como se fosse casa de presepe, e o senhor não poderá dar _vasão_ aos
que o vierem procurar. Olhe, hoje mesmo mandei avisar o Coelho, e daqui
a pouco está elle cá, rente como pão quente. Atraz do primeiro, virá
uma chusma dos meus peccados... Então quer deixar _Nocencia_ como ainda
está?...
--Verdade é, balbuciou Cyrino.
--Pois então? Nem pensar nisso é bom. Deixe tudo por minha conta;
vosmecê hade aqui arranjar os seus negocios.
--Já que o senhor o diz... Eu tinha receio de vexal-o. Uma vez que até
cá venham doentes...
--Hão de vir, esteja socegado...
--Ficarei, decidiu Cyrino, quanto tempo for do seu agrado.
--Ora, muito que bem, exclamou Pereira esfregando as mãos com sincera
satisfacção, estou como quero. Quanto ao Sr. _Maia_ ... Meyer, quero
dizer, este ha-de crear raizes nesta casa...
--Isso tambem não: tenho tempo marcado pelo meu governo...
--Bem, bem; mas em todo o caso, fará uma boa temporada comnosco. É
pena que o Manecão não chegue, porque apressavamos o casorio, e
arranjavamos uma festança como nunca se viu nestes matarrões... Mas
estou aqui a dar com a lingua nos dentes, sem pensar que os nossos
estomagos ainda esperam sua _matula_[71]. O almoço não pode tardar; é
um pulo só... Se consentem vou ver lá dentro.
Ao dizer estas palavras saiu da sala voltando pouco depois acompanhado
de Maria, a velha escrava que trazia a toalha da mesa e a competente
cuia de farinha.
--Á mesa! gritou Pereira. Almoço hoje com vosmecês. Sr. Meyer o
senhor comerá d'ora em deante commigo e com a menina, lá no interior
da casa; ouviu?
E, voltou-se para Cyrino.
--Bem sabe, explicou logo, é como se fosse o Chiquinho.
Depois de prompta a mesa, sentaram-se os tres alegremente.
--Olhe, Sr. Meyer, disse o mineiro servindo o allemão, isto é
feijão-cavallo e do melhor. Misture-o com arroz e hervas; deite-lhe uns
salpicos de farinha...
Começou o naturalista a mastigar com a lentidão de um animal
ruminante, interrompendo de vez em quando o moroso exercicio para
exclamar:
[Ilustração: Delicioso com effeito! Muito delicioso.]
--Delicioso, com effeito! Muito delicioso.
Comia Cyrino pouco e em silencio.
--Na Allemanha, observou Meyer contemplando um grão de feijão, a maior
fava não chega a este tamanho. Aqui a fava de lá teria pollegada e
meia pelo menos. Um almoço, assim, havia de custar na Saxonia dois
thalers, ou pelo cambio que deixei no Rio de Janeiro, dois mil e
quinhentos réis...
Interrompeu-o Pereira com gesto comico.
--Dois mil e quinhentos? Ora, que terra essa! Como é que se chama?
--Sac-sonia, respondeu o allemão com gravidade.
--Saco-sonha! exclamou Pereira. Não conheço... Mas, então, lá muita
gente ha-de andar a morrer de fome...
--Pelos ultimos calculos, replicou Meyer com várias pausas durante as
quaes introduzia enormes colheradas da mistura que lhe aconselhara o
amphytrião, é sabido que em Londres morrem no inverno oito pessoas á
mingua, em Berlim cinco, em Vienna quatro, em Pekim doze, em Ieddo sete,
em...
--Salta! atalhou Pereira exultando de prazer, então viva cá o nosso
Brazil! Nelle ninguem se lembra até de ter fome. Quando nada se tenha
que comer, vae-se ao matto, e fura-se mel de jatahy e mandory ou
chupa-se miolo de macaúbeira. Isto é cá por estas bandas; porque nas
cidades, basta estender a mão, logo chovem esmolas... Assim é que
entendo uma terra ... o mais é desgraça e consumição...
--De certo! corroborou o allemão, o Brazil é um paiz muito fertil e
muito rico. Dá café para meio mundo beber e ainda o ha-de dar para
todo o globo, quando tiver mais gente ... mais população...
--Bem eu sempre digo, acudiu Pereira tocando no hombro de Cyrino e
deitando-lhe uns olhos de triumpho. Lá fóra é que nos conhecem, nos
fazem justiça. Não acha patricio? Homem, agora reparo ... vosmecê
está tão calado! ... meio casmurro, que é isso? sempre aquelle
negocio?
De facto, Cyrino, depois que ouvira o convite a Meyer para conviver no
interior da casa de Pereira, tornara-se sombrio, inquieto, meditabundo.
O corpo ali estava, mas a sua imaginação vigiava zelosa o quartinho
onde repousava aquella menina febricitante, tão bella na sua fraqueza e
pallidez enferma.
--Se são mulheres, ponderou Pereira, deixe-se disso: não ha maior
asneira... É fazenda que não falta.
No meio dos exercicios mandibulares, julgou Meyer que o seu hospedeiro
considerava o sexo feminino do ponto de vista meramente estatistico e
acreditou conveniente assentar melhor a idéa, um tanto vagamente
aventada.
--Na raça slava, disse dogmaticamente, a proporção é de duas
mulheres para um homem; na germanica, ha approximadamente numero
equivalente, na latina de dois homens para uma mulher. Na França, a
proporção para o lado masculino é de...
--Mas o senhor contou? interrompeu Pereira. Deixe-lhe dizer uma cousa:
eu cá não engulo araras...
--_Ni_ eu, affirmou Meyer com alguma surpreza e energia, nem sei como o
senhor me vem falar nessas aves agora... Se as considera como caça.
deve saber que os trepadores têm a carne dura, preta e...
Riu-se Pereira do equivoco e, explicando-o continuou a discutir com o
seu interlocutor, que não discrepava uma linha dos seus principios de
methodo e escrupulosa polidez.
--Póde o senhor falar um anno inteiro, disse o mineiro para concluir;
mas quanto a mim, não entendo patavina das suas contas e _gigajogas_.
Quem me tira da taboada, bota-me no matto... E agora, vamos agradecer a
Deus Nosso Senhor Jesus Christo o ter-nos dado esta comida, ainda que
insufficiente e mal temperada.
E, unindo o exemplo á palavra, levantou-se e, de mãos postas ao peito,
orou em voz baixa com uncção, no que foi imitado pelos dois hospedes.
--Esteja comvosco o Senhor, disse ao terminar em voz alta,
persignando-se.
--Amen, responderam Cyrino e Meyer.
--Agora, annunciou o mineiro sahindo da mesa vou dar um giro pela minha
roça, onde estão na capina tres negros _cangueiros_[72] um dos quaes
é o meu _fazendeiro_[73]: depois, hei-de visitar uns conhecidos meus,
avisando os da sua chegada, doutor. Ah! acrescentou todo desfeito em
amavel sorriso, falta-lhe mostrar minha filha, Sr. Meyer.
--Sua filha! exclamou o allemão. Então tem filhos?
--Sim, senhor. Não se lembra que o seu _vulto_[74] é o do mano
Chiquinho? Pois então? Que maior prova lhe posso dar de confiança e
amizade?... Não é verdade, Sr. Cyrino?
--Sem duvida, balbuciou a custo o mancebo.
--Minha filha chama-se _Nocencia_ e só hoje é que se levantou da
cama... Esteve doentinha ... Assim mesmo, não sei se as maleitas a
deixaram... O corpo é ás vezes _caroavel_[75] dessas malditas e...
--Isso está ao meu cuidado, atalhou Cyrino com alguma pressa. Ainda ao
meio dia hade tomar quina...
--Vosmecê faça o que for melhor... Quer vir Snr. Meyer?
--Pois não! pois não! respondeu amavelmente o allemão.
--É a unica pessoa da familia que tenho aqui alem de um _marmanjão_
que está agora na carreira[76]? por essas estradas, agenciando a
vida... Então, vamos! Venha tambem, continuou elle voltando-se para
Cyrino, um cirurgião é quasi de casa.
Sahiram, pois, os tres. Pereira na frente, seguiu o oitão da direita,
e, abrindo uma tranqueira do cercado dos fundos entrou pela cozinha,
onde a velha preta Conga estava lavando pratos e arrumando louça numa
prateleira.
[Nota 71: Matolotagem.]
[Nota 72: Sem prestimo.]
[Nota 73: Fazendeiro, no sertão de Matto-Grosso, é, não o
proprietario das terras, mas o capataz, o feitor.]
[Nota 74: Pessoa.]
[Nota 75: Acostumado, affeito.]
[Nota 76: Trabalho.]
CAPITULO XII
A APRESENTAÇÃO
Quem, porém, mostrava mais surpresa
e admiração, era Sancho Pança.
Nunca, em dias de sua vida, vira perfeição
egual.
CERVANTES.--_D. Quixote_, _CXXIX._
Ao balsamo, fazem as moscas que
nelle morrem, perder a suavidade do
perfume. Uma parvoice, ainda que pequena
e de pouca dura, dá motivo a
não se ter em conta nem sabedoria
nem gloria.
ECCLESIASTES.--X.
Depois de atravessarem um quarto bastante escuro, chegaram os visitantes
á sala de jantar, vasto aposento ladrilhado, mas sem forro, a um canto
do qual estava a filha do mineiro, mais deitada do que sentada numa
especie de canapé de tacuara.
Tinha os pés sobre uma bonita pelle de tamanduá-bandeira, onde se
acocorara, conforme o habito, o anão a quem Pereira chamara Tico.
Ao ver chegar tanta gente, abriu a formosa menina uns grandes olhos de
espanto; quiz toda enleada erguer-se, mas não poude e, corando
ligeiramente, teve como que um deliquio de fraqueza.
Approximara-se logo Cyrino com vivacidade.
--A dona, disse elle para Pereira, está tão fraca que mette dó.
Chegou-se o pae juntamente com Meyer e, tomando as mãos da filha,
perguntou-lhe com voz meiga e inquieta:
--Sente-se peior, meu bemsinho?
--Nhôr-não, respondeu ella.
--Pois então!... É preciso não entregar o corpo á molleza... Abra os
olhos... Olhe... está aqui este homem (e apontou para Meyer) que é
_allamão_ e trouxe uma carta do tio de mecê, o Chico, lá da Matta do
Rio. Quero mostrar que, para mim, vale tanto como se fosse esse proprio
parente tão a nós chegado. Por isso é que venho apresental-o...
Ella nada articulou.
--Vamos, diga... Tenho muito gosto em _lhe_ conhecer ... diga.
Com vagar e acanhamento, repetiu Innocencia estas palavras, ao passo que
Meyer lhe estendia a mão direita, larga como uma barbatana de cetaceo,
e franca como o seu coração.
--Gosto, muito gosto tenho eu, disse elle com tres ou quatro sonoros
arrancos de garganta. Só o que sinto é vel-a doente... Mas o doutor
não nos deixará ficar mal; não é Sr. Cyrino?...
E apoiou esta pergunta com um hen? que ecoou por toda a sala.
--A senhora, respondeu o interpellado, precisaria tomar por alguns dias
um pouco de bom vinho do Porto, em que se puzesse casca de quina do
campo... Mas, onde achar agora vinho? Só na villa de Sant'Anna...
--Vinho? perguntou Meyer.
--Sim.
--Vinho do Porto?
--Melhor ainda.
--Pois tudo se arranja, na minha canastra tenho uma garrafa do _mais
superfino_ e com a maior satisfacção a offereço á filha do meu _pom_
amigo o Sr. Pereira.
--Oh! Sr. Meyer, agradeceu este com effusão, não sabe quanto lhe
fico...
--Qual! não tem obrigação, não, senhor. Além do mais, sua filha é
muito bonita, muito bonita, e parece boa deveras... Ha-de ter umas cores
tão lindas, que eu daria tudo para vel-a com saude...
Que moça!... Muito bella!
Estas palavras que o innocente saxonio pronunciara _ex abundantia
cordis_ produziram extraordinario abalo nas pessoas que as ouviram.
Tornou-se Pereira pallido, franzindo os sobrolhos e olhando de esguelha
para quem tão imprudentemente elogiava assim, cara a cara, a belleza de
sua filha; Innocencia enrubeceu que nem uma romã; Cyrino sentiu um
movimento impetuoso, misturado de extranheza e desespero, e, lá da sua
pelle de tamanduá-bandeira, ergueu-se meio apavorado o anão.
Nem reparou Meyer e com a habitual ingenuidade proseguiu:
--Aqui, no sertão do Brazil, ha o mau costume de esconder as mulheres.
Viajante não sabe de todo se são bonitas, se feias, e nada pode contar
nos livros para o conhecimento dos que lêem. Mas, palavra de honra, Sr.
Pereira, se todas se parecem com esta sua filha, é cousa muito e muito
digna de ser vista e escripta! Eu...
--O senhor não quer retirar-se? interrompeu Pereira com modo aspero.
--Pois não! replicou o allemão.
E como despedida accrescentou, dirigindo-se para Innocencia:
--Chamo-me Guilherme Tembel Meyer, seu humilde criado, e estimo muito
conhecel-a por ser a senhora filha de um amigo meu e prender a gente com
o seu lindo rosto...
Estendeu então a mão, fez um movimento de cabeça, e acompanhou ao
mineiro que já ia sahindo branco de colera concentrada.
--E que me diz o Sr. deste homem? perguntou a Cyrino a meia voz e
puxando-o de parte.
--Reparei muito nos seus modos, respondeu-lhe o outro no mesmo tom.
--Nem sei como me contenha... Estou cego de raiva ... Que presente me
mandou o Chico!... É uma peste, este diabo _melado_[77]... Vê uma
rapariguinha e enche logo as bochechas para lhe dizer meia duzia de
pachuchadas e graçolas... Não está má esta!... É um perdido.
Nada... Isto não me cheira bem: vou ficar de olho nelle...
--Faz muito bem, apoiou Cyrino.
--Vejam só, continuou Pereira retendo o seu interlocutor para deixar
Meyer distanciar-se, em boas me fui eu metter!... Se não fosse a tal
carta do mano o cujo dansava ao som do cacete... Malcriadaço! Uma
mulher que daqui a dois dias está para receber marido... Deus nos livre
que o Manecão o ouvisse... Desancava-o logo, se não o cosesse a
facadas... Vejam só, hen?... Sempre é gente de outras terras... Cruz!
Tambem vi logo ... um latagão bonito ... todo faceiro ... _havéra_ por
força de ser _rufião_[78].
Ouvia-o Cyrino em silencio.
--E mulher, proseguiu o mineiro com raivosa volubilidade, é gente tão
levada da breca, que se lambe toda de gosto com ditinhos e requebros
desta sucia de _embromadores_. Com ellas, digo eu sempre, não ha que
fiar... Má hora me trouxe este allamão ... Mil raios o rachem!... E
logo o Chico... Tenho agora que ficar de alcateia ... metter-me em
_tocaia_[79] e fazer fojos para que a _bracayá_[80] não me entre no
gallinheiro. Ora que tal!
--Tambem, breve se vae elle embora, lembrou Cyrino a modo de consolo.
Que o demo o leve quanto antes, replicou Pereira. Já estou todo
_enfernizado_[81] com o tal homem...
Neste momento, como que de proposito, voltava-se Meyer para os dois:
--Sr. Pereira, disse elle ficarei em sua casa talvez umas duas semanas.
Os burrinhos vão engordar no seu pasto e eu hei-de fazer compridas
viagens nesta sua fazenda, apanhando tudo o que nella encontrar...
Ouviu?
Reprimiu o interpellado um gesto de viva contrariedade e, levado pelo
instincto e dever de hospitalidade, de prompto respondeu, embora
seccamente:
--Fique duas semanas, ou dois mezes ou dois annos. Já lh'o disse: a
casa é sua, e palavra de mineiro não volta atraz. Quem está aqui,
não é o senhor é meu irmão mais velho.
Agarrando então com força na mão de Cyrino, accrescentou em voz surda
e angustiada:
--Olhe, doutor; veja só isto! Que lhe dizia eu?... Ah! meu Meyer, quer
se engraçar commigo, não é? Mas cá fico ... e, uma vez avisado, nem
dois, nem tres me botam poeira nos olhos... Não é com essa! _Nocencia_
nasceu filha de pobre, mas, graças a Maria Santissima, tem ainda pae
com braço forte e muito sangue nas veias para defendel-a dos
garimpeiros e cruzadores de estrada... Elle que não brinque com o
Manecão; é homem de cabellinho na venta e se lhe bota a mão em cima,
esfarela-lhe os ossos, como se fôra veadinho do campo enroscado por
sucury...
Ia comtudo Meyer, de todo ponto alheio ao temporal provocado por suas
inconsideradas palavras; e, sem duvida, estimulado em suas
reminiscencias pela vista da menina que acabava de admirar, cantarolava
entre dentes uma velha valsa allemã, dansada talvez com alguma loura
patricia em epocas remotas e de menos rigorismo scientifico.
[Nota 77: Chamam-se melados os animaes cuja côr é quasi assa.]
[Nota 78: Namorador.]
[Nota 79: Fazer esperas.]
[Nota 80: Gato do matto.]
[Nota 81: Encolerisado, frenetico.]
CAPITULO XIII
DESCONFIANÇAS
Muitas vezes, somos illudidos pela
confiança: mas a desconfiança faz que
sejamos por nós mesmos enganados.
PRINCIPE DE LIGNE.
Quando o nosso saxonio entrou na sala em que estavam as suas cargas,
vinha tão contente do gasalhado recebido, da firmeza do tempo, das
futuras caçadas de borboletas, que despertou a attenção do seu
camarada José.
Estava este encostado a uma canastra, a esgaravatar, de faca comprida,
em punho a planta dos pés, verificando se alguma pedrinha da estrada
não se havia encrostado na grossa e já insensivel sola.
--Homem, disse elle com familiaridade, _Mochú_ está hoje muito
alegre.... Viu passarinho verde?
--_Passarrinho_ verde? perguntou Meyer. Que é isso? Não vi
_passarrinho_ nenhum... Vi uma moça muito bonita...
--Olé ... melhor ainda... Conte-me isso ... e quem é ella
--É a filha cá do Sr. Pereira.
--Parabens! parabens! exclamou José com toda a indiscrição. Moça
bonita é fructa rara por estas mattarias e brenhas do inferno... Quanto
a mim, ainda não botei o olho senão em velhas _corcorócas_ e
serpentões... Outra coisa é no Rio... Não se lembra, _Mochú_, da
procissão de S. Jorge?... Ahi é que sae á rua uma tafularia de deixar
a gente tonta de uma vez, de queixo cahido. Umas tão alvas!... Outras
cor de café com leite ... fazenda fina ... creoulas chibantes.
--_Júque_, reprehendeu o allemão revestindo-se de ar severo, não tome
confiança com gente que não é da sua classe...
--Mas eu não disse nada de mau, _Mochú_, desculpou-se o criado
recolhendo-se meio enfiado ao silencio e voltando ao exame dos pés.
Quem estava em cima de um brazeiro, era Pereira. Decididamente, aquelle
hospede o punha a perder, proclamando assim com a trombeta da fama que
vira Innocencia e com ella conversara, que a achava do seu gosto ... uma
rapariga já noiva! Quantas incongruencias, que perigos, ó Santos do
Paraiso!
Tornava-se caso de muita prudencia. Qualquer passo menos pensado
acarretaria consequencias irremediaveis.
Necessario é penetrar-se a força dos sentimentos que sobresaltavam o
mineiro, para bem aquilatar os transes por que passava a achar, natural
que seguisse uma linha de proceder toda de duvida e vacillações.
Se, de um lado, creava involuntaria admiração por Meyer e, rodeando-o,
em sua imaginação, do prestigio de uma belleza irresistivel, via
augmentar o seu receio em abrigar tão perigoso seductor; do outro,
sentia as mãos presas pelas obrigações imperiosas da hospitalidade, a
qual, com a recommendação expressa de seu irmão mais velho, assumia
caracter quasi sagrado. Juntem-se a isto os preconceitos sobre o recato
domestico, a responsabilidade de vedar o sanctuario da familia aos olhos
de todos, o amor extremoso á filha, em quem não depositava, comtudo,
como mulher que era, confiança alguma, as supposições logo ideadas
acerca da impressão que naturalmente aquelle estrangeiro produzira no
coração da sua Innocencia, já quasi pertencendo ella a outrem, e as
collisões que previu para manter inabalavel a sua palavra de honra,
palavra dada em dois sentidos agora antagonicos--um mundo emfim de
cogitações e de terrores. E tudo isto revolvendo-se na cabeça de
Pereira, refletia-se com sombrios traços de inquietação em seu rosto
habitualmente tão jovial.
--Por que razão é, perguntou elle a José Pinho para desviar aquella
conversa que tanto o magoava, que vosmecê chama _Mochú_ ao Sr. Meyer?
Sorriu-se o carioca com ar de superioridade e respondeu
desembaraçadamente:
--Ah! É um modo de falar....
--Como assim?...
--Ja lhe ponho tudo em pratos limpos... Vosmecê não lhe chama Sr.?
--Chamo.
--Pois, então?... Eu tambem lhe chamo assim ... mas falo em francez.
_Mochú_ quer dizer senhor, nessa lingua.
--Ah! replicou Pereira dando-se por convencido, então é isso? Pensei
que fosse outra coisa...
--_Júque_, avisou Meyer que estava a remexer nas canastras, prepare
tudo; nós vamos ao matto agora mesmo....
--Venha commigo, propôz o mineiro com voz insinuante. Eu lhe apontarei
lugares onde ha dessa bicharia miuda, coisa nunca vista.
--Com muito gosto concordou o allemão.
E voltando-se para o camarada:
--Ande, _Júque_, ordenou elle, bote a pita para fóra, caixas de folha
de Flandres, chloroformio, rede prompta... Depressa homem, depressa!
José Pinho, instigado por estas palavras, entrou a voltear de um lado
para o outro, como que atarantado com o excesso de serviço.
--Minhas lentes, pediu o naturalista, o sacco para os bichos de casca
grossa.... Depressa.... Vou ajudal-o.
E, por seu turno, começou a tirar das canastras os objectos de que
necessitava, enfiando a tiracollo dois ou tres talabartes finos que
sustentavam umas caixinhas encouradas. Numa dellas, havia um copo de
prata com a competente corrente; noutra, um faqueiro de peças
dobradiças e de metal do principe. Tambem assentou ao flanco uma
frasqueira defendida de choques externos por fino trançado de vime e
que continha aguardente, comprada de fresco na villa de Sant'Anna do
Paranahyba.
Não contente com o peso de todos esses appendices á sua pessoa, cingiu
largo talim com uma especie de patrona de folha de Flandres e que
sustentava um grande facão inglez, um revolver e uma espada de caça.
Depois de ter vagarosamente arranjado sobre si cada uma destas peças
com grande espanto de Pereira e até de Cyrino, substituiu Meyer os
oculos habituaes por outros, de vidros afumados, muito grandes e
convexos, destinados a proteger-lhe amplamente os olhos dos ardores do
sol. Muniu-se, além disso, de outro singular meio de preservação: uma
rodella ampla de panno branco forrado de verde, que augmentava as abas
do chapéu do Chile, descansando em parte sobre ellas.
Com esse trajo ficou de certo a mais estapafurdia figura que algum
christão encontrar poderia naquellas trezentas leguas em derredor;
entretanto, Pereira offendido com aquelles cuidados de prevenção
meramente scientifica, que lá no seu bestunto qualificava de faceirice
feminil:
--Veja só, disse elle para Cyrino, como este _maricas_ gosta de se
enfeitar!... Você não me engana, não, Sr. _alla mão_ das duzias....
Mirava-se nesse momento o naturalista, para verificar se lhe faltava
alguma coisa.
--Estou prompto, exclamou afinal, e muito desejoso de entrar no matto.
--Ponham-te a tinir os carrapatos, resmoneou Pereira.
--Ah! disse Meyer, e as minhas luvas?... _Júque_ procure na canastra
n.° 2, á esquerda, no segundo canto.
Sacou o camarada umas grandes luvas de lã brancas, muito largas, já
usadas e sujas, nas quaes o allemão enfiou de um jacto as mãos
espalmadas.
--Agora, sim? annunciou elle com satisfacção.
E, dando um sonoro e prolongado hum! empunhou a rede de apanhar
borboletas.
Depois, levando um dedo á testa:
--Ah! exclamou, e o vinho! Não me ia esquecendo?... O vinho para sua
filha Sr. Pereira, sua linda filha.
Encolheu o mineiro com furor os hombros e disse em aparte a Cyrino:
--Fez-se de esquecido só para falar na menina.... Veja bem. Este
_calunga_ não me bota areia nos olhos.
E accrescentou alto, recebendo a garrafa que o camarada José Pinho
tirara de uma das canastras:
--Agradeço o seu presente, Sr. Meyer mas se ... lhe faz a menor
falta ... a menina hade curar-se sem isto....
--Não, não, não, não, respondeu o saxonio com uma serie de negativas
que pareciam não dever ter fim.
--Neste mundo, rosnou Pereira mais para si do que para ser ouvido,
ninguem mette prego sem estopa: mas com sertanejos ... não se brinca.
Cyrino tomara a garrafa.
--Isto, affirmou elle, acaba com certeza a cura.
E, esquivando-se de pronunciar o nome e a qualidade da pessoa de quem
estava tratando:
--Ella, hade ter hoje algum appetite e poderá levantar-se um pouco,
pois já tomou o seu caldinho.
--Então, ao meio dia, recommendou Pereira muito baixinho a Cyrino,
vosmecê mande chamar a nossa doente e dê-lhe a mézinha. Ouviu? Já
avisei lá dentro...
Cyrino abanou a cabeça, tomando ar mysterioso.
--Eu por mim estarei de olho vivo no bichão... Parece-me _çuçuarana_
á espreita de veadinhas campeiras... Não terá este vinho algum
feitiço?
Contestou o outro com energia tal possibilidade.
--Eu sei lá, insistiu Pereira. Estes namoradores são capazes de muita
coisa.... Nunca ouviu contar historias de _pirlas_[82] e beberagens ...
hen? diga-me, nunca?
--Socegue, Sr. Pereira, acudiu Cyrino, hei-de examinar o liquido ...
tenho certeza de que não haverá novidade.
--Muito que bem... Então, ao meio dia em ponto ... chame a Maria Conga
ou o Tico. _Nocencia_ hade arrastar-se até cá ... e o doutor lhe dará
a dose...
--Ella sahir já? objectou Cyrino com admiração. Não senhor; em tal
não consinto... Irei dar-lhe o remedio... Não me custa nada...
Pereira ficara meio perplexo.
--Não sei...
E com subita resolução:
--Pois bem, virei da roça ate cá... Se eu não apparecer, então o
senhor dê um pulo e faça-lhe tomar a poção... Quanto a este
_allamão melado_, levo-o para longe e não o trago senão bem tarde e
tão moido do passeio que só ha-de pensar em dormir.
Com Pereira se dava um facto natural e comezinho nas singularidades do
mundo moral.
Á medida que as suspeitas sobre as intenções do innocente Meyer iam
tomando vulto exagerado, nascia illimitada confiança naquelle outro
homem que lhe era tambem desconhecido e que a principio lhe causara
tanta prevenção quanto o segundo.