É que as difficuldades e collisões da vida, quando se aggravam, tão

fundo nos incutem a necessidade do apoio, das sympathias e dos conselhos

de outrem, que qualquer alliado nos serve, embora de muito mais proveito

fora bem pensada reserva e menos confiança em auxiliares de occasião.

[Nota 82: Pilulas.]

CAPITULO XIV

REALIDADE

Cordelia--Hade o tempo desvendar

o que hoje esconde a discreta hypocrisia.

SHAKESPEARE.--_O Rei Lear_, Acto I.

Depois que Cyrino viu sumir-se Pereira com os dois companheiros além do

laranjal da casa, seguindo em direcção á roça por uma vereda

pedregosa e cheia de seixos rolados, nos quaes iam as patas dos animaes

batendo; depois que teve certeza de que ficara só n'aquella vivenda,

entrou em grande agitação.

Ora, passeava pelo quarto rapida e inquietantemente; ora, media-o com

passo lento em muitas direcções; ora emfim, sahia para o terreiro e

alli, com a cabeça descoberta, ficava a olhar attentamente para

diversos lados, abrigando com a mão aberta os olhos, dos vivissimos

raios do sol.

Promettia o dia ser muito calido. Por toda a parte chiavam as estridulas

cigarras, e ao longe se ouvia o metallico cacarejar das seriemas nos

campos.

Ás vezes, encarava Cyrino o sol; depois tapava os olhos deslumbrados e,

tomado de vertigem, voltava para a sala, onde recomeçava os seus

passeios.

Porque, porem não descansava o mancebo?

Entrando familiarmente pela sala dentro, os bacorinhos se haviam

abrigado dos ardores do dia e, deitados debaixo de uns giraus,

resonavam, presa de gostoso somno.

Tudo quando vivia appetecia a sombra e o repouso. Fóra, o sol

reverberava violento em seus fulgores, e as sombras das arvores iam cada

vez mais diminuindo. Até uma egua com o esguio e peludo poldrinho

deixara o distante pasto e viera abrigar-se, à protecção da casa,

junto á qual parara já meio a cochilar.

Á enervadora acção do calor estival, juntavam sua influencia as

monotonas modulações de umas chulas e modinhas, cantadas ao som da

viola de tres cordas pelos camaradas de Cyrino, accommodados no rancho

junto ao paiol de milho.

A tudo entretanto resistia o joven, e com ascendente desassocego

consultava o seu relogio de prata, tirando-o a cada instante do bolso.

Passaram-se segundos, minutos e horas. Afinal soltou elle um suspiro de

allivio:

--Meio dia!... Cuidei que nunca havia de chegar!...

Sahindo todo animado para o terreiro, chamou com voz forte:

--Maria... Ó Maria Conga!...

Ninguem lhe respondeu. Só do lado da cozinha ladraram uns cães.

Depois de esperar algum tempo, rodeou Cyrino toda a casa, como fizera

com Pereira e, encostando-se á cerca que impedia a approximação do

lanço dos fundos, tornou a chamar:

--Ó Maria?!... Maria!... Está dormindo, minha velha?

Vendo que os gritos ficavam sem resposta, saltou então o cercado e foi

caminhando para a porta da cozinha, de vagar porem, e como que a medo.

--Ó Maria?!... Minha tia!... Olá! Ó de casa! chamava elle.

Afinal appareceu não a velha escrava mas o anão Tico que pareceu, com

imperioso movimento de cabeça, indagar a causa daquelle intempestivo

alarma.

--Que é da Maria Conga? perguntou Cyrino chegando-se a elle.

Por meio de moderada gesticulação, mas muito expressivamente, deu Tico

a entender que a preta fora ao corrego lavar roupa.

--E não ha mais ninguem em casa? inquiriu o outro.

Mostrou o anão, com singular expressão de orgulho e despeito, que alli

estava elle e deitou um olhar de colera para o imprudente curioso.

--Bem, replicou Cyrino sorrindo-se, vá você então dizer á sinhá

dona, que já chegou a hora de tomar o remedio. Trago o vinho, e é

preciso quanto antes preparar café.

Desappareceu Tico, fazendo um aceno ao intitulado medico para que

esperasse fóra.

--Ora, exclamou este com aborrecimento e tom de chacota, aqui ao

sol?... Não está má esta!... E que tal o mestre _nanica_?...

Sem mais cerimonia entrou, pois, na casa, penetrando no quarto que

ficava entre a cozinha, theatro da actividade de Maria Conga e a sala de

jantar, onde se dera a apresentação de Meyer a Innocencia.

Dahi a pouco, ouviu passos arrastados e aos seus olhos mostrou-se

Innocencia embrulhada em uma grande manta de algodão de Minas de

variegadas côres e com os longos e formosos cabellos cahidos e puxados

todos para traz. Os grandes e avelludados olhos orlados de fundas

olheiras, e o quebrantamento do semblante, muita fraqueza denunciavam

ainda; entretanto, as setinosas faces como que se apressavam a tomar

côres, a semelhança de rosas impacientes de desabrochar e expandir-se

vivazes e alegres. Ao chegar à porta, não a transpoz; mas

encostando-se á grossa trave que fazia de umbral, alli ficou parada,

indecisa, com o olhar turbado e esquivo.

Ao vel-a, deu Cyrino com timidez alguns passos ao seu encontro; depois,

por seu turno estacou junto a uma cadeira de comprido espaldar, antigo e

solido traste trazido por Pereira da sua casa de Piumhy.

Após longa pausa, em que por vezes se cruzaram incertos os olhares,

perguntou com esforço:

--Então ... minha senhora ... como está?... Sente-se melhor?

--Melhor, obrigada, respondeu Innocencia com voz aflautada e muito

tremula.

--Comeu já alguma coisa?

--Nhôr-sim ... uma aza de frango, mas com ... bastante vontade.

--Sente o corpo abatido?

--A canseira está passando ... hontem muito mais...

A pouco e pouco, fora Cyrino recuperando o sangue frio e se approximando

da moça, que mais se apegou á umbreira, como que a procurar abrigo e

protecção.

De um lado da porta ficou ella; do outro Cyrino, ambos tão enleiados e

cheios de sobresalto que davam razão ás olhadas de espanto com que os

encarava Tico, empertigado bem defronte dos dois em suas encurvadas

perninhas.

--Pois chegou a hora de tomar o remedio...

--Já seu doutor implorou Innocencia.

--Nhã-sim.

--Eu não tenho mais nada...

--É para cortar de uma vez as sezões... Olhe, se ellas voltassem ...

era um grande desgosto para mim...

--Mas é tão mau, objectou ella.

--Não é bom _deveras_ ... mas _bem melhor_ é voltar à saude... Com

um bocadinho de coragem, a gente engole tudo sem muito custo... Já que

lhe amarga tanto ... beberei tambem um pouco...

--Oh! não! protestou Innocencia.

--É para lhe mostrar ... que quero sentir ... o que mecê sente.

Fez-se a menina da cor da pitanga, levantou uns olhos surpresos e voltou

logo o rosto para fugir dos olhares ardentes de Cyrino.

--A mézinha? pediu ella por fim toda commovida.

--Ah! é verdade! exclamou Cyrino. Ande, Tico: vá buscar café á

cozinha. Lave bem um pires ... percebeu?

O anão fitou o moço com altivez e não se mexeu.

--Você é surdo?

--Não, respondeu Innocencia. Tico ás vezes, por manha é que se faz

_ansim_ de mouco.

Voltando-se então para o homunculo, insistiu com voz meiga e carinhosa:

--Vai Tico; é para mim, ouviu?

Transformou-se repentinamente a physionomia do anão. Pairou-lhe nos

labios ineffavel sorriso, meneou a cabeça duas ou tres vezes com a

força de uma affirmação mas, colerico, enrugou a testa e moveu olhos

inquietos e duvidosos.

Innocencia teve que repetir o recado.

--Já lhe disse, Tico: vai buscar o café.

A esta quasi ordem não ousou elle resistir mas sahiu devagarsinho,

voltando-se várias vezes antes de entrar na cozinha, onde muito pouco

se demorou.

Neste entrementes tomara Cyrino o pulso de Innocencia e, sem pensar no

que fazia, quebrando a debil resistencia da menina, cobrira-lhe de

beijos o braço e a mãosinha que havia segurado.

--Meu Deus! balbuciou ella, que é isto?... Olhe ahi vem o Tico.

Recuou então o mancebo e, para melhor disfarçar a commoção

adeantou-se para o anão que vinha trazendo na mão direita uma vasilha

de folha de Flandres, e na outra um pires com colher.

--Muito bem, disse elle, ponha tudo em cima da mesa.

E preparando rapidamente o medicamento, apresentou-o a Innocencia, que

sem hesitação o sorveu todo.

--Deixe-me um pouco, exorou com ternura Cyrino, um pouco só ... Se é

tão mau ... soffra eu tambem.

--Não, respondeu ella com alguma energia, porque _havéra_ de mecê

soffrer?

E, ou por effeito do inexprimivel e desconhecido abalo que experimentara

no estado de debilidade a que chegara, ou por ser aquella a hora em que

costumava a febre salteal-a, o certo é que teve de encostar-se ou

melhor, agarrar-se ao umbral para não cahir a fio comprido no chão.

--Oh! exclamou com angustia Cyrino, a senhora vae desmaiar.

Transpondo então o limiar da porta, tomou nos braços a pallida

donzella, sem reluctancia encostou a desfallecida cabeça ao seu hombro

e, com o hálito offegante, aos poucos lhe foi fazendo voltar ás faces

o precioso sangue.

--Estou melhor, balbuciou ella procurando afastar a cabeça de Cyrino.

--Não faça de forte á toa, acudiu este. Vamos até aquella cadeira.

E, com toda a lentidão e cuidado, foi levando a convalescente até

sental-a, desembaraçando-a depois dos muitos cabellos que, todos

revoltos, lhe haviam invadido o collo e se esparziam sobre o rosto.

--Quanto cabello! exclamou Cyrino meio risonho.

Com muita attenção seguira Tico as peripecias de toda aquella scena.

Ao ver Innocencia perder quasi os sentidos, soltou um grito surdo de

desespero; depois, foi seguindo-a até a cadeira e, ajoelhado deante

della, contemplou-a com inquietação.

Cyrino quiz aproveitar a occasião para um congraçamento.

--Então está com cuidado, Sr. Tico?... Não é nada ... sua ama fica

boa logo... Não é o que você quer?

Ao ouvir esta interpellação, levantou-se o anão e correspondeu ao

sympathico annuncio do moço com um olhar de desprezo e pouco caso, como

que a dizer:

--Não se metta commigo, que não quero graças com você, medico de

arribação!

--Agora, disse Cyrino voltando-se para Innocencia, vae mecê beber dois

goles deste vinho... Verá logo, que _sustancia_ hade sentir dentro do

corpo.

Desarrolhou, então, com a ponta da comprida faca que tirou do cinto, a

garrafa de vinho offerecida por Meyer, e num caneco de louça branca

apresentou á moça um pouco do roborante liquido.

Molhou a doentinha os labios e gratificou o obsequioso mancebo com um

sorriso encantador.

Decididamente lhe agradava aquelle medico: curava do seu corpo enfermo e

entendia-lhe com a alma. Raros homens que não seu pae e Manecão, além

de pretos velhos, tinha até então visto; mas a ella, tão ignorante

das cousas e do mundo, parecia-lhe que ente algum nem de longe poderia

ser comparado em elegancia e belleza a esse que lhe ficava agora em

frente. Depois, que cadeia mysteriosa de sympathia a ia prendendo

aquelle estranho, simples viajante que via hoje, para sem duvida, nunca

mais tornar a vel-o?

Quem sabe, se a meiguice e bondade que lhe dispensava Cyrino não eram a

causa unica, desse sentimento novo, desconhecido, que de chofre nascia

em seu peito, como depois da chuva brota a florsinha do campo?

A muito obriga a gratidão.

Rapidos correram esses pensamentos pela mente de Innocencia, ao passo

que as suas pupillas se iam erguendo até se fixarem em Cyrino,

limpidas, grandes, abertas, como que dando entrada para elle ler claro o

que se lhe passava na alma.

--Sinto-me tão bem disse ella com metal de voz muito suave, tão leve

de corpo, que parece nunca mais hei-de ficar _mofina_.

--Não, não, de certo! exclamou Cyrino, nunca mais. Alem disso, aqui

estou e...

Com a sua chegada, interrompeu Maria Conga, a velha negra, aquelle

começo de dialogo. Vinha da fonte com volumosa trouxa de roupa que

entrou a estender em compridos bambús, assentes horizontalmente sobre

forquilhas fincadas no chão.

Despedindo-se então Cyrino de Innocencia:

--Agora, lhe disse elle risonho e pegando-lhe na mão, socegue um pouco:

depois tome um caldo e ... queira-me bem.

--Gentes! Porque lhe não _havéra_ de querer? perguntou ella com

ingenuidade. Mecê nunca me fez mal...

--Eu, retrucou Cyrino com fogo, fazer-lhe mal? Antes morrer... Sim ...

dona ... da minha alma, eu...

E, sem concluir, disse repentinamente:

--Adeus!

Depois, com passo lento, foi se retirando e passou deante da janella

junto á qual ficara Innocencia sentada.

--Olhe! recommendou elle recostando-se ao peitoril, cuidado com o

sereno...

--Nhor-sim...

--Não beba leite...

--Mecê já disse.

--Coma só carne de sol...

--Já sei...

--Então, adeus ... adeus, menina bonita!

E, a custo, despegou-se daquelle lugar, onde quizera ficar, até que de

velhice lhe fraqueassem as pernas.

CAPITULO XV

HISTORIAS DE MEYER

Grande felicidade é ter um filho

prudente e instruido; mas, quanto a

filhas, é para todo pae carga bem

pesada.

MENANDRO.--_Os Primos._

Com a tarde voltaram Meyer, José Pinho e Pereira e, pouco depois

d'elles, tres avelhentados escravos; estes dos trabalhos agricolas,

aquelles de grandes excursões entomologicas.

Vinha o mineiro meio risonho e em altos gritos acordou Cyrino que

deitando-se a dormir, sonhara todo o tempo com a graciosa doente.

--Olá, amigo! olá, doutor! chamou Pereira com voz retumbante, isso é

que é vida, hen? Emquanto nós trabalhamos, eu e o _Mochú_ do José,

você está nessa cama de velludo!...

--É verdade, concordou o moço, apenas os Srs. se foram, estendi as

pernas e até agora enfiei um somno só...

--E o remedio da menina? perguntou Pereira abaixando a voz.

--Ora, Sr., e eu que me esqueci!... Não faz mal... se ella não teve

febre... Ah! espere ... agora me lembro!... Eu lh'o dei ... estou ainda

tonto de somno.

Riu-se Pereira.

--Estes doutores matam a gente, como se fosse cachorro sem dono.... Num

momento lhes passa da cachola se deram ou não mézinhas e venenos a

christãos...

Vendo que Meyer sahira da sala, mudou repentinamente de tom, proseguindo

em voz baixa e muito rapidamente:

--Então, sabe que o tal _allamão_ levou todo o dia, só querendo puxar

conversa sobre a menina?

--Devéras?

--É o que lhe digo... E ... eu com as mãos atadas por aquelle

offerecimento de leval-o a comer lá dentro!... Nada, nem que desconfie

e se arrenegue dos meus modos ... não me pisa em quarto de familia...

Deus te livre!...

Com effeito á hora da ceia, Meyer manifestou surpresa de comer na mesma

sala; não, que tivesse motivo para desejar outro qualquer local; mas,

methodico como era, gravara na mente a promessa de Pereira e, por

delicadeza, suppunha dever lembrar-lhe.

As desculpas que o mineiro apresentou foram arranjadas de momento e

ajudadas victoriosamente por Cyrino, carregando este com a

responsabilidade de haver recommendado á enferma muito socego, quasi

completa solidão.

De modo muito expansivo se manifestou tambem o reconhecimento de

Pereira.

--Estou conhecendo, disse elle em aparte e apertando a mão de Cyrino,

que o doutor é homem serio e com quem se póde contar... Deixe estar ... o

Manecão hade ser amigo seu... Isso hade sel-o... Pessoas de bem

devem conhecer-se e estimar-se... Ora, veja o tal _cujo_ ... que

temivel, hen?...--Não faz mal, hade ter o pago.

Se Pereira se mostrava contrariado e inquieto, muito pelo contrario

parecia o naturalista nadar em mar de rosas.

--Sr. doutor, declarou elle a Cyrino á mesa da ceia, por muitos

motivos, estou em extremo contente com a minha estada aqui... Hoje achei

mais bichinhos curiosos do que em todas as zonas porque tenho andado.

--Vosmecê nem imagina, interrompeu Pereira dirigindo-se para Cyrino, o

que faz este senhor quando está dentro do matto. Ainda hade quebrar o

pescoço n'algum barranco a que se atire, pois caminha com as ventas

para o ar... Não sei como não tem ambos os olhos furados ... não

repara em galhos nem em nada ... só o que quer é agarrar _anicetos_...

Já o avisei umas poucas de vezes; agora, sua alma, sua palma...

Judiciosas eram as advertencias do mineiro e bem cabidas; tanto assim

que numa das tardes seguintes voltou Meyer todo arranhado e com um

gilvaz tão grande, que immediatamente deu nas vistas de Cyrino.

--Que foi isso, Sr. Meyer? perguntou elle com admiração. O Sr. andou

por ahi fora aos trambolhões com alguma onça?

--Oh! não é nada, respondeu fleugmaticamente o allemão.

--E a sua roupa vem suja de barro ... toda rota...

Desatou Pereira a rir.

--Isto são historias deste homem... Bem lhe dizia eu que mais dias

menos dias isso havia de acontecer. Meu amigo não sabe do dictado:...

Fia-te na Virgem e não corras, verás o tombo que levas!... Tambem foi

um dia em que me ri a mais não poder. Tomei um fartão... Imagine

vosmecê que o tal Sr. Meyer, como ja lhe contei, anda pulando dentro da

matta como se fosse veado mateiro... O José Pinho, que é mitrado, vae

sempre pela estrada limpa...

--Preguiçoso, atalhou Meyer a modo de observação.

--Juizo tem elle, proseguiu o mineiro: mas, como ia dizendo cá, o Sr.

com seus arrancos e saltos parece anta disparada. Em apparecendo

bichinho voador, zás trás que darás, lá vae elle logo sem olhar para

os paus, podendo pisar em cobras e espinhos, com aquella rede na mão, e

tanto faz que engalfinha sempre algum animalejo... Hoje fui para a

roça, e o homem furou o matto, emquanto José buscou uma sombrinha e

entrou logo a roncar como um perdido...

--Eu, não Sr., protestou José Pinho que queria ouvir a historia.

--_Vóce_ sim, corroborou Meyer com severidade, preguiçoso!... Ande ...

dê cá a pita.

--Pois bem, continuou Pereira, dahi a duas horas voltou _Mochú_ neste

estado pouco mais ou menos; mas trazia uma caixa cheia de bichos do

matto...

--Oh! perguntou Cyrino, e são bonitos?

--Não ha mais nada, suspirou Meyer com tom dolente, o trabalho ficou

perdido!... Eu tinha apanhado cinco especies novas... Uma queda...

--Deixe-me contar o caso, atalhou Pereira. Oh! eu ri-me ... ri-me...

E, para confirmar a asserção, pôz-se novamente a dar gargalhadas, que

foram acompanhadas por José Pinho e até por Meyer, da parte deste com

menos expansão comtudo.

--Appareceu-me o _Mochú_ muito contente com a sua caixa, como se

tivesse o rei na barriga. Era uma _immundicie_ de besouros, cascudos e

cigarras, que o Sr. nem póde imaginar... Havia de tudo; depois, quando

voltamos da roça, enxergou elle num pau podre um _aniceto_ vermelho e

foi correndo a apanhal-o. Eu bradei-lhe:--Olhe, que ahi tem barranco: a

arvore é podre e oca, e vosmecê rola pelo despenhadeiro, que nem a sua

alma se salva.--Qual! O homem é teimoso, como um cargueiro empacador...

Eu gritava-lhe:--Tome tento, _Mochú_!--Sem attender a nada, começou a

caminhar em cima da _cipoada_ que cobria a boca de um _percipicio_,

fundo como tudo neste mundo... Quando ia botar a mão no tal bicho

encarnado, encostou-se ao pau e ... zás! ... afundou-se, dando um grito

esganiçado que parecia de cotia. Mal teve tempo de agarrar-se aos

cipós e lá ficou entre a vida e a morte, chamando _Júque_,

_Júque_!... Eu quando vi isso, mandei a toda a pressa buscar á roça

uma vara comprida e, se ella não chega logo, o Sr. Meyer e toda a sua

bicharada rolavam de uma vez por aquelles fundões.

--Não, rectificou o allemão, bicho rolou; caixa abriu e tudo lá se

foi no fundão...

--Pois bem, o _Mochú_ segurou-se com unhas e dentes ao páo e nós

puxámos devagarinho, devagarinho, com um medo, um medo!... Maria

Santissima!...

Fazendo breve pausa:

--O mais engraçado ainda não chegou, avisou o mineiro: Ah! vosmecê

vae tomar uma boa _data_[83] de riso. Quando o _Mochú_ ganhou pé em

terra, pôz-se a pular como um cabrito doido, por aqui, por acolá, pulo

e mais pulo, e gritando como se o estivessem esfolando... Estava ... ah!

meus Deus! ... estava cheio de formigas _novatas_![84]

--Sim, exclamou Meyer com desespero, formiga de pau podre! ... _mein

Gott_... Eu rasgo a roupa ... eu pulo ... eu gemo ... fico nú como

quando minha mãe me botou no mundo!... Horrivel... Formiga do diabo!...

Faz calombo em todo o meu corpo... Muita dor!...

Com reiteradas e estrondosas gargalhadas acolheram Pereira, Cyrino e

José Pinho essas energicas imprecações.

--Poderá isso, observou o mineiro, cural-o da mania de não ouvir os

outros que conhecem as coisas.

E voltando-se para Cyrino:

--Verdade é que o corpo delle... Que corpo. Sr. doutor, tão

_arco_! ... ficou todo empolado que foi preciso esfregal-o com folhas

de fumo. Depois, tomou um banho no ribeirão...

--Tudo estava muito bom, observou Meyer, se caixa não abre e atira no

buraco meu trabalho...

--Ora, ficará para amanhã, consolou philosophicamente o camarada.

Pereira, acalmado o frouxo de riso, approximara-se de Cyrino e lhe

falava a meia voz:

--Ah! doutor, tive uma vontade de deixar este _allamão_ sumir-se no

socavão!...

Se não fosse meu hospede, emfim, e recommendado de meu mano, palavra de

honra pinchava-o de uma vez no inferno...

Não sou nenhum _pinoia_[85]...

--Mas porque? indagou Cyrino simulando admiração...

--O Sr. ainda me pergunta?... Porque o homem não me faz senão falar em

_Nocencia_... Outra vez me disse que ella era muito bonita e mil

cousas ... perguntou se estava casada, se não; que era preciso casar as

mulheres para bem dellas... Eu lá sei o que mais?... Isto é um bruto

perdido ... um namorador!...

--Qual, Sr. Pereira!...

--É o que lhe digo!... Por acaso sou cobra de duas cabeças[86] que

não veja?!... Ah! que peso uma filha! Ah! E então uma menina que já

está apalavrada... Isto é uma anarchia[87]! Que diria meu genro, o

Manecão?...

--Não poderá dizer nada, retrucou o moço. E que diga, não faltará

quem queira sua filha...

--Louvado Deus, não de certo! Eu é que não quero que ella ande de

mão em mão... Ou casa com o Dóca ou...

--Ou ... o que? perguntou Cyrino com inquietação mas fingindo pouca

curiosidade.

--Ou mato a quem lhe vier transtornar a cabeça... Commigo ninguem hade

tirar farofa!... E não hei de ter mil cuidados, quando vejo este

_estranja_ estar com suas macaquices a dar no fraco das mulheres?

Por ora, nada fez elle...

Por ora ... só leva a falar na pobre menina, que a Sra. Sant'Anna

guarde de todo o mal!... Podesse eu advinhar e macacos me mordam, se

punha os olhos em cima de _Nocencia_. Nem que viesse com cartas e ordens

do Sr D. Pedro II....

Chamei o José Pinho, proseguiu elle em voz baixa, e dei-lhe uns

toques.--Então, disse-lhe eu, seu amo é o diabo com mulheres hen? Elle

que é muito _ladino_[88] respondeu-me logo.--Nhôr não.--Assumptei a

_embromação_[89],--Qual, você, carioca, tem levado areia nos

olhos.--Eu? ... não é capaz... Então você não tem visto o que faz

seu amo?--Tem sido um santo, retrucou o espertalhão. No Rio, sim--Na

Côrte?--Nhôr-sim, na Côrte. Ia todas as noites a uma casa de bebidas,

assim uma especie de venda de muito luxo e lá estava horas perdidas

petiscando e conversando com senhoras damas, muito bonitas, bem

_limpas_ ... algumas com o pescoço e os braços todos á mostra...

--Contou-lhe isso? atalhou Cyrino com alguma duvida e sobresalto.

--Contou, affirmou Pereira com furor.

Vejam só que homem, hen? É um mequetrefe!... Esta noite e d'ora em

deante, venho dormir nesta sala a ver se elle se mexe da cama. Ah! se eu

pudesse! ... cahia-lhe de _cala-bocca_[90] em cima, que lhe deixava as

costellas em lascas.

Acabavam as imprudentes historias de José Pinho de por a ultima pedra

ao edificio da desconfiança que tão depressa erigira a imaginação

de Pereira em desconceito de Meyer. O que nellas havia de verdade, eram

apenas algumas horas de lazer, consagradas, durante a estada no Rio de

Janeiro, pelo naturalista ao consumo de grandes copazios de cerveja no

café _Stadt Coblenz_, e nas quaes entretivera risonhos, bem que

innocentes colloquios, com pessoas do sexo amavel, frequentadoras

daquelle estabelecimento e de costumes não lá muito rigorosos.

[Nota 83: Porção, quantidade.]

[Nota 84: A dentada dessas formigas é em extremo dolorosa. Provêm

o seu nome, de que novatos são os que se deixam morder por ellas.]

[Nota 85: Homen fraco.]

[Nota 86: É crença popular que umas cobrinhas que vivem dentro

de terra fofa tem duas cabeças e não tem olhos.]

[Nota 87: Desmoralisação.]

[Nota 88: Qualificativo muito usado em todo o interior do Brasil.]

[Nota 89: A mentira, o engano.]

[Nota 90: Em Minas assim chamam um cacete curto e grosso.]

CAPITULO XVI

O EMPALAMADO

Ao homem não faltam importunações;

quanto à vossa capacidade,

nem a conhecemos.

MOLIÈRE.--_O medico á força._

Conforme o promettido, trouxe Pereira a rede para a sala dos hospedes e,

encetando um modo de vigilancia muito especial, ainda que perfeitamente

inutil em relação á pessoa suspeitada, associou os sonoros roncos do

valente peito á ruidosa respiração de Meyer.

Se, comtudo não tivessem seus olhos a venda da confiança ou, melhor,

se o somno não os acommettesse sempre com tamanha imposição, de certo

em breve houvera estranhado a cruel agitação em que vivia Cyrino e que

este não podia mais encobrir.

Innocencia · 第 6 / 13 段