Leocadia era vigiada por toda a familia. Triste, sombria, e taciturna,
causava suspeitas ao coronel, que postára militarmente o auxiliar, de
sentinella, no pateo, de dia e de noite.
Quasi sempre no seu quarto, Leocadia meditava fugir. Não achava, porém,
o exito feliz dos seus planos. A fuga pela porta, unica evasiva que
tinha, era impossivel. Desanimada, toda a sua valentia moral reservou-a
para dizer «não quero» logo que seu pai a mandasse vestir-se para ir
receber a benção nupcial. Firme neste proposito, esperava, com coragem e
juramento de morrer, a hora da lucta horrivel, a formal desobediencia,
todas as torturas que podesse inflingir-lhe o pai irritado.
Tinham decorrido dous dias depois do passeio a Campolide, quando uma
antiga criada, que já o fôra da primeira mulher de Gervasio, voltou da
provincia, onde fôra visitar os seus parentes. Esta criada era aquella
Thereza, que eu vi na Foz.
A situação de Leocadia melhorou, porque Thereza chorava com ella,
aconselhando-lhe ao mesmo tempo obediencia a seu pai. O coronel, tambem
amigo da velha criada, pedia-lhe que desvanecesse com suavidade do
coração de sua filha uma paixão que fazia a infelicidade de todos.
Thereza não podia tanto. Conheceu as intenções da menina, e disse-as ao
coronel, affirmando-lhe que ella se deixaria matar, mas casar, não.
Depois de cinco dias de desgostos para o pobre pai, e de irritações
orgulhosas da madrasta, e suspeitas más de Francisco de Proença, e
continuadas lagrimas e reclusão de Leocadia, o coronel queixou-se de
violentas dores de cabeça, e febre.
Apenas se recolheu á cama, Leocadia foi sentar-se á cabeceira do seu
leito. Quando os medicos disseram que se declarava uma febre maligna, o
sobresalto operou uma subita mudança nas maneiras de Leocadia.
O sentimento desvaneceu-se. Quantas caricias uma boa filha tem no
coração todas ella empregou para adoçar as amarguras do pai enfermo.
O coronel queixou-se de serem desgostos moraes, causados por ella, os
que o tinham levado áquelle extremo. Leocadia lançou-se aos braços
febris de seu pai, pedindo-lhe perdão, e voltou-se a Nossa Senhora,
promettendo sacrificar-se ao homem que lhe destinavam se seu pai
recuperasse a saude. O coronel não ouvira o voto, mas adivinhou o
silencio de sua filha.
Ao setimo dia a febre recrudesceu. Eram curtos os intervallos da lucidez
que o delirio lhe consentia. N'um d'esses intervallos, o enfermo chamou
sua filha, e disse aos assistentes que se retirassem.
Pungentes palavras foram estas:
«Leocadia, creio que morro. Deixo-te, minha filha, n'um mundo que não
conheces. Parto, e tu ficas só. Quando eu fechar os olhos, fecharam-se
para sempre os unicos olhos que te viam com amor. Ficas sem parentes. De
tua mãi, ninguem já vive. De teu pai, tens dous tios no Brazil, que te
não conhecem. Que farás tu, filha, quando me levantarem morto desta
cama?
--Meu pai!--exclamou Leocadia com vehemente afflicção--meu querido pai,
não pense que morre...
«Morro, filha, morro; e, se a minha agonia fôr trabalhosa, é o coração
que se despedaça, separando-se de ti... Sem ti, morria tranquillamente.
Estou cançado, porque nunca soube o que era a felicidade nesta vida; a
da outra... a da outra, meu Deus, vós sabereis se eu a mereci com a
paciencia... Leocadia, queres que eu acabe em paz, que eu expire
abençoando-te?
--Sim, sim, meu pai... quero que viva, abençoando-me!--bradou ella,
beijando-lhe as mãos afogueadas.
«Então, filha, cumpre a minha vontade. Liga-te a esse homem que te ha-de
estimar, porque eu lh'o pedirei á minha ultima hora. Tu has-de ser feliz
com elle; has-de olhal-o sempre como o amigo que teu pai moribundo te
escolheu. Se elle te der algum motivo de soffrimento, quem os não tem
neste mundo?! Se soffreres, offerece-me as tuas dores e eu virei em
espirito agradecer-te o sacrificio. Serás então consolada, filha, pela
memoria de teu pai, que pensava fazer-te venturosa, embora se enganasse.
Responde-me, Leocadia... Casas com Francisco de Proença?
Leocadia tirou das entranhas um gemido, um soluço suffocante, e com elle
uma palavra que parecia a ultima da vida que vai n'ella:
--Sim...--disse ella.
O coronel, vencendo a fraqueza com grande esforço, pôde ainda sentar-se
no leito, alongando os braços para ella. A filha sustentava no hombro a
cabeça esvahida do enfermo, e refrigerava-lhe com lagrimas a mão
convulsa.
Seguiram-se minutos de silencio. Ouvia-se apenas o soluçar de ambos.
O coronel desprendeu-se dos braços da filha, e pendeu a cabeça para o
travesseiro. O sangue batia-lhe vertiginoso nas frontes. As palpebras
cerraram-se. Phrases interrompidas sahiam-lhe dentre os labios seccos e
quasi immoveis. Leocadia, assustada, chamou gente. A madrasta, vendo o
lethargo do marido, voltou-se para a enteada e disse com rancor:
«Quem mata meu marido é a senhora!
Veja a que estado o reduziu! É uma parricida snr.ª D. Leocadia!
Ha-de dar terriveis contas a Deus de ter arrastado seu pai á
sepultura... É uma filha amaldiçoada!»
Leocadia, não teve animo para responder-lhe. Pôz os olhos em seu pai, e
disse-lhe em seu coração: «Vós bem sabeis que não é verdade o que ella
diz!» e sahiu, apertando a cabeça com as mãos.
A medicina cobriu de causticos o doente. Os tormentos deram-lhe com a
irritabilidade uma vida de emprestimo. Dous dias se seguiram de
esperanças, porque o delirio era menos frequente, e alguns instantes de
dormir tranquillo vieram reparar-lhe as forças.
O coronel chamou a filha, tendo ao pé de si Francisco de Proença, e sua
mãi.
Á cabeceira d'elle estava um crucifixo e duas luzes. Eram os
preparatorios para o recebimento da extrema-uncção. O enfermo pedira um
confessor, que se achava já no quarto.
«Aproxima-te desta cruz, Leocadia--disse elle com energia--snr.
Francisco de Proença, eu entrego-lhe, minha filha. Comprehende o senhor
a valia deste thesouro que lhe entrego? Sabe como eu queria que o senhor
amasse esta creatura?
--Amal-a-hei quanto se póde amar nesta vida... disse Proença, sentindo
eriçarem-se-lhe os cabellos, commovido pela religiosidade do acto.
«Minha filha, ajoelha diante de Deus que nos escuta, e pede-lhe que faça
duraveis os bons sentimentos no coração de teu esposo, e que te faça a
ti sempre digna d'elles.
Leocadia ajoelhou, e Francisco de Proença, arrebatado pelo bello funebre
do lance, ajoelhou a par com ella.
E oravam todos mudamente. O coronel tinha as mãos erguidas. O padre
confessor, quebrou o silencio, erguendo-se, e tomando as mãos de
Leocadia.
«Estão accesas as luzes do altar.
A menina prepare-se, que eu quero ter o jubilo de ser o ministro deste
sacramento! Que união de tão bom agouro... Vamos, filhos.»
O frade graciano enchia a poesia santa do grupo!
Leocadia sahiu com sua madrasta.
Parecia somnambula. Julgal-a-hieis sem idéa, sem vontade, sem
consciencia do que fazia. Vestiram-na. Entrou n'uma sege, achou-se
ajoelhada no arco d'uma igreja, respondeu umas palavras que lhe
ensinaram, e viu-se sosinha com um homem, na sege, onde viera com sua
madrasta.
Conduziram-na ao quarto de seu pai. A vida então sahiu do lethargo.
Leocadia achou abertos os braços paternaes para recebêl-a. Lançou-se a
elles chorando, soluçando, arquejante, abafada por uma agonia, cuja
intensidade ella não pôde explicar-me. O que me disse, para eu alcançar
com os olhos d'alma a sombra da sua dôr, foi que, abraçando o pai na
volta da igreja, se lhe figurara a imagem moribunda de Vasco, fitando-a
com um olhar piedoso, em que parecia dizer-lhe: «perdoo-te a morte,
Leocadia.»
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O coronel sobreviveu quatro dias aos desposorios de sua filha.
O festim de nupcias foi um funeral.
A noticia do casamento foram as cartas de enterro.
A noiva despiu o vestido branco para se envolver no de crepe que nunca
mais despiu.