VISCONDE DE TAUNAY
INNOCENCIA
Decimo Primeiro Milheiro
1906
N. FALCONE & Cia.--editores
65--Rua de S. Bento--65
S. PAULO
INDICE
CAPITULO
I. O sertão e o sertanejo
II. O viajante
III. O doutor
IV. A casa do mineiro
V. Aviso previo
VI. Innocencia
VII. O naturalista
VIH. Os hospedes da meia-noite
IX. O medicamento
X. A carta de recommendação
XI. O almoço
XII. A apresentação
XIII. Desconfianças
XIV. Realidade
XV. Historias de Meyer
XVI. O empalamado
XVII. O morphetico
XVIII. Idyllio
XIX. Calculos e esperanças
XX. Novas historias de Meyer
XXI. Papilio Innocentia
XXII. Meyer parte
XXIII. A ultima entrevista
XXIV. A villa de Sant'Anna
XXV. A viagem
XXVI. Recepção cordial
XXVII. Scenas intimas
XXVIII. Em casa de Cesario
XXIX. Resistencia de corça
XXX. Desenlace
EPILOGO. Reapparece Meyer
A
José Antonio de Azevedo Castro
AMIGO DE INFANCIA
_Azevedo Castro_,
_Se nos antigos tempos da Grecia, me fora possivel erigir custoso
templo, dedicava-o á Amizade para no frontispicio gravar o teu querido
nome._
_Daquelle vivo sentimento permitte-me hoje, amigo, dentro do circulo de
fracos e limitados meios, qualquer demonstração._
_Não é em valioso monumento que vou inscrever a tua lembrança;
simplesmente na primeira pagina de uma narrativa campestre e
despretenciosa, de um livro singelo e sem futuro._
_Aceita-o como um dos mais espontaneos movimentos da minha alma, que
n'esta declaração sincera julga assentar direitos a completo indulto._
A. D'ESCRAGNOLLE--Taunay.
_Rio de Janeiro, 8 de Julho de 1872._
PREFACIO
Em pouco mais de dous annos esgotou-se a sexta edição de _Innocencia_
e a setima; os dous mil e quinhentos exemplares impressos em meiados de
1903 espalharam-se com relativa rapidez attendendo-se ao facto de que o
romance appareceu em 1873 e que a procura de livros no Brazil
infelizmente ainda não é das maiores.
Nos ultimos dous annos foi _Innocencia_ muitas vezes publicada em
folhetim por periodicos brazileiros e portuguezes; em volume porem só
temos conhecimento de duas edições novas; uma allemã, da traducção
de Karl Schuler, illustrada por Max Tilke e impressão da casa D. Dreyer
& Comp. de Berlim e outra da versão japoneza de Kawana Kwandzo pela
revista _Fastos Japonezes_.
Actualmente conta pois a formosa novella oito traducções enfeixadas em
volume das quaes, duas francezas, duas allemãs, uma ingleza, uma
hespanhola, uma italiana e uma japoneza; existindo alem dessas,
publicadas na imprensa uma em polaco e outra em dinamarquez.
É provavel que brevemente appareça mais uma edição ingleza de nova
versão dedicada ao Conselheiro José Antonio de Azevedo Castro,
padrinho do livro, a quem o Visconde de Taunay dedicava a mais extremada
amizade e affeição retribuida da mais forte maneira.
Soffreram os primeiros capitulos da presente edição ligeiros retoques,
á vista de originaes deixados pelo autor e que infelizmente não
estiveram ao alcance do revisor da sexta.
O nome dos acreditados livreiros editores Srs. N. Falcone & Comp. é um
cunho da elegancia da factura do livro.
S. Paulo, Dezembro de 1905.
... _Innocencia_. Este livro terá longa
vida, do mesmo modo que se póde,
ainda hoje, viajar a Escossia com as
novellas de Walter Scott por guias.
FRANCISCO OCTAVIANO.
INNOCENCIA
CAPITULO I
O SERTÃO E O SERTANEJO
Todos vós bem sentis a acção secreta
Da natureza em seu governo eterno;
E de infimas camadas subterraneas
Da vida o indicio á superficie emerge.
GOETHE.--_Fausto_, 2.ª parte.
Então com passo tranquillo mettia-me
eu por algum recanto da floresta,
algum lugar deserto, onde nada me indicasse
a mão do homem, me denunciasse
a servidão e o dominio; asylo em que
pudesse crêr ter primeiro entrado, onde
nenhum importuno viesse interpôr-se entre
mim e a natureza.
J. J. ROUSSEAU.--_O encanto da solidão._
Corta extensa e quasi despovoada zona da parte sul-oriental da
vastissima provincia de Matto-Grosso a estrada que da villa de Santa
Anna do Paranahyba vae ter ao sitio abandonado de Camapoan. Desde
aquella povoação, assente proximo ao vertice do angulo em que confinam
os territorios de S. Paulo, Minas-Geraes, Goyaz e Matto-Grosso até ao
rio Sucuriú, affluente do magestoso Paraná, isto é, no
desenvolvimento de muitas dezenas de leguas, anda-se commodamente, de
habitação em habitação, mais ou menos chegadas umas ás outras;
raream, porém, depois as casas, mais e mais, e caminha-se largas horas,
dias inteiros sem se ver morada nem gente até ao _retiro_[1] de João
Pereira, guarda avançada daquellas solidões, homem chão e
hospitaleiro, que acolhe com carinho o viajante desses alongados
páramos, offerece-lhe momentaneo agazalho e o provê da matolotagem
precisa para alcançar os campos de Miranda e Pequiry, ou da Vaccaria e
Nioac, no Baixo Paraguay.
Alli começa o sertão chamado _bruto_[2].
Pousos succedem a pousos, e nenhum tecto habitado ou em ruinas, nenhuma
palhoça ou tapera dá abrigo ao caminhante contra a frialdade das
noites, contra o temporal que ameaça, ou a chuva que está cahindo. Por
toda a parte, a calma da campina não arroteada; por toda a parte, a
vegetação virgem, como quando ahi surgio pela vez primeira.
A estrada que atravessa essas regiões incultas desenrola-se á maneira
de alvejante faixa, aberta que é na areia, elemento dominante na
composição de todo aquelle solo, fertilisado aliás por um sem numero
de limpidos e borbulhantes regatos, ribeirões e rios, cujos
contingentes são outros tantos tributarios do claro e fundo Paraná ou,
na contravertente do correntoso Paraguay.
Essa areia solta e um tanto grossa tem côr uniforme que reverbera com
intensidade os raios do sol, quando nella batem de chapa. Em alguns
pontos é tão fofa e movediça que os animaes das _tropas_ viajeiras
arquejam de cansaço, ao vencerem aquelle terreno incerto, que lhes foge
de sob os cascos e onde se enterram até meia canella.
Frequentes são tambem os desvios, que da estrada partem de um e outro
lado e proporcionam, na matta adjacente, trilha mais firme, por ser
menos pisada.
Se parece sempre igual o aspecto do caminho, em compensação mui
variadas se mostram as paizagens em torno.
Ora é a perspectiva dos _cerrados_[3], não desses cerrados de arbustos
rachiticos, enfezados e retorcidos de S. Paulo e Minas-Geraes, mas de
garbosas e elevadas arvores que, se bem não tomem todas o corpo de que
são capazes á beira das aguas correntes ou regados pela lympha dos
corregos, comtudo ensombram com folhuda rama o terreno que lhes fica em
derredor e mostram na casca lisa a força da seiva que os alimenta; ora
são campos a perder de vista, cobertos de macega alta e alourada, ou de
viridente e mimosa gramma, toda salpicada de sylvestres flores; ora
successões de luxuriantes capões[4], tão regulares e symetricos em
sua disposição que surprehendem e embellezam os olhos; ora, emfim
charnecas meio apaúladas, meio seccas, onde nasce o altivo bority e o
gravatá entrança o seu tapume espinhoso.
Nesses campos, tão diversos pelo matiz das cores, o capim crescido e
resiccado pelo ardor do sol transforma-se em vicejante tapete de relva,
quando lavra o incendio que algum tropeiro, por acaso ou mero desenfado,
atêa com uma faulha do seu isqueiro.
Minando á surda na touceira queda a vivida scentelha. Corra d'ahi a
instantes qualquer aragem, por debil que seja, e levanta-se a lingua de
fogo esguia e tremula, como que a contemplar medrosa e vacilante os
espaços immensos que se alongam diante della. Soprem então as auras
com mais força, e de mil pontos a um tempo rebentam sofregas labaredas
que se enroscam umas nas outras, de subito se dividem, deslisam, lambem
vastas superficies, despedem ao céu rolos de negrejante fumo e voam,
roncando pelos matagaes de tabocas e taquaras, até esbarrarem de
encontro a alguma margem de rio que não possam transpor, caso não as
tanja para além o vento, ajudando com valente folego a larga obra de
destruição.
Acalmado aquelle impeto por falta de alimento, fica tudo debaixo de
espessa camada de cinzas. O fogo, detido em pontos, aqui, alli, a
consumir com mais lentidão algum estorvo, vai aos poucos morrendo até
se extinguir de todo, deixando como signal da avassalladora passagem o
alvacento lençol, que lhe foi seguindo os velozes passos.
Atravez da atmosphera ennublada mal póde então coar a luz do sol. A
incineração é completa, o calor intenso, e nos ares revoltos volitam
palhinhas carboretadas, detritos, argueiros e granulos de carvão que
redemoinham, sobem, descem e se emmaranham nos sorvedouros e
adelgaçadas trombas, caprichosamente formadas pelas aragens, ao
embaterem umas de encontro ás outras.
Por toda a parte melancolia; de todos os lados tetricas perspectivas.
É cahir, porém, dahi a dias copiosa chuva, e parece que uma varinha de
fada andou por aquelles sombrios recantos a traçar ás pressas jardins
encantados e nunca vistos. Entra tudo n'um trabalho intimo de espantosa
actividade. Transborda a vida. Não há ponto em que não brote o capim,
em que não desabrochem rebentões com o olhar sofrego de quem espreita
azada occasião para buscar a liberdade, despedaçando as prisões de
penosa clausura.
Áquella instantanea resurreição nada, nada póde pôr peas.
Basta uma noite, para que formosa alfombra verde, verde-claro,
verde-gaio, assetinado, cubra todas as tristezas de há pouco.
Aprimoram-se depois os esforços; rompem as flores do campo que
desabotoam ás caricias, da brisa as delicadas corollas e lhe entregam
as primicias dos seus candidos perfumes.
Se falham essas chuvas vivificadoras, então por muitos e muitos mezes,
ahi ficam aquellas campinas, devastadas pelo fogo, lugubremente
illuminadas por avermelhados clarões sem uma sombra, um sorriso, uma
esperança de vida, com todas as suas opulencias e verdejantes pimpolhos
occultos, como que raladas de dor e mudo desespero por não poderem
ostentar as riquezas e galas encerradas no ubertoso seio.
Nessas afflictas paragens, não mais se ouve o piar da esquiva perdiz,
tão frequente antes do incendio. Só de vez em quando echoa o arrastado
guincho do algum gavião, que paira lá em cima ou bordeja ao chegar-se
á terra afim de agarrar um ou outro reptil chamuscado do fogo que
lavrou.
Rompe tambem o silencio o grasnido do caracará, que aos pulos procura
insectos e cobrinhas ou, junto ao solo, segue o vôo dos urubús, cujos
negrejantes bandos, guiados pelo fino olfacto, buscam a carniça
putrefacta.
É o caracará commensal do urubú. De parceria se atira, quando urgido
pela fome, á rez morta e, intromettido como é, a custo de alguma
bicada do pouco amavel conviva, belisca do seu lado no immundo repasto.
Se passa o caracará á vista do gavião, precipita-se este sobre elle
com vôo firme, dá-lhe com a ponta da aza, atordoa-o, atormenta-o só
pelo gosto de lhe mostrar a incontestada superioridade.
Nada, com effeito, o mette em brios.
Pelo contrario, mal levou dous ou tres encontrões do miúdo, mas audaz
adversario, baixa prudente á terra e põe-se ahi desageitadamente aos
saltos, apresentando o adunco bico ao antagonista, que com a extremidade
das azas levanta pó e cinza, tão de perto as arrasta ao chão.
Afinal, de cansado, deixa o gavião o folguedo, segurando de um bote a
serpesinha, que, em custoso rasto, procurava algum buraco onde fosse,
mais a salvo, pensar as fundas queimaduras.
II
Taes são os campos que as chuvas não vêm regar.
Com que gosto demanda então o sertanejo os capões que lá de bem longe
se avistam nas encostas das collinas e baixuras, ao redor de alguma
nascente orlada de pindahybas e boritys?!
Com que alegria não saúda os formosos coqueiraes, nuncios, da lympha
que lhe hade estancar a sede e banhar o afogueado rosto?!
Enfileiram-se ás vezes as palmeiras com singular regularidade na altura
e conformação; mas não raro amontoam-se em compactos massiços, dos
quaes se segregam algumas mais e mais, a acompanhar com as raizes
qualquer tenue fio d’agua, que collea falto de forças e quasi a
sumir-se na ávida areia.
Desde longe dão na vista esses capões.
É a principio um ponto negro, depois uma cupola de verdura, afinal,
mais de perto, uma ilha de luxuriante rama, oásis para os membros
lassos do viajante exhausto de fadiga, para os seus olhos encandeados e
sua garganta abrasada.
Então com sofreguidão natural acolhe-se elle ao sombreado retiro, onde
prestes desarreia a cavalgadura, á qual dá liberdade para ir pastar,
entregando-se sem demora ao somno reparador que lhe trará novo alento
para proseguir na cansativa jornada.
Ao homem do sertão afiguram-se taes momentos incomparaveis, acima de
tudo quanto possa idear a imaginação no mais vasto circulo de
ambições.
Satisfeita a sede que lhe seccara as fauces, e comidas umas colheres de
farinha de mandioca ou de milho, adoçada com rapadura, estira-se a fio
comprido sobre os arreios desdobrados e contempla descuidoso o
firmamento azul, as nuvens que se espacejam nos ares, a folhagem
lustrosa e os troncos brancos das pindahybas, a copa dos ipês e as
palmas dos boritys a ciciar a modo de harpas eólias, musicas sem conta
com o perpassar da brisa.
Como são bellas aquellas palmeiras!
O estipite liso, pardacento, sem manchas mais que pontuadas estrias,
sustenta denso feixe de peciolos longos e canulados, em que assentão
flabellas abertas como um leque, cujas pontas se acurvam flexiveis e
tremulantes.
Na base e em torno da coma, pendem, amparados por largas spathas, densos
cachos de cocos tão duros, que a casca luzidia revestida de escamas
rhomboidaes e de um amarello alaranjado desafia por algum tempo o ferreo
bico das araras.
Tambem com que vigor trabalham as barulhentas aves antes de conseguir a
appetecida e saborosa amendoa! Em grupos juntam-se ellas, umas vermelhas
como chispas soltas de intensa labareda, outras versicolores, outras
pelo contrario de todo azues, de maior viso e que, por parecerem negras
em distancia, tem o nome de _araraúnas_.[5] Alli ficam alcandoradas,
balouçando-se gravemente e atirando, de espaço a espaço, ás
immensidades das dilatadas campinas notas estridentes, quando não seja
um clamor sem fim, ao quererem muitas disputar o mesmo cacho. Quasi
sempre, porem estão a namorar-se aos pares, pousadas uma bem
encostadinha á outra.
Vê tudo aquillo o sertanejo com olhar carregado de somno. Cahem-lhe
pesadas as palpebras; bem se lembra de que por alli podem rastejar
venenosas alimarias, mas é fatalista; confia no destino e, sem mais
preoccupação, adormece com serenidade.
Correm as horas: vem o sol descambando; refresca a brisa, e sopra, rijo
o vento. Não ciciam mais os boritys; gemem, e convulsamente agitam as
flabelladas palmas.
É a tarde que chega.
Desperta então o viajante; esfrega os olhos; distende preguiçosamente
os braços; boceja; bebe uma pouca d'agua; fica uns instantes sentado, a
olhar de um lado para o outro e corre afinal a buscar o animal, que de
prompto ensilha e cavalga.
Uma vez montado, lá vai elle a passo ou a trote, bem disposto de corpo
e de espirito, por aquelles caminhos além, em demanda de qualquer pouso
onde pernoite.
Quanta melancolia baixa á terra com o cahir da tarde!
Parece que a solidão alarga os seus limites para se tornar
acabrunhadora. Ennegrece o solo; formam os matagaes sombrios massiços,
e ao longe se desdobra tenue véu de um roxo uniforme e desmaiado, no
qual, como linhas a meio apagadas, resaltam os troncos de uma ou outra
palmeira mais alterosa.
É a hora, em que se aperta de inexplicavel receio o coração. Qualquer
ruido nos causa sobresalto; ora o grito afflicto da zabelê nas mattas,
ora as plangentes notas do bacuráu a cruzar os ares. Frequente é
tambem amiudarem-se os pios angustiados de alguma perdiz, chamando ao
ninho o companheiro extraviado, antes que a escuridão de todo lhe
impossibilite a volta.
Quem viaja attento ás impressões intimas, estremece mau grado seu ao
ouvir n'esse momento de saudades o tanger de um sino muito, muito ao
longe ou o silvar distante de uma locomotiva impossivel. São insectos
occultos na macega que trazem essa illusão, por tal modo viva e
perfeita que a imaginação, embora desabusada e prevenida, ergue o vôo
e lá vai por estes mundos fóra a doudejar e a crear mil fantasias.
III
Espalham-se, por fim, as sombras da noite.
O sertanejo que de nada cuidou, que não ouviu as harmonias da tarde,
nem reparou nos esplendores do céu, que não viu a tristeza a pairar
sobre a terra, que de nada se arreceia, consubstanciado como está com a
solidão, pára, relanceia os olhos ao derredor de si e, se no lugar
presente alguma aguada, por má que seja, apeia-se, desensilha o cavallo
e, reunindo logo uns gravetos bem seccos, tira fogo do isqueiro, mais
por distracção do que por necessidade.
Sente-se deveras feliz. Nada lhe perturba a paz do espirito ou o
bem-estar do corpo. Nem sequer monologa, como qualquer homem acostumado
a conversar.
Raros são os seus pensamentos: ou rememora as leguas que andou, ou
computa as que tem que vencer para chegar ao termino da viagem.
No dia seguinte, quando aos clarões da aurora acorda toda aquella
esplendida natureza, recomeça elle a caminhar, como na vespera, como
sempre.
Nada lhe parece mudado no firmamento: as nuvens de si para si são as
mesmas. Dá-lhe o sol, quando muito, os pontos cardeaes, e a terra só
lhe prende a attenção, quando algum signal mais particular póde
servir-lhe de marco milliario na estrada que vai trilhando.
--Bom! exclama em voz alta e alegre ao avistar algum madeiro agigantado
ou uma disposição especial de terras, lá está a péuva grande...
Cheguei ao Barranco Alto. Até ao pouso de Jacaré ha quatro leguas bem
puxadas.
E, olhando para o sol, conclue:
--D'aqui a tres horas estou batendo fogo.
Occasiões ha em que o sertanejo dá para assoviar. Cantar, é raro;
ainda assim, á surdina; mais uma voz intima, um rumorejar comsigo, do
que notas sahidas do robusto peito. Responder ao pio das perdizes ou ao
chamado agoniado da esquiva jaó, é o seu divertimento em dias de bom
humor.
É-lhe indifferente o urro da onça. Só por demais repara nas muitas
pegadas, que em todos os sentidos ficam marcadas na arêa da estrada.
--Que bichão! murmura elle contemplando um rasto mais fortemente
impresso no solo; com um bom _onceiro_[6] não se me dava de acuar este
diabo e metter-lhe uma chumbada no focinho.
O legitimo sertanejo, explorador dos desertos, não tem, em geral,
familia. Em quanto moço, seu fim unico é devassar terras, pisar campos
onde ninguem antes puzera pé, vadear rios desconhecidos, despontar
cabeceiras[7] e furar mattas, que descobridor algum até então haja
varado.
Cresce-lhe o orgulho na razão da extensão e importancia das viagens
emprehendidas; e seu maior gosto cifra-se em enumerar as correntes
caudaes que transpoz, os ribeirões que baptisou, as serras que
trasmontou e os pantanaes que afoutamente cortou, quando não levou dias
e dias a rodeal-os com rara paciencia.
Cada anno que finda traz-lhe mais um valioso conhecimento e accrescenta
uma pedra ao monumento da sua innocente vaidade.
--Ninguem póde commigo, exclama elle emphaticamente. Nos campos da
Vaccaria, no sertão do Mimoso e nos _pantános_[8] do Pequiry, sou rei.
E esta presumpção de realeza infunde-lhe certo modo de falar e de
gesticular magestatico em sua singela manifestação.
A certeza que tem de que nunca poderá perder-se na vastidão, como que
o liberta da obsessão do desconhecido, o exalta e lhe dá foros de
infallibilidade.
Se estende o braço, aponta com segurança no espaço e declara
peremptoriamente:
--N'este rumo daqui a 20 leguas, fica o espigão mestre de uma serra
braba, depois um rio grosso; dalli a cinco leguas outro matto sujo que
vai findar n'um brejal. Se _vassuncê_ frechar direitinho assim umas
duas horas, topa com o pouso do Tatú, no caminho que vai a Cuyabá.
O que faz n'uma direcção, com a mesma, imperturbavel serenidade e
firmeza indica em qualquer outra.
A unica interrupção que aos outros consente, quando conta os innumeros
descobrimentos, é a da admiração. Á minima suspeita de duvida ou
pouco caso, incendem-se-lhe de colera as faces e no gesto denuncia
indignação.
--_Vassuncê_ não _credita_! protesta então com calor. Pois ensilhe o
seu bicho e caminhe como eu lhe disser. Mas _assumpte_[9] bem, que no
terceiro dia de viagem ficará decidido quem é _cavoqueiro_[10] e
_embromador_[11]. Uma cousa é _mapiar_[12] á toa, outra andar com
tento por estes mundos de Christo.
Quando o sertanejo vai ficando velho, quando sente os membros cansados e
entorpecidos, os olhos já ennevoados pela idade, os braços frouxos
para manejar a machadinha que lhe dá o substancial palmito ou o
saboroso mel de abelhas, procura então quem o queira para esposo,
alguma viúva ou parenta chegada, forma casa e escola, e prepara os
filhos e enteados para a vida aventureira e livre que tantos gozos lhe
dera outr'ora.
Esses discipulos, aguçada a curiosidade com as repetidas e animadas
descripções das grandes scenas da natureza, n'um bello dia desertam da
casa paterna, espalham-se por ahi além, e uns nos confins do Paraná,
outros nas brenhas de S. Paulo, nas planuras de Goyaz ou nas bocainas de
Matto-Grosso, por toda a parte emfim onde haja deserto vão pôr em
activa pratica tudo quanto souberam tão bem ouvir, relembrando as
façanhas do seu respeitado progenitor e mestre.
[Nota 1: Chama-se em Matto-Grosso _retiro_ o local em que os criadores
de gado reunem as rezes para as contar, marcar e dar-lhes sal.]
[Nota 2: Sem moradores.]
[Nota 3: Florestas de arbustos de 3 a 4 pés de altura mais ou menos,
mui chegados uns aos outros.]
[Nota 4: Excellente palavra brazileira derivada da lingua geral
_caá-púan_ (matto isolado).]
[Nota 5: Araras pretas.]
[Nota 6: Cão caçador de onças.]
[Nota 7: Despontar cabeceiras é rodear as nascentes do rios, procurando
sempre terreno enxuto.]
[Nota 8: No interior pronuncia-se a palavra grave e não esdruxula, mais
conforme assim com a etymologia.]
[Nota 9: Ver o assumpto, observar, attender.]
[Nota 10: Cavoqueiro é qualificativo empregado para exprimir qualquer
qualidade má.]
[Nota 11: Enganador.]
[Nota 12: Termo peculiar aos sertões de Matto-Grosso--quer dizer
parolar, tagarellar.]
CAPITULO II
O VIAJANTE
Proprio de espirito sorumbatico, é
andar sempre calado: tagarellar é o
encanto e a alma da vida.
LA CHAUSSÉE.
Commigo, respondeu Sancho, meu
primeiro movimento é logo tal comichão
de fallar que não posso deixar de desembuxar
o que me vem á bocca.
CERVANTES.--_D. Quixote._
O dia 15 de Julho de 1860 era dia claro, sereno e fresco, como costumam
ser os chamados de inverno no interior do Brazil.
Ia o sol alto em seu percurso, illuminando com seus raios, não muito
ardentes para regiões intertropicaes, a estrada, cujo aspecto ha pouco
tentámos descrever e que da villa de Sant'Anna do Paranahyba vai ter
aos campos de Camapoan.
Á essa hora, um viajante, montado n'uma boa besta tordilho-queimada,
gorda e marchadeira seguia aquella estrada. A sua physionomia e maneiras
de trajar denunciavam de prompto que não era homem de lida fadigosa e
commum ou algum fazendeiro daquellas cercanias que voltasse para casa.
Trazia na cabeça um chapéu do Chile de abas amplas e cingido de larga
fita preta, sobre os hombros um ponche-pala de variegadas cores e
calçava botas de couro da Russia bem feitas e em bom estado de
conservação.
Tinha quando muito vinte e cinco annos, presença agradavel, olhos
negros e bem rasgados, barba e cabellos cortados quasi á escovinha e ar
tão intelligente quanto decidido.
Na mão empunhava uma comprida vara que havia pouco cortara, e com que
ia distrahidamente fustigando o ar ou batendo nos ramos de arvores que
se dobravam ao alcance do braço.
Vinha só e, no momento em que damos começo a esta singela historia,
achava-se no bonito trecho de caminho que medeia entre a casa de Albino
Lata e a do Leal, a sete boas leguas da sezonatica e decadente villa de
Sant'Anna do Paranahyba.
Nesta porção de estrada, ensombrada pelas arvores de vistoso cerrado,
o leito, ainda que já bastante arenoso, é firme e parece mais álea de
bem tratado jardim, do que caminho de tropas e carreadores.
Ainda augmenta os encantos daquelle lance a innumera quantidade de rolas
caboclas a brincar na areia e de pombas de cascavel, cujo bater de azas
produz um arruido tão caracteristico e singular.
O nosso viajante, se caminhava distrahido e meio pensativo, não
parecia, comtudo, de genio sombrio ou pouco divertido.
Muito ao contrario, sacudia ás vezes o torpôr em que vinha e entrava a
cantarolar, ou assoviar, esporeando a valente cavalgadura, que na marcha
que tomava ia abanando alternadamente as orelhas com o movimento
cadencial da cabeça.
N'uma dessas reacções contra alguma preoccupação, disse em voz alta,
puxando por um relogio de prata, seguro em corrente do mesmo metal:
--Ás duas horas pretendo sestear no paiol do Leal. Falta pouco para o
meio dia, e tenho tempo diante de mim a botar fóra...
Moderou, pois, a andadura que levava o animal e mais activamente
recomeçou a zurzir os galhos das arvores bocejando de tedio.
Tambem pouco tempo caminhou só, por isto que em breve ao seu lado
emparelhou outro viajante, escanchado n'um cavallinho feio e zambro, mas
muito forte, o qual, coberto como estava de suor, mostrava ter vindo
quasi a galope.
Homem já de alguma idade, o recem-chegado era gordo, de compleição
sanguinea, rosto expressivo e franco. Trajava á mineira e parecia como
realmente era, morador daquella localidade.
[Ilustração: Olá, patricio, exclamou conchegando a cavalgadura.]
--Olá, patricio, exclamou elle conchegando a cavalgadura á da pessoa a
quem interpellava, então se vai botando para Camapoan?
Olhou o nosso cavalleiro com desconfiança e sobranceria para quem o
interrogava tão sem ceremonia e meio-enviezado respondeu:
--Talvez sim ... talvez não ... Mas a que vem a pergunta?
--Ah! desculpe-me, replicou o outro rindo-se, nem siquer o saudei... Sou
mesmo um estabanado... Deus esteja comvosco. Isto sempre me acontece...
A minha lingua fica as vezes tão douda que se põe logo a bater-me nos
dentes ... que é um Deus nos acuda e ... não ha que avisar: agua vae!
Olhe, por vezes já me tem vindo damno, mas que quer? É sestro
antigo... Não que eu seja malcriado, Deus de tal me defenda,
_abrenuncio_; mas pega-me tal comichão de fallar que vou logo, sem tir-te,
nem guar-te, dando á taramela...
A volubilidade com que foram ditas estas palavras causou certo espanto
ao mancebo e o levou a novamente encarar o inopinado companheiro, desta
feita com mais demora e ar menos altivo.
Notou então a physionomia alegre e bonachã do tagarella e, com ar de
sympathia, correspondeu ao communicativo sorriso daquelle que, á
força, queria travar conversação.
--Pelo que vejo, disse elle, o Sr. gosta de prosear.
--Ora se! retrucou o mineiro. Nestes sertões só sinto a falta de uma
cousa: é de um christão com quem de vez em quando dê uns dedos de
_parola_. Isto sim, por aqui é _vasqueiro_. Tudo anda tão calado!...
uma verdadeira caipiragem!... Eu, não. Sou das Geraes[13] _geralista_
como por cá se diz; nasci no Parahybuna, conheci no meu tempo pessoas
de muita educação, gente mesma de _truz_ e fui criado na Matta do Rio
como homem e não como bicho do _monte_[14].
--Ah! o senhor é de Minas?
--Geraes, se me faz favor. Baptizei-me em Vassouras, mas sou mineiro da
gemma. Andei séca e méca antes de vir deitar poita neste _paiz_. Isto
já faz muito tempo, pois tambem vou ficando velho. Ha mais de quarenta
annos pelo menos que sahi da casa dos meus pais...
E interrompendo o que dizia, perguntou:
--O senhor também é de Minas?
--Nhor-não, respondeu o outro. Sou caipira de S. Paulo: nasci na villa
de Casa-Branca, mas fui criado em Ouro-Preto.
--Ah! na cidade Imperial[15]?...
--Lá mesmo.
--Então é quasi de casa, replicou o mineiro rindo-se ruidosamente.
Ora, quem diria! Por isto me batia a passarinha, quando vi o seu rasto
fresco na areia. Ahi vai, disse eu por vezes com os meus botões um
sujeitinho que não tem pressa de pousar. Tambem tocando o meu
_canivete_, tratei de agarral-o para não fazer a viagem a olhar para o
céu e a banzar. Acha que obrei mal?
--Não, senhor, protestou o moço com affabilidade. Muito lhe agradeço
a intenção. Assim alcançarei sem cansaço o Leal, onde pretendo dar
hoje com os ossos.
--Oh! exclamou o outro todo expansivo, a caminhada é a mesma. Pois, meu
rico senhor, eu moro a meia legua do Leal, torcendo á esquerda, e se
vosmecê não tem compromissos lá com o homem fár-me-ha muito favor
agasalhando-se em tecto de quem é pobre, mas amigo de servir. Minha
tapera[16] é pouco retirada do caminho, e quem vem montado como o
senhor, não tem que andar contando bocadinhos de leguas.
Convite tão espontaneo e amavel não podia deixar de ser bem aceito,
sobretudo naquellas alturas, e trouxe logo entre os dous caminhantes a
familiaridade que tão depressa se estabelece em viagem.
--Com toda a satisfacção irei parar em sua casa, retrucou o joven.
Nunca vi o Leal, pois agora é a primeira vez que cruzo este sertão, e
ando de pouso em pouso, pedindo um cantinho de paiol ou de rancho para
passar a noite com os meus camaradas.
--Traz então tropa?
--Tropa, não; apenas dous bagageiros que vem com as minhas cargas e uma
besta á _dextra_.
--Olá! o amigo viaja á fidalga, observou o mineiro com gesto
folgazão.
--Qual!... Bastantes privações tenho já cortido.
--De certo não as sentirá em nossa casa todo o tempo que lá quizer
ficar. Não encontrará _luxarias_[17] nem cousas da capital, unicamente
o que se póde ter nestes _mundos_[18]: quatro paredes de páo a pique
mal rebocadas, uma cama de vento, bom feijão a fartar, hervas á
mineira, arroz de papa, farinha de milho torradinha, café com rapadura
e talvez até um lombo fresco de porco.
--Olá! exclamou o moço rindo-se com expansão, vou passar vida de
capitão-mór. Não queria tanto, bastava-me...
--O que sobretudo desejo é que tenha commigo o coração na boca. Se
não gostar do passadio, vá logo _desembuxando_. Na minha rancharia
pousa pouca gente, porque fica para dentro da estrada ... assim, talvez
lhe falte alguma cousa; em todo o caso farei pelo melhor...
Depois de breve pausa, continuou:
--_Mas porem_ creio que já é occasião, agora que nos conhecemos como
dous amigos do tempo do Rojão, saber com quem lidamos. Eu, quanto a
mim, me chamo Martinho dos Santos Pereira e a minha historia conto-lh'a
em duas palhetadas... Sua graça, ainda que mal pergunte?
--Cyrino Ferreira de Campos, respondeu o outro viajante, um criado para
o servir.
--Obrigado, agradeceu Pereira inclinando-se cortezmente e levando a mão
ao chapéu. Como lhe disse ha pouco, minha historia é historia de entrar
por uma porta e sahir por outra. Minha gente não é de má raça, pelo
contrario; meu pai, que Deus lhe dê a gloria, possuia alguma cousa de
seu e deixou aos seus muitos filhos um nome limpo e respeitado. Cada
qual de nós--eramos sete--tomou o seu rumo. Quanto a mim, casei muito
mocinho e fui morar na Diamantina, onde abri casa de negocio. Depois de
alguns annos, uns bons, outros _caipóras_, morreu minha dona e
mudei-me, a principio, para Piumhy e mais tarde para Uberaba. A vida
começou a desandar-me de todo, e fiz logo este calculo: estar tão
longe, antes afundar-me no matto de uma boa feita. Vendi minha lojinha
de ferragens e internei-me até cá com tres escravos. Ha doze annos que
moro nestes _socavões_[19] e, palavra de honra, até ao presente não
me tenho arrependido. Na minha situação ha fartura, e louvado seja!
nunca passei necessidade... Não posso por isto queixar-me sem
ingratidão. Deus Nosso Senhor Jesus Christo tem olhado para mim, e me
julgo bem amparado, sobretudo quando me lembro do _despotismo_[20] de
miserias, que vai por estas terras fóra... Cruzes! nem falar n'isto é
bom... Diga-me porém uma cousa: vosmecê para onde se atira?
--Homem, Sr. Pereira, não tenho destino certo.
--Deveras? Então está caminhando á toa?
--Eu ponho-lhe já tudo em pratos limpos. Ando por estes _fundões_[21]
curando maleitas e feridas _brabas_.
--Ah! exclamou Pereira com manifesto contentamento, vosmecê é doutor,
não é? Physico, como chamavam os nossos do tempo de dantes.
--É facto, confirmou Cyrino com alguma satisfacção.
--Ora, pois, muito que bem, cahe-me a sopa no mel; sim, senhor, vem
mesmo ao pintar ... a talhe de fouce.
--Porque?
--Daqui a pouco saberá... Mas, diga-me ainda... Onde é que vosmecê
leu nos livros, aprendeu suas historias e bruxarias? Na côrte do
Imperio?
--Não, respondeu Cyrino, primeiro no collegio do Caraça; depois fui
para Ouro Preto, onde tirei carta de pharmacia.
E acrescentou com infatuação:
--Desde então tenho batido todo o poente de Minas e feito curas que é
um milagre.
--Ah! a sabença é cousa boa... Eu tambem tinha geito para saber mais
do que lêr e escrever, isto mesmo _malmente_; mas quem nasceu para
carreiro, vira, mexe, larga e pega, sempre acaba junto ao carro. Com o
que, entonces, vosmecê entende de curar?...
--Entendo, affirmou Cyrino sem o menor constrangimento.
--Pois cahiu-me muito ao geito na mão; sim, senhor. Estou com uma
menina doente de maleitas, minha filha, e por essa causa tinha ido a
Sant'Anna buscar quina do commercio; mas lá não havia da maldita e
voltava bem agoniado. Ora...
--Trago, interrompeu o outro, muito remedio nas minhas malas. Para
sezões, tenho uma composição infallivel...
--Já se sabe; entra composição de quina. Deveras é santa mézinha. A
pequena tomou a do campo; mas essa pouco _talento_[22] tem, de maneira
que a sezão não lhe deixou o corpo.
--Ha quantos dias appareceu o tremor de frio? perguntou o intitulado
doutor.
--Faz hoje, salvo engano, dez dias.
Até agora era uma rapariga _forçuda_, sadia e rosada como um jambo;
nem sei até como lhe entrou a maleita no corpo. Ninguem póde fiar-se
na tal villa de Sant'Anna; é uma peste de febres. Eu bem a não queria
levar até lá; mas ella pediu tanto que consenti! demais como era para
ver a madrinha, uma boa senhora, de muita _circumstancia_[23], a mulher
do major Mello Taques... Não conhece?
--Pois não.
--E dá-se com o major? perguntou Pereira para abrir novo campo á sua
garrulice.
--Quando pousei na villa, estive com elle.
--E não gostou? Aquillo sim é homem ás direitas. Tambem é páu para
toda a obra na Senhora Sant'Anna é o _tutú_[24] de lá. Em querendo
taramelar um pouco mais a meu gosto, busco o compadre. Isto arma logo
uma conversa que me dá um fartão... E depois pessoa de muitas
lettras... Escreve ao governo; é juiz de paz, major reformado, serve de
juiz municipal, já fez a campanha dos Farrapos lá no Rio Grande do Sul
para as bandas dos Castelhanos e merece muita estimação. Móra n'uma
casa de _andar_[25] e tem loja muito sortida, por signal que bem
baratinha para a distancia. E as historias que conta? É um nunca
acabar. O homem parece que sabe o Imperio de cór e salteado! Nem o
vigario! Olhe, Sr. Cyrino, vou dizer-lhe uma cousa, que talvez lhe
pareça embromação: ás vezes dou um pulo até á villa só para bater
lingua com o major, porque com esta gente daqui não se tira partido:
_escurraçada_ e arisca que é um Deus nos acuda! Então, como lhe ia
contando, galopeio até lá, e pego n'uma _mapiagem_[26] que me enche as
medidas. Não ha...
--Gabo-lhe a pachorra, atalhou Cyrino. Mas, diga-me, Sr. Pereira; farei
por aqui algum negocio?
--Homem, conforme. Gente doente é _matto_[27]: mas tambem _mofina_[28]
como ella só. Meio arredado da minha casa, fica o Coelho que está
morre não morre ha muitos annos, e é homem de boas patacas. Este, se
vosmecê o curar, talvez caia com os cobres. Tudo o mais é uma
_récula_ de gente _mais ou menos_.
--Vosmecê traz bastante quina do commercio? perguntou em seguida.
--Trago, respondeu Cyrino, mas é cara.
--Que é cara, bem sei. Pois é quanto basta, porque no fundo aqui tudo
são sezões.
Começou então o bom do Sr. Pereira a desenrolar as diversas molestias
que o haviam salteado no correr da vida, raras na verdade, mas todas
perigosas; e com esse thema ás ordens achou meios e modos de falar até
quasi perder o folego.
Recolheu-se o outro ao silencio e ouviu talvez preoccupado, ou em todo
caso, muito distrahidamente, o que lhe contava o seu novo amigo,
sahindo, de vez em quando, da apathica attenção para instigar com a
voz e o calcanhar a cavalgadura, quando esta parecia querer por si tomar
descanso ou buscava comer os rebentões mais appetitosos do capim a
grelar.
Afinal notou Pereira o tal ou qual abatimento do companheiro.
--Vosmecê a modo que está triste? disse elle. Deixou alguma cousa de
seu lá por traz?
--Homem, para ser franco, respondeu Cyrino dando um suspiro, deixei; e
essa cousa é uma divida ... divida de jogo.
--Isso é mau, retrucou o mineiro fechando um tanto a cara. Por causa
desse vicio e das mulheres, é que as cruzes nascem á beira das
estradas. Mas é _côco_[29] grosso?
--Trezentos mil réis.
--Já é _gimbo_[30] graúdo. E com quem jogou?
--Com o Totó Siqueira, de Sant'Anna. Por isto pretendeu atrazar-me a
viagem; mas prometti mandar-lhe tudo do Sucuriú por um camarada e
passei-lhe um papel. No que estou pensando, é se acharei até lá meios
de cumprir a palavra.
--Se lhe pagarem como devem, com certeza. Em todo o caso aperte um pouco
com os doentes.
--Não imagina, replicou Cyrino com verdadeiro sentimento, quanto me tem
amofinado essa maldita divida. Não pelo dinheiro, que delle faço pouco
caso; mas por ter pegado em cartas, cousa que nunca tinha feito na minha
vida; isto sim...
--Pois meu rico senhor, proseguiu Pereira, sirva-lhe esta de lição e
tome tento com a gente do sertão, não com esses que moram nas suas
casas, socegados e amigos de servir, mas com viajantes, homens de tropas
e carreiros. Isso sim, é uma sucia de jogadores que andam armados de
baralhos e visporas e, por dá cá aquella palha, empurram uma facada na
barriga de um christão ou descarregam uma garrucha na cabeça de um
companheiro, como se fosse em melancia podre. Depois, o demonio do jogo,
quando entra no corpo de um desgraçado, faz logo ninho e de lá pincha
fora a vergonha. Da má vida com raparigas airadas, fadistas e mulheres
á toa, ainda a gente endireita; mas com cartas e sortes, só na
caldeira de Pedro Botelho é que se cuida em mudar de rumo. Quem lhe
fala, teve um tio morador nas Traíras, para cá de Camapoan cinco
leguas, que trabalhava todo o anno na terra para vir jogar até perder o
ultimo _cobre_ nas rancharias do Sucuriú.
Pereira, de posse de tão largo assumpto, contou mil historias, umas
lugubres, outras jocosas, veridicas, inventadas na occasião ou
reproduzidas.
Haviam no entretanto os dous caminhado bastante. Inclinára-se no
horizonte o sol, e a briza da tarde já vinha soprando do lado do
poente, viva, perfumosa.
--Nós, observou o mineiro, com a nossa conversa deixámos os nossos
animaes vir cochilando. Também já está aqui a minha estradinha.
Metta-se nella, Sr. Cyrino; em frente ia parar no Leal: minha fazendola
começa neste ponto á beira do caminho e vai por ahi afóra até bem
longe, um mundo de alqueires de terra, que nem tem conta.
Ao dizer estas palavras, tomou elle a dianteira e dando a direita á
estrada geral, enveredou por uma aberta larga e muito sombreada que
levava com voltas e tortuosidades á margem rasa de copioso e limpido
ribeirão, de alveo areento, todo elle. Que sitio risonho, encantador,
esse, ensombrado por magestosa e elegante ingazeira, toda ponctuada das
mimosas e balsamicas floresinhas!
Os animaes, ao perceberem o bater da agua, apertaram o passo e, entrando
na fresca corrente quasi até aos peitos, estiraram o pescoço e
pozeram-se a beber ruidosamente, avançando aos poucos de encontro ao
fio caudal, para buscarem o que houvesse mais puro em lympha.
--Não deixe a sua besta se _empanzinar_ observou Pereira. Upa!
continuou elle puxando pela redea do cavallo e batendo-lhe amigavelmente
na pá do pescoço, upa, Canivete! Vamos matar a fome no milho!
Transposto o ribeirão, alargava-se a vereda e, depois de cortar copada
matta, abria-se n'uma verdadeira estrada, que os dous cavalleiros
tomaram a meio galope.
Trasmontava afinal o sol, quando, além de ralo mattagal, surgiu a ponta
de um mastro de S. João, que o mineiro saudou com mostras de grande
alegria, como signal percursor da querida vivenda.
Antes, porém, de n'ella penetrarmos, digamos quem era aquelle mancebo
que viajava ornado do pomposo titulo de doutor, e, o que mais é,
revestido de autoridade para ir, a seu talante, applicando remedios e
preconisando curas milagrosas.
[Nota 13: De Minas Geraes.]
[Nota 14: Matto.]
[Nota 15: É o titulo honorifico que tinha a capital de Minas-Geraes.]
[Nota 16: Casa velha e abandonada.]
[Nota 17: Superfluidades de luxo.]
[Nota 18: Lugares.]
[Nota 19: Buracos, lugares retirados.]
[Nota 20: Grande quantidade.]
[Nota 21: Sitios distantes, ermos.]
[Nota 22: Força, valentia. É quasi sempre tomado no sentido material.]
[Nota 23: Importancia.]
[Nota 24: _Tutú_, isto é, a pessoa de mais consideração e que tudo
póde. Pereira fala do major Martinho de Mello Taques, o qual morava com
effeito na villa de Sant'Anna do Paranahyba e gozava de merecida
influencia.]
[Nota 25: Sobrado.]
[Nota 26: Conversação.]
[Nota 27: Isto é: ha abundancia.]
[Nota 28: Pouco liberal.--Tambem quer dizer: ou doente ou covarde.]
[Nota 29: Dinheiro.]
[Nota 30: Quantia.]
CAPITULO III
O DOUTOR
Semeai promessas: a ninguem causam
desfalque, e o mundo é rico de palavras.
A esperança quando outros n'ella
creem faz ganhar muito tempo.
OVIDIO.
Ao morreres, dota a algum collegio
ou o teu gato.
POPE.
Sganarello--De toda parte vem gente
procurar-me, e se as cousas continuarem
assim, sou de parecer que de
uma vez devo dedicar-me á medicina.
Acho que de todos os officios é este o
preferivel por que, ou se faça bem ou
mal, sempre no fim ha dinheiro.
MOLIÈRE.--_O medico á força._
Nascera Cyrino de Campos, como dissera a Pereira, na provincia de S.
Paulo, na socegada e bonita villa de Casa-Branca, a qual demora umas 50
leguas do littoral. Filho de um vendedor de drogas, que se intitulava
boticario e a esse officio accumulava o importante cargo de
administrador do correio, crescera debaixo das vistas paternas até á
idade de doze annos, completos os quaes fôra enviado, em tempos de
festas e a titulos de recordação saudosa, a um velho tio e padrinho,
morador na cidade de Ouro-Preto, em Minas-Geraes.
Este parente, solteirão, de genio rabugento, misanthropo, e dado ás
praticas da mais extrema carolice, recebeu o pequeno com máu modo e
manifesto descontentamento, tanto mais quanto a presença de um estranho
vinha interromper os habitos de completa solidão a que se acostumara
desde longos annos.
Era homem que trajava ainda á moda antiga usando de sapatos de fivela,
calções de braguilha, e cabelleira empoada com o competente rabicho.
A sua reputação de pessoa abastada era, em toda a cidade de Ouro
Preto, tão bem firmada quanto a de refinado sovina, chegando a voz
publica a affirmar que o seu dinheiro, e não pouco, estava todo
enterrado em numerosos buracos no chão da alcova de dormir.
--Meu amigalhote, disse o tal padrinho a Cyrino, poucos dias depois da
chegada, fique sabendo que por qualquer cousinha lhe sacudo a poeira do
corpo. Dê-se por avisado e ande direitinho que nem um fuso.
O menino, transido de medo, passou a tarde a chorar n'um canto sombrio
da casa, onde relembrou, até lhe vir o somno, a alegre vida de
outr'ora, os folguedos que fazia com os camaradas na viçosa relva do
Cruzeiro á entrada da villa Casa-Branca e sobretudo os carinhos da
saudosa mamãe.
Em seguida áquella admoestação preventiva fôra o tio á casa de uns
padres que tinham influencia na direcção do Collegio do Caraça e com
elles arranjara a admissão do afilhado n'aquelle estabelecimento de
instrucção.
Como finorio que era, conseguiu este resultado sem muita difficuldade,
pagando-o, a juros compostos, com tentadoras promessas.
--Por ora, resmoneou elle, nada poderei fazer pela educação do rapaz;
mas ... emfim ... um dia ... estou já velho, e tratarei de mostrar que
não me esqueci dos bons padres que tanto me ajudam hoje.
Lançada, assim, a eventualidade de uma verba testamentaria, ficou
decidida a entrada de Cyrino na casa collegial.
O presentimento da falta de protecção natural torna as crianças
doceis e resignadas. Tambem não tugiu nem mugiu o caipirasinha ao
penetrar no internato em que devia passar tristonhamente os melhores
annos da sua adolescencia.
Optimo negocio fizera incontestavelmente o velho tio. Ia tão somente
desembolsando boas palavras e, por estar agarrado á vida, chegou até a
levar ao cemiterio dous dos padres que se haviam prendido ás
esperanças de valiosa recordação.
Afinal como tinha por seu turno que pagar o tributo universal, um bello
dia morreu quando menos se esperava, deixando muito recommendado um seu
testamento, que foi com effeito aberto com sofreguidão digna de melhor
exito.
Testamento havia, força é confessar; não já testamento, mas extenso
arrazoado todo da letra do velho; barras de ouro, porém, ou maços de
notas, nem sombra.
Esfuracou-se a casa de alto a baixo levantaram-se os soalhos;
escutaram-se todas as paredes; quebraram-se os moveis: nada appareceu,
nada denunciou esconderijo de riquezas, nem cousa que com isso se
avizinhasse.
Descobriu-se então que aquelle carola fôra um pensador desabusado,
antigo admirador de Xavier, o Tira-Dentes, que nunca tivera vintem e
vivera como philosopho, grazinando lá comsigo mesmo, de tudo e de
todos.
Era o seu testamento uma gargalhada meio de gosto, meio de ironia,
atirada de além tumulo e corroborada pelo legado sarcastico que em
pomposo codicillo, fazia aos padres do Caraça da sua bibliotheca
«afim, dizia elle, de ajudar a educação dos mancebos e auxiliar as
boas intenções dos seus honrados e virtuosos directores.»
Procuraram-se os taes livros, e topou-se com um bahú cheio de obras, em
parte devoradas pelo cupim, que foram, incontinenti, entregues ás
chammas de um grande auto de fé. Eram as Ruinas de Volney, o Homem da
Natureza, as poesias eroticas de Bocage, o Diccionario philosophico de
Voltaire, o Citador de Pigault-Lebrun, a Guerra dos Deuses de Parny, os
romances do Marquez de Sade e outras producções de igual alcance e
quilate, algumas até em francez, mas annotadas por leitor assiduo e
mais ou menos convencido.
A consequencia desse pesado gracejo posthumo, que destruia de raiz o
conceito de uma vida inteira, foi a immediata exclusão de Cyrino do
collegio do Caraça.
Tinha então dezoito annos e, como era vivo conseguiu, apezar da natural
pecha que lhe atirava o parentesco com o estrambotico e defunto
protector, ir servir de caixeiro n'uma botica velha e _manhosa_ onde
entre drogas e receituarios lhe foram voltando os habitos da casa
paterna.
Leve era o trabalho, e o aviamento de prescripções tão lento que os
ingredientes pharmaceuticos ficavam mezes inteiros nos embaçados e
esborcinados frascos á espera de que alguem se lembrasse de tiral-os
daquelle bolorento esquecimento.
Em localidade pequena, de simples boticario a medico não ha mais que um
passo. Cyrino, pois, foi aos poucos e com o tempo creando tal ou qual
pratica de receitar e, agarrando-se a um Chernoviz, já seboso de tanto
uso, entrou a percorrer, com alguns medicamentos no bolso e na mala da
garupa, as visinhanças da cidade á procura de quem se utilisasse dos
seus serviços.
Nessas curtas digressões principiou a receber o tratamento de doutor.
Então para melhor o firmar, depois de se ter despedido da botica em que
servia, matriculou-se na escola de pharmacia de Ouro-Preto com a
intenção de tirar a carta de boticario, que o presidente de Minas
Geraes tem o privilegio de conferir, dispensando documentos de qualquer
faculdade reconhecida.
Antes, porém, de conseguir a posse d'aquelle lisonjeiro documento,
fez-se Cyrino, n'um dia de capricho, de partida decidida e começou
então a viajar pelos sertões povoados a medicar, sangrar e retalhar,
unindo a alguns conhecimentos de valor positivo outros que a experiencia
lhe ia indicando ou que a voz do povo e a superstição lhe ministravam.
Toda a sua sciencia assentava alicerces no tal Chernoviz. Tambem era o
inesperavel _vade-mecum_; seu livro de ouro; Homero á cabeceira de
Alexandre. Noite e dia o manuseava; noite e dia o consultava á sombra
das arvores ou junto ao leito dos enfermos.