XV.

Leocadia era vigiada por toda a familia. Triste, sombria, e taciturna,

causava suspeitas ao coronel, que postára militarmente o auxiliar, de

sentinella, no pateo, de dia e de noite.

Quasi sempre no seu quarto, Leocadia meditava fugir. Não achava, porém,

o exito feliz dos seus planos. A fuga pela porta, unica evasiva que

tinha, era impossivel. Desanimada, toda a sua valentia moral reservou-a

para dizer «não quero» logo que seu pai a mandasse vestir-se para ir

receber a benção nupcial. Firme neste proposito, esperava, com coragem e

juramento de morrer, a hora da lucta horrivel, a formal desobediencia,

todas as torturas que podesse inflingir-lhe o pai irritado.

Tinham decorrido dous dias depois do passeio a Campolide, quando uma

antiga criada, que já o fôra da primeira mulher de Gervasio, voltou da

provincia, onde fôra visitar os seus parentes. Esta criada era aquella

Thereza, que eu vi na Foz.

A situação de Leocadia melhorou, porque Thereza chorava com ella,

aconselhando-lhe ao mesmo tempo obediencia a seu pai. O coronel, tambem

amigo da velha criada, pedia-lhe que desvanecesse com suavidade do

coração de sua filha uma paixão que fazia a infelicidade de todos.

Thereza não podia tanto. Conheceu as intenções da menina, e disse-as ao

coronel, affirmando-lhe que ella se deixaria matar, mas casar, não.

Depois de cinco dias de desgostos para o pobre pai, e de irritações

orgulhosas da madrasta, e suspeitas más de Francisco de Proença, e

continuadas lagrimas e reclusão de Leocadia, o coronel queixou-se de

violentas dores de cabeça, e febre.

Apenas se recolheu á cama, Leocadia foi sentar-se á cabeceira do seu

leito. Quando os medicos disseram que se declarava uma febre maligna, o

sobresalto operou uma subita mudança nas maneiras de Leocadia.

O sentimento desvaneceu-se. Quantas caricias uma boa filha tem no

coração todas ella empregou para adoçar as amarguras do pai enfermo.

O coronel queixou-se de serem desgostos moraes, causados por ella, os

que o tinham levado áquelle extremo. Leocadia lançou-se aos braços

febris de seu pai, pedindo-lhe perdão, e voltou-se a Nossa Senhora,

promettendo sacrificar-se ao homem que lhe destinavam se seu pai

recuperasse a saude. O coronel não ouvira o voto, mas adivinhou o

silencio de sua filha.

Ao setimo dia a febre recrudesceu. Eram curtos os intervallos da lucidez

que o delirio lhe consentia. N'um d'esses intervallos, o enfermo chamou

sua filha, e disse aos assistentes que se retirassem.

Pungentes palavras foram estas:

«Leocadia, creio que morro. Deixo-te, minha filha, n'um mundo que não

conheces. Parto, e tu ficas só. Quando eu fechar os olhos, fecharam-se

para sempre os unicos olhos que te viam com amor. Ficas sem parentes. De

tua mãi, ninguem já vive. De teu pai, tens dous tios no Brazil, que te

não conhecem. Que farás tu, filha, quando me levantarem morto desta

cama?

--Meu pai!--exclamou Leocadia com vehemente afflicção--meu querido pai,

não pense que morre...

«Morro, filha, morro; e, se a minha agonia fôr trabalhosa, é o coração

que se despedaça, separando-se de ti... Sem ti, morria tranquillamente.

Estou cançado, porque nunca soube o que era a felicidade nesta vida; a

da outra... a da outra, meu Deus, vós sabereis se eu a mereci com a

paciencia... Leocadia, queres que eu acabe em paz, que eu expire

abençoando-te?

--Sim, sim, meu pai... quero que viva, abençoando-me!--bradou ella,

beijando-lhe as mãos afogueadas.

«Então, filha, cumpre a minha vontade. Liga-te a esse homem que te ha-de

estimar, porque eu lh'o pedirei á minha ultima hora. Tu has-de ser feliz

com elle; has-de olhal-o sempre como o amigo que teu pai moribundo te

escolheu. Se elle te der algum motivo de soffrimento, quem os não tem

neste mundo?! Se soffreres, offerece-me as tuas dores e eu virei em

espirito agradecer-te o sacrificio. Serás então consolada, filha, pela

memoria de teu pai, que pensava fazer-te venturosa, embora se enganasse.

Responde-me, Leocadia... Casas com Francisco de Proença?

Leocadia tirou das entranhas um gemido, um soluço suffocante, e com elle

uma palavra que parecia a ultima da vida que vai n'ella:

--Sim...--disse ella.

O coronel, vencendo a fraqueza com grande esforço, pôde ainda sentar-se

no leito, alongando os braços para ella. A filha sustentava no hombro a

cabeça esvahida do enfermo, e refrigerava-lhe com lagrimas a mão

convulsa.

Seguiram-se minutos de silencio. Ouvia-se apenas o soluçar de ambos.

O coronel desprendeu-se dos braços da filha, e pendeu a cabeça para o

travesseiro. O sangue batia-lhe vertiginoso nas frontes. As palpebras

cerraram-se. Phrases interrompidas sahiam-lhe dentre os labios seccos e

quasi immoveis. Leocadia, assustada, chamou gente. A madrasta, vendo o

lethargo do marido, voltou-se para a enteada e disse com rancor:

«Quem mata meu marido é a senhora!

Veja a que estado o reduziu! É uma parricida snr.ª D. Leocadia!

Ha-de dar terriveis contas a Deus de ter arrastado seu pai á

sepultura... É uma filha amaldiçoada!»

Leocadia, não teve animo para responder-lhe. Pôz os olhos em seu pai, e

disse-lhe em seu coração: «Vós bem sabeis que não é verdade o que ella

diz!» e sahiu, apertando a cabeça com as mãos.

A medicina cobriu de causticos o doente. Os tormentos deram-lhe com a

irritabilidade uma vida de emprestimo. Dous dias se seguiram de

esperanças, porque o delirio era menos frequente, e alguns instantes de

dormir tranquillo vieram reparar-lhe as forças.

O coronel chamou a filha, tendo ao pé de si Francisco de Proença, e sua

mãi.

Á cabeceira d'elle estava um crucifixo e duas luzes. Eram os

preparatorios para o recebimento da extrema-uncção. O enfermo pedira um

confessor, que se achava já no quarto.

«Aproxima-te desta cruz, Leocadia--disse elle com energia--snr.

Francisco de Proença, eu entrego-lhe, minha filha. Comprehende o senhor

a valia deste thesouro que lhe entrego? Sabe como eu queria que o senhor

amasse esta creatura?

--Amal-a-hei quanto se póde amar nesta vida... disse Proença, sentindo

eriçarem-se-lhe os cabellos, commovido pela religiosidade do acto.

«Minha filha, ajoelha diante de Deus que nos escuta, e pede-lhe que faça

duraveis os bons sentimentos no coração de teu esposo, e que te faça a

ti sempre digna d'elles.

Leocadia ajoelhou, e Francisco de Proença, arrebatado pelo bello funebre

do lance, ajoelhou a par com ella.

E oravam todos mudamente. O coronel tinha as mãos erguidas. O padre

confessor, quebrou o silencio, erguendo-se, e tomando as mãos de

Leocadia.

«Estão accesas as luzes do altar.

A menina prepare-se, que eu quero ter o jubilo de ser o ministro deste

sacramento! Que união de tão bom agouro... Vamos, filhos.»

O frade graciano enchia a poesia santa do grupo!

Leocadia sahiu com sua madrasta.

Parecia somnambula. Julgal-a-hieis sem idéa, sem vontade, sem

consciencia do que fazia. Vestiram-na. Entrou n'uma sege, achou-se

ajoelhada no arco d'uma igreja, respondeu umas palavras que lhe

ensinaram, e viu-se sosinha com um homem, na sege, onde viera com sua

madrasta.

Conduziram-na ao quarto de seu pai. A vida então sahiu do lethargo.

Leocadia achou abertos os braços paternaes para recebêl-a. Lançou-se a

elles chorando, soluçando, arquejante, abafada por uma agonia, cuja

intensidade ella não pôde explicar-me. O que me disse, para eu alcançar

com os olhos d'alma a sombra da sua dôr, foi que, abraçando o pai na

volta da igreja, se lhe figurara a imagem moribunda de Vasco, fitando-a

com um olhar piedoso, em que parecia dizer-lhe: «perdoo-te a morte,

Leocadia.»

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O coronel sobreviveu quatro dias aos desposorios de sua filha.

O festim de nupcias foi um funeral.

A noticia do casamento foram as cartas de enterro.

A noiva despiu o vestido branco para se envolver no de crepe que nunca

mais despiu.

Scenas da Foz · 第 83 / 89 题