fazer nascer suspeitas no espirito mais indifferente e desprevenido. Ou
se revolvia na cama, dando mal abafados suspiros, ou então sahia para o
terreiro, onde se punha a passear e a fumar cigarros de palha uns após
outros, até que os gallos, alcandorados na cumieira da casa e nas
arvores mais proximas, annunciassem as primeiras barras do dia.
Desabrida paixão enchia o peito daquelle malsinado; dessas paixões
repentinas, explosivas, irresistiveis, que se apoderam de uma alma, a
enleiam por toda a parte, a prendem de mil modos, a suffocam como as
serpentes de Neptuno a Laocoonte. Conhecedor, como era, dos habitos do
sertão, do jugo absoluto dos preconceitos, do respeito fatal á palavra
dada, antevia tantas difficuldades, tamanhos obstaculos deante de si,
que, se de um lado desanimava, do outro mais sentia revoltado o nascente
e já tão violento affecto.
--Deus me ajudará, pensava comsigo mesmo: o que só quero é a amizade de
Innocencia... Ha dias que não a vejo ... se não puder mais vel-a ... dou
cabo da vida...
Sublevava-se o seu coração, gyrava-lhe o sangue com vertiginosa
rapidez nas veias e vinha toldar-lhe a vista, trazendo ondas de rubro
calor ao descorado rosto.
--Nossa Senhora da Abbadia, implorava elle puxando os cabellos com
desespero, valei-me neste apuro em que me acho! Dae-me pelo menos
esperanças de que aquella menina poderá um dia querer-me bem... Nada
mais desejo... Possa o fogo que me consome abrazar tambem o seu peito...
Costumava a fervorosa prece dirigida á Santa da especial devoção de
toda a provincia de Goyaz acalmar um pouco o mancebo, que alquebrado de
forças pegava no somno para, instantes depois, acordar sobresaltado e
cada vez mais abatido.
Tambem estava sempre de pé, quando Pereira costumava saltar da rede.
--Oh! observou elle da primeira vez, isso é que se chama madrugar.
--Pois é contra o meu costume, replicou Cyrino, todas estas noites
tenho passado mal...
--Na verdade vosmecê não está com boa cara...
--Creio que me entraram no corpo as maleitas.
--Essa é que é boa! Então o doutor foi _emprestar_[91] da doente a
molestia?...
Olhe, é preciso pôr-se forte, porque hoje mesmo ha-de lhe chegar uma
boa _machina_ de doentes...
--Melhor...
--Já está tudo espalhado por ahi da sua chegada e a romaria não ha de
tardar.
--Cá a espero...
--Naturalmente virá primeiro o Coelho... É boa occasião de pagar a
sua divida... Não tenha receio de puxar mais no preço...
--Daqui mesmo pretendo despachar um proprio para me ver livre dessa
obrigação...
--Isso mostra que o Sr. é pessoa de brio... Não é como certa gente
que conheço...
Ao dizer estas palavras, voltara-se Pereira para Meyer a contemplal-o
attentamente.
Estava na verdade o allemão digno de exame, posto ainda de parte outro
qualquer motivo que não o de simples curiosidade.
Dormia com as pernas e braços abertos e cahidos para fóra do estreito
leito das canastras: tinha o queixo muito levantado pela posição
incommoda da cabeça, deixando a boca meio aberta ver uma fieira de
magnificos dentes.
--Está roncando, hen? murmurou o mineiro. _Cavouqueiro_ ... a mim você
não engana ... mas é o mesmo!
Iam as prevenções de Pereira tomando proporções de idéa fixa, e
Meyer, na simplicidade da ignorancia, como que de proposito ministrava
elementos para que ellas mais e mais se fossem arraigando.
Assim, ao almoço, lembrou-se de perguntar entre duas enormes colheradas
de feijão:
--Sua filha, Sr. Pereira? Como vae? _É_ melhor?
--_É_ melhor o que, _Mochú_? exclamou o pae com modo esquivo.
--A saude della _é_ melhor?
--Está melhor; está, está, respondeu Pereira muito seccamente. Está
boa ... vae fazer uma viagem...
--Viagem; para onde?... Até á villa?
--Homem, _Mochú_, observou o mineiro um tanto desabrido, vosmecê está
que nem mulher velha, tudo quer saber...
Meyer, nessa reprehensão que lhe causou vexame e alguma admiração,
só enxergou censura justa à sua curiosidade, falta que confessou com
toda a nobreza, bem que aggravando a situação.
--É verdade, Sr. Pereira, concordou elle. A boa educação não manda o
que eu fiz ... mereço porém desculpa, mereço... Sua filha é tão
interessante ... que me lembro sempre della... Tenho commigo uns
presentesinhos...
--Guarde-os, rosnou Pereira abafando a reflexão num accesso de tosse.
E para evitar o proseguimento de semelhante assumpto, deu por finda a
refeição, levantando-se da mesa.
--Ahi vem o Coelho, doutor, exclamou elle olhando para fóra. Chi! como
esta amarello!... Ha tempos que o não via ... já parece alma do outro
mundo... É do tal em quem falamos... Aperte-o, porque é _mofino_ como
tudo...
E, interpellando a quem chegava gritou:
--Bons olhos o vejam!... Se não fosse, amigo Sr. Coelho, ter medico em
casa, nunca _havéra_ de vel-o por cá; não é verdade?
--Ora, respondeu o outro com um gemido, ando sempre tão doente. Nem faz
gosto viver assim... Mas qu'é delle, o homem?
--Está aqui...
--Já me disseram que faz milagres. Deixou nome para lá das
Parnahybas...
Sabia?
--Lá que tivesse deixado nome, não; mas que é _cirurgião_ de
patente, tenho certeza, porque, num abrir e fechar de olhos, me pôz de
pé uma pessoa cá de casa.
--Se elle me curar ... não sei mesmo como lhe agradecer.
--É pagar-lhe, concluiu Pereira tratando logo de advogar os interesses
do hospede.
--Sim, hei-de ... pagar-lhe, confirmou o outro com alguma hesitação.
--Em todo o caso, desça do animal.
Pouco depois, entrava na sala e comprimentava a Cyrino e a Meyer a
pessoa a quem o mineiro chamara Coelho. Era homem já de edade, muito
mais quebrantado por enfermidades que pelos annos; tinha a testa
enrugada, as bochechas meio inchadas e balofas, os labios quasi brancos
e os olhos empapuçados.
--Qual dos senhores é o doutor? perguntou elle.
--Sou eu, respondeu Cyrino revestindo-se de convicto ar de importancia,
emquanto Meyer apontava para elle, cedendo direitos que talvez pudesse
contestar.
Interveio Pereira com amabilidade:
--Sente-se, Sr. Coelho, sente-se. Não se ponha logo a falar de
molestias... Isto não vae de afogadilho... Descance um pouco... Olhe,
já almoçou?
--O pouco que como, retrucou o outro, já está comido.
--Pois bem, ponha-se primeiro a gosto: depois então, converse com o
doutor... Diga-me: que ha de novo pela villa?
--Que eu saiba, nada.... Tambem ha mais de anno, que de lá nenhuma
noticia tenho... Já não se me dá do que vae pelo mundo... Quem não
goza saúde, perde o gosto de tudo... É mesmo uma calamidade...
Emquanto Coelho, em toada monotona, desfiava outras queixas no mesmo
sentido, tirara Cyrino da canastra o seu Chernoviz e algumas hervas
seccas que depoz em cima da mesa.
--O senhor, declarou elle voltando-se para o doente, está empalamado.
--É verdade, Sr. doutor.
--Eu, que não sou physico, observou Pereira, diria logo isso...
--Chi, compadre! atalhou Coelho com impaciencia e pedindo silencio.
--O senhor, continuou Cyrino com entono, teve maleitas muitos annos
_afios_[92] depois, começou a sentir fastio e o estomago embrulhado;
inchou todo e em seguida definhou... Aos poucos, foi perdendo a
sustancia e o _talento_[93].
--Tal qual! murmurou Coelho seguindo com cautelosa attenção a marcha
do diagnostico.
--Agora, o Sr. não póde comer que não sinta affrontação, não é?
--Muita, Snr. doutor.
--Este homem, disse Pereira para Meyer, leu bastante nos livros....
--Veio-lhe depois uma canseira, e, quando o Sr. anda, dão-lhe uns
suores e tremuras por todo o corpo... O baço está engorgitado e o
figado tambem... De noite fica o Sr. sem poder tomar respiração, mais
sentado que deitado... Ás vezes tosse muito, uma tosse sem escarrar,
como quem tem um pigarro secco...
--Tal qual! repetiu o enfermo com uncção e quasi enthusiasmo.
--Pois bem, terminou Cyrino, como já lhe disse, o Sr. está
_empalamado_.
--E não ha cura? perguntou Coelho meio duvidoso.
--Ha, mas o remedio é forte.
--Comtanto que faça bem...
--Muita gente, replicou Cyrino, tenho já curado em estado peior que o
Sr.; mas, repito, o remedio é violento...
--Tomarei tudo, affirmou Coelho: ha annos que faço um horror de
mézinhas e de nenhuma dellas tiro proveito. Vamos ver.
Cyrino neste ponto mudou o tom de voz e olhando para Pereira:
--O Sr. sabe, observou elle que o meu modo de vida é este...
Com um movimento de cabeça applaudiu o mineiro aquella estrada em
materia.
O mesmo não pensou Coelho, que tartamudeou:
--Ah!... Estou prompto... Sou pobre muito pobre...
Piscou Pereira um olho com malicia.
--Costumo, continuou Cyrino, receber o pagamento em duas _ametades_...
Depois accrescentou, um tanto vexado:
Si falo nisto agora com esta pressa, é porque tambem tenho precisão
urgente de dinheiro... Não acha, Sr. Meyer?
--Pois não, pois não, concordou o allemão: tem todo o direito.
--Meu amigo, corroborou Pereira, o doutor não trabalha para o bispo;
tem que ganhar honradamente a vida.
--Então como lhe dizia, proseguiu o outro dirigindo-se para Coelho, o
senhor pagar-me-ha no principio da applicação e no fim. Assim, não ha
enganos... Serve-lhe?
--Que remedio! suspirou Coelho. Eu lhe darei ... até trinta mil
réis ... ou ... quarenta...
--Qual! retorquiu Cyrino. O meu preço é um só.
--E a quanto monta?
--A cem mil réis[94].
--Cem _mim_ réis! exclamou Coelho aterrado.
--Cincoenta no principio, cincoenta no fim.
Gemeu o doente lá comsigo.
--Ora o que é isto para você, compadre? interveio Pereira. Um atilho
de milho para quem tem tulhas cheias a valer[95]!...
--Nem tanto, nem tanto assim, objectou Coelho.
--Deixe-se de historias, continuou Pereira. Se vosmecê não tivesse
bons patacos, eu diria logo ao nosso amigo:--Olhe que este é dos
nossos, não tem onde cair morto--e elle o _havéra_ de curar de
graça ... não é?
--De certo, de certo, declarou Cyrino com muita promptidão.
--Mas com vosmecê o caso é _defronte_[96]. Doutra maneira, por que
razão havia um cirurgião de andar por estes _socavões_? Tambem quer
_bichar_ um pouco... É muito justo...
--Cincoenta ... mil ... réis balbuciava Coelho; assim de pancada...
--Se o medico o cura, disse Meyer intromettendo-se, é negocio da China.
Nada dizia Cyrino por dignidade propria. Estava folheando o Chernoviz,
cujas paginas mostravam continuo manusear, algumas até enriquecidas de
notas e observações á margem.
Assim no artigo _oppilação_ ou _hypoemia intertropical_ havia elle
escripto ao lado: «É o que se chama no sertão _molestia de
empalamado_.» E, no fim, abrira grande chave para encerrar esta ousada
e peremptoria sentença: «Todos estes remedios de nada servem. Sei de
um muito violento, mas seguro. Foi-me, ha annos, ensinado por Mathias
Pedroso, curandeiro da villa do Prata, no sertão da Farinha Podre,
velho de muita pratica e que conhecia todas as raizes e hervas do
campo.»
--Pois bem, disse Coelho depois de grande hesitação, está o negocio
fechado. Mas, olhe que entrará no pagamento o preço das mézinhas, e
as visitas hão de ser feitas em minha casa...
--Não ha duvida, concordou Cyrino; irei á sua fazenda todos os dias...
Não é longe daqui?
--Nhôr-não ... duas leguas pequenas, pela estrada.
--Bem. O senhor, em voltando á casa, metta-se logo na cama.
Coelho fez signal que sim.
--Amanhã, continuou o moço, deve tomar estes pós que lhe estou
mostrando. Divida isto em duas porções; hade fazer-lhe muito effeito;
depois descanse dois ou tres dias, se acaso se sentir muito fraco; em
seguida...
E parando de repente, encarou Coelho alguns instantes:
--O Senhor quer mesmo curar-se?
--Oh! se quero!
--E tem confiança em mim!
--Abaixo de Deus só mecê póde salvar-me.
--Então, tomará ás cegas o que eu lhe receitar?
--Até carvão em braza.
--Olhe bem o que diz... Não gosto de começar a tratar para depois
parar...
--Não tenha esse medo commigo... Viver como vivo, antes morrer...
--Então, continuou Cyrino com pausa, acabados os dias de socego, hade o
senhor engulir uma boa _data_ de leite de jaracatiá.
--_Jaracatiá_?! exclamaram com assombro o doente e Pereira.
--_Jarracatiá_?! gaguejou por seu turno Meyer arregalando os olhos, que
é _Jarracatiá_?
--Mas isso vae queimar as tripas do homem, observou o mineiro.
Cyrino replicou um tanto offendido:
--Não sou nenhum creançola, Sr. Pereira. Sei bem o que estou dizendo.
Este remedio é segredo meu, muito forte, muito damninho; mas não é
nem uma, nem duas vezes, que com elle tenho curado _empalamados_. A
coisa está no modo de dar o leite e na quantidade: por isso, é que
não faço mysterio, avisando comtudo que com uma porçãosinha mais do
que o preciso, o doente está na cova...
--Salta! atalhou Pereira, tal mézinha não quero eu ... antes ficar
_empalamado_...
--Que é _jarracatiá_? tornou a perguntar Meyer.
Coelho abaixou a cabeça e parecia estar reflectindo na resolução que
havia de abraçar.
Depois, com voz melancolica:
--O dito, dito, declarou, aceito tudo o que vosmecê me der. Agora,
quanto fizer está bem feito... Como é que devo tomar o jaracatiá?
--Em tempo lhe direi, replicou Cyrino. Fazem-se tres cortes no pé da
arvore e deixa-se correr o primeiro leite: eu mesmo hei de recolher o
que for bom. Tenha toda a confiança em que o senhor ficará são... Bem
sabe, ninguem em negocio de doença, mais do que outro qualquer, póde
nunca dizer: isto hade ser assim ou _assado_... Todos estamos nas mãos
de Deus. Só Elle póde saber se a molestia nos sahirá do corpo ou nos
hade atirar á sepultura. Todo o bom christão conhece isso e deve
conformar-se com a vontade divina... O que o medico faz é ajudar a
natureza e dar a mão ao corpo quando elle póde ainda levantar-se...
--Justo, justo! apoiou Meyer, então todo empenhado em picar um formoso
coleoptero.
--Assim tambem é que eu entendo disse o mineiro.
--Mas, o que é _jarracatiá_, Sr. Pereira? insistiu o allemão.
Voltou-se o interpellado com impaciencia:
--É uma arvore, Sr. Meyer, arvore grande de folhas cortadas, que dá
umas especies de mamõesinhos. Deitam leite muito grosso e queimão os
beiços quando a gente não tem cuidado. É uma arvore ouviu? Uma
arvore[97]!
--Ah! exclamou o allemão concertando a garganta.
Nesta occasião sacou Cyrino da canastra outros remedios e passou-os a
Coelho, dando-lhe minuciosas informações sobre o modo por que havia de
usar delles.
--Tem muito enjoo, quando come? perguntou o curandeiro.
--Muito Sr. doutor.
--Assim é, mas deixe estar; depois do leite de jaracatiá, volta-lhe a
appetencia. Nos primeiros tempos, o senhor só hade beber claras de ovos
bem batidas. Depois, irá a pouco e pouco tomando mais alimento.
--Deus o ouça...
Levantou-se Pereira e, chegando-se á porta, annunciou:
--Ahi vem gente... Estou ouvindo passos de animal montado... Sem duvida
é algum pobre _engorovinhado_ de doença. Isto de molestias, não
faltam no mundo. Tambem ha tanta maldade, que não poderá ser por
menos.
Depois de ligeira pausa, acrescentou em tom de surpresa e aborrecimento.
--Hi! meu Deus!... Nossa Senhora nos soccorra... Sabem quem vem
chegando?... É o Garcia; está com o _mal_[98]?! ha mais de dois annos
e não quer crer na desgraça... Pobre coitado, sem duvida vem comprar o
desengano... Tenho muita pena dessa gente ... mas, devéras, não a
quero ver em minha casa... Vamos, Sr. doutor, despache o Garcia
depressa. Com lazaros não se brinca. A Senhora Sant'Anna de tal nos
livre! Nem olhar é bom.
E, Pereira, voltando-se para dentro, pediu apressadamente:
--Não deixe o homem _desapear_, doutor: ficava-me depois o desgosto de
ter que lhe fazer alguma mácreação. Pelo amor de Deus, vá lá
fóra... Veja o que elle quer ... e dê-lhe boas tardes da nossa
parte... Olhe, está chamando... Saia, doutor saia!
Ouvia-se, com effeito, uma voz perguntar se estava em casa o Sr.
Pereira.
Este vendo que Cyrino não se apressava á medida dos seus desejos, ou
temendo que o recem-chegado lhe entrasse na sala, sem demora appareceu
á soleira da porta e, com manifesta sequidão, respondeu ao humilde
comprimento de chapéu e á meiga saudação que lhe era dirigida.
[Nota 91: Emprestar de alguem, por tomar emprestado ou pedir emprestado,
é locução muito corrente em todo o sertão de S. Paulo, Minas Geraes
e Matto Grosso. É legitimo gallicismo, que corresponde exactamente ao
verbo _emprunter_.
Recordo-me da admiração com que ouvi uma pessoa da villa de Miranda,
aliás de alguma leitura, dizer-me. Venho ter com o Sr. para lhe
emprestar 20$000.--Mas não preciso, retorqui-lhe.--Não; quem precisa
sou eu. Eu empresto do Sr.--Ah! o Sr. vem pedir-me 20$000, não
é?--Pois foi o que eu lhe disse desde o principio.--Não querendo
encetar uma discussão philologica, saquei do bolso o dinheiro pedido, o
qual, para fazer justiça a quem _emprestava_, foi pontualmente pago no
prazo promettido.]
[Nota 92: Emprega-se, ás vezes, no sertão em lugar de a fio.]
[Nota 93: Como já dissemos, talento é empregado como synonimo de
força physica, robustez.]
[Nota 94: É o preço por que um curandeiro queria curar um empalamado,
por cuja fazendola passámos em Julho de 1867, nesse mesmo sertão de
Sant'Anna.]
[Nota 95: Corresponde ao dito popular no Rio Grande do Sul: Que é um
boi para quem tem uma estancia?]
[Nota 96: Differente.]
[Nota 97: A receita do leite de jaracatiá para a cura de hypoemia
intertropical é veridico e causou-nos grande admiração, quando a
ouvimos aconselhada por um medico do sertão.
Pareceu-nos tão absurda e violenta, que dissuadimos a pessoa que devia,
conforme a sua resolução, pol-a em pratica dahi a dias. Entretanto, um
profissional abalisado a quem contamos o caso, declarou-nos que fôra de
proveitosa applicação naquella molestia.]
[Nota 98: Mal de S. Lazaro; lepra.]
CAPITULO XVII
O MORPHETICO
O leproso.--Interesse?! Ah! nunca
inspirei senão compaixão....
O militar.--Quão feliz fora eu, se
pudesse dar-vos algum consolo!....
XAVIER DE MAISTRE.--_O leproso de Aosta._
Não devo ter sociedade senão commigo
mesmo; nenhum amigo, senão Deus.
Generoso estrangeiro, adeus, sê feliz.
Adeus para sempre!....
_IDEM._
A pessoa que chegára, bem que tivesse descavalgado, não se adeantou ao
encontro do dono da casa. Pelo contrario como que recuou, conservando-se
depois immovel, encostado a um burrinho, cujas redeas segurava.
De seu lugar perguntou-lhe Pereira com expressão não muito
prazenteira:
--Então, como vae, Sr. Garcia?
--Como hei de ir, respondeu o interpellado. Mal ... ou, melhor, como
sempre.
--Pois esteja na certeza de que muito sinto.
--Está ahi o cirurgião? indagou Garcia.
--Não tarda a vir vel-o ahi fóra... Olhe, é um instantesinho.
Palavras tão crueis não pareceram fazer mossa no desgraçado.
--Esperal-o-hei com toda a paciencia, replicou melancolico.
--Já sei que volta hoje para casa, affirmou Pereira.
--Volto. Se a noite me pegar em caminho, ficarei no pouso das Perdizes.
--É verdade: lá ha uma tapera. Mas o Sr. não tem medo de almas do
outro mundo? Dizem que o tal rancho velho é mal assombrado.
--Eu?! exclamou o infeliz. Só tenho medo de mim mesmo. Quizesse um
defunto vir gracejar um pouco commigo, e de agradecido lhe beijava os
dedos roidos dos bichos. Olhe, Sr. Pereira, continuou com voz um tanto
alta e agoniada, não levo a mal o senhor não me convidar para entrar
em sua casa; não, no seu caso, havia de fazer o mesmo.
--Oh! Sr. Garcia! quiz protestar Pereira.
--Nada;... digo-lhe isto do coração... Na minha familia, sempre
tivemos nojo de lazaros... Sou o primeiro... O Sr. nem imagina... Vivi
muitos annos meio desconfiado... A ninguem contei o caso... De repente,
arrebentou o _mal_ fóra. Já não era mais possivel enganar nem a um
cégo... Ah! meu Deus, quanto tenho soffrido!...
--Permitta Elle, interrompeu Pereira em tom compassivo, que este doutor
tenha algum remedio... Bem vê ... ás vezes...
--Curar a morphéa?! replicou Garcia com sorriso pungente de sarcasmo.
Não ha esse _pintado_ ... que em tal pense...
--Então para que quer ver o medico?
--Só para uma coisa... Saber pelos livros que elle tem lido e pelo
conhecimento das molestias, se isto pega... É só o que quero... Porque
então fujo de minha casa... Desappareço desta terra ... e vou-me
arrastando até tombar nalgum canto por ahi... Dizem uns que pega ...
outros que não ... que é só do sangue... Eu não sei.
E, abanando tristemente a cabeça, apoiou-se ao tosco sellim.
Depois, ergueu os olhos para os céus, e exclamou:
--Cumpra-se tudo quanto Deus Nosso Senhor Jesus-Christo houver
determinado!... Se o medico me desenganar, não quero que a minha gente
fique toda ... marcada... Irei para S. Paulo...
Pereira cortou este doloroso dialogo:
--Está bem, patricio Garcia, disse, vou já mandar-lhe o homem ...
espere um pouco...
E, entrando, reiterou o pedido a Cyrino, que se demorara a receitar a
Coelho umas beberagens de _velame_ e _pés de perdiz_, plantas muito
abundantes naquellas paragens, de grandes virtudes diureticas e que
deveriam ser empregadas um mez depois da applicação do leite de
jaracatiá.
--Ande, doutor, instou Pereira, vá lá fóra ver o coitado do outro e
despache-me depressa. Estou todo _enfernizado_ por vel-o no meu
terreiro.
Cyrino sahiu então e, caminhando com lentidão, parou a alguns passos
do malaventurado Garcia, cujo rosto repentinamente se contrahiu emquanto
tirava o chapéo com submissão e receio.
Vinha então a tarde descendo, e a luz do crepusculo irradiava por toda
a parte, tão melancolica e suave que, sem saber por que, a alma de
Cyrino de repente se confrangeu.
Com assombro o encarava o lazaro. Deante delle se erguera quem lhe ia
apontar o caminho da eterna proscripção. Dos seus labios ia cahir a
sentença ultima, irremediavel, fatal!
Quanta angustia no olhar daquelle homem! Que pensamentos sinistros!
Quanta dor!
Tambem ficara alli attonito, boquiaberto, á espera que a palavra de
Cyrino lhe quebrasse o horroroso enleio.
--Então, disse este depois de breve pausa, que me quer o senhor?
--Doutor, balbuciou Garcia ... primeiro que tudo
quero ... pagar-lhe; ... trouxe algum ... dinheiro ... mas,
talvez ... seja ... pouco.
Interrompeu-o Cyrino:
--Não recebo dinheiro para tratar ... da sua molestia.
--Quer isto dizer, replicou com acabrunhamento Garcia, que ella não tem
cura... Eu bem sabia, mas ... é tão duro ouvir sempre isso!... Olhe, o
meu mal é de pouco ... está em principio. Quem sabe ... se o Sr. não
conhecerá alguma herva?...
--Infelizmente, respondeu Cyrino, nem eu, nem ninguem conhece essa
planta...
--Emfim!
E Garcia, fechando os olhos como que para concentrar as forças,
continuou:
--Ah! doutor, eu sou um pobre homem ... velho já cansado... Porque não
me veio a morte em lugar desta podridão que me está comendo as
carnes?... Muito tempo a senti dentro de mim... Disfarcei, disfarcei,
até ao dia em que minha neta ... a filha do meu coração ... a
Jacyntha ... ella mesma, mostrou certo receio de me abraçar... Ah!
senhor, quanto se soffre nesta vida!
E Garcia parou offegante, empallidecendo muito.
--Dê-me agua, exclamou elle, agua ... pelo amor de Deus!... Pudesse
agora ... ser o meu dia. A minha garganta ... está que nem fogo!...
E agarrou-se aos arreios para não cahir no chão.
Cyrino correu a buscar agua.
--Onde hade ser? perguntou Pereira.
--Onde queira, respondeu o outro com pressa, veja que aquelle christão
está soffrendo...
--Ah! leve a caneca de louça... Depois a quebraremos...
Com sofreguidão tomou o lazaro o vaso, bebeu de um trago e pareceu
melhorar.
--Foi um vágado, disse reassumindo aos poucos a calma. Mas, como lhe
contava, certeza tinha eu do mal. Agora, só quero saber uma coisa e
vou-me de partida. Este mal ... pega, doutor?
--Pega, affirmou Cyrino com tristeza.
--E que me resta fazer?
--Pedir á Senhora Sant'Anna paciencia e a Nosso Senhor Jesus-Christo...
Garcia abanava a cabeça acabrunhado.
... que o proteja na sua vida de desgraças.
--Meu Deus, balbuciou o morphetico a meia voz, dae-me forças ...
coragem para que eu faça o que devo fazer.
E, com subita resolução:
--Cumpra-se a vontade do Altissimo! exclamou emfim. Doutor, obrigado! O
pobre lazaro hade pedir ao Todo Poderoso que neste mundo e no outro lhe
pague as suas palavras de homem de letras... Adeus! Eu me vou para as
terras de S. Paulo ... talvez me junte á gente da minha especie.
Adeus...
E, a custo montando a cavallo, voltou-se para as pessoas que tinham de
longe vindo assistir á consulta.