realçada pela meiguice do olhar sereno que a custo, parecia coar por
entre os cilios sedosos a franjar-lhe as palpebras, e compridos a ponto
de projectarem sombras nas mimosas faces.
Era o nariz fino, um bocadinho arqueado; a bocca pequena, e o queixo
admiravelmente torneado.
Ao erguer a cabeça para tirar o braço de sob o lençol, descera um
nada a camisinha de crivo que vestia, deixando nú um collo de
fascinadora alvura, em que resaltava um ou outro signal de nascença.
Razões de sobra tinha, pois o pretenso facultativo para sentir a mão
fria e um tanto incerta, e não poder atinar com o pulso de tão gentil
cliente.
--Então? perguntou o pae.
--Febre nenhuma, respondeu Cyrino, cujos olhos fitavam com mal
disfarçada surpresa as feições de Innocencia.
--E que temos que fazer?
--Dar-lhe hoje mesmo um suador de folhas de laranjeira da terra a ver se
transpira bastante e, quando for meia noite, acordar-me para vir
administrar uma boa dóse de sulfato.
Levantára a doente os olhos e os cravara em Cyrino, para seguir com
attenção as prescripções que lhe deviam restituir a saúde.
--Não tem fome nenhuma, observou o pae; ha quasi tres dias que só vive
de beberagens. É uma ardencia continua; isto até nem parecem maleitas.
--Tanto melhor, replicou o moço; amanhã verá que a febre lhe sáe do
corpo, e daqui a uma semana sua filha está de pé com certeza. Sou eu
que lh'o afianço.
--Fale o doutor pela boca de um anjo, disse Pereira com alegria.
--Hão-de as côres voltar logo, continuou Cyrino.
Ligeiramente enrubeceu Innocencia e descançou a cabeça no travesseiro.
--Porque amarrou esse lenço? perguntou em seguida o moço.
--Por nada, respondeu ella com acanhamento.
--Sente dor de cabeça?
--Nhôr-não.
--Tire-o pois: convém não chamar o sangue; solte, pelo contrario, os
cabellos.
Pereira obedeceu e descobriu uma espessa cabelleira, negra como o amago
da cabiúna e que em liberdade devia cair até abaixo da cintura. Estava
enrolado em bastas tranças, que davam duas voltas inteiras ao redor do
cocoruto.
--É preciso, continuou Cyrino, ter de dia o quarto arejado e pôr a
cama na linha do nascente ao poente.
--Amanhã de manhãsinha hei-de viral-a disse o mineiro.
--Bom, por hoje então, ou melhor, agora mesmo, o suador. Fechem tudo, e
que a dona sue bem. Á meia noite, mais ou menos, virei aqui dar-lhe a
mézinha. Socegue o seu espirito e reze duas Ave-Maria para que a quina
faça logo effeito.
--Nhôr-sim, balbuciou a enferma.
--Não lhe dóe a luz nos olhos? perguntou Cyrino, achegando-lhe um
momento a vela ao rosto.
--Pouco ... um nadinha.
--Isso é bom signal. Creio que não hade ser nada.
E levantando-se, despediu-se:
--Até logo, sinhá-moça.
Depois do que, convidou Pereira a sahir.
Este acenou para alguem que estava num canto do quarto e na sombra.
--Ó Tico, disse elle, venha cá...
Levantou-se, a este chamado, um anão muito entanguido, embora
perfeitamente proporcionado em todos os seus membros. Tinha o rosto
sulcado de rugas, como se já fôra entrado em annos; mas os olhinhos
vivos e a negrejante guedelha mostravam edade pouco adeantada. Suas
perninhas um tanto arqueadas terminavam em pés largos e chatos que, sem
grave desarranjo na conformação, poderiam pertencer a qualquer
palmipede.
Trajava comprida blusa parda sobre calças que, por haverem pertencido a
quem quer que fosse muito mais alto, formavam em baixo volumosa rodilha,
apezar de estarem dobradas. Á cabeça, trazia um chapéu de palha de
_carandá_[52] sem cópa, de maneira que a melena lhe apparecia toda
arrepiada e erguida em torcidas e emmaranhadas grenhas.
--Oh! exclamou Cyrino ao ver entrar no circulo de luz tão estranha
figura, isto devéras é um _tic_[53] de gente.
--Não _anarchise_[54] o meu Tonico, protestou sorrindo-se Pereira. Elle
é pequeno ... mas bom. Não é meu nanico?
O homunculo riu-se, ou melhor, fez uma careta mostrando dentinhos alvos
e agudos, ao passo que deitava para Cyrino olhar inquisidor e altivo.
--O Snr. vê, doutor, continuou Pereira esta creaturinha de Christo ouve
perfeitamente tudo quanto se lhe diz e logo comprehende. Não póde
falar ... isto é, sempre póde dizer uma palavra ou outra, mas muito a
custo e quasi a estourar de raiva e de canseira. Quando se mette a
querer explicar qualquer coisa, é um barulho dos seiscentos, uma
gritaria dos meus peccados, onde apparece uma voz aqui, outra acolá,
mais christãsinhas no meio da barafunda.
--É que não lhe cortaram a lingua, observou Cyrino.
--Não tinha nada que cortar, replicou Pereira. De nascença é o
defeito e não póde ser remediado. Mas isto é um diabrete, que cruza
este sertão de cabo a rabo, a todas horas do dia e da noite. Não é
verdade, Tico?
O anão abanou a cabeça, olhando com orgulho para Cyrino.
--Mas é filho aqui da casa? perguntou este.
--Nhôr-não; tem mãe à beira do rio Sucuriú daqui a 40 leguas, e
envereda de lá para cá n'um instante, vindo a pousar pelas casas que
todas o recebem com gosto, porque é bichinho que não faz mal a
ninguem. Aqui fica duas, tres e mais semanas e depois dispara como um
_matteiro_[55] para a casa da mãe. É uma especie de cachorro de
_Nocencia_. Não é, Tico?
Fez o mudo signal que sim e apontou com ar risonho para o lado da moça.
Pereira, depois de todas aquellas explicações que o anão parecia
ouvir com satisfacção, disse voltando-se para este, ou melhor
abaixando-se em cima da sua cabeça:
--Agora, meu filho, vae ao curral grande e apanha _para mim_[56] um
_mãosada_[57] de folhas de laranjeira da terra ... daquelle pé grande
que encosta na _tronqueira_.
Mostrou o homunculo com expressivo gesto que entendera e saiu correndo.
Ia Cyrino deixar o quarto, não sem ter olhado com demora para o lugar
onde estava deitada a enferma, quando Pereira o chamou:
--Ó doutor, _Nocencia_ quer beber uma pouca de agua... Fará mal?
--Aqui não ha limões doces? indagou o moço.
--É um nunca acabar ... e dos melhores.
--Pois, então, faça sua filha chupar uns gomos.
Pereira, depois de ter paternalmente arranjado e disposto os cobertores
ao redor do corpo da menina, acompanhou Cyrino que, parado á porta de
saida, estava mirando as primeiras estrellas da noite.
--Vosmecê achou, doutor, perguntou o mineiro com voz um tanto tremula,
algum perigo no que tem aquelle anjinho?
--Não, absolutamente não, respondeu Cyrino. Verá o senhor que, daqui
a tres dias, sua filha não tem mais nada.
--Malditas febres!... Quando não derrubam um christão, o amofinam
annos inteiros... Eu não quizera que minha filha ficasse
esbranquiçada, nem feia... As moças quando não são bonitas, é que
estão doentes... Ah! mas ia me esquecendo dos limões doces... Que
cabeça!...
Adeantou-se Pereira no terreiro e, pondo as mãos junto á bocca, chamou
com voz forte:
--Ó Tico!
Prolongado grito respondeu-lhe a certa distancia.
O mineiro pôz-se a assobiar com modulações á maneira dos indios.
Houve uns momentos de silencio; depois veiu correndo o anão e,
chegando-se para perto, mostrou por signaes que não ouvira bem o
recado.
--Uns limões doces, já!... _Nocencia_ está com sêde...
Disparou o pequeno como uma setta, sumindo-se logo na densa escuridão
que já se espessara entre as arvores do pomar.
[Nota 48: Passaro de plumagem negra como indica a denominação
indigena--guira una (passaro preto)--o seu canto é muito melodioso e os
seus habitos eminentemente sociaes.]
[Nota 49: Respondeu.]
[Nota 50: Chama-se _lavrados_ na provincia de Matto-Grosso collares de
contas de ouro e adornos de ouro e prata.]
[Nota 51: Animal.]
[Nota 52: Palmeira muito parecida com a carnaúba, si não for a mesma.]
[Nota 53: Pedaço.]
[Nota 54: Ridicularise.]
[Nota 55: Veado do matto.]
[Nota 56: Esse para mim é accrescimo obrigatorio em certas locuções
do sertão.]
[Nota 57: Mão grande, porção boa.]
CAPITULO VII
O NATURALISTA
A minha philosophia toda resume-se
em oppôr a paciencia ás mil e uma
contrariedades de que a vida está inçada.
HOFFMANN.--_O reflexo perdido._
Serena e quasi luminosa corria a noite. No puro campo do céu,
scintillava com iriante brilho um semnumero de estrellas, projectando na
larga fita da estrada do sertão, mysteriosa e dubia claridade.
Pelo caminhar dos astros havia de ser quasi meia noite; e entretanto a
essa hora morta, em que só vagueiam á busca de pasto os animaes
bravios do deserto, vinham a passo lento, pelo caminho real, dois
homens, um a pé, outro montado n'uma besta magra e já meio estafada.
Mostrava o pedestre ser, como de feito era, um simples camarada, e vinha
com grossa e comprida vara na mão tangendo deante de si lerdo e
orelhudo burro, sobre cujo lombo se erguia elevada carga de canastras e
malinhas, cobertas por um grande ligal.
Quem estava montado e cavalgava todo encurvado sobre o sellim com as
pernas muito estiradas e abertas, parecia entregue a profunda
cogitação. Devia ser homem bastante alto e esguio e, como o
observamos, apezar da hora adiantada da noite, com olhos de romancista,
diremos desde já que tinha rosto redondo, juvenil, olhos gazeos,
esbugalhados, nariz pequeno e arrebitado, barbas compridas, escorrido
bigode e cabellos muito louros. O seu trajo era o commum em viagem:
grandes botas, paletot de alpaca em extremo folgado, e chapéo do Chile
desabado. Trazia entretanto, a tiracollo umas quatro ou cinco caixinhas
de lunetas ou quaesquer outros instrumentos especiaes, e na mão
segurava um páu fino e roliço, preso a uma saccóla de fina gaze côr
de rosa.
Homem de meia edade, de physionomia vulgar e balorda era o camarada e,
pelos modos e impaciencia com que fustigava o animal de carga, indicava
não estar afeito ao genero de vida que exercia.
Em silencio e na ordem indicada, caminhava a tropinha: o burro carregado
na frente, logo atraz o inhabil recoveiro; em seguida fechando a marcha,
o viajante encarapitado na magra cavalgadura.
Houve momento em que, depois de algumas pauladas de incitamento, pareceu
querer o cargueiro protestar contra o tratamento que tão fóra de hora
recebia e, fincando os pés na areia, resolutamente parou.
Provocou a reluctancia, porém, uma chuva de verdadeiras cacetadas que
echoaram longe e se confundiam com os brados e pragas do camarada.
--Burro do diabo! berrava elle. Mil raios te partam, bicho damnado!
Arrebenta de uma vez!... _Vá_ para os infernos! Entrega a carcassa aos
urubús.
Durante uns bons minutos, o cavalleiro, que fizera parar o seu animal,
esperou pacientemente qualquer resultado: ou que a renitente azemola se
désse afinal por convencida e avançasse ou então estourasse.
--_Júque_, disse elle de repente com accento fortemente guttural e que
denunciava a origem teutonica, se porretada chove assim no seu lombo,
_vóce_ gosta?
O homem a quem haviam dado o nome de Juca, voltou-se com arrebatamento:
--Ora, _Mochú_, isto é um perverso sem vergonha, que deve morrer
debaixo do páu. Esta vida não me serve!...
--Mas, _Júque_, replicou o allemão com inalteravel calma, quem sabe se
a cangalha não está ferindo a pobre creatura?
--Qual! bradou o camarada, isto é manha só. Conheço este safado, este
infamo, este...
E, levantando o varapáu, descarregou tal paulada no trazeiro do animal
que lhe fez soltar surdo gemido de dor.
--_Júque_, observou o patrão em tom pausado, quem sabe se na frente ha
páu cahido ou pedra, que não deixa elle ir para deante?
--Pedra, _Mochú_, o páu na cabeça até rachal-a, é que precisa este
ladrão...
--Vê, _Júque_, insistiu o allemão.
--Ora, _Mochú_...
--Vê, sempre...
Saiu resmungando o camarada de detrás do burrego e deu a volta.
Na frente avistou logo o ramo quebrado que Pereira deixara cair no meio
da estrada para desviar os acompanhadores de Cyrino.
--Ué! Ué! exclamou com muita surpreza, aqui esteve alguem e pôz este
signal para que não se passasse...
--Eu não disse a _vóce_, replicou o cavalleiro com voz até certo
ponto triumphante. Asno tem razão: para deante ha alguma cousa.
--Mas na villa, contestou José, nos disseram que o caminho vae sempre
direitinho sem _atrapalhação_ nenhuma...
--Na villa disseram isso, confirmou o outro.
--E então?
--E então? repetiu o allemão.
Houve uns segundos de silencio.
Depois o cavalleiro accrescentou com a mesma imperturbavel serenidade, e
como que achando explicação muitissimo natural:
--Na villa muita gente não sabe caminho. É...
--Mil milhões de diabos, interrompeu o camarada todo frenetico, levem o
gosto de andar por esses mattos do inferno a horas tão perdidas! Eu bem
disse a _Mochú_, ninguem viaja assim. Isto é uma calamidade...
--_Júque_, atalhou por seu turno o patrão, o que é que adeanta estar
a berrar como um damnado?... Olhe, antes, se por ahi _vóce_ não vê
algum caminho do lado.
Obedeceu o outro e sem difficuldade achou a entrada da picada que levava
á morada de Pereira.
--Está aqui, _Mochú_, está aqui! annunciou elle com alegria. É um
trilho que corta a estrada e vae dar nalguma casa pertinho...
Mudando repentinamente de tom, observou com voz tristonha;
--Comtanto que até lá não haja alguma legua de beiço...
--Ah! eu não lhe disse, respondeu o allemão. Agora toque burro
devagarinho; elle anda que nem vento.
Pareceu o animal comprehender o alcance moral da victoria que acabara de
colher e prestes enveredou pela trilha com alento novo e até desusada
celeridade.
A razão é que tambem dahi a pouco sorvia elle, teimoso e marralheiro
bicho como soem ser os da sua especie, a bella agua do ribeirão, em que
se haviam refrescado as cavalgaduras de Cyrino e de Pereira.
CAPITULO VIII
OS HOSPEDES DA MEIA NOITE
Sei, sim, sei que é noite!
XAVIER DE MAISTRE.--_Viagem ao redor do meu quarto._
Não tardou muito que os dois nocturnos viajantes começassem a ouvir os
latidos furiosos dos cães que no terreiro de Pereira denunciavam
approximação de gente suspeita junto á casa entregue á sua vigilante
guarda.
--Por aqui perto fica algum rancho, _Mochú_, avisou o camarada; havemos
emfim de descansar hoje... Mas, que gritaria faz a cachorrada!... São
capazes de nos engulir antes que venha alguem saber se somos christãos
ou não... Safa! Que canzoada!... Ó _Mochú_, o Sr. deve ir na
frente ... rompendo a marcha...
--_Vóce_, respondeu o allemão, bate nelles com cacete...
--Nada, retrucou José com energia, isso não é do ajuste... Quem está
montado, caminhe adiante... Ainda por cima agora essa!
Depois de resmonear algum tempo, exclamou:
--Ah! espero já me lembrei do uma coisa... O filho do velho é
mitrado...
E, dizendo esta palavra, de um só pulo montou na anca do cargueiro,
que, ao sentir aquelle inesperado accrescimo de peso, parou por
instantes e com surdo ronco procurou lavrar um protesto.
--_Júque_, observou o allemão sem a menor alteração na voz, assim
burro quebra cadeira. Depois morre ... o _vóce_ tem de levar as cargas
delle ás costas...
Quiz o camarada encetar nova discussão, mas a a esse tempo chegavam ao
terreiro, onde o ataque furioso dos cães justificou a medida preventiva
de José, o qual entrou, todo encolhido atraz das cargas, a gritar como
um possesso:
--Ó de casa! Eh! lá, gentes! Ó amigos!
Augmentou a algazarra da cachorrada por tal modo, que os tropeiros de
Cyrino, pousados no rancho proximo, acordaram e bradaram juntos:
--Que diabo é isto? Temos matinada de lobishomens?
--Abriu-se nesse momento a porta da casa e appareceu Cyrino na frente do
Pereira, trazendo este uma vela que com a mão aberta amparava da briza
nocturna.
--Quem vem lá? clamaram os dois a um tempo.
--Camarada o viajante, respondeu com voz forte e sympathica o allemão,
achegando-se á luz e tratando de descer da cavalgadura. Quem é o dono
desta casa?
--Está aqui elle, respondeu Pereira levantando a vela acima da cabeça
para dar mais claridade em torno de si.
--Muito bem, replicou o recem-chegado. Desejo agasalho para mim e para o
meu creado e peço muitas desculpas por chegar tão tarde.
Aproximara-se tambem o José, cuidando logo, no meio de muchôchos e
pragas, de pôr em terra a carga do burrinho, o qual amarrara pelo
cabresto a uma vara fincada no chão.
--Mas, observou Cyrino, que faz o Sr. por estas horas mortas a
viajar?...
--Deixe o homem entrar, atalhou Pereira, e acommodar-se com o que
achar... Pois, meu senhor, _desapeie_. Bem vindo seja quem procura tecto
que é meu.
--Obrigado, obrigado, exclamou com effusão o estrangeiro.
E, apresentando a larga mão, apertou com tal força as de Cyrino e
Pereira que lhes fez estalar os dedos.
Em seguida, penetrou na sala e tratou logo de arranjar os objectos que
trazia a tiracollo, collocando-os cuidadosa e methodicamente em cima da
mesa, no meio dos olhares de espanto trocados por quantos o estavam
rodeando.
Na verdade, digna de reparo era aquella figura á luz da bruxoleante
vela de sebo; compridas pernas, corpo pequeno, braços muito longos e
cabellos quasi brancos, de tão louros que eram.
--Será algum bruxo? perguntou a meia voz Cyrino a Pereira.
--Qual! respondeu o mineiro com sinceridade, um homem tão bonito, tão
_bem limpo_[58]!
Entrára José com uma canastra ao hombro e, descarregando-a no canto
menos escuro do quarto, julgou dever, sem mais demora, declinar a
qualidade e importancia da pessoa que lhe servia de amo.
--O Sr. aqui é doutor, disse elle apontando para o allemão e
dirigindo-se para Cyrino...
--Doutor?! exclamou este com despeito.
--Sim, mas doutor que não cura doenças. É _allamão_, lá da
_estranja_, e vem desde a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro
caçando _anicetos_ e picando barboletas...
--_Barboletas_? interrompeu com admiração Pereira.
--_Acui cui_![59] Por todo o caminho vem apanhando bichinhos. Olhem ...
aquelle sacco que elle traz...
--O meu camarada, avisou com toda a tranquillidade e pausa o
naturalista, é muito falador. Os senhores tenham paciencia... Ande,
_Júque_, deixe de tagarellar!...
--Não, protestou Pereira levado de curiosidade, é bom saber com quem
se lida... Então o Sr. vem matando _anicetos_? Mas para que, Virgem
Santissima!...
--Para que? retrucou o camarada descansando as mãos na cintura. O
patrão e eu já temos mandado mais de dez caixões todos cheinhos lá
para as terras delle...
--Depois o paiz fica sem borboletas, respondeu Cyrino num assomo de
despeitado patriotismo.
--Mas, como é que o Sr. se chama? perguntou Pereira, voltando-se para o
allemão que estava virado para a parede a contemplar um desses grandes
e sombrios lepidopteros, da especie dos esphinges.
--_Júque_, disse elle sem lhe importar a interpellação e acenando
para o camarada, depressa ... um alfinete, dos grandes ... dos
maiores...
--Temos historia, avisou José, fazendo expressivo signal a Cyrino, o
Sr. vae ver...
O naturalista, de posse de um comprido aculeo, fincou-o com segura e
adestrada mão bem no meio do insecto, o qual começou a bater
convulsamente as azas e girar em torno do centro a que estava preso.
--A pita! A pita! exclamou o patrão. Vamos, _Júque_.
--Satisfez José o pedido, depois de abrir uma malinha, onde já estavam
enfileirados e espetados vinte ou trinta bonitos bichinhos.
--É uma _saturnia_ ... e não commum, murmurou o allemão fisgando num
pedaço de pita o novo especimen, sobre o qual derramou algumas gottas de
chloroformio, de um vidrinho que sacou dum dos muitos bolsos da
sobrecasaca.
--O Sr. é viajante zoologista, não é? perguntou Cyrino, depois que viu
terminada a operação.
O interrogado levantou a cabeça com surpresa e respondeu todo risonho:
--Sim, senhor; sim, senhor! Como é que o Sr. o soube? Viajante
naturalista, sim, senhor! Eu vejo que o Sr. é muito instruido... Muito
bem, muito bem! Muita instrucção!
E, abrindo uma carteira de notas, escreveu logo umas linhas tortuosas.
--Ah! este tambem é doutor, disse Pereira com certo orgulho por
hospedar em sua casa sabichão de tal quilate.
--Oh! doutor? doutor!? Muito bem, muito bem. Doutor que _curra_?
--Sim, senhor, respondeu com gravidade o proprio Cyrino.
--Ah! ... ah! muito bem.
Pereira, porém voltara à carga.
--Mas, como é que o Sr. se chama?
--Meyer, respondeu o allemão, para o servir.
--Maia?[60] perguntou o mineiro.
--Não, senhor, Meyer; sou da Saxonia, da Allemanha.
--Isto deve ser o mesmo que Maia na terra delle, observou Pereira,
abaixando um pouco a voz.
O camarada José, no entretanto, trouxera para dentro todas as malas e
canastras e sem cerimonia alguma intrometteu-se na conversação.
--Este _Mochú_, disse, vem de muito longe só por causa destas
historias de _barboletas_, e com o negocio ganha _côco_ grosso...
Quanto a mim...
--_Júque_, atalhou Meyer com fleuma, vai bota os animaes no pasto.
--Não, disse Pereira, solte-os no terreiro até raiar o dia; roerão o
que acharem; ha por ahi muito resto de milho nos sabugos...
--Pois é o que fiz, declarou o camarada; mas como lhes dizia, sou
carioca do Rio de Janeiro, chamo-me José Pinho e venho de bem longe
acompanhando este _allamão_, que é um homem muito de bem.
--É verdade? indagou Pereira, olhando para Meyer.
Este esbugalhou mais os olhos e confirmou tudo com um sim guttural que
echoou em toda a sala.
--Elle o que tem, continuou José é que é muito teimoso. Eu lhe digo
sempre: _Mochú_, isto de viajar de noite é uma tolice e uma canseira
á tôa... Qual! pensa lá no seu bestunto que assim é melhor. Tambem
a gente anda por estas estradas fóra como se fosse alma do outro mundo
a penar ... algum currupira ... ou boitatá... Cruzes!
--Pois, Sr. _Maia_, disse Pereira, tome posse desta sala, e faça de
conta que é sua... Se quizer uma rede...
--Muito obrigado, muito obrigado! ... minha cama é canastra. Não se
incommode...
--Amanhã então conversaremos, concluiu Pereira esfregando as mãos de
contente.
Promettia-lhe na verdade a companhia boas occasiões de dar largas á
volubilidade, sobretudo com o tal José Pinho, filho da Côrte do Rio de
Janeiro e, pelo que parecia, tagarella de grande força.
--Assim, pois, disse Pereira, durmam bem o restante da noite.
E abriu a porta para se retirar.
--Ui! exclamou elle olhando para o céu. Doutor, já passa muito da meia
noite... Com a bréca, o Cruzeiro está virando de uma vez...
Cyrino, que tornara a deitar-se com presteza calçou as botas e tomou
uns papeisinhos que de antemão preparara e puzera a um canto da mesa.
--Não faz mal, disse, já estou com tudo prompto e em tempo havemos de
dar o remedio. Vá o Sr. deitar um pouco de café num pires e acorde
sua filha, caso esteja dormindo, como é muito natural depois do suador.
Saiu então Pereira, levando a vela e, acompanhado de Cyrino, deu volta
á casa para buscar a entrada dos aposentos interiores.
Ficaram pois o allemão e seu criado em completa escuridão; ambos,
porém, já estirados a fio comprido, um em cima das canastras, tendo
por travesseiro roliça maleta, outro sobre o ligal aberto e estendido
no meio do aposento.
--Ó _Mochú_, perguntou José, que mastigava qualquer coisa, está já
ferrado?
--Ferrado? replicou Meyer levantando a cabeça. Que é isto agora?
--Pergunto se já pegou no somno?
--Pois, _Júque_, se eu falo, como é que posso estar dormindo?
--Então não quer petiscar?
--Comer, não é?
--Está visto.
--Oh! se tivesse!... Pensava agora nisso...
--Pois eu estou _manducando_ ... Quer um bocadinho?
--Que é que _vóce_ me dá?
--Rapadura com farinha de milho...
Está deveras de patente!... Gostoso como tudo...
--Então, _Júque_, passe-me um pouco.
Levantou-se o offertante com toda a boa vontade e ás apalpadelas
começou a procurar a cama do patrão, o que só conseguiu depois de ter
esbarrado na mesa e numas cangalhas velhas atiradas a um canto da sala.
Afinal agarrou num dos pés do naturalista, a quem entregou uma nesga de
rapadura e uns restos de farinha embrulhados em papel, pitança, mais
que sóbria, que foi devorada com satisfacção pelo bom do Saxonio.
[Nota 58: Bem vestido.]
[Nota 59: Affirmação usada pelo povo, correspondente a sim.]
[Nota 60: O diphtongo ei, pronunciando-se em allemão ai, muito natural
é a pergunta de Pereira e as confusões que amiudadas vezes faz com
esse nome.]
CAPITULO IX
O MEDICAMENTO
Não tendes que labutar com doente
muito grave, e eis o serviço que de vós
espero...
HOFFMANN.--_A porta entaipada._
Quem me poderá dizer porque me
parece tão duro o leito?... Porque
passei esta noite, que se me figurou tão
longa, sem gozar um momento de socego?...
Surge a verdade: em meu
seio, penetraram as agudas settas do
amor.
OVIDIO.--_Elegia II._
Quando Cyrino entrou no quarto de Innocencia, já estava ella acordada.
Sentara-se o pae á cabeceira da cama, a cujos pés se acocorara Tico o
anão, sobre uma grande pelle de onça.