todo o dia ... estar a lembrar-se da menina é... Procurar trazel-a á
conversa?--Como está sua filha? pergunta-me elle sempre.--Está boa, de
uma vez para todas. E elle, _toda a vida_ a insistir... Isto me põe o
sangue a ferver, mas vou-lhe respondendo com bom modo... Hoje, saiu-se o
_cujo_ de seus cuidados e disse-me como quem _toma leite com farinha de
milho_[104]:--Sua filha vae casar?--Vae, respondi-lhe todo
trombudo.--Com quem? Tive vontade de lhe dizer: Não é da tua conta,
_seu_ bisbilhoteiro, _seu_ biltre, e atacar-lhe uma cabeçada, mas, como
é meu hospede, _secundei-lhe_ enfarruscado: Com um homem do sertão que
hade amolar a faca na pelle da barriga do mariola que vier mexer com a
mulher delle. O _allamão_ não se deu por achado e, com todo o
semvergonhismo, me retrucou: Pois o senhor faz mal. A sua filha é muito
mimosa e deveria casar com alguem da cidade.--Então, perdi a paciencia:
Mochú, lhe disse, cada um manda em sua casa como entende; eu na minha,
não quero ser _anarchizado_; elle, quando me viu fulo de raiva,
pediu-me mil desculpas, contou-me muitas historias, isto, aquillo,
aquillo outro, et cœtera e tal, que era para bem de minha filha e não
sei mais o que, numa lingua que pouco entendi...
--Não fez bem, atalhou Cyrino.
--Boa duvida! Aquillo é uma alma damnada ... boa para as caldeiras de
Pedro Botelho, um judeu ... emfim, um caçador de _anicetos_: está dito
tudo!... Mas ainda não lhe contei o mais... Parece que hoje estava
mesmo com o diabo no corpo... Metteu-se no matto perto da minha roça,
onde eu trabalhava com os meus _captivos_, e lá fazia um barulhão a
quebrar galhos e romper o cipoal como se fosse anta; de repente ouvi uma
gritaria muito grande; era o tal Meyer com o camarada José Pinho a
berrar como dois _minhocões_[105]. Corri a ver o que era e os achei
muito contentes a olhar para uma barboleta grande, já fincada num páu
de pita. O _allamão_ poz-se a pular como um cabrito.
É novo, me disse elle, é novo!--Novo o que, _Mochú_? Este bicho,
ninguem o descobriu antes de mim! É coisa minha... Entendeu? E vou
botar-lhe o nome de sua filha!... Quando ouvi aquillo, fiquei tão
passado, que não pude engulir o cuspo da bocca... Vejam só ... o nome
de _Nocencia_ numa bicharada!... Até parece mangação... Agora, quero
saber do doutor o que devo fazer... Venho pelo menos desabafar... Não
posso metter uma bala naquelle patife como bem merecia ... mas tambem é
demais tel-o em casa ... é demais! Peço-lhe um conselho... Felizmente,
sempre o trago arredado de casa, e a menina de nada desconfia; do
contrario, como mulher que é, _havéra_ de me dar que fazer... Tambem
não sei, porque é que o Manecão não chega ... só elle é quem havia
de me livrar destes apuros... Uma vez que o tal _allamão_ visse a
rapariga com o noivo, deixava-a socegada... Não acha? Olhe, palavra de
honra, isto _ansim_ não é viver! Fui feito para dizer o que penso,
tratar bem a todos ... mas estes modos que tenho agora, só Deus sabe
quanto me custam... Até o meu serviço vae soffrendo, porque muitas
vezes largo a roça e ponho-me a correr atraz dos bichinhos, só para
não deixar de olho o tal marreco, em lugar de feitorar o trabalho dos
negros... O meu fazendeiro é um diabo ruim e já velho... Ah! meu
irmão, que carga você me pôz em cima das costas! Eu então, que não
nasci para esconder o que sinto cá dentro!...
E Pereira, de tão attribulado que trazia o espirito deixou-se cahir num
comoro de terra.
Cyrino, defronte delle, ficara de pé e pensativo.
Afinal, depois de breve duvida, decidiu tentar fortuna e encetar a grave
questão que lhe importava a felicidade.
--Sr. Pereira, disse bastante commovido, acho que o allemão faz mal em
andar batendo lingua em pessoa da sua familia, e dou razão ás suas
inquietações...
--Ah! vosmecê é homem de confiança.
--Mas, continou o moço a custo e parando em cada palavra, penso que num
ponto tem elle alguma razão... É quando ... lhe deu ... conselho ...
que o senhor não casasse sua filha ... assim ... sem perguntar a
ella ... se ... emfim não sei ... mas talvez o Manecão lhe não agrade...
Ergueu-se Pereira de um pulo e, approximando a face, repentinamente
incendida de colera, junto ao rosto de Cyrino:
--O que? exclamou com voz de trovão, eu ... consultar minha filha?...
Pedir-lhe licença ... para casal-a?... O senhor está doido?... Ou
está mangando commigo?... Ai ... que tambem...
E vago lampejo de desconfiança lhe illuminou a chammejante pupilla.
Comprehendeu logo Cyrino a perigosa situação e, sem demora, tratou de
desfazer a má impressão que produzira.
--Ah! disse com fingido riso, é verdade... Isto são costumes da
cidade ... aqui, no sertão, ha outros modos de pensar... Desculpe-me, Sr.
Pereira, este Meyer é que está a confundir-me todas as idéas. Pois eu
julgo ... já que pede a minha opinião, que o senhor deve continuar a
ter olho no estrangeiro ... e eu heide ajudal-o, quanto estiver nas
minhas forças.
--Tambem agora, disse o mineiro depois de ligeira pausa, não hade ser
por muito tempo... Ha mais de um mez que elle aqui pára e já me ...
contou que breve seguia viagem para Camapuan... Desenganou-se afinal...
O tal _meco_ não chegará até lá ... mas é o mesmo. Um destes dias,
leva por ahi algum tiro para lhe botar juizo na cachola, ou alguma
facada que lhe ponha as tripas á mostra... Nem sempre ha de ter cartas
de irmão para sahir-se bem da _rascada_... O diabo o leve para
longe!... Voltemos, Sr. Cyrino... Já demais temos deixado o bicharoco
sósinho.
E encaminhou-se para a vivenda, acompanhado de Cyrino. Ia este
desalentado; na realidade, bem rentes lhe ficavam cortadas as
esperanças que haviam animado na tentativa de opposição ao projectado
casamento da amada com o terrivel e fatal Manecão.
Ainda a meio do caminho, voltou-se Pereira e disse-lhe peremptoriamente:
--Deveras, Sr. Cyrino, aquellas suas palavras me buliram com o sangue
todo... Ainda o sinto galopar nas veias... Que ideias esturdias!... Que
lembrança! Ah ... a tal vida das cidades ... cruzes!
[Nota 104: Como quem faz cousa muito simples.]
[Nota 105: Animaes phantasticos do sertão que, segundo a crendice, dão
gritos muito fortes. Acreditam alguns que sejam monstruosos sucurys.]
CAPITULO XXI
PAPILIO INNOCENTIA
Considerae a arte da composição das
azas da borboleta: a regularidade das
escamas, cobrindo-as, como se fossem
pennas; a variedade das cambiantes
côres; a tromba enrolada, com que
suga o alimento no seio das flores:
as antennas, orgãos delicados do tacto,
que lhe corôam a cabeça cercada de
uma rede admiravel de mais de mil e
duzentos olhos...
BERNARDIN DE SAINT-PIERRE.--_Harmonias da natureza._
Meyer, que estava sentado na soleira da porta com as compridas pernas
encolhidas, ergueu-se precipitadamente ao avistar Cyrino e correu ao seu
encontro.
Trazia o coração no rosto, um coração cheio de alegria e triumpho.
--Oh, Sr. doutor, exclamou, todo risonho, venha, venha ver uma
preciosidade ... uma descoberta ... especie nova ... não ha em parte
alguma... Ouviu? Coisa assim vale um thesouro... E fui eu que o
descobri!... Nem sequer _Júque_ me ajudou ... pois estava deitado e
dormindo... Não é verdade, Sr. Pereira?
--Veja, murmurava o mineiro, que barulhada faz elle com o tal
_aniceto_... Ao menos, se fosse um animal grande!
--É uma especie ... nova ... completamente nova! Mas já tem nome...
Baptizei-a logo... Vou lhe mostrar... Espere um instante...
E, entrando na sala, voltou sem demora com uma caixinha quadrada de
folha de Flandres, que trazia com toda a reverencia e cujo tampo abriu
cuidadosamente.
Da propria garganta sahiu um grito de admiração, que Cyrino
acompanhou, embora com menos enthusiasmo.
Pregada em larga taboa de pita, via-se formosa e grande borboleta, com
as azas meio abertas, como que disposta a tomar vôo.
Eram essas azas de maravilhoso colorido; as superiores, do branco mais
puro e luzidio; as de baixo, de um azul metallico de brilho vivissimo.
Dir-se-ia a combinação aprimorada dos dois mais bellos lepidopteros
das mattas virgens do Rio de Janeiro, Laertes e Adonis, estes, azues
como ceruleo cantinho do ceu, aquelles alvinitentes como petalas de
magnolia recem-desabrochada.
Era sem contestação lindissimo especimen, verdadeiro capricho da
esplendida natureza daquelles páramos. Tambem Meyer não tinha mão em
si de contente.
--Este insecto, preleccionou elle como se o ouvissem dous profissionaes
na materia, pertence á phalange das Heliconias. Denominei-a logo
_Papilio Innocentia_, em honra á filha do Sr. Pereira, de quem tenho
recebido tão bom tratamento. Tributo todo o respeito ao grande sabio
Linneu--e Meyer levou a mão ao chapéu--mas a sua classificação já
está um pouco velha. A classe é, pois, _Diurna_; a phalange,
_Heliconia_, o genero, _Papilio_ e a especie, _Innocentia_, especie
minha e cuja gloria ninguem mais me póde tirar... Daqui vou, hoje
mesmo, officiar ao secretario perpetuo da Sociedade Entomologica de
Magdeburgo, participando-lhe facto tão importante para mim e para a
sabia Germania.
Dizia Meyer tudo isto com legitima ufania e lentidão dogmatica.
Depois, com mais volubilidade e apezar de tropeçar amiudadas vezes em
palavras, o que, para commodidade dos leitores, temos quasi sempre
deixado de indicar, continuou:
--Reparem, meus senhores, neste lepidoptero com os olhos cuidadosos da
sciencia. Tem quatro pés caminhantes; as antennas de terminação
comprida, e oval, cavada em forma de colher; os palpares maiores do que
a cabeça e escamosos; tromba toda branca e labio quasi nullo. Não
perdi nem sequer um pouco do seu pó, porque o pó, um só grão de pó,
vale tanto como uma penna de passaro, e a comparação é perfeita,
visto como cada uma destas escamas, á semelhança das pennas, é
atravessada por uma trachéa, por onde circula o ar. Oh! que achado!
proseguiu elle. Que triumpho para mim! A Sociedade Entomologica de
Magdeburgo hade ficar muito orgulhosa... Sem duvida alguma, farão uma
sessão solemne, extraordinaria... Mein Gott!... Estou que não posso de
alegria... Tambem daqui, a tres ou quatro dias, vou-me embora desta
casa ... ainda que cheio de saudades...
--Devéras? atalhou Pereira, vai partir?
--Sim, senhor. O meu itinerario é para Camapoan; depois, vou a Miranda
e talvez Nioac... Heide subir até ao Coxim e ahi, ou embarco para
Cuyabá no rio Taquary, ou sigo por terra pelo Pequiry.
--E o senhor volta para sua patria?
--Boa duvida!... Daqui a anno e meio, pretendo apresentar a minha
collecção toda arranjada á Sociedade Entomologica...
--Homem, observou Pereira com intenção que seu hospede não podia nem
de leve perceber, eu quizera já estar nesse dia. Daqui a anno e meio,
que voltas terá dado o mundo?...
--Terá percorrido, respondeu Meyer gravemente, dezoito signos do
Zodiaco.
--Pois bem, eu queria ver isso... Já me tarda esse dia...
--Quando elle chegar, continuou o allemão com sinceridade e um tanto
commovido, heide lembrar-me com gratidão do tratamento que recebi ...
nos sertões do Imperio ... e heide dizer ... bem alto ... que os
brazileiros ... são felizes porque são morigerados e tem muito boa
indole ... hospitaleiros como ninguem.
--Accrescente, interrompeu Pereira com algum azedume, que zelam com todo
o cuidado a honra de suas familias.
Obedeceu docilmente Meyer e repetiu palavra por palavra:
--E zelam com todo o cuidado a honra de suas familias.
--Muito bem, replicou o mineiro, diga isso, e o Sr. terá dito uma
verdade.
CAPITULO XXII
MEYER PARTE
Adeus, pois amigos; bella companhia!
Aos lares distantes cada
qual de nós, por caminhos diversos,
deve um dia chegar.
CATULLO.--_Epigramma_ XLVI.
Não haviam descontinuado as visitas feitas a Cyrino por enfermos de
muitas leguas em torno. Tão frequentes e teimosos eram os casos de
sezões ou maleitas, que a porção de sulfato de quinina que trouxera
em suas canastras estava toda esgotada, pelo que se vira levado a
substituir esse medicamento sem tanta confiança, porem, por plantas
verdes do campo ou hervas seccas, fornecidas por uns bolivianos que
encontrara em Minas, vindos de Santa Cruz de la Sierra em peregrinação
pelo interior do Brazil e a tratarem de doentes, sem Chernoviz em punho,
nem aquelles resquicios de conhecimentos therapeuticos que ostentava o
nosso doutor.
Entre os enfermos que o vinham diariamente procurar, alguns accusavam
molestias cujas qualificações eram complicadas e estramboticas: assim
declaravam-se salteados de _engasgue, espinhela cahida, mal de encalhe,
tosse de cachorro, feridas brabas, almorreimas erysipelas_, ou
até _assombração e mau-olhado_.
Quem se queixava de _engasgues_ era o capataz de uma fazenda chamada do
Váu, distante umas boas cincoenta leguas.
--Sr. doutor, disse o enfermo, a minha vida é um continuo lidar de
soffrimentos. Estou com este mal vae fazer cinco annos no S. João, por
signal que me veio com uma grande dor na bocca do _estómbago_. Vezes ha
que não posso engulir nada, sem beber muitos _gólos_ de agua, de
maneira que me encharco todo e fico que mal me mexo de um lugar para
outro.
--E a dor, perguntou Cyrino, ainda a sente?
--_Toda a vida_, respondeu o capataz... O que me _afflege_ mais é que
ha comidas então que não me passam na guéla... É um fastio dos meus
peccados... Boto uns pedacinhos no _bucho_ e parece-me que dentro tenho
um bolo que me está a subir e descer pela garganta...
Receitou o medico umas doses de herva de marinheiro como emetico, e fez
mais algumas prescripções que o enfermo ouviu com toda a
religiosidade.
No estado de perturbação moral em que se achava o joven facultativo,
natural é que fosse uma coisa por outra; mais importante, porem, era a
fé que suas indicações incutiam, a fé, essa alavanca poderosa da
medicina, esse contingente precioso que o espirito ministra aos ingentes
esforços da natureza na sua constante lucta contra os principios
morbidos.
O doente de _espinhela cahida_ accusava um peso muito forte e perenne no
peito e a impossibilidade de levantar as mãos juntas á mesma altura.
Prescreveu-lhe Cyrino amargo do campo, genciana e quina, e ordenou-lhe
certas cautelas firmadas na voz geral, mas com algum fundo de razão;
verbi-gratia: engulir sempre a saliva e sobretudo deixar de fumar depois
de comer.
O infeliz moço, ao passo que tratava de curar os outros, mais que
ninguem precisava de quem nelle cuidasse, pelo menos da alma.
Via não só Meyer fazendo os seus preparativos de partida, e em vespera
de deixal-o a sós com Pereira, podendo este descobrir afinal o engano
em que havia laborado, como tambem a clinica quasi esgotada,
aconselhando-lhe a conveniencia de transportar-se para outro ponto e
continuar a interrompida jornada.
Tudo isto, e o amor a augmentar, a tirar-lhe todo o socego, a consumil-o
a fogo lento...
Meyer, na realidade, desde o achado da sua magnifica borboleta, não
pensava senão em partir.
--Oh! dizia elle, eu quizera estar já em Magdeburgo... Quantas leguas,
_Mein Gott_!... _Papilio Innocentia_ ... a minha gloria! Que diz, Snr.
Cyrino?...
--É verdade ... mais quem sabe se o senhor não deveria ficar mais
tempo aqui?... Talvez achasse outra borboleta nova...
--Não, é impossivel... Era felicidade de mais... Além disso, o
dinheiro não me havia de chegar.
--Oh! posso emprestar-lhe...
--Muito obrigado ... mas é de todo impossivel a minha estada aqui...
Veja o senhor: tenho ainda que ir a Camapoan, a Miranda, a Cuyabá, para
então voltar... E só me restão poucos mezes... A Sociedade
Entomologica de Magdeburgo conta commigo na primavera do anno que
vem....
Mettida uma vez essa idéa na cabeça, Meyer não deixou mais de falar
na sua viagem um só instante e, para que a execução correspondesse ao
promettido, mandou na tarde seguinte, José Pinho, o camarada, alçar
cargas ás costas do burro, depois de as ter, elle proprio, arranjado e
revistado com toda a cautela.
Julgou o carioca nesse momento dever lavrar um protesto:
--_Mochú_, disse elle, vae recomeçar com o seu modo de andar por essas
estradas á noite... Afinal havemos todos de cahir nalguma _buraqueira_,
eu, o senhor, o burro de carga, e os bichos; e não chegaremos, nem eu
ao Rio de Janeiro, nem elles e o senhor á sua terra. Emfim, já estou
cansado de o avisar.
No momento da partida, apresentava o naturalista aquelle mesmo aspecto
da celebre noite da chegada: eram aquellas mesmas frasqueiras a
tiracollo, aquelle mesmo ar tranquillo e bonachão com que viera, fóra
de horas, pedir pousada á casa de Pereira.
Este, ao ver o hospede a cavallo e prestes a deixar para sempre a sua
morada, sentiu-se possuido de alegria, mesclada, sem saber porque, com
surpreza repentina e intima, de tal ou qual commoção. No fundo, achou
de si para si desconfianças mal empregadas, e deixou-se levar pela
sympathia que em todos incutia o caracter naturalmente inoffensivo e
meigo do saxonio.
--Chegou, declarou Meyer, a hora da minha despedida.
E, sacudindo com força a mão e o braço do mineiro:
--Sr. Pereira, meu amigo, adeus! ... nunca mais nos havemos de ver ...
mas hei de lembrar-me do senhor toda a vida... Quando eu estiver na
minha patria, daqui a milhares e milhares de leguas ... pelo pensamento
recordarei os dias felizes ... que aqui passei.
--Oh! Sr. Meyer, balbuciou Pereira.
--Sim, felizes, continuou Meyer com muita lentidão, felizes porque
correram ... sem eu perceber que O tempo estava caminhando... De todo o
Brazil fica em mim a lembrança ... mas desta sua casa ... essa
lembrança é mais viva e mais forte.
Acompanhara o allemão o seu pensamento com accentuado gesto, acenando
com o punho fechado para mostrar a lealdade daquellas impressões.
Voltando-se para Cyrino, acrescentou:
--Sr. doutor, as suas receitas estão todas marcadas no meu caderno...
O senhor póde enganar-se ás vezes ... mas as suas intenções são
sempre boas ... e isso basta para desculpal-o... Eu...
Interrompendo o que ia dizendo, ficou instantes a olhar para Cyrino e
Pereira, que estavam igualmente silenciosos, e uma lagrima comprida
deslizou-se-lhe pela face, sem que a physionomia mostrasse a menor
alteração.
--Adeus! concluiu elle de repente.
--Boa viagem, Sr. Meyer, boa viagem, disse Pereira ajudando-o a montar a
cavallo.
--Adeus! adeus ... repetiu elle.
E interpellando o camarada:
--_Júque_, vá na frente!... Toque pouco no burrinho... Nosso pouso é
daqui a meia legua...
Deu Meyer então de redeas e caminhou a passo, logo após de José
Pinho, este munido de cabeçudo cacete evidentemente hostil ás costas
do cargueiro entregue aos seus cuidados.
[Ilustração: Lá vae o homem, exclamou Pereira.]
--Lá vae o homem, exclamou Pereira ao ver a tropinha pelas costas. É
um allivio... Elle, coitado, não era mau ... mas não tinha modos...
Safa, heide me lembrar para sempre do tal Sr. Meyer! Foi uma campanha...
Ué... Olhe, Sr. Cyrino... não está elle de volta?... Teria esquecido
alguma bugiganga?
Com effeito reapparecia a trote o allemão em carne e osso, como quem
vinha procurar ou dizer coisa de importancia.
--Então que tem? perguntou Pereira adeantando-se e alçando a voz.
Deixou algum trem? Daqui a pouco é _escurão_[106].
Meyer, no emtanto, ia chegando e de certa distancia entrou a explicar a
razão da volta:
--Não deixei cousa alguma, Sr. Pereira. Tão somente faltei a um
dever...
--Qual é? indagou o mineiro.
--Não me despedi de sua filha...
--Ah! replicou Pereira com vivacidade ... não era preciso ... tanto
mais que ella ... esta dormindo ... meio adoentada... Ha pouco tinha
muito peso na cabeça... Eu lhe heide dizer... Não se incommode...
--Pois então, observou Meyer com muita gravidade, diga-lhe que tem em
mim um criado, em toda a parte onde esteja... O seu nome ficou para
sempre na sciencia e a estima em que a tenho é grande... É uma moça
muito bella ... digna de ser vista na Europa...
--Pois não, pois não, interrompeu Pereira, vá sem susto.
--Sim, eu me vou, adeus!
--Vá indo ... olhe que o sol _dobra_ de repente aquelle matto e a noite
cae logo...
--Sim, sim, adeus, disse elle despedindo-se de uma vez.
E na estrada arêenta, á luz do astro que descambava, foi-se tornando
comprida a mais e mais a sombra do bom Meyer, á medida que elle
marchava atraz do seu camarada, do cargueiro e da collecção
entomologica.
[Nota 106: Escurão é o finalisar do crepusculo.]
CAPITULO XXIII
A ULTIMA ENTREVISTA
Está a mascara da noite sobre
meu rosto: a não ser ella, verias
as minhas faces tintas do rubor
virginal.
SHAKESPEARE.--_Romeu e Julieta_, Acto II.
Mais cresce a luz, mais augmentam
as trevas das nossas
desgraças.
IDEM, _Acto IV_.
Grave modificação trouxe a retirada de Meyer no systema de viver
daquella vivenda, onde se agitava um dos problemas mais comezinhos da
natureza moral, mas que alli apresentava cores algum tanto carregadas,
senão já sombrias.
Fora Pereira dormir no interior da casa, passando alli a maior parte do
tempo. Assim os encontros dos dois apaixonados tornaram-se de todo
impossiveis e, não tendo mais a attenção do mineiro o alvo que sempre
collimara durante a estada do allemão, começava como era de prever, a
voltar-se para Cyrino, a quem confessou ter tratado Meyer com injusta
prevenção.
--Hoje, dizia o mineiro dóe-me a consciencia do modo porque desconfiei
daquelle homem... Quem sabe se tudo que eu parafusei não foi abusão cá
da cachola?... Sr. Cyrino, quando a gente entra a dar volta ao miolo ... é
que vê que todos tem queda para malucos... Sim senhor!... Hoje
estou convencido que o tal _allamão_ era bom e sincero... Olhou para a
menina ... achou-a bonitinha ... e disse aquelle _despotismo_[107] de
asneiras sem ver a mal... Em pessoa que não guarda o que pensa, é que
os outros se podem fiar... Ás vezes o perigo vem donde nunca se
esperou... Emfim não me arrependo muito de ter feito o que fiz...
Recebi ... e tomei tento...
Amiudando-se estes e outros dizeres eguaes, deram que reflectir a
Cyrino. De uma hora para outra comprehendeu que as vistas inquisitoriaes
poderiam tornar a sua posição insustentavel.
Por emquanto, tratou de encontrar-se com Innocencia. Grandes eram as
difficuldades; o meio unico, tentar novamente as entrevistas nocturnas;
pelo que do laranjal não arredava pé, noites e noites inteiras,
ficando alli com os olhos presos á janella da querida do coração.
Certa madrugada, viu afinal a sombra de Innocencia.
Achou-se num apice o mancebo junto della e agarrou-lhe com violencia nas
mãos.
--Emfim, exclamou elle, eu a vejo.
--Meu pae, murmurou a moça com voz tão fraca que mal se ouvia, póde
acordar...
--Não importa, replicou Cyrino desabrido, descubra-se tudo ... não
posso mais viver assim...
--Chi! observou ella, cuidado!.. Se elle nos acha aqui, mata-nos logo...
Olhe, vá-me esperar junto ao _corguinho_[108] para lá do laranjal ...
daqui a nada vou ter com mecê... A porta está só encostada...
O moço fez signal que obedecia e sumiu-se incontinente na escuridão do
pomar.
Aquella hora dava a lua de minguante alguma claridade á terra;
entretanto, como que se presentia outra luz a preparar-se no céu para
irradiar com subito esplendor e infundir animação e alegria á
natureza adormecida. Nos galhos das laranjeiras, ouvia-se o pipilar de
passaros prestes a despertar, um gorgeio intimo e aveludado de ave que
cochila; e ao longe um sabiá mais madrugador desfiava melodias que o
silencio harmoniosamente repercutia. Riscava-se o oriente de dubias
linhas vermelhas, prenuncio mal percebivel da manhã; nos espaços
pestanejavam as estrellas com brilho bastante amortecido, ao passo que
fina e amarellada névoa empallecia o tenue segmento illuminado do
argenteo astro.
Não era mais noite; mas ainda não era sequer a aurora.
Tão commovido se sentia Cyrino, que teve de sentar-se, emquanto
esperava por Innocencia.
Esta não tardou: vinha vestida de uma saia de algodão grosseiro e, á
cabeça, trazia uma grande manta da mesma fazenda cujas dobras as suas
mãos prendiam junto ao corpo. Estava descalça, e a firmeza com que
pisava o chão coberto de seixinhos e gravetos, mostrava que o habito
lhe havia endurecido a planta dos pés, sem lhes alterar, comtudo, a
primitiva elegancia e pequenez.
Parecia muito assustada, e, mau grado seu, dos olhos lhe rolavam
lagrimas a fio.
O mancebo, apenas a avistou, correu-lhe ao encontro.
--Innocencia, exclamou elle notando um gesto de duvida, nada receie de
mim... Heide respeita-la, como se fora uma santa... Não confia então
em mim?...
--Sim! disse ella apressadamente. Por isso é que vim até cá...
Entretanto, estou com a cara ardendo ... de vergonha...
E levando uma das mãos de Cyrino ás suas faces:
--Veja, Cyrino, como tenho o rosto em braza... Porque é que mecê veio
bulir commigo?... Eu era uma moça socegada ... agora, se mecê não
gostasse mais de mim ... eu morria...
--Deveras?
--Eu lhe juro... É mais facil apagarem-se de repente estas estrellas
todas, do que eu deixar de amal-a...
--E Manecão? perguntou ella com terror.
--Oh! esse homem, sempre esse nome maldito!...
--Hade ser meu marido...