desconfiada, é preciso saber _negacear_...
--Oh! meu Deus, disse Cyrino no auge da alegria, estamos salvos!... Não
ha duvida... Vejo agora como hade tudo acontecer... Depois de um dia ou
dois de parada na casa, _desembucho_ o negocio. O velho escreve uma
carta a seu pae e, pelo menos, se não se arredar logo o Manecão ...
ganha-se tempo... Eu já quizera estar montado na minha besta tordilha
queimada, a bater a estrada por ahi _afóra_... Dois dias para ir, dois
para voltar, dois ou tres de pousada... Com pouco mais de uma semana,
estou de volta, trazendo ou a felicidade ou a _caipora_ de uma vez.
Não! Tenho fé em Nossa Senhora da Abbadia... Ella nos ajudará ... e
juntos havemos ainda de cumprir a promessa que já fiz...
--Que _permessa_ foi? perguntou Innocencia com curiosidade.
--Irmos nós daqui até a villa a pé, botar duas velas bentas no altar
de Nossa Senhora.
--Sim confirmou a moça com fogo eu juro... Fosse até ao fim do
mundo!...
--Oh! minha santa do Paraizo, exclamou o moço apertando-a de encontro
ao peito, quanto você me ama!!
E assim abraçados, quedaram elles inconscientes, emquanto a aurora
vinha clareando o firmamento e desferindo para a terra raios indecisos
como que a sondarem a profundidade das trevas; em quanto os passaros
chilreavam á surdina, preparando as gargantas para o matutino concerto;
emquanto o orvalho subia da terra ao céu molhando o dorso das folhas
das grandes arvores e suspendendo, ás das rasteiras plantinhas, gottas
que scintillavam já como diamantes.
Ao longe, á beira de algum rio, as aracuans levantavam a sonora grita,
e o macauan atirava aos ares os pios prolongados da aspera garganta.
--É dia, observou Innocencia desprendendo-se dos braços de Cyrino.
--Já?! exclamou este amuado.
--Meu Deus, e eu que tenho de ir até a casa ... vou-me embora...
--Então, partirei hoje mesmo, disse o moço.
--Sim...
--E na semana que vem, estou de volta...
--Pois bem... Leve com mecê esta certeza: a minha vida ou a minha morte
depende do padrinho...
--A minha tambem, replicou o mancebo beijando com fervor as mãos de
Innocencia...
Deixe-me ... deixe-me, implorou ella. Adeus, estou com um medo!...
Felizmente ninguem me viu...
Nesse momento e, como que para responder á asseveração, de dentro do
pomar partiu aquelle fino assobio que tanto assombrara os amantes na
primeira das suas entrevistas.
Innocencia quasi cahiu por terra.
--Meu Deus! balbuciou ella, que agouro!... Quem sabe se não é gente?
Ao assobio seguiu-se uma especie de gargalhada, que gelou o sangue nas
veias dos dois miseros.
Agarrou-se a menina a Cyrino.
É alma do outro mundo, murmurou ella persignando-se.
Não perdera o mancebo o sangue frio. Invocando a São Miguel, fez o
signal da cruz na direcção dos quatro pontos cardeais; depois suspendeu
a moça em seus braços e, transpondo a toda a pressa o pomar, foi
depol-a junto á porta que estava entreaberta, naturalmente pelo vento.
Quase desmaiara Innocencia; entretanto, reunindo as forças pode entrar,
e cautelosa correu o ferrolho interior.
Mais sossegado a esse respeito, voltou Cyrino ao laranjal e, como da
primeira vez, pôz-se a percorrel-o em todos os sentidos, indagando, á
nascente claridade do dia, se era ente humano ou fantasma quem delle
parecia fazer joguete.
No momento em que passava por junto de uma laranjeira mais copada, viu
de repente certa massa informe cair-lhe quasi na cabeça e no meio de
folhas e ramos quebrados vir ao chão com surdo grito de angustia.
--Cruz! T'esconjuro! bradou o moço.
E, como uma visão, passou-lhe por perto uma creaturinha, desaparecendo
logo entre os troncos das arvores.
Alli esteve Cyrino com os cabellos eriçados, os olhos fixos, os braços
hirtos de terror, os labios seccos a tartamudear um exorcismo, e as
pernas a tremer.
Uma voz, a certa distancia, arrancou-o desse espasmo.
Era Pereira; com a mão encostada á bocca, interpelava a um dos seus
escravos.
--Faz fogo, José!... Se for alma do outro mundo ou lobisomem, a bala
não pega... Se for gente, melhor.
E um tiro troou.
Sibilou uma bala aos ouvidos de Cyrino, indo cravar-se numa arvore
proxima.
Por outra, não esperou elle. Com o favor da escuridão que ainda
reinava, deslisou rapido e foi buscar a frente da casa, quando já iam
acordando os camaradas.
Mal chegara á sala, appareceu-lhe Pereira á porta.
--Que foi isso? perguntou Cyrino compondo a physionomia.
--Lá sei, respondeu o mineiro. Uma matinada de gritos no laranjal, que
parecia um inferno... A pequena ficou toda que parecia querer morrer de
medo. Desconfio que a alma do collector[111] andou hoje me rondando a
casa... Não seja presagio de mal... A Senhora Sant'Anna nos proteja...
--Pois eu cá dormi como um chumbo, disse Cyrino; acordei com um tiro...
--Não hade poder enfiar outra somneca; daqui a um nadinha, está o sol
batendo no terreiro.
Com effeito, depressa caminhara o alvorecer, e debaixo daquellas vivas
impressões acordaram aquelles que haviam conciliado o somno, na morada
de Pereira.
[Nota 107: Grande quantidade.]
[Nota 108: Corregosinho.]
[Nota 109: Talvez seja o nome deste fazendeiro Padua. Entretanto é
geralmente conhecido por Pauda.]
[Nota 110: Mora.]
[Nota 111: Esse collector, de que fala Pereira e cuja alma anda, no
dizer dos sertanejos, vagando pelas solidões de Sant' Anna, era um
empregado publico, que foi processado e preso depois de provada a
concussão praticada n exercicio das suas funcções. Falleceu na
prisão, e como o Estado lhe sequestrou todos os bens, cahiram em
abandono a excellente casa e fazenda que formara a umas trinta leguas da
villa.]
CAPITULO XXIV
A VILLA DE SANT'ANNA
Debaixo do céu ha uma cousa que
nunca se viu: é uma cidade pequena
sem falatorios, mentiras e bisbilhotices.
LAVERGNE.
Nesse mesmo dia, montou Cyrino a cavallo e despediu-se de Pereira por
uma semana ou pouco mais dando por motivo de tão inesperada viagem,
não só a necessidade de visitar alguns doentes mais afastados, senão
tambem procurar, quer na villa, quer mesmo nos campos da provincia de
Minas Geraes, uns remedios e simplices que lhe iam faltando.
--Daqui a um terno de dias estarei de volta, disse ao partir.
Desde a casa de Pereira até ao Albino Lata é tão ensombrada e
agradavel a estrada, que essas tres leguas lhe foram muito faceis de
vencer.
Alli, porem, começam campos dobrados e soalheiros que, num estirão de
quatro leguas, até á villa de Sant'Anna tornam penosa a viagem,
sobretudo quando são percorridas sob os ardentes raios do sol do
meio-dia.
Exaltam-se e irritam-se os incommodos de espirito, no momento em que o
physico começa a soffrer.
Quando Cyrino passou por aquellas campinas desabrigadas, abrazado de
calor, desaminou completamente do exito da empreza a que se atirara.
Tanta esperança o alvoraçara quando ia seguindo a vereda encoberta e
amena, quanto desalento sentia agora; e, descoroçoado, deixava que
deixava que o animal o fosse levando a passo vagaroso e como que
identificado com a disposição de animo do cavalleiro.
--Que vou eu fazer? pensava quase alto... Como encetar aquella conversa?
Tamanha era a duvida que o salteava que chegou quase a blasfemar contra
a amada do seu coração.
--Maldita a hora em que vi aquella mulher... Seguia eu sossegado o meu
rumo ... botaram-me a perder os seus olhos!... Depois, exclamou
contrito:
--Perdão, Innocencia! perdão, meu anjo! Estou a amaldiçoar a hora da
minha felicidade... Eu, que sou homem, posso fugir ... deixar-te ... mas
tu, amarrada à casa... Infeliz, fui o culpado!...
E, engolfado em dolorosa cogitação, alcançou a Vila de Sant'Anna do
Paranahyba.
De longe é summamente pitoresco o primeiro aspecto da povoação.
Ponto terminal do sertão de Matto Grosso, assenta no abaulado dorso de
um outeirozinho. O que lhe dá, porem, encanto particular para quem a
vê de fora, é o extenso laranjal, coroado anualmente de milhares de
aureos pomos, em cuja folhagem verde-escura se encravam as casas e
ressalta a cruz da modesta igreja matriz.
Transpondo limpido regato e vencida pedregosa ladeira com casinholas de
sapé á direita e á esquerda, chega-se á rua principal, que tem por
mais grandioso edificio espaçosa casa de sobrado, de construção
antiquada. Ornamenta-a uma varanda de ferro e um telhado que se adianta
para a rua, como a querer abrigal-a em sua totalidade dos ardores do
sol.
É ahi que mora o Major Martinho de Melo Taques, baixote, rechonchudo,
corado.
Na sua loja de fazendas, ao rez do chão, reune-se a melhor gente da
localidade, para ouvil-o dissertar sobre politica, ou narrar a guerra
dos farrapos no Rio Grande do Sul e a vida que se leva na côrte do Rio
de Janeiro, onde estivera pelos annos de 1838 a 1839.
De vez em quando, naquella silenciosa rua em que tão bem se estampa o
typo melancolico de uma povoação acanhada e em decadencia, apparece
uma ou outra tropa carregada, que levanta nuvens de pó vermelho e
atrahe ás janellas rostos macilentos de mulheres, ou á porta creanças
pallidas das febres do Rio Paranahyba e barrigudas de comerem terra.
Tambem aos domingos, à hora da missa, por alli cruzam mulheres velhas,
embrulhadas em mantilhas, acompanhando outras mais mocinhas, que trajam
capote comprido até aos pés e usam daquelles pentes andaluzes, de moda
em tempos que já vão longe.
Atravessou Cyrino a vila, e passando por defronte do Sr. Taques saudou-o
com a mão, e sem parar.
Estava o major, como de costume, sentado ao balcão, de chinelos, sem
meias, e rodeado das pessoas gradas do lugar, a contar não só as
proprias proezas, que muitas tinha aquelle estimavel cidadão, senão
tambem as façanhas dos antigos sertanejos, historias que sabia na ponta
da lingua.
--Lá vae o doutor, disse um dos presentes á palestra da loja.
--Oh Sr. Cyrino! interpelou o major correndo para a porta. Então que é
isso? Por aqui?
--É verdade, respondeu Cyrino, e vou de passagem; tambem por pouco
tempo; talvez nesses oito ou dez dias esteja de volta.
Tudo quanto enchia a salinha havia sahido para a rua, de modo que o
moço ficou logo cercado. Recostavam-se uns quasi á anca do animal;
afagavam-lhe outros a pá do pescoço ou brincavam com o freio.
Achava-se a curiosidade aguçada: era preciso dar-lhe pasto.
Comprehendeu o major o alcance da situação.
--Cada qual tem os seus negocios particulares, disse logo para começar;
mas, se não ha segredo que quer dizer esta sua volta?
--Já devia estar bem longe de _acá_, observou um sujeito. Ha quasi
dois meses que _parou_ aqui na _cidade_ e...
--Espere, interrompeu o vigario, não ha tal dois mezes. O doutor passou
por esta rua ha um mez e vinte dois dias, ás oito horas da manhã.
--Pois bem, continuou o major, tinha tempo de sobra para estar já por
bandas de Miranda...
--Isso, se fosse escoteiro, replicou Cyrino, reparem que levava
cargas ... e, demais, viajava curando...
--É verdade! confirmou o collector (homem esguio, que trazia um chapéu
muito alto e afunilado), não pensam nisso. O que querem é falar ...
falar...
--Creio que o senhor não atira a mim, observou o vigario com ar
rusguento.
--Quem em tal cuida, senhor padre? protestou logo o outro. Estou dizendo
em geral... Em geral. Eu não...
--Mas, doutor, atalhou o major, onde esteve o senhor de molho este
_tempão_ todo? ... nalguma fazenda?
Prometia ir longe o interrogatorio.
--Eu já estava quase perto do Sucuriú, disse Cyrino meio perturbado,
no...
--Não é tão perto assim, objectou o vigario. Uma vez...
--Ouçamos, senhor padre, atalhou o collector denunciando rixa velha com
o clerigo. O moço não disse que seja perto daqui...
Repetiu o major as palavras de Cyrino, acentuando-as de certo modo:
--Então o doutor já estava quasi perto do Sucuriú, não é?
--De facto. Alli encontrei uma pessoa que me devia, há mezes um
dinheiro...
--Um dinheiro? perguntou o vigario. Uma pessoa?... Que pessoa? Quem
será?
--Homem, quem poderá ser? indagaram a um tempo vozes sofregas.
Prosseguiu o major implacavel:
--Deixem o doutor explicar-se... Vocês fazem logo uma algazarra!...
Foi quasi a balbuciar que Cyrino procurou continuar:
--Sim ... certo tropeiro ... mandou ordem para _mim_ cobrar ... de um
parente uma _bolada_... Tambem eu tinha que ... pagar outra pessoa ...
que...
--Espere, espere, interrompeu o major, então o senhor veio receber
dinheiro ou desembolsar? Não é uma e a mesma coisa...
--Por certo, apoiaram os circunstantes.
Cyrino fez repentina parada nas suas explicações.
--Tambem, disse com alguma volubilidade, muito breve estarei voltando
cá. Tenho de ir para lá do rio...
--Vai até as Melancias? Indagou o collector ageitando o nome de um
pouso para ver se acertava.
--Mais adiante, respondeu o moço. E vendo a impossibilidade de escapar
de tão terrivel inquirição, mudou de tactica.
--Na volta, disse ele dirigindo ao major, hei de lhe comprar algumas
fazendas...
Na volta, disse ele dirigindo ao major, hei de lhe comprar algumas
fazendas...
--Já adivinhei, exclamou o vigario cortando a palavra a Cyrino, o
doutor vae casar.
--Ora, chasquearam alguns, para que tanto segredo?... Ninguem lhe vae
roubar a noiva!...
--Sobretudo quando as coisas têm de me vir parar ás mãos, ponderou o
padre.
Por instante, deram o acanhamento e o silencio de Cyrino azo a muitas
observações.
--Parabens! dizia um.
--Quem é essa feliz sertaneja? perguntaram outros.
--Juro-lhes, meus senhores, protestou o moço, não ha nada...
Prosseguiu o padre:
--Pois, se quer um conselho, apresse isso; de uma cajadada matarei dois
coelhos... É o senhor e o Manecão.
--Na verdade, concordaram os presentes.
--Mas, onde se metteu elle? perguntou um delles.
--Ha pouco estava aqui...
--Quem? o Manecão?
--Sim...
--Alli vem elle! anunciou alguem
No fim da rua, apparecia, com efeito, um homem montado em fogoso cavallo
que sofreava com firmeza e mão adestrada.
Era a personificação do capataz de tropa.
Cabellos compridos e emmaranhados, ar selvatico e sobranceiro, tez
queimada e vigorosa musculatura constituiam um tipo que atraia de
prompto a attenção.
Mettidos os pés numa especie de polainas de couro cru de veado, grandes
chinelas de ferro, lenço vermelho atado ao pescoço, garruchas nos
coldres da sella e chicote de cabo de osso em punho, tudo indicava o
tropeiro no exercicio da sua lida.
--Nosso Senhor ... comvosco, disse ao chegar erguendo ligeiramente a aba
do chapéu com a ponta do dedo indicador.
--Bons dias, Sr. Manecão, respondeu por todos o major, ou melhor, boas
tardes. Já sei que desta feita vae de batida..
--Boa duvida, grasinou o vigario, vai ver a pequerrucha.
Sorriu-se o capataz com melancolia:
--Não é por isso Sr. vigario. Não me deixo _anarchizar_[112] por
mulheres; mas, emfim a gente deve um dia deitar a poita... A vida é uma
viagem...
Haviam Cyrino e Manecão ficado no meio dos curiosos.
Fitaram-se: um, indifferente e altivo no modo de encarar; outro,
descorado meio tremulo.
--Este _cujo_ é o _cirurgião_? Perguntou à meia voz Manecão
adernando no sellim para o lado do collector. A Cula[113] da venda me
disse que tinha chegado... Tem-me cara de _enjoado_[114].
--Chi! retrucou o outro, mas _tem cabeça_[115]. Por ahi fez um
_despotismo_ de curas.
Cyrino, notando que tratavam delle, comprimentou com um sorriso de
amabilidade.
--Boa tarde, patricio.
--Ora viva, correspondeu o tropeiro em tom aspero.
E, olhando para o sol, acrescentou:
--Vejam lá o que é um homem estar como mulher ... a bater lingua... A
tarde vem descendo, e muito tenho hoje que palmear... Minha gente,
adeus... Sr. major, até mais ver... Sr. vigario, breve estou por cá...
Esporeou o animal o circulo abriu-se, e Manecão partiu em boa marcha.
Aproveitando, por seu turno, aquella sahida rapida, que rompera a cadeia
dos que o rodeavam, apertou Cyrino a mão do major e tomou rumo do Rio
Paranahyba, em cuja margem contava passar a noite.
Mal desapparecera, e choveram commentarios que nem saraiva.
--Notou o senhor, disse o vigario para o major, como esta mudado? ... todo
_jururú_...
--Nem tanto, contrariou o collector, nem tanto...
O Sr. Taques, major e juiz de paz, tomou ar de profunda meditação.
--Hão-de os senhores ver, disse por fim levantando um dedo para o ar,
que ahi ha dente de coelho...
Durante aquella noite e muitos dias subsequentes, repetiu a villa todas
estas celebres palavras.
--Foi o major quem o disse, asseveravam convictos, alli há dente de
coelho.
[Nota 112: Dominar, desmoralisar.]
[Nota 113: Modificação familiar de Clotilde.]
[Nota 114: Enjoado é qualitativo muito usado na provincia de Goyaz. Tem
muitas accepções, desde engraçado, tolo, até impostor, vaidoso.]
[Nota 115: Tem muitos conhecimentos.]
CAPITULO XXV
A VIAGEM
Ás vezes sinto necessidade de
morrer, como pessoas acordadas
sentem necessidade de
dormir.
MME DU DEFFAND.
Encantador paiz! Teu aspecto,
teus solitarios bosques, ar puro
e balsamico, tem o poder de
dissipar toda a sorte de tristezas,
menos a da perda da
esperança.
CARLOTA SMITH.
Cyrino em pouco mais de uma hora, transpôz a distancia da povoação ao
rio. Tambem, na legua e quarto que até lá medeia, só ha de ruim o
trecho em que fica a floresta que borda as margens da magestosa
corrente.
Nessa matta, trazem os troncos das arvores vestigio das grandes
enchentes; o terreno é lodacento e ennatado; centro de putrefacção
vegetal donde irradiam os miasmas que, por occasião da retirada das
aguas, se formam em dias de calor abrazador e suffocante.
Abundam alli coqueiros de stipite curto e folhuda corôa chamados
_aucurys_, a que rodeiam numerosas lagoinhas de agua empoçada e coberta
de limo.
Em nada é, pois, aprazivel o aspecto, e a lembrança de que alli
imperam as temidas sezões faz que todo o viajante apresse a travessia
de tão tristonhas paragens.
Ouve-se a curta distancia o ruido do rio que corre largo, claro e com
rapidez.
Como duas verdes orlas reflectem-se no espelhado da superficie as
elevadas margens, a cujo sopé moitas de _sarandys_, curvadas pelo
esforço das aguas e num balancear continuo, produzem doce marulho.
Causa-nos involuntario scismar a contemplação de grande massa liquida
a rolar, a rolar mansamente, tangida por força occulta.
Bem como a ondulação incessante e monotona do oceano agita a alma,
assim tambem aquelle perpassar perenne, quasi silencioso, de uma
corrente caudal, insensivelmente nos leva a meditar.
E quando o homem medita, torna-se triste.
Franca e espontanea é a alegria, como todo o facto repentino da
natureza. A tristeza é uma vaga aspiração metaphysica, uma elação
inquieta e quasi dolorosa acima da contingencia material.
Ninguem se prepara para ficar alegre. A melancolia, pelo contrario, aos
poucos é que chega, como effeito de phenomenos psychologicos a
encadear-se uns nos outros.
De que modo nasceu aquella enorme móle de aguas? Donde veiu? Para onde
vae? Que mysterios encerra em seu seio?
Largo tempo ficou Cyrino a olhar para o rio. Em sua mente tumultuavam
negros pensamentos.
Já se havia diffundido o crepusculo, e bandos folgazões de
_quero-queros_ saudavam os ultimos raios de sol e despertavam os écos
em descommunal gritaria. De vez em quando, passava algum pato selvagem,
batendo pesadamente as azas; sobre as aguas, adejavam garças estirando
e encolhendo o niveo collo e pombas, aos centos, cruzavam de margem a
margem a buscar inquietas o pouso de querencia.
Foi a luz gradativamente morrendo no céu, seguida de perto pelas
sombras; e o rio tomou aspecto uniforme; como se fora immensa lamina de
prata não brunida.
--Emfim, conheci o Manecão! pensava Cyrino. E para esse é que reservam
a minha gentil Innocencia?!... Bonito homem para qualquer ... para mim,
para ella, horrendo monstro!... E como é forte!...
Digamol-o, sem por isso amesquinhar o nosso heróe, a idéa de força no
rival acabrunhava-o.
--Se eu pudesse ... esmagava-o!... E que ar sombrio e desconfiado!...
Meu Deus, dae-me coragem ... dae-me esperanças... Nossa Senhora da
Abbadia!... Nosso Senhor da Canna Verde ... valei-me!...
E o mancebo, deante daquella natureza acabrunhadora a quem tanto
importava a paixão que lhe atenazava o peito, como o insecto a chilrar
debaixo da folha de humilde herva, cahiu de joelhos, orando com fervor
ou, melhor, desfiando automaticamente as preces que sua mãe lhe havia,
em pequeno, ensinado.
E o rio lá se ia sereno; e uma onça ao longe urrava, ou algum passaro
da noite soltava gritos de susto, esvoaçando ás tontas.
* * * * * * *
Transpondo, na manhã seguinte, o rio Paranahyba, pisou Cyrino
territorio de Minas-Geraes.
Depois de legua e meia em matta semelhante á da margem direita,
abrem-se campos dobrados, um tanto crestados do sol, de aspecto pouco
variado, mas abundantissimos em perdizes e codornas.
Tão preoccupado levava o moço o espirito que, nem sequer uma só vez,
imitou o pio daquellas aves; distracção, a que aliás não se furta
quem por lá viaja, tão instantes são os motivos de instigação.
Foi com impaciencia mais e mais crescente que percorreu as dezeseis
leguas intermedias á fazenda do Padua.
Ia com o coração cheio de aprehensões e os olhos se lhe arazavam de
lagrimas, de cada vez que contemplava o melancolico bority. Então pelo
pensamento voava á casa de Innocencia. Tambem, alli junto ao corrego em
cuja borda se déra a ultima entrevista, se erguia uma daquellas
palmeiras, rainha dos sertões.
Que estaria fazendo a querida dos seus sonhos?
Que lhe aconteceria? E Manecão?! Já teria lá chegado?
Ao pensar nisto, augmentava-se-lhe a agitação e com vigor esporeava a
cavalgadura.