--Adeus, disse elle acenando com o chapéu, gente e patricios. Senhor

Pereira, Sr. Coelho, mais senhores, adeus! Eu me _bóto_ de uma feita

para _lá_ das _Parnahybas_[99]... Este sertão não me vê mais

nunca!...

Acolheu o silencio essas palavras de eterna despedida.

Garcia então, esporeando com o calcanhar o ventre da cavalgadura, a

passo tomou rumo da estrada geral e sumiu-se numa das voltas do caminho,

quando ja vinha a noite estendendo o seu lugubre manto.

[Nota 99: Isto é, para lá do rio Paranahyba: _Para cá ou para lá das

Parnahybas_ é phrase muito usada no sertão em que corre aquelle grande

rio.]

CAPITULO XVIII

IDYLLIO

Mas, que luz é essa que alli apparece,

naquella janella? A janella é o

oriente, e Julieta o sol. Sobe, bello

astro, sobe e mata de inveja a pallida lua.

SHAKESPEARE.--_Romeu e Julieta_, Acto II.

Entretanto, desde algum tempo,

sentia-se Virginia agitada de mal desconhecido... Em

sua fronte, não pousava

mais a serenidade, nem o sorriso

lhe pairava nos labios... Pensa ella na

noite, na solidão, e fogo devorador a

abraza toda.

B. DE SAINT-PIERRE.--_Paulo e Virginia._

Decorreram sem novidade dias e dias uns após outros; Cyrino

diagnosticando e curando ou melhor, receitando; Meyer augmentando cada

vez mais a sua bella collecção entomologica, sempre feitorisado por

Pereira, que cautelosamente tratava de mantel-o no suspeitoso circulo da

sua apertada vigilancia.

Confidente de todos os infundados e mal empregados receios era Cyrino.

O _allamão_, dizia o mineiro, não me deixa pôr pé em ramo verde, mas

também trago-o vigiado que é um gosto... Se desconfiasse, teria medo

até da sua sombra... Estou em brazas... Não sei porque não chega o

Manecão Dóca... Quero arriar a carga no chão... Agora, mais do que

nunca, devo casar _Nocencia_... Estas mulheres botam sal na moleira de

um homem. Salta! E ainda isto tudo não é nada.

--Então espera muito breve o Manecão? perguntou o outro com anciedade.

--Não pode tardar ... por estes dois ou tres dias quando muito... Vem

de Uberaba e sem duvida por lá arranjou todos os papeis... Dei a

certidão do meu casamento ... a do baptismo da pequena ... e adeantei

dinheiro para as despezas ... bem que elle refugasse meio vexado.

--Então está tudo decidido? perguntou Cyrino com vivacidade.

--Boa duvida!... Já lhe tenho dito mais de uma vez. Hoje é coisa de

pedra e cal... Se até trato o Manecão de filho... A honra desta casa

é tambem honra delle.

--Mas sua filha?

--Que tem?

--Gosta delle?

--Ora se!... Um homemzarrão ... desempenado. E, quando não gostasse é

vontade minha, e está acabado. Para felicidade della e, como boa filha

que é, não tem que piar... Estou, porem, certissimo de que o noivo lhe

faz bater o coração ... tomara ver o _cujo_ chegado!

Já nesse tempo, como dissemos, Innocencia de todo se restabelecera,

ainda que Cyrino tivesse feito quanto possivel render a enfermidade.

Mas, quando o rubor da saúde voltou á assetinada cutis da sertaneja e

o vigor ao esbelto corpo, não houve pretexto a que se apegar, e as

entrevistas curtas e graves de medico foram cortadas, até mesmo para

não desviar a attenção de Pereira da pessoa de Meyer.

Com o coração, pois, partido de dor, declarou que os seus cuidados e

presença se tornavam completamente desnecessario.

Seguiram-se então semanas inteiras, sem que pudesse pôr os anciosos

olhos na formosa namorada, e por tal modo se exacerbou a sua paixão

que, para encobril-a e disfarçar a excitação nervosa, a falta de

appetite e pallidez extrema, teve que recorrer a desculpas de molestia;

cahiu realmente doente.

A incerteza em que se via, sem, pelo menos, saber se o seu affecto era

ou não correspondido, dava-lhe accessos de violenta angustia, que a

deshoras tocava ás raias da exasperação.

Uma noite, em que havia luar embaciado por ligeira bruma, tomou a sua

afflicção tal violencia que elle decidiu fugir daquelle local de

soffrimentos e incertezas, logo na manhã seguinte.

Assente uma vez nesta resolução, ergueu-se do leito em que jazia

prostrado pelo mais cruel desalento e, com algum custo, sahiu para o

terreiro, abrindo cautelosamente a porta da casa, afim de não acordar

os companheiros de quarto. Uma vez fóra, sentou-se num tronco de

madeiro o alli ao ar fresco e acariciador da madrugada, entrou com mais

tranquillidade a pensar no caso.

Seria uma hora depois de meia noite.

Estavam os espaços como que illuminados por essa luz serena e fixa que

irradia de um globo despolido; luz fosca, branda, sem intermittencias no

brilho, sem scintillações, e diffundida igualmente por toda a

atmosphera.

Haviam já os gallos cantado uma vez, e, ao longe, muito ao longe, de

vez em quando, se ouvia o clamor das anhumas pócas.

Levantou-se de repente Cyrino.

Depois de alguma vacillação, deu uma volta por toda a habitação,

pulando os cercados, e tomou o rumo do frondoso laranjal, a cuja espessa

sombra se abrigou por algum tempo.

Achegou-se, em seguida, á cerca dos fundos da casa o parou no meio do

pateo, olhando com assombro para uma janella aberta.

Um vulto alli estava!... Era o della; Innocencia... Não havia duvidar.

A principio, nenhum movimento fez; mas, depois, lentamente se foi

retirando e aos poucos fechou o postigo.

Cyrino deu um só pulo e de leve, muito de leve, bateu apressadas

pancadas na taboa da janella.

[Ilustração: Innocencia!... Innocencia!... chamou com

voz sumida.]

--Innocencia!... Innocencia!... chamou com voz sumida, mas ardente e

cheia de supplica.

Ninguem lhe respondeu.

--Innocencia, implorou o moço, olhe ... abra ... tenha pena de mim...

Eu morro por sua causa...

Depois de breve tempo, que para Cyrino pareceu um seculo, descerrou-se a

medo a janella, e appareceu a moça toda assustada, sem saber por que

razão alli estava nem explicar tudo aquillo.

Parecia-lhe um sonho.

Quiz, entretanto, dar qualquer desculpa á situação e, fingindo-se

admirada, perguntou muito baixinho e a balbuciar:

--Que vem ... mecê ... fazer aqui? ... já ... estou boa.

Da parte de fóra, agarrou-lhe Cyrino nas mãos.

--Oh! disse elle com fogo, doente estou eu agora... Sou eu que vou

morrer ... porque você me enfeitiçou, e não acho remedio para o meu

mal.

--Eu ... não, protestou Innocencia.

--Sim ... você que é uma mulher como nunca vi... Seus olhos me

queimaram... Sinto fogo dentro de mim... Já não vivo ... o que só

quero é vel-a ... é amal-a ... não conheço mais o que seja somno e,

nesta semana, fiquei mais velho do que em muitos annos havia de ficar...

E tudo, porque, Innocencia?

--Eu não sei, não, respondeu a pobresinha com ingenuidade.

--Porque eu amo ... amo-a, e soffro como um louco ... como um perdido...

--Ué, exclamou ella, pois amor é soffrimento?

--Amor é soffrimento, quando a gente não sabe se a paixão é acceita,

quando se não vê quem se adora: amor é céu, quando se está como eu

agora estou.

--E quando a gente está longe, perguntou ella, que se sente?...

--Sente-se uma dôr, cá dentro, que parece que se vae morrer... Tudo

causa desgosto: só se pensa na pessoa a quem se quer, a todas as horas

do dia e da noite no somno, na reza, quando se ora a Nossa-Senhora,

sempre ella, ella, ella! ... o bem amado ... e...

--Oh! interrompeu a sertaneja com singeleza, então eu amo....

--Você? indagou Cyrino sofregamente.

--Se é como ... mecê diz...

--É ... é ... eu lhe juro!...

--Então ... eu amo, confirmou Innocencia.

--E a quem?... Diga: a quem?

Houve uma pausa, e a custo retrucou ella, ladeando a questão:

--A quem me ama.

--Ah! exclamou o joven, então é a mim ... é a mim, com certeza,

porque ninguem neste mundo, ninguem, ouviu? é capaz de amal-a como

eu... Nem seu pae ... nem sua mãe, se viva fosse... Deixe falar seu

coração... Se quer ver-me fóra deste mundo ... diga que não sou eu,

diga!...

--E como ia mecê morrer? atalhou ella com receio.

--Não falta pau para me enforcar, nem agua para me afogar.

--Deus nos livre! não fale nisso... Mas, porque é que mecê gosta

tanto de mim? Mecê não é meu parente, nem primo, longe que seja, nem

conhecido sequer... Eu _lhe_ vi apenas pouco tempo ... e tanto se

agradou de mim?

--E com você ... não succede o mesmo? perguntou Cyrino.

--Commigo?

--Sim, com você... Porque é que está acordada a estas horas? Porque

é que não pode dormir? ... que a cama lhe parece um brazeiro, como a

mim tambem parece?... Porque pensa em alguem a todo o instante?

Entretanto, esse alguem não é primo seu, longe que seja, nem conhecido

sequer?...

--É verdade, confessou Innocencia com doce candura.

Depois quiz emendar a mão:

--Mas, quem lhe disse que vivo pensando em mecê?

--Innocencia, implorou o moço, não queira negar; vejo que sou amado...

--Sempre amar! observou ella, mais para si do que para quem a ouvia. No

anno que já passou e por occasião da Sra Sant'Anna[100], aqui vieram

umas parentas minhas e caçoaram commigo, porque eu não as entendia:

tanto assim que uma dellas, a Nhã Tuca, me disse: «Deveras, mecê

ainda não gostou de nenhum moço? E eu respondi: Não _assumpto_[101] o

que mecê estão a _prosear_.» Aquillo era certo, e tão verdade como

estar nosso Deus no paraiso... Hoje...

--E hoje?

--Hoje? repetiu a moça. Quem sabe se não era bem melhor não ter nunca

gostado de ninguem?

--Isso não está na gente... É ordem lá de cima...

--Emfim, se for destino, que se cumpra.

Conservava-se Innocencia ainda um pouco arredada da janella, de modo

que Cyrino, para lhe falar baixinho, tinha o corpo inclinado do lado de

dentro. Segurava as mãos da namorada e puxava com doce violencia,

quando mostrava querer afastar-se.

Era o ardente colloquio dos dois cortado de frequentes pausas, durante

as quaes se embebiam reciprocos os olhares carregados de paixão.

--Deixa-me ver bem o teu rosto, dizia Cyrino a Innocencia. Para mim, e

muito mais bello que a lua e tem mais brilho que o sol.

E, apezar de alguma resistencia, fraca embora, mas conscienciosa, que

lhe foi opposta, conseguiu que a formosa rapariga se recostasse ao

peitoril da janella.

--Amar, observou ella, deve ser coisa bem feia.

--Porque?

--Porque estou aqui e sinto tanto fogo no rosto!... Cá dentro me diz um

palpite que é peccado mortal que faço ..

--Você tão pura! contestou Cyrino.

--Se alguem viesse agora e nos visse, eu morria de vergonha. Sr. Cyrino

deixe-me ... vá-se embora! ... o Sr. me atirou algum quebranto ...

aquella sua mézinha tinha alguma herva para mim tomar ... e me virar o

juizo...

--Não, atalhou o mancebo com força, eu lhe juro! Pela alma de minha

mãe ... o remedio não tinha nada!

--Então porque fiquei ... _ansim_, que me não conheço mais?... Se

papae apparecesse ... não tinha o direito de me matar?...

Foi-se-lhe a voz tornando cada vez mais baixa e sumiu-se num golfão de

lagrimas.

Atirou-se Cyrino de joelhos diante della.

--Innocencia, exclamou, pela salvação de minha alma lhe dou juramento:

nada de mau fiz para prender o seu coração... Se você me ama, é

porque Deus assim mandou... Sou um rapaz de bons costumes... Até hoje

nunca tinha amado mulher alguma ... mas não sei como deixar de amar uma

moça como você... Perdoe-me; se você soffre ... eu tambem padeço

muito... Perdoe-me...

Alçara o mancebo um pouco a voz.

De repente Innocencia estremeceu.

--Não ouviu ruido? perguntou ella com terror.

--Não, respondeu Cyrino.

--Alguem acordou lá dentro...

--Pois ... então vá ver ... o que é ... e se não for nada, volte...

Aqui a espero, escondido á sombra da parede...

Minutos depois, reappareceu a moça.

--Não vi nada, disse.

--Então foi abusão.

--É melhor que o Sr. se vá embora.

--Não, Innocencia, tenha pena de mim... Eu não poderei vel-a tão cedo

e ... preciso conversar ... mesmo para arranjo da nossa vida... O

Manecão não tarda...

--Ah! exclamou ella com sobresalto, então mecê sabe...

--Sei; e desgraçadamente, breve está elle batendo aqui...

--Eu bem dizia que o Sr. me _havéra_ de perder... Antes de o ter

visto ... casar com aquelle homem, me agradava até... Era uma

novidade ... porque elle lhe disse que me levava para a villa... Mas agora

esta idéa me mette horror! Porque é que mecê mexeu commigo? Sou uma pobre

menina, que não tem mãe desde creancinha... Não ha tanta moça nas

cidades ... nos povoados?... Porque veio tirar o somno ... a vontade de

viver a quem era ... tão alegre ... que até hoje não pensou em

maldade ... e nunca fez damno a ninguem?

--E eu? replicou com energia Cyrino, pensa então que sou feliz?... Olhe

bem uma coisa Innocencia. Digo-lhe isto deante de Deus: ou hei de casar

com você ... ou dou cabo da vida... Quem arranjou tudo assim ... foi o

meu caiporismo... Se eu tivesse passado aqui antes daquelle homem, que

odeio, que quizera matar ... nada impediria que eu fosse hoje o ente

mais feliz do mundo!... Mais feliz aqui neste sertão, do que o

Imperador nos seus paços lá na côrte do Rio de Janeiro! Eu já lhe

disse ... culpa não tive...

--Não ha nada que me possa salvar, atalhou a moça.

--Nada?... Talvez...

Soou nesse momento e repentinamente do lado do laranjal um assobio

prolongado, agudissimo, e uma pedra, arremessada por mão mysteriosa e

com muita força, sibilou nos ares e veiu bater na parede com surda

pancada, passando rente á cabeça de Cyrino.

Deu Innocencia abafado grito de terror e fechou rapidamente a janella,

ao passo que o mancebo, esgueirando-se com celeridade pela sombra,

resoluto correu para o ponto donde presumia ter partido a pedra.

Não viu ninguem.

Por toda a parte, o ruido mysterioso e peculiar a uma noite calma de

verão.

Percorreu em todos os sentidos o pomar, e só ouviu a bulha dos seus

passos.

Afinal, de cansado, deixou o sitio e cautelosamente se dirigiu para o

terreiro da frente.

Quando lá chegou, parou attonito.

O mesmo assobio, prolongado e finissimo, desta feita talvez mais

estridente, feriu-lhe os ouvidos.

[Nota 100: Sc. da festa.]

[Nota 101: Não percebo.]

CAPITULO XIX

CALCULOS E ESPERANÇAS

Apezar, porém, de joven, apezar da

violencia do amor que a prendia a

Julião, sabia ella conter os movimentos

do seu coração e desconfiar

de si mesma.

WALTER SCOTT.--_Peveril do Pico._

Lisa--Comtanto que tenhas bastante

resolução...

Lucinda--Que queres que eu faça

contra a autoridade de um pae? Se

elle for inexoravel aos meus pedidos?...

MOLIÈRE.--_O amor medico._

Durante os dias de estada nas terras de Pereira, as quaes não tinham

limites nem visinhos dalli a muitas leguas, augmentou Meyer a sua

interessante collecção com extraordinaria variedade de bichinhos e

sobretudo borboletas.

Tal era a alegria de que se possuira por esse fausto motivo, que a cada

momento a manifestava num tom de franqueza capaz de por si só convencer

o mais descrente dos homens em questão de sinceridade.

--Sr. Pereira, dizia o naturalista, afianço-lhe que em parte alguma do

Brazil estive ainda tão bem como em sua casa.

--Eu te entendo, maroto, rosnava o mineiro.

--Devéras!... Só o que sinto é que sua filha não nos apparecesse

mais... Sinto muito, na verdade...

Sorriu-se Pereira com riso amarello e replicou, apertando os punhos de

raiva:

--_Mochú_ sabe ... isto são costumes cá da terra. As mulheres não

são feitas para...

--Para que? perguntou Meyer com pausa.

--Para _prosearem_ com qualquer um...

--Que é _prosearem_?

--É conversar, dar de lingua, explicou Cyrino.

--Obrigado, doutor, retorquiu Meyer, agradecendo mais aquella

indicação philologica que foi immediatamente enriquecer o seu caderno

de notas. _Prosear_ é conversar. Muito bem!... Pois é pena, Sr.

Pereira, porque sua filha é uma bonita senhora!

--Nesta arapuca não caio eu, seu tratante... Hei-de _toda a vida_ andar

com o olho em ti, murmurava o mineiro.

--É pena, confirmava Meyer duas e tres vezes ... é pena...

Por certo não era esta a linguagem mais propria para desvanecer as

prevenções e receios de Pereira; ao envez, mais e mais recrescia a sua

vigilancia sobre Meyer, o que proporcionava ao verdadeiro culpado a

liberdade de que carecia para tornar a ver o mal-guardado thesouro.

Não foi todavia sem custo a nova conferencia.

Ficara a pobre menina tão impressionada com o final da primeira

entrevista, que por alguns dias mal sahia do quarto.

Escrever-lhe Cyrino, era de todo inutil, por isso que ella nunca

aprendera a ler: e, depois, qual o meio de lhe fazer chegar ás mãos

qualquer papel ou recado?

Sobravam, portanto, razões para que o joven se ralasse de impaciencia e

quasi desesperasse da sorte.

Passava as noites em claro, mettido no laranjal e procurando uma

solução a tanta difficuldade; atordoavam-no ainda aquelles dois

assobios que não podia explicar e sobretudo aquella pedrada tão bem

dirigida, que por pouco talvez o houvesse estendido por terra.

N'uma dessas noites de anciedade, viu afinal reabrir-se a janella de

Innocencia.

A pobre coitada, abrazada tambem de amor, queria respirar o ar da noite

e beber na viração do sertão uma pouca de tranquilidade para sua alma

não afeita ao tumultuar dos sentimentos que a agitavam e, quem sabe?

verificar se por ahi não andava rondando aquelle que no seio lhe

inoculara tamanho desassocego, impetos tão desconhecidos e violentos,

superiores a todas as suas tentativas de resistencia.

Cyrino, rapido como uma seta, rapido como aquella pedra arrojada tão

vigorosamente, achou-se ao pé da janella e cobriu de beijos as mãos da

sua amada.

--O grito? balbuciou ella. Dois gritos ... e a pedrada... Que foi?

--Ah! não foi nada, respondeu apressadamente Cyrino; fui ver no

laranjal ... era um macauán[102] O que pareceu pedrada era um

noitibó[103] que frechou para mim e veio dar com a cabeça na parede.

--Devéras? perguntou ella incredula.

--Devéras. A principio tomei tambem um grande susto. Depois, verifiquei

que não passava de miragem. De noite, a gente em tudo vê maravilhas...

Para mim, a unica que vi era você, minha vida, meu anjo do céu...

Com este madrigal encetou Cyrino uma conversação como a da primeira

noite, como a que balbuciam duas candidas almas na eterna e sempre nova

declaração de amor, desde que Adão e Eva a trocaram, á sombra das

maravilhosas arvores do Eden.

Mostrou se o moço receioso da rivalidade de Meyer. Riu-se ella e

gracejou, com espirito e bondade, da figura do estrangeiro. Com toda a

confiança, chegou a idear planos de risonho futuro:

--Agora, que sei o que é amar, direi a meu pae que já não quero o

Manecão...

--E se elle insistir?

--Hei de chorar ... chorar muito...

--Lagrimas, muitas vezes, de nada servem.

--Mas tenho cá commigo outro recurso...

--Qual é? perguntou Cyrino.

--Morrer!...

--Não! Ha outros ... hei de dizer-lhe...

Tomou Innocencia ar grave e meio offendido.

--Escute, Cyrino, observou ella, nestes dias tenho aprendido muita

coisa. Andava neste mundo e delle não conhecia maldade alguma... A

paixão que tenho por mecê foi como uma luz que faiscou cá dentro de

mim. Agora começo a enxergar melhor... Ninguem me disse nada; mas

parece que a minha alma acordou para me avisar do que é bom e do que é

mau... Sei que devo de ter medo de mecê, porque pode botar-me a

perder... Não formo juizo como; mas a minha honra e a de toda a minha

familia estão nas suas mãos...

--Innocencia, quiz interromper Cyrino.

--Deixe-me falar, deixe contar-lhe o que me enche o peito... Depois

ficarei socegada... Sou filha dos sertões; nunca morei em povoados

nunca li em livros, nem tive quem me ensinasse coisa alguma... Se eu o

maguar, desculpe será sem querer...Lembra-me que, ha já um _tempão_,

pararam aqui umas mulheres com uns homens e eu perguntei a papae porque

é que elle não as mandava entrar cá para dentro, como é de costume

com familias... O pae me respondeu:--Não, _Nocencia_, são mulheres

perdidas, de vida alegre. Fiquei muito _assombrada_.--Mas, então,

melhor; se são alegres hão-de divertir-me.--Aquillo é gente airada,

sem vergonha, _secundou_ elle.--Tive tanto dó dellas que mecê não

imagina. Depois fui espiar ... cahiam tontas no chão ... _pitavam_ e

cantavam muito alto com modos tão feios; que me fizeram corar por

ellas! E são os homens que fazem ficar _ansim_ as coitadas!... Antes

morrer... Parece-me que Nossa-Senhora ha-de ter pena dos que amam ...

mas desampara com certeza os que erram... Se não houver outro remedio,

temos que nos lembrar que as almas, quando se acaba tudo neste mundo,

vão pelos céus cheios de estrellas, passeando como num jardim... Se eu

me finasse e mecê tambem, punha-se a minha alma a correr pelos ares,

procurando a de mecê, procurando procurando, e então nós dois,

juntinhos iamos viajando ora para aqui, ora para alli, ás vezes pelo

carreiro de S. Thiago, ás vezes baixando a este ermo a ver onde é que

botaram os nossos corpos... Não era tão bom?

Envolvida em sua pureza como num manto de bronze, entregava-se

Innocencia com exaltamento e sem reserva á força da paixão. E essa

natureza pudica e delicada a tal ponto dominava a Cyrino, que invencivel

acanhamento o prendia ante a debil donzella, alheia a todos os mysterios

da existencia.

Por isso, ao inflammado mancebo não acudia a idéa de saltar por

aquella janella e menos a de praticar qualquer acção desrespeitosa.

Consumia o tempo em beijos nas mãos da namorada, em tagarelices de

amor, protestos, juras, e illusões de futuro.

--Amanhã, dizia Cyrino, hei de com cuidado assumptar a seu pae ...

falando no seu casamento ... depois ... hei de virar a conversa para

mim...

--Papae, observou a menina, é muito bom, muito mesmo. Mas tenho um medo

delle! Tem um genio, meu Deus!...

--Quanto a mim ... heide falar bem claro e explicito... O que quero, é

que você me seja constante...

Mas do sentimento de temor, que sobresaltava Innocencia, tambem

participava Cyrino. Por isso, chegado o dia, não ousava tocar na

melindrosa questão, bem que as continuas queixas de Pereira contra

Meyer lhe dessem ensejo mais ou menos favoravel para desembaraçadamente

encetal-a. Com gosto adiava o momento decisivo e esperava perplexo

qualquer incidente, que melhor servisse a seus planos.

Entretanto, apezar de se accumularem os dias sem que trouxessem

modificação naquelle estado de coisas, doce esperança pairava no

fundo do seu coração, consentindo-lhe planos de venturoso porvir e

feliz desenlace ás duvidas e soffrimentos em que vivia.

[Nota 102: Especie de gavião.]

[Nota 103: Passaro da noite.]

CAPITULO XX

NOVAS HISTORIAS DE MEYER

Disse-lhe Sancho: Cada qual abra

bem o olho e fique alerta, porque o

diabo entrou na dansa e se lhe derem

ensejo, ver-se-hão maravilhas.

Virae-vos em mel, e as moscas vos

comerão.

CERVANTES.--_D. Quixote._ Cap. XLIX.

Uma occasião, de volta do trabalho diario, attingiu a habitual

irritação de Pereira contra Meyer grande intensidade. Entrara

cabisbaixo, sorumbatico e fez gesto a Cyrino de que precisava falar-lhe

a sós. Dalli a pouco, saindo ambos, caminharam silenciosos pela estrada

até a um regato que ficava a meio quarto de legua da casa.

--Que terá este homem hoje? dizia Cyrino comsigo mesmo. Talvez vá

chegando o momento de tratar do assumpto.

Voltou-se de repente Pereira e, com voz alterada, prorompeu em

exclamações:

--Sabe, Doutor, que não posso mais aturar esse _allamão_?... Aquillo

é um _mandingueiro_, uma _çuçuarana_, vinda do inferno para me botar

a perder!... Meu irmão ... meu irmão, que presente me fez você!...

--Mas, que houve? perguntou Cyrino.

--Olhe ... se não fosse aquella carta, e a palavra que dei ao

maldito ... mil raios o partam, surucucú do diabo! potro melado!... já

um bom balazio lhe teria varado os miolos...

--Que novidades ha então, Sr. Pereira? tornou a inquirir Cyrino.

--Vim mesmo até aqui para tirar este peso do coração...

--Mas...

--Sabe o senhor que aquelle _Mochú_ é peor que um tigre preto?...

Parece homem á toa, um _punga_, incapaz de matar uma pulga, não é?...

Pois aquillo é uma alma damnada ... um _seductor_...

--Sempre as suas desconfianças! observou Cyrino.

Innocencia · 第 8 / 13 段