--Então, perguntou o medico tomando o pulso á mimosa doente, como se

sente?

--Melhor respondeu ella.

--Suou bastante?

--Ensopei tres camisas.

--Muito bem... Agora a senhora está com a pelle fresquinha que mette

gosto. Isto de sezões, não é nada, se a gente acode a tempo e o

sangue não tem maus humores. Mas quando tomam conta do corpo, nem o

demo com ellas pode. Que é do café? pediu elle em seguida a Pereira.

--Já vem já... Homem vou eu mesmo buscal-o, lá á cosinha. A Maria

Conga está ficando uma verdadeira lesma. Venha para aqui e espere-me um

_nadinha_.

Levantando-se então da cadeira, indicou-a a Cyrino, a quem fez sentar

antes de sahir.

Ficou este, pois, ao lado da menina e, como sobre o lindo rosto batesse

de chapa a luz collocada numa prateleira da parede, pôz-se a

contemplal-a com enleio e vagar, ao passo que da sua parte o anão lhe

deitava olhares inquietos e algo sombrios.

Pousara Innocencia a cabeça no travesseiro e, para occultar a

perturbação de se ver tão de perto observada, fingia dormir. Pelo

menos tinha as grandes palpebras cerradas e o rosto sereno; mas

arfava-lhe apressado o peito e, de vez em quando, fugaz rubor lhe tingia

as faces descoradas.

Pereira tardava; e Cyrino com os olhos fixos, a physionomia meditativa e

um pouco de pallidez, que denunciava a intima commoção, não se

fartava de admirar a belleza da gentil doente.

Uma vez, entreabriu os olhos e a medo atirou um olhar que se cruzou com

o do mancebo, olhar rapido, instantaneo, mas que lhe repercutiu direito

ao coração e lhe fez estremecer o corpo todo.

Sem saber porque, batia-lhe o queixo, e um arrepio de frio lhe circulava

nas veias.

--Sente mais febre? perguntou Cyrino muito baixinho.

--Não sei, foi a resposta, e resposta demorada.

--Deixe-me ver o seu pulso.

E tomando-lhe a mão, apertou-a com ardor entre as suas, retendo-a,

apezar dos ligeiros esforços que para a retrahir, empregou ella por

vezes.

Nisto, entrou Pereira. Innocencia fechou com presteza os olhos e Cyrino

voltou-se rapidamente, levando um dedo aos labios para recommendar

silencio.

--Está dormindo, avisou com voz sumida.

--Ora, disse Pereira no mesmo tom, a tal Maria Conga deixou entornar a

cafeteira, de _maneiras_ que precisei fazer outra porção. Demorei

muito?

--Não, respondeu Cyrino com toda a sinceridade.

--Mas agora, observou Pereira, é mister acordar a pequerrucha.

--Não ha outro remedio.

Chegou-se o pae á cama e, com todo o carinho, chamou: _Nocencia_!

_Nocencia_!

E como não a visse despertar logo, sacudio-a com brandura até que ella

abrisse uns olhos espantados.

--Apre! Que somno! disse o bondoso velho. Num instante que fui lá

dentro?!... Vamos, são horas de tomar a mézinha.

Deitara Cyrino sulfato de quinina no café e diluia-o vagarosamente.

--Olhe, dona, aconselhou elle, beba de um só trago e chupe, logo

depois, uns gomos de limão doce.

--Então é muito mau? choramigou a doente.

--É amargo; mas num gole mecê toma isto.

--Papae, recalcitrou a moça, não quero ... eu não quero.

--Ora, filhinha do meu coração, não se _canhe_[61]; é preciso...

Amanhã ha-de você sentir-se boa; não é doutor?

--Com certeza, se tomar esta poção, assegurou Cyrino.

--Depois, quando eu ir lá á villa, hei-de trazer para você uma cousa

bonita ... uns _lavrados_[62]. Ouviu?

--Nhôr-sim.

--Ande, Tico, accrescentou o mineiro voltando-se para o anão, vae

depressa buscar limão doce; na cosinha ha um meio _cascado_[63].

--Tome, dona, implorou por seu turno Cyrino, approximando o pires da

boca da formosa medicanda.

Levantou uns olhos supplices e, agarrando resolutamente o remedio,

bebeu-o todo de um jacto.

Depois deu um suspiro de enjôo e ficou com os labios entreabertos, á

espera que o adocicado sumo do limão lhe tirasse o amargor do

medicamento.

--Então, exclamou Pereira, era maior o medo que a cousa em si! Você

tome a dose numa _relancina_.

--Amanhã de manhã, ou melhor hoje de madrugada, temos que engolir

outra dose, declarou Cyrino. Depois, a dona, poderá levantar-se.

--Ainda outra? protestou Innocencia com gesto de amúo.

--Nhã, sim; é de toda a percisão, replicou o amoroso medico

modificando pela suavidade da voz a dureza das prescripções.

--De certo, corroborou tambem Pereira.

--Depois deve mecê deixar de comer carne fresca, hervas, ovos ou

farinha de milho por um mez inteiro, e de provar leite por muito tempo.

Hade sustentar-se só de carne de sol bem secca, com arroz quasi sem sal

e por cima tomará café com muito pouco _doce_[64].

--Fica ao meu cuidado, asseverou Pereira, olhar para o _rejume_[65].

--Agora, durma bem e não se assuste de lhe apparecer zoeira nos ouvidos

e até de se sentir mouca Isto é da mézinha; pelo contrario é muito

bom signal.

--Estes doutores sabem tudo, murmurou Pereira dando ligeiro estalo com a

lingua.

Não se descuidou Cyrino, antes de se retirar, de novamente tomar o

pulso e, á conta de procurar a arteria, assentou toda a mão no punho

da donzella, envolvendo-lhe o braço e apertando-o docemente.

Saiu-se mal de tudo isso: porque se tratava da cura de alguem, para si

arranjava enfermidade e bem grave.

Com effeito, de volta á sala dos hospedes, não poude mais conciliar o

somno e, sem que houvesse conseguido fruir um só momento de descanço,

viu raiar a aurora. Parecia-lhe que o peito ardia todo em chammas a

subirem-lhe ás faces, abrazando-lhe o pensamento.

Aquelle venusto rosto que contemplára a sós; aquelles formosos olhos,

cujo brilho a furto percebera, aquelle collo alabastrino que a medo se

descobrira, aquellas indecisas curvas de um corpo adoravel, todo aquelle

conjuncto harmonioso e encantador que vira á luz de frouxa vela,

fatalmente o lançavam nesse pelago semeado de tormentos que se chama

paixão!

Effeitos de tão temivel mal já ia o misero sentindo. Inquieto se

revolvia (facto virgem!) no duro leito, ao passo que a respiração

isochronica e ruidosa do companheiro de hospedagem, o allemão Meyer,

respondia ao sonoro resonar do garrulo José Pinho.

[Nota 61: Acanhar-se, amofinar-se.]

[Nota 62: Contas de ouro.]

[Nota 63: Em toda a provincia de Matto-Grosso e em geral no interior

diz-se cascar por descascar. Dizem até cascar um boi por esfolal-o,

tirar-lhe o couro.]

[Nota 64: Assucar.]

[Nota 65: Corruptela de regimen.]

CAPITULO X

A CARTA DE RECOMMENDAÇÃO

Aquelle bom velho, cuja benevola

hospitalidade não tinha limites, julgara

do seu dever tratar do melhor modo

possivel a Waverley, fosse elle o ultimo

camponez saxonio... Mas o titulo de

amigo de Fergus fel-o considerar como

precioso deposito, merecedor de toda a

sua solicitude e da mais attenta obsequiosidade.

WALTER SCOTT.--_Waverley._

Quando Meyer abriu os olhos, já achou Cyrino de pé, arranjando uma

canastrinha.

--Oh! exclamou elle em tom de louvor, o Sr. madruga muito.

--É verdade, replicou o outro, um tanto melancolico.

--E _Júque_ ainda dorme!... Este _Júque_ parece mais um tatú do que um

homem... Todo o dia o estou acordando...

E juntando o feito ao dito, foi o pachorrento amo sacudir a criado.

Depois de se espreguiçar á vontade, sentou-se este no couro em que

dormira, e pôz-se a esfregar com todo o vagar os olhos papudos ainda

cheios de somno.

--Deus esteja com vossuncês, disse elle entre dois bocejos. Ora,

_Mochú_, o Sr. acordou-me no melhor do somno. Estava sonhando que

voltára para o Rio de Janeiro e ia acompanhando uma musica pelo largo

do Rocio a fóra. Conhece o largo do Rocio? perguntou a Cyrino.

--Não, respondeu-lhe este.

--Chi! Que largo! Hen, _Mochú_?

E novo bocejo cortou-lhe a descripção da louvada praça.

--_Júque_, exclamou Meyer coçando a barba com ar alegre, o dia hoje

está claro e bonito. Havemos de apanhar pelo menos umas doze borboletas

novas.

--E quanto me dá _Mochú_, se eu agarro vinte e cinco?

--Vinte e cinco? repetiu o allemão com alguma duvida.

--Sim, vinte e cinco ... e até mais, vinte e seis. Diga, quanto me dá?

--Oh! eu dou a _vóce_ dois mil réis.

--Está dito, fecho o negocio. Eu cá sou assim pão pão, queijo

queijo; tão certo como chamar-me José Pinho, seu criado, carioca de

nascimento e baptisado na freguezia da Lagoa, lá para as bandas do

_Brocó_, e...

--Agora, interrompeu Meyer; vá buscar agua para lavar a cara, e tire

sabão e pente na canastra.

--Olhe, Sr. doutor, continuou o camarada sentado sempre e voltando-se

para o lado de Cyrino, esta minha vida é levada de seiscentos mil

diabos. Nós saimos do Rio já ha mais de dois annos; não é, _Mochú_?

--Vinte e tres mezes, rectificou Meyer.

--Pois bem; desde esse tempo estamos a viajar como se fosse penitencia

de confissão. E não é só isso, não, senhor. Todos os dias ando pelo

menos nove leguas correndo aqui e acolá, dando voltas, caindo, atraz

dos bichos voadores...

--_Júque_! tentou atalhar Meyer, olhe...

--Pois é o que lhe digo, proseguiu José Pinho. Tenho hoje uma raiva

daquellas porcarias todas... Nem sei porque, Nosso Senhor Jesus Christo

foi crear esta sucia de creaturas sem prestimo... Emfim. Elle é quem

sabe... Quanto a mim, se pudesse, atacava fogo em todas as lagartas,

porque da lagarta é que nascem esses _anicetos_, que estão enchendo

mundos... Mas, veja, Sr. doutor, lá na terra deste homem,--(coitado, é

bem bomzinho e me estima muito!)--valem esses bichos mais do que ouro em

pó... Tambem, se o _Mochú_ não gostasse de mim, _havéra_ de ser

muito ingrato... Outro como eu, não encontra mais, não senhor... Tenha

a santa paciencia ... não, senhor, isto é o que lhe posso afiançar.

No meio desse fluxo de palavras, Meyer fora em pessoa procurar na

canastra o pente e o sabão.

Mostrando os objectos ao fallador, ordenou com energia:

--Cale a boca, _Júque_, cale a boca, tagarella! Vá buscar agua já;

senão ... não levo _vóce_ ao matto hoje.

Levantou-se de prompto José Pinho e meio a resmungar saiu, tomando uma

das canastras.

--Esse camarada, disse Meyer depois de algum silencio e para explicar o

seu procedimento, é uma pessoa muito boa ... fiel e intelligente.

Mas ... fala demais. É-me precioso, porque apanha borboletas com muito

talento e geito.

Entrando José Pinho e ouvindo o final do elogio, depoz com ar de grave

importancia a bacia no chão.

Deante della, e depois de tirar do nariz os oculos collocou-se logo

Meyer, ou antes acocorou-se e em relação ao tronco, tão compridas

eram as suas pernas que, inclinado por sobre a agua, lhe ficava a

cabeça a altura dos joelhos.

Levou a ablução uns largos minutos e foi com os cabellos grudados ao

casco e escorrendo agua que elle se levantou, justamente quando entrava

Pereira.

Nesse momento, assumira o typo daquelle homem proporções do mais

pasmoso grotesco; entretanto, tão vária é a apreciação de cada um,

tão caprichoso é o julgamento individual, que o mineiro, acercando-se

de Cyrino, disse baixinho:

--Vosmecê já reparou, amigo, como este _estranja_ é figura bonita?

_Tão arvo_! E que olhos que tem!... As mulheres hão-de perder a

cachola por causa deste bicharrão... Então, Sr. Maia, continuou

interpellando em voz alta o seu especimen de belleza masculina, que tal

passou aqui a noite?

--Oh! Sr. Pereira!... Desculpe, se o não vi... Estava sem oculos... Já

lhe respondo ... espere um bocadinho.

E ainda todo molhado, correu a tomar os oculos, que assentou em cima dos

salientes luzios.

--Agora, muito bem... Dormi, meu bom amigo, como quem não tem

peccados...

--Então, observou Cyrino, quasi mau grado seu, tenho-os eu; porque, da

meia noite para cá, não pude mais pregar olho...

--Isto é volta de algum namoro, replicou Pereira batendo-lhe com força

no hombro e rindo-se.

Cyrino descorou ligeiramente.

--Sim, vosmecê é moço ... deixou lá por Minas algum _rabicho_, e de

vez emquando o coração lhe comicha... Está na idade...

--Pode muito bem ser, apoiou Meyer com gravidade.

--Não é? insistiu Pereira, Ora, confesse ... não lhe fica mal... Isso

é volta de enguiço...

--Juro-lhes, balbuciou Cyrino.

--Oh! se é, confirmou José Pinho que julgou dever metter o bedelho na

conversa, eu no Rio de Janeiro... Negocio de saias, é de pôr um homem

tonto. Não lhes conto nada, mas uma vez...

Voltou-se o allemão para elle com calma, e, interrompendo-o:

--_Júque_, va ver onde estão burrinhos e não bote sua colher, quando

gente branca está falando com o seu patrão.

E, como o camarada quizesse retorquir:

--Ande, ande, verberou sempre sereno, discussão nunca serviu para nada.

Deu José meia duzia de muchochos abafados e foi embora, praguejando

entre dentes.

Novamente suppoz Meyer dever desculpal-o.

--Bom homem, disse, bom homem ... porem fala terrivelmente!

--Mas agora me conte, perguntou Pereira com ar de quem queria

certificar-se de cousa posta muito em duvida, deveras o senhor anda

_palmeando_ estes sertões para fisgar _anicetos_?

--Pois não, respondeu Meyer com algum enthusiasmo, na minha terra valem

muito dinheiro para estudos, musêos e collecções. Estou viajando por

conta de meu governo, e já mandei bastantes caixas todas cheias... É

muito precioso!

--Ora, vejam só, exclamou Pereira. Quem _havéra_ de dizer que até com

isso se póde _bichar_! Cruz! Um homem destes, um doutor, andar correndo

atraz de vagalumes e voadores do matto, como menino ás voltas com

cigarras! Muito se aprende neste mundo! E quer o senhor saber uma coisa?

Si eu não tivesse familia, era capaz de ir com vosmecê por esses

fundões _afóra_, por que sempre gostei de lidar com pessoas de

qualidade e instrucção... Eu sou assim... Quem me conhece, bem sabe...

Homem de repentes... Vem-me cá uma idéa muito estrambotica ás vezes,

mas embirro e acabou-se; porque, se ha alguem esturrado e teimoso, é

este seu criado... Quando empaco, empaco de uma boa vez... Fosse no

tempo de solteiro, e eu me botava com o senhor a catar toda essa

bicharada dos sertões. Era capaz de ir dar com os ossos lá na sua

terra... Não me olhe pasmado, não... Isso lá eu era... Nem que

tivesse de passar canseiras como ninguem... O caso era metter-se-me a

tenção nos cascos... Dito e feito; acabou-se... Fossem buscar o

remedio onde quizessem ... mas duvido que o achassem.

--Como vae a doente? perguntou distrahidamente Cyrino cortando aquella

catadupa de palavras.

--Ora estou muito contente. Já tomou nova dose, e parece quasi boa.

Está com outra feição. O senhor fez um milagre...

--Abaixo de Deus e da Virgem purissima, concordou Cyrino com toda a

modestia.

--O sr. não cura? perguntou Pereira a Meyer.

--_Nô_ senhor. Sou doutor em philosophia pela universidade de Iena,

onde...

--Isso é nome de bicho? atalhou o mineiro.

--_Nô_ senhor. É uma cidade.

--Ninguem diria... Pois, Snr. Maia, continuou Pereira apontando para

Cyrino, alli está um com quem molestias não brincam.

--Ah! rouquejou o allemão abrindo ainda mais os olhos. Estimo muito

conhecel-o como notabilidade... Nestes lugares aqui é muito raro...

--Se é! exclamou Pereira. Felizmente passou por cá nem de proposito,

para pôr de pé a menina ... uma filha minha... Cahiu-me a talho de

fouce e...

Não pôde Cyrino furtar-se a um movimento de vangloria. Com ar grave

interrompeu:

--Não falle nisso, Sr. Pereira; o caso era simples. Febre das

enchentes ... não vale quasi nada. Vi logo o que era de urgencia: um

simples suador, duas ou tres doses de sulfato de quinina ... e ficou tudo

sanado... É simplicissimo... O estomago não estava sujo ... não havia

necessidade de vomitorio...

Ouvira Meyer estas indicações therapeuticas com os olhos muito fitos

em quem as dava: depois, voltando-se para Pereira disse com um

approbatorio aceno de cabeça:

--_Pom_ medico! _pom_ medico!

Desse momento em deante, votou Cyrino ao allemão a mais decidida

symphatia; e Pereira, presenciando o congraçamento daquelles dois

homens, de si para si illustres e incontestaveis sabichões, sentiu-se

feliz por abrigal-os a um tempo em sua humilde vivenda.

--Então, disse o mineiro voltando á questão das borboletas, com o que

o seu governo paga-lhe bem, não Sr. _Maia_?

--Sufficientemente ... demais, todas as autoridades deste bello paiz

muito me ajudam. Tenho muitos officios ... cartas de recommendação...

Olhe, quer ver? _Juque_, _Juque_! chamou Meyer sem reparar que o criado

ha muito se fora do quarto, dê-me... É verdade, foi levar os burrinhos

á agua... Não faz mal... Mostro-lhe já tudo...

E, procurando entre as cargas uma malinha coberta de panno impermeavel,

abriu-a e tirou um masso de cartas cuidadosamente numeradas com fitas de

diversas côres.

--Isto é para Miranda, em Matto Grosso. Isto para Coxim, Cuyabá ...

para Poconé, Diamantino ... isto são cartas cujos donos não

encontrei, e que hão de voltar para as pessoas que as escreveram.

--E são muitas? perguntou Pereira.

--Tres ou quatro. Vejamos ... uma é para o Sr. João Manuel Quaresma,

no Pitanguy; esta, para o Sr. Martinho dos Santos _Perreira_, em

Piumhy...

--Que é? perguntou o mineiro levantando-se de um pulo e mostrando muita

admiração. Leia outra vez ... leia por favor...

Meyer obedeceu.

--Mas este nome é o meu! exclamou Pereira. Esta carta então é para

mim...

--Hu, hu! gaguejou o allemão boquiaberto. É muito _currioso_ isto!

--Sou eu, sou eu mesmo! continuou o mineiro abrindo os diques á

volubilidade. Está claro, clarissimo!... Quando me escreveram, pensavam

que eu ainda morava lá em Piumhy. Pois, se nunca contei a ninguem em

que _buraqueira_ me vim metter... Abra a carta sem susto... Oh! Senhora

Sant'Anna, que dia hoje! Quem diria? Uma carta! Uma carta nestas

alturas! Póde ler, Sr. _Maia_... Estou doido por saber quem se deu ao

trabalho de me escrever... Martinho dos Santos Pereira, de Piumhy ...

sou eu! Que duvida: não ha dois. Veja só o nome ... pelo amor de Deus,

o nome de quem me _direge_ a carta.

Rompeu o allemão com alguma duvida e escrupulo o selo; correndo com os

olhos a lauda escripta, procurou a assignatura e pausadamente leu

«Francisco dos Santos Pereira».

--Gentes! bradou o mineiro no auge da alegria, meu irmão ... o

Chiquinho!... E eu que o fazia morto e enterrado!... Nosso Senhor o

conserve por muitos annos!... O Chiquinho!... Já se viu coisa

_ansim_?... Como se anda neste mundo, hem, Sr. Cyrino? Quem _havéra_ de

dizer que este homem, que aqui chegou hontem por acaso e alta noite,

havia de trazer na canastra uma carta de um irmão que não vejo ha mais

de quarenta annos?!... Ora esta!... São voltas deste mundo... As pedras

se encontram... Foi em 1819 ... não, em 20... Mas ... depressa leia a

carta ... vamos ver o que me diz o Chiquinho... Da familia passava por

ser o de mais juizo tambem era o mais velho de todos nós... O Roberto o

caçula... Seja o senhor muito bemvindo nesta casa... Depois de tantos

annos, trazer-me noticias da minha gente!

Cortou Meyer aquelle movimento de effusão que promettia ir longe,

começando a ler com todo o vagar ou, melhor, a soletrar a carta, cujos

garranchos, que não letras, por vezes se viu obrigado a encostar aos

olhos para poder decifrar.

«Martinho, dizia a despretenciosa epistola, dirijo-te estas mal

traçadas linhas só para saber da tua saude e dizer que o portador

desta é um senhor de muita leitura e vae para os sertões _brutos_,

viajando e estudando paizes e povos. Veio-me do Rio de Janeiro muito

recommendado. Peço que o agasalhes, não como a um _transuente_

qualquer, mas como se fosse eu em pessoa, teu irmão mais velho e chefe

da nossa familia...»

--Pobre mano! exclamou Pereira meio choroso.

«É homem, continuou Meyer, de bastante criação. Adeus Martinho. Eu

estou estabelecido na Matta do Rio, numa fazendola. Tenho cinco filhos,

tres machos e duas _familias_[66], estas casadas, e que me deram netos;

já faz bastante tempo. Não estou muito quebrado de forças. Ha mais de

oito annos que não tenho noticias tuas. Soube que o Roberto tinha

morrido no _Paranan_...»

--Roberto?!... Coitado do Roberto! atalhou Pereira com voz angustiosa.

E repentinamente, representando-lhe a memoria os tempos da infancia,

arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas.

«Sem mais _aquella_, concluiu Meyer, adeus. Felicidade e saude. Teu

irmão, Francisco dos Santos Pereira».

--Deveras, disse o mineiro depois de breve silencio adeantando-se para o

allemão e apresentando-lhe a dextra aberta, o Sr. me deu um fartão de

alegria. Toque nesta mão e, quando ella se levantar para bulir num só

cabello de sua cabeça ou de alguem da sua familia, qualquer que seja o

aggravo que me possam fazer, seja ella logo cortada por Deus, que nos

está ouvindo.

--Obrigado, Sr. Pereira, respondeu com animação o outro, retribuindo o

aperto de mão e corroborando-o com um concerto de garganta.

--Sim, senhor, continuou o mineiro. Esta carta vale, para mim, mais que

uma letra do Imperador que governa o Brazil. É o que lhe digo, Sr.

_Maia_...

--Meyer, corrigiu o allemão apoiando com força na ultima syllaba,

Meyer.

--Ah! é verdade. É preciso traduzir Meyer, Meyer. Agora já atinei com

a cousa. Mais como ia lhe dizendo, esta casa é sua. Meu irmão, o meu

irmão mais velho deu-me ordem que eu o recebesse como se fosse elle

mesmo em pessoa, o Chico; ... acabou-se. O Sr. é como se fosse dos

meus. Não ha que ver, é o que elle quer. Entendi logo; o mais é ser

muito bronco e, com o favor de Deus, não me tenho nesta conta. O Sr.

ponha e disponha de mim, da minha tulha, das minhas terras, meus

escravos, gado ... tudo o que aqui achar. Parta e reparta... Quem está

falando aqui, não é mais dono de coisa nenhuma; ... é o Sr.... Meu

irmão me escreveu, é escusado pensar que não sei respeitar a vontade

de meus superiores e parentes. É como se recebesse uma ordem do punho

do Sr. D. Pedro II, filho de D. Pedro I, que pinchou os _emboabas_[67]

para fora desta terra do Brazil e levantou o Imperio nos campos do

Ypiranga, lá para os lados de S. Paulo de Piratininga, onde houve em

seu tempo collegio de padres e fradaria _grossa_[68], e d'onde os

_mamalucos_ sahiam para ir por esses mundos fóra bater indios _brabos_

e caçar onças, botando bandeiras até na costa do Paraguay e no salto

do Paraná, tanto assim que deram nas reducções[69] e trouxeram de lá

uma _immundicie_[70] de gente amarrada, por signal que muitos amolaram a

canella em caminho, e só chegaram uns cento e tantos, tão magros

que...

Enfiava Pereira todas estas phrases com suprehendedora rapidez, ao passo

que Meyer o contemplava extatico, á espera que a torrente de palavras

lhe desse tempo e occasião de exprimir algum vocabulo de agradecimento.

Só, porem, minutos depois, e a custo é que elle pronunciou um aspero e

retumbante.

--Obrigado!

E accrescentou em seguida:

--Mas o senhor falla que nem cachoeira. E não cansa?

--Qual! replicou o mineiro com ufania. A gente da minha terra é de seu

natural calada; eu, não; mesmo porque fui criado em povoados de muita

civilidade...

Tomando esse novo thema, começou novamente a discorrer, mostrando

visivel contentamento por achar na estimavel pessoa do Sr. Guilherme

Tembel Meyer um ouvinte de força, incapaz de pestanejar e cuja fixidez

de olhos era prova evidente de que tomava interesse por todos os

assumptos possiveis de conversação.

[Nota 66: Filha.]

[Nota 67: Portuguezes.]

[Nota 68: Em qualidade.]

[Nota 69: _Reducções_ era o nome que tinham as aldeias, formadas pelos

padres Jesuitas no Paraguay. Pelo anno de 1630 subiam a 20 com 70,000

habitantes.]

[Nota 70: Grande quantidade. Montoya, no seu livro--Conquista

Espiritual--conta que 140 _castelhanos_ do Brazil com 1,500 tupys, todos

muito bem armados com escopetas, e em boa ordem militar, entraram pela

povoações e levaram 7,000 prisioneiros, numero evidentemente

exagerado.]

CAPITULO XI

O ALMOÇO

Comam e bebam; nada de cerimonias

commigo. Minha casa é franca; eu

tambem. Façam provisão de alegria e

de mim disponham sem constrangimento.

PLAUTO.--_Miles Gloriosus._

Levantou-se de repente Cyrino da marqueza em que se sentara.

--Tenho vontade de amanhã seguir viagem...

--Que, doutor? protestou Pereira, Partir já? isso nunca... Vosmecê

ainda não curou de todo minha filha. Pago-lhe todos os prejuizos da sua

estada aqui ... se fôr preciso.

--Oh! Sr. Pereira, reclamou por seu turno o joven, isso quasi me

offende...

--Desculpe-me, e muito: mas, antes de duas semanas, não o deixo sahir

daqui...

--Porem...

Innocencia · 第 4 / 13 段