Contem Chernoviz, dizem os entendidos, muitos erros, muita lacuna, muita

cousa inutil e até disparatada; entretanto no interior do Brazil é

obra que incontestavelmente presta bons serviços, e cujas indicações

tem força de evangelho.

Conhecia Cyrino o seu exemplar de cór e salteado; abria-o com

segurança nos trechos que desejava consultar e graças a elle formara

um fundo de instrucção real e até certo ponto exacta, a que unira o

estudo natural das utilissimas e ainda pouco aproveitadas hervinhas do

campo.

Afim de augmentar os seus recursos em materia medica vegetal, foi a

pouco e pouco dilatando as excursões fóra das cidades, para as quaes

voltava, quando se via falto de medicamentos ou quando, digamol-o sem

rebuço, queria gastar nos prazeres e folias o dinheiro que ajuntara com

a clinica do sertão.

Afinal, afeito a habitos de completa liberdade, resolvera emprehender

viagem para Camapoan e sul de Matto-Grosso, não só com o intuito de

estender o raio das operações, como levado do desejo de ver terras

novas e longinquas.

Curandeiro, simples curandeiro, ia por toda a parte grangeando o

tratamento de doutor, que gradualmente lhe foi parecendo, a si proprio,

titulo inherente á sua pessoa e a que tinha incontestavel direito.

Bem formado era o coração daquelle moço, sua alma elevada e incapaz

de pensamentos menos dignos; entretanto no intimo do seu caracter se

haviam insensivelmente enraizado certos habitos de orgulho, repassado de

tal ou qual charlatanismo, oriundo não só da flagrante insufficiencia

scientifica, como da roda em que sempre vivera.

Afastava-se em todo caso, ainda assim com os seus defeitos, do commum

dos medicos ambulantes do sertão, typos que se encontram frequentemente

naquellas paragens, eivados de todos os attributos da mais crassa

ignorancia, mas rodeados de regalias completamente excepcionaes.

Por toda parte entra, com effeito, o doutor; penetra no interior das

familias, verdadeiros gyneceos; tem o melhor lugar á mesa dos hospedes,

a mais macia cama, é emfim, um personagem cahido do céu e junto ao

qual acodem logo, de muita leguas em torno, não já enfermos, mas

fanatisados crentes, que durante largos annos se haviam medicado ou por

conselhos de vizinhos ou por suas proprias inspirações e que na

chegada desse Messias depositam todas as ardentes esperanças do

almejado restabelecimento.

CAPITULO IV

A CASA DO MINEIRO

Está a ceia na mesa. Torne o bom

acolhimento desculpavel o mau passadio.

WALTER SCOTT.--_Ivanhoe._

Quando assomaram os dous viajantes á entrada do terreiro que rodeava a

vivenda de Pereira, correram-lhes ao encontro quatro ou cinco cães

altos e magros, que aos pulos saudaram o dono da casa com uma cainçada

de alegria.

Puzeram-se algumas gallinhas a girar atarantadas, ao passo que varios

gallos, ja empoleirados na cumieira da morada, bradavam novidade e uns

porcos e bacorinhos aqui e acolá se erguiam de entre palhas de milho e,

estremunhados, olhavam para os recem-chegados com olhos pequenos e

cheios do somno.

Do interior da habitação, não tardou a sahir uma preta idosa, mal

vestida, trazendo atado á cabeça um panno branco de algodão, cujas

pontas pendiam até ao meio das costas.

--Olá, Maria Conga, perguntou Pereira, que ha de novo por cá?

--A benção, meu senhor, pediu a escrava chegando-se com alguma

lentidão.

--Deus te faça santa, respondeu o mineiro. Como vai a menina?

_Nocencia_?

--Nhã está com _sezão_.

--Isto sei eu, rapariga de Christo; mas como passou ella de

trasanthontem para cá?

--Todo o dia, vindo a hora, nhã bate o queixo, nhor-sim.

--Está bem... É que o mal ainda não abrandou... Daqui a pouco,

veremos. E a _janta_?... Está prompta? Venho varado de fome. Que diz,

sr. Cyrino? indagou, voltando-se para o companheiro.

--Não se me dava tambem de comer alguma cousa. Temos razão para...

--Pois então, interrompeu Pereira, ponha pé no chão e pise forte, que

o terreno é nosso. Minha casa, já lh'o disse, é pobre, mas bastante

farta e a ninguem fica fechada.

Deu logo o exemplo, e descavalgou do cavallinho zambro, o qual foi por

si correndo em direcção a uma dependencia da casa com formas de tosca

estrebaria.

Apeou-se igualmente Cyrino, mas, ao penetrar n'uma especie de alpendre

de palha que ensombrava a frente toda, mostrou repentina e viva

contrariedade no gesto e na physionomia.

--Ora, Sr. Pereira, exclamou elle batendo com o tacão da bota n'um

sabugo de milho, só agora é que me lembro que as minhas cargas vão

todas tomar caminho do Leal e aqui me deixam sem roupa, nem

medicamentos. Que massada! Deviamos ter esperado na boca da sua picada.

Respondeu-lhe o mineiro todo desfeito em expansivo riso:

--Olé, pois o doutor é tão novato assim em viagens? Então pensa que

lá não deixei aviso seguro á sua gente? Não se lembra de um ramo

verde que puz bem no meio da estrada real?

--É verdade, confirmou Cyrino.

--E então? D'aqui a pouco a sua camaradagem está batendo o nosso

rasto. Entremos, que a fome já vai apertando.

Consistia a morada de Pereira n'um casarão vasto e baixo, coberto de

sapé, com uma porta larga entre duas janellas muito estreitas e mal

abertas. Na parede da frente que, talvez com o peso da coberta, bojava

sensivelmente fóra da vertical, grandes rachas longitudinaes mostravam

a urgencia de sérias reparações em toda aquella obra feita de terra

amassada e grandes páos a pique.

Ao oitão da direita existia encostado um grande paiol construido de

troncos de palmeiras, por entre os quaes iam rolando as espigas de

milho, com o continuo fossar dos porquinhos, que dalli não arredavam

pé.

Corrido na frente de toda a vivenda, via-se um alpendre de palha de

bority, sustentado por grossas taquaras, ligeiro appendice acrescentado

por occasião de alguma passada festa, em que o numero de convidados

ultrapassara os limites de abrigo da hospitaleira habitação.

Internamente era ella dividida em dous lanços: um, todo fechado, com

excepção da porta por onde se entrava, e que constituia o commodo

destinado aos hospedes: outro, á rectaguarda, pertencia, á familia,

ficando portanto completamente vedado ás vistas dos estranhos e sem

communicação interna com o compartimento da frente.

Era de barro compacto e socado o chão desta sala, vendo-se n'elle

signaes de que ás vezes alli se acendia fogo: pelo que estavam o sapé

do forro e o ripamento revestidos de luzidia e tenue camada, de picuman

que lhes dava brilho singular como se tudo fôra jacarandá envernizado.

--Isto aqui, disse Pereira penetrando na sala e sentando-se n'uma

tripeça de páo, não é meu, é de quem me procura. Poucos vêm cá de

certo parar, mas emfim é sempre bom contar com elles... Minha gente

mora na dependencia dos fundos.

E apontou para a parede fronteira á porta de entrada, fazendo um gesto

para mostrar que a casa se estendia além.

--Sr. Pereira, disse Cyrino recostando-se a uma solida marqueza, não se

incommode commigo de maneira alguma... Faça de conta que aqui não ha

ninguem.

--Pois então, retorquio o mineiro, deite-se um pouco, emquanto vou lá

dentro ver as novidades. A hora é mais de comer, que de cochilar; mas

espere deitadinho e a gosto, o que é sempre mais commodo do que ficar

de pé ou sentado.

Não desprezou o hospede o convite. Tirou o pala, puxou as botas e,

cruzando-as, fez dos canos travesseiros, em que descansou a cabeça.

Quem se colloca em posição horizontal, depois de vencidas umas

estiradas leguas, adormece com certeza. Depressa veio, pois, o somno

cerrar as palpebras do recem-chegado a entumecer-lhe o peito com

socegada respiração.

Dormiu talvez hora e meia, e mais houvera dormido, se não fosse

acordado pelo tropel de animaes que paravam, e por grita de gente a pôr

cargas em terra. Assomou Pereira á porta com ar jovial.

--Então que lhe disse eu?

--De facto; estou agora socegado.

--E o Sr. tomou uma boa _data_[31] de somno.

--_Quem sabe_[32] uma hora?

--Boa duvida, se não mais. Fiquei todo esse tempo ao lado de

_Nocencia_, que de frio batia o queixo, como se estivesse agora em

Ouro-Preto, quando cahe geada na rua.

--Então não vae melhor?

--Qual!... Depois que o Sr. tiver comido, ha-de ir vel-a. Está,

pobresinha, tão desfeita que parece doente de uns tres mezes atraz.

--Felizmente, observou Cyrino com alguma enfatuação, aqui estou eu

para pôl-a de pé em pouco tempo.

--Deus o ouça, disse Pereira com verdadeira uncção.

--Patricios! Ó gente! gritou elle em seguida para os dois camaradas

chegados de pouco, vão mecês sentar naquelle rancho, alli. Perto ha

boa agua, e lenha é o que não falta: basta estender o braço. Olhem

dêm ração de fartar aos animaes. Aproveitem o milho, emquanto ha: é

a _sustancia_ desses bichos. Aqui, vendo-o baratinho. Um _atilho_[33]

por um _cobre_[34] e não são espigas chochas, nem de grão

_soboró_[35]. Eh! lá! Maria Conga, vamos com isso!... _janta_ a

mesa!...

Foram o chamado e as indicações de Pereira cumpridas sem demora.

Appareceu a velha escrava, que estendeu em larga e mal aplainada mesa

uma toalha de algodão, grosseira mas muito alva, sobre a qual derramou

duas boas cuias de farinha de milho: depois, emborcou um prato fundo de

louça azul, e ao lado collocou uma colher e um garfo de metal.

--Sente-se, doutor, disse Pereira para Cyrino, agora não _manduco_ com

mecê, porque já petisquei lá dentro. Desculpe se não achar a comida

do seu agrado.

Vinha nesse momento entrando Maria Conga com dois pratos bem cheios e

fumegantes, um de feijão cavallo, outro de arroz.

--E as hervas? peguntou Pereira. Não ha?

--Nhôr-sim. Eu trago já, respondeu a preta que com effeito voltou

d'ahi a pouco.

Tornou o mineiro a desculpar-se da insufficiencia e mau preparo da

comida.

--Não lhe dou hoje lombo de porco; mas o promettido não cae em

esquecimento, isto lhe posso assegurar.

--Estou muito contente com o que ha, protestou com sinceridade Cyrino.

E, de facto, pelo modo porque começou a comer, repetindo animadas vezes

dos pratos, deu evidentes mostras de que falava inteira verdade.

--Maria, disse Pereira para a escrava que se fora collocar a alguma

distancia da mesa com os braços cruzados, traz agora _mel_[36] e café

com _doce_[37].

--Ah! exclamou Cyrino com patente satisfacção estirando os braços,

fiquei que nem um ovo. O feijão estava de patente. Louvado seja Nosso

Senhor Jesus Christo, que me deu este bom agasalho.

--Amen! respondeu Pereira.

--Agora, amigo meu, disse o moço depois de pequena pausa, estou ás

suas ordens; podemos ver a sua doentinha e aproveitar a parada da febre

_para mim_[38] atalhal-a de prompto. Em taes casos, não gosto de

adiamentos.

Cobriu-se o rosto do mineiro de ligeira sombra: franziram-se lhe os

sobrolhos, e vaga inquietação lhe pairou na fronte.

--Mais tarde, disse elle com precipitação.

--Nada, meu senhor, retrucou Cyrino, quanto mais cedo, melhor. É o que

lhe digo.

--Mas, que pressa tem mecê? perguntou Pereira com certa desconfiança.

--Eu? respondeu o outro sem perceber a intenção, nenhuma. É mesmo

para bem da moça.

Acenderam-se os olhos de Pereira de repentino brilho.

--E como sabe que minha filha é moça? exclamou com vivacidade.

--Pois não foi o senhor mesmo quem mo disse na _prosa_ do caminho?

--Ah! ... é verdade. Ella ainda não é moça... Quatorze, quinze

annos, quando muito... Quinze annos e meio... Uma creança,

coitadinha!...

--Emfim, replicou o outro, seja como fôr. Quando o Sr. quizer, venha

procurar-me. Emquanto espero, remexerei nas minhas malas e tirarei

alguns remedios para tel-os mais á mão.

--Muito que bem, aprovou Pereira, bote os seus _trens_[39] naquelle

canto e fique descansado: ninguem bulirá nelles... Quanto a minha

filha ... eu ja venho ... dou um pulo lá dentro, e ... depois

conversaremos.

[Nota 31: Quantidade, porção.]

[Nota 32: Talvez.]

[Nota 33: Um atilho compôe-se de 4 espigas amarradas.]

[Nota 34: Dois vintens.]

[Nota 35: Soboró é o grão falhado.]

[Nota 36: Melado.]

[Nota 37: Rapadura de assucar.]

[Nota 38: É este erro commum no interior de todo o Brazil e sobretudo

na provincia de S. Paulo, onde pessoas até illustradas nelle incorrem

com frequencia.]

[Nota 39: Trem na provincia de Matto-Grosso é uma das palavras mais

empregadas e com as mais singulares accepções. Neste caso significa

objectos, cargas etc.]

CAPITULO V

AVISO PREVIO

Onde ha mulheres, ahi se congregam

todos os males a um tempo.

MENANDRO.

Nunca é bom que um homem sensato

eduque seus filhos de modo a desenvolver-lhes

de mais o espirito.

EURIPIDES.--_Medéa._

Filhos, sois para os homens o encanto

da alma.

MENANDRO.

Estava Cyrino fazendo o inventario da sua roupa e já começava a

anoitecer, quando Pereira novamente a elle se chegou.

--Doutor, disse o mineiro, pode agora mecê entrar para ver a pequena.

Está com o pulso que nem um fio, mas não tem febre de qualidade

nenhuma.

--Assim é _bem melhor_[40], respondeu Cyrino.

E, arranjando precipitadamente o que havia tirado da canastra, fechou-a

e pôz-se de pé.

Antes de sahir da sala, deteve Pereira o hospede com ar de quem

precisava tocar em assumpto de gravidade e ao mesmo tempo de difficil

explicação.

Afinal começou meio hesitante:

--Sr. Cyrino, eu cá sou homem muito bom de genio, muito amigo de

todos, muito accommodado e que tenho o coração perto da boca, como

vosmecê deve ter visto.

--Por certo, concordou o outro.

--Pois bem, mas ... tenho um grande defeito; sou muito desconfiado. Vae

o doutor entrar no interior da minha casa e ... deve portar-se como...

--Oh, Sr. Pereira! atalhou Cyrino com animação, mas sem grande

estranheza, pois conhecia o zelo com que os homens do sertão guardam da

vista dos profanos os seus aposentos domesticos, posso gabar-me de ter

sido recebido no seio de muita familia honesta e sei proceder como devo.

Expandiu-se um tanto o rosto do mineiro.

--Vejo, disse elle com algum acanhamento, que o doutor não é nenhum

_pé rapado_, mas nunca é bom facilitar... E já que não ha outro

remedio, vou dizer-lhe todos os meus segredos... Não mettem vergonha a

ninguem, com o favor de Deus; mas em negocios da minha casa não gosto

de bater lingua... Minha filha _Nocencia_ fez 18 annos pelo Natal, e é

rapariga que pela feição parece moça de cidade, muito ariscasinha de

modos, mas bonita e boa deveras... Coitada, foi creada sem mãe, e aqui

nestes _fundões_[41]. Tenho outro filho, este, um latagão, barbado e

_grosso_[42] que está trabalhando agora em porcadas para as bandas do

Rio.

--Ora muito que bem, continuou Pereira caindo aos poucos na habitual

garrulice, quando vi a menina tomar corpo, tratei logo de casal-a.

--Ah! é casada! perguntou Cyrino.

--Isso é, é e não é. A coisa está apalavrada. Por aqui costuma

labutar no costeio do gado para S. Paulo um homem de mão cheia, que

talvez o Sr. conheça ... o Manecão Dóca...

--Não, respondeu Cyrino abanando a cabeça.

--Pois _isso_ é um homem ás direitas, desempenado e _trabucador_[43]

como elle só ... fura estes sertões todos e vem tangendo[44] pontas de

gado que mettem pasmo. Tambem dizem que tem _bichado_[45] muito e

ajuntado cobre grosso, o que é possivel, porque não é gastador nem dado

a mulheres. Uma feita que estava aqui de pousada ... olhe, mesmo neste

logar onde estava mecê inda _agorinha_, falei-lhe em casamento ... isto

é, dei-lhe uns toques ... porque os paes devem tomar isso a

si para bem de suas _familias_[46]; não acha?

--Boa duvida, approvou Cyrino, dou-lhe toda a razão; era do seu dever.

--Pois bem, o Manecão ficou _ansim_ meio em duvida; mas quando lhe

mostrei a pequena, foi outra cantiga... Ah! tambem é uma menina!...

E Pereira, esquecido das primeiras prevenções, deu um muchôcho

expressivo, apoiando a palma da mão aberta de encontro aos grossos

labios.

--Agora, está ella um tanto desfeita; mas, quando tem saúde é

coradinha que nem mangaba do arêal. Tem cabellos compridos e finos como

sêda de paina, um nariz mimoso e uns olhos matadores...

--Nem parece filha de quem é...

A gabos imprudentes era levado Pereira pelo amor paterno.

Foi o que repentinamente pensou lá comsigo, de modo que, reprimindo-se,

disse com hesitação manifesta:

--Esta obrigação de casar as mulheres é o diabo!... Se não tomam

estado, ficam _jururús_ e _fanadinhas_...; se casam podem cair nas

mãos de algum marido malvado... E depois, as historias!... Hi, meu

Deus, mulheres numa casa, é coisa de metter medo... São redomas de

vidro que tudo pode quebrar... Emfim, minha filha, emquanto solteira,

honrou o nome de meus paes... O Manecão que se aguente, quando a tiver

por sua... Com gente de sáia não ha que fiar... Cruz! botam familias

inteiras a perder, emquanto o demo esfrega um olho.

Esta opinião injuriosa sobre as mulheres é, em geral, corrente nos

nossos sertões e traz como consequencia immediata e pratica, além da

rigorosa clausura em que são mantidas, não só o casamento

convencionado entre parentes muito chegados para filhos de menor edade,

mas sobretudo os numerosos crimes commettidos, mal se suspeita

possibilidade de qualquer intriga, amorosa entre pessoa da familia e

algum estranho.

Desenvolveu Pereira todas aquellas idéas e applaudiu a prudencia de

tão preventivas medidas.

--Eu repito, disse elle com calor, isto de mulheres, não ha que fiar.

Bem faziam os nossos do tempo antigo. As raparigas andavam direitinhas

que nem um fuso... Uma piscadella de olho mais duvidosa, era logo

páu... Contaram-me que hoje lá nas cidades ... arrenego! ... não ha

menina, por pobresinha que seja, que não saiba ler livros de letra de

forma e garatujar no papel ... que deixe de ir a _fonçonatas_ com

vestidos abertos na frente como _raparigas fadistas_ e que saracoteiam

em dansas e falam alto e _mostram os dentes_ por dá cá aquella palha

com qualquer _tafulão_ malcreado ... pois pelintras e beldroegas não

faltam... Cruz!... Assim, tambem é demais; não acha? Cá no meu modo

de pensar, entendo que não se maltratem as coitadinhas, mas tambem é

preciso não dar azas ás formigas... Quando ellas ficam taludas,

atamanca-se uma festança para casal-as com um rapaz decente ou algum

primo, e acabou-se a historia...

--Depois, acrescentou elle abrindo expressivamente com o pollegar a

palpebra inferior dos olhos, cautela e faca afiada para algum meliante

que se faça de[47] tolo e venha engraçar-se fóra de villa e termo...

Minha filha...

Pereira mudou completamente de tom:

--Pobresinha... Por esta não ha-de vir o mal ao mundo ... é uma

pombinha do céu ... Tão boa, tão carinhosa!... E feiticeira!! Não

posso com ella ... só o pensar em que tenho de entregal-a nas mãos de

um homem, bole commigo todo... É preciso, porém. Ha annos ... devia

já ter cuidado nesse arranjo, mas ... não sei ... cada vez que pensava

nisso ... caia-me a alma aos pés ... Tambem é menina que não foi

creada como as mais... Ah! Sr. Cyrino, isto de filhos, são pedaços do

coração que a gente arranca do corpo e bota a andar por esse mundo de

Christo.

Humedeceram-se ligeiramente os cilios do bom pae.

--O meu mais velho para, Deus sabe onde.... Se eu morresse neste

instante, ficava a pequena ao desamparo... Tambem, era preciso acabar

com esta incerteza... Além disso, o Manecão prometteu-me deixal-a aqui

em casa, e deste modo fica tudo arranjado ... isto é remediado, filha

casada é traste que não pertence mais a pae.

Houve uns instantes de silencio.

--Agora, proseguiu Pereira com certo vexame, que eu tudo lhe disse,

peço-lhe uma coisa: veja só a doente e não olhe para _Nocencia_ ...

falei assim a mecê, porque era de minha obrigação... Homem nenhum,

sem ser muito chegado a este seu creado, pisou nunca no quarto de minha

filha... Eu lhe juro... Só em casos destes de extrema _percisão_...

--Sr. Pereira, replicou Cyrino com calma, já lhe disse e torno-lhe a

dizer que, como medico, estou ha muito tempo acostumado a lidar com

familias e a respeital-as. É este meu dever, e até hoje, graças a

Deus, a minha fama é boa... Quanto ás mulheres, não tenho as suas

opiniões, nem as acho razoaveis nem de justiça. Entretanto, é inutil

discutirmos, porque sei que isso são prevenções vindo de longe, e

quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita.... O Sr. falou-me com

toda a franqueza, e tambem com franqueza, lhe quero responder. No meu

parecer, as mulheres são tão boas como nós, senão melhores: não ha

pois motivo para tanto desconfiar dellas e ter os homens em tão boa

conta... Emfim, essas suas idéas podem quadrar-lhe á vontade, e é

costume meu antigo a ninguem contrariar, para viver bem com todos e

delles merecer o tratamento que julgo ter direito a receber. Cuide cada

qual de si, olhe Deus para todos nós, e ninguem queira arvorar-se em

palmatoria do mundo.

Tal profissão de fé, expedida em tom dogmatico e superior, pareceu

impressionar agradavelmente a Pereira, que fôra applaudindo com

expressivo movimento de cabeça a sensatez dos conceitos e a fluencia da

phrase.

[Nota 40: Locução muito usual no interior.]

[Nota 41: Sertões.]

[Nota 42: Gordo.]

[Nota 43: Trabalhador.]

[Nota 44: Este elegante verbo é muito usado no interior.]

[Nota 45: Feito bichas, ganho dinheiro.]

[Nota 46: Filhas.]

[Nota 47: _Fazer-se_ de brazileirismo corrente no interior do paiz.]

CAPITULO VI

INNOCENCIA

Nesta donzella é que se acham juntas

a minha vida e a minha morte.

HENOCH.--_O livro da amizade._

Jamais vira cousa tão perfeita como

o seu rosto pallido, os seus olhos franjados

de sedosos cilios muito espessos

e o seu ar meigo e doentio.

GEORGE SAND.--_Os mestres gaiteiros._

Tudo, em Fenella, realçava a idéa

de uma miniatura. Alem do mais, havia

em sua physionomia e, sobretuto no

olhar, extraordinaria promptidão, fogo

e atilamento.

WALTER SCOTT.--_Peveril do Pico._

Depois das explicações dadas ao seu hospede, sentiu-se o mineiro mais

despreoccupado.

--Então, disse elle, se quizer, vamos já ver a nossa doentinha.

--Com muito gosto, concordou Cyrino.

E, sahindo da sala, acompanhou Pereira, que o fez passar por duas

cêrcas e rodear a casa toda, antes de tomar a porta do fundo, fronteira

a um magnifico laranjal, naquella occasião todo pontuado das brancas e

olorosas flores.

--Neste lugar, disse o mineiro apontando para o pomar, todos os dias se

juntam tamanhos bandos de _graúnas_[48], que é um barulho dos meus

peccados. _Nocencia_ gosta muito disso e vem sempre coser debaixo do

arvoredo. É uma menina exquesita...

Parando no limiar da porta, continuou com expansão:

--Nem o senhor imagina ... ás vezes, aquella criança tem lembranças e

perguntas que me fazem _embatucar_ ... Aqui, havia um livro de horas da

minha defunta avó.

... Pois não é que um bello dia ella me pediu que lhe ensinasse a

ler?... Que idéa!

... Ainda ha pouco tempo me disse que quizera ter nascido princeza... Eu

lhe retruquei: E sabe você o que é ser princeza? Sei me _secundou_[49]

ella com toda a clareza, é uma moça muito boa, muito bonita, que tem

uma coroa de diamantes na cabeça, muitos _lavrados_[50] no pescoço e

que manda nos homens... Fiquei meio tonto. E se o senhor visse os modos

que tem com os bichinhos?!... Parece que está falando com elles e que

os entende... Uma _bicharia_[51], em chegando ao pé de _Nocencia_,

fica mansa que nem ovelhinha parida de fresco... Se fosse agora a

contar-lhe historias dessa rapariga, seria um não acabar nunca...

Entremos, que é melhor...

Quando Cyrino penetrou no quarto da filha do mineiro, era quasi noite,

de maneira que, no primeiro olhar que atirou ao redor de si, só pôde

lobrigar, alem de diversos trastes de formas antiquadas, uma dessas

camas, muito em uso no interior; altas e largas, feitas de tiras de

couro engradadas. Estava encostada a um canto, e nella havia uma pessoa

deitada.

Mandara Pereira accender uma vela de sebo. Vinda a luz, aproximaram-se

ambos do leito da enferma que, achegando ao corpo e puxando para debaixo

do queixo uma coberta de algodão de Minas, se encolheu toda, e se

voltou para os que entravam.

[Ilustração: Está aqui o doutor, disse-lhe Pereira.]

--Está aqui o doutor, disse-lhe Pereira, que vem curar-te de vez.

--Boas noites, dona, saudou Cyrino.

Timida voz murmurou uma resposta, ao passo que o joven, no seu papel do

medico, se sentava n'um escabello junto á cama e tomava o pulso á

doente.

Caía então a luz de chapa sobre ella, illuminando-lhe o rosto, parte

do collo e da cabeça, coberta por um lenço vermelho atado por traz da

nuca.

Apezar de bastante descorada e um tanto magra, era Innocencia de belleza

deslumbrante.

Innocencia · 第 2 / 13 段