XVI.

O pinhal do _Pastelleiro_ rumorejava brandamente, assoprado pelo ar da

noite. O mar era uma immensa bacia d'aguas mortas. A lua mosqueava-lhe o

dorso em escamas lucidas. O archanjo da poesia com o seu cortejo de

chimeras volateis, brincava na alamêda das fontes murmurosas, gemia com

o piar tristonho das aves queridas da noite, e sentava-se na peanha dos

cruzeiros, que a projecção da luz assombrava no chão.

Eu estava profundamente melancolico. E ao pé de mim viera sentar-se

Leocadia, na pedra bruta, que ainda hoje vereis, servindo de tranqueira

a uma cancella fronteira da casa.

Acabára eu de ouvir o quadro que apenas esbocei no anterior capitulo.

A narradora calara-se, e eu não ousára quebrar o seu religioso silencio.

Eu bem vira que as suas palavras derradeiras eram um como tremulo

gemido. Sentira vibrarem-lhe afflictivamente as fibras do coração, como

se as ferisse a realidade dos successos que a gentil martyr recordava.

E, por isso, o meu silencio era a expressão da pena, o pasmo em que nos

deixa um espectaculo lugubre. Eu tinha em mim todas aquellas imagens,

descriptas por ella como quem as entalhára com fogo no coração. Via o

altar do tremendo sacrificio, via o leito do agonisante. As feições do

coronel, apanhadas pelo regêlo do trespasse, essas, que eu nunca vira,

todas se me desenharam na imaginação, sempre fertil de creações

funebres. Ao pé de mim estava a heroina desta tragedia, ainda formosa,

ainda opulenta de encantos, flôr orvalhada das lagrimas do céo para onde

ella mandava continuamente o seu perfume.

Que mulher é esta que eu encontrei na terra, para apertarmos as mãos

n'um adeus para sempre?

Que attribulada expiação a da minha alma que só póde chorar as penas

d'ella!

Não póde amar-me, não; eu sei que não póde, e offertar-lhe o meu amor

seria injuriar a sua saudade!

Para que te encontrei eu, santa!

Estas ultimas palavras fugiram-me, como a revelação d'um sonho. Leocadia

tocou-me ligeiramente no hombro, e disse:

«Que é? Não sei o que disse...

--Nada dizia--repliquei eu--Sonhava, minha querida irmã, sonhava. Sabe,

minha amiga? Está-me pesando a vida. Não sei o que ha-de ser de mim...

quando a perder. Abençoada seja a mão da morte, que baixou a apanhar de

entre os felizes do mundo os que vieram com o condão da minha

desventura.

«Porque, meu amigo?!

--Porque entre nós ha só de commum a confidencia d'algumas horas, a

confidencia que não modera os impetos d'um desgraçado amor...

«Oh! não diga, não diga isso outra vez...--atalhou Leocadia pondo-me a

mão nos labios--Tenha pena de mim... Chame-me sua irmã, senão

arrependo-me, sinto o primeiro remorso da minha vida...

Beijei-lhe a mão, e murmurei:

--Até ámanhã.

«Sim? até ámanhã? quem sabe se nos veremos! De um momento para o outro

posso ser mudada... E eu queria, meu irmão, queria acabar hoje a minha

historia. Não sei que presagio me diz que não teremos outra noite

assim... Mais alguns minutos... diz-se depressa o que falta... Quer?

--Diga, diga, Leocadia; mas faça um juramento.

«Juramento! qual?

--Qualquer que seja o seu destino, se tiver vida, se tiver um instante

seu, lembre-se de seu irmão, escreva-lhe uma palavra, uma só «vivo» só

isto... jura?

«Prometto, meu amigo, e não faltarei... E se lhe disser «morro» é que

Deus me chamou para ao pé de Vasco...

--Sim, sim, falle-me desse infeliz que a chama, desse amigo que a minha

imaginação contrahiu... Morreu, sim?... e que morte!...

«Eu quasi que o vi morrer.

--Viu?! É horrivel, meu Deus!

«Foi assim. Oito dias depois da morte de meu pai, Francisco de Proença

perguntou-me se eu queria ir para o campo. Entreguei-me á sua vontade.

Minha madrasta desejava sahir de Lisboa, para desafogar da sua saudade.

Fomos para uma quinta entre Cintra e Collares.

«Estavamos ahi havia um mez. Thereza, a meu pedido, escrevêra para

Lisboa a quem a informasse de Vasco. Disseram-lhe que elle e a mãi

estavam a ares em uma das quintas. Eu pedia por elle a Nossa Senhora

todos os dias, muitas vezes, e com immensa fé.

«Uma tarde, Francisco de Proença fôra á caça, e eu fui com Thereza

passear para a banda de Collares. Havia no caminho uma azinheira, um

sitio que respirava saudade, entrei por alli dentro, e fui ter a um

portão de quinta, que tinha uma grande arvore. Sentei-me áquella sombra,

vendo cahir as folhas, e comparando-as á queda de tantas, de todas as

minhas esperanças. Estava assim absorvida, bebendo as doçuras do meu

fel, quando o portão se abriu. Estremeci... Era um padre que sahia... o

padre capellão de D. Maria Maldonado!

«Elle fixou-me com espanto, e apenas me cortejou; esteve um pouco a

olhar-me, e disse:

--A menina não é a snr.ª D. Leocadia?

«Sou, sim, senhor.

--Então que faz por estes sitios?! disse elle admirado.

«Vim a passeio... Moro n'uma quinta perto d'aqui.

--Pois se quer entrar, eu dou parte á snr.ª D. Maria.

«Como!?--exclamei eu--a snr.ª D. Maria Maldonado?!

--Sim, minha senhora, está aqui com o snr. Vasco--disse-me elle--e o

snr. Vasco vai dar contas a Deus brevemente.

«Meu Deus! eu não posso lembrar-me do que então disse ou fiz. Entrei

n'uma tremura de susto, de terror, de não sei que tormento novo para

mim. Conheci que me fugia o entendimento, e a vista. Queria tirar-me

d'alli, e não podia; ainda pedi a mão a Thereza, e já não pude dar

passada. Desfalleci nos braços d'ella.

«Voltando á vida, que a justiça de Deus não quiz levar-me, achei-me

sentada n'um banco de pedra, n'um jardim. Ao pé de mim estava D. Maria.

Fiz um esforço por ajoelhar-me aos pés d'ella. Susteve-me; e chorava,

meu Deus, como chorava a pobre senhora!

«É a vontade de Deus... disse-lhe eu, que aqui me trouxe. Queria vêl-o,

minha querida mãi, diga-lhe que a mão do Senhor me conduziu aqui para

receber o seu perdão... Mas eu não sou culpada... Meu pai estava a

expirar... Morreria atormentado...» Ai... eu não sei o que disse, entre

gemidos... D. Maria olhava-me com ar de compaixão, e consultava os olhos

do padre. Este acenava negativamente. Não queria que eu visse Vasco... E

eu estava de joelhos aos pés de D. Maria, quando ouvi proferir o meu

nome, n'um grito. Olhei... era Vasco, abrindo uma vidraça. Era elle,

livido como um espectro vestido de branco, com os olhos abrasados de

delirio... A janella cahiu, Vasco desappareceu, e o padre subiu a correr

umas escadas, em quanto D. Maria sustinha o meu arrebatamento.

«Deixe-me, deixe-me vêl-o!» rogava eu, allucinada, louca de paixão,

capaz de matar-me alli, se me não deixassem ir!

«Ao cimo da escadaria, o padre encontrou-se com Vasco. Não o conteve;

desceram ambos atropelladamente. E o meu infeliz anjo exclamou: «Vieste

para mim, minha esposa?... Eu esperava-te, esperava-te, como se espera a

salvação.»

«E eu rompi n'um choro que era sentir-me morrer. O desgraçado não sabia

que eu estava casada!

--Falla, falla!--gritava elle--vens ser minha esposa? fugiste a teu pai?

esse tyranno teve compaixão de nós?--Cala-te, meu filho!--exclamava D.

Maria... Estás enganado! «Enganado! pois esta não é a minha esposa?!»

«O padre tomou-o pelo braço, e exclamou:

--Não, não é sua esposa... é esposa d'outro que seu pai lhe destinou!--

«Vasco soltou um terrivel grito, levou as mãos á face, e foi cahir nos

braços de sua mãi... «Matai-me, meu Deus!» exclamou elle.

«Agora--proseguiu Leocadia arfando convulsivamente--peço-lhe eu que vá,

meu amigo, não posso continuar... Estou doente... Adeus... Se eu não

podér fallar-lhe, ha-de lêr o resto da minha historia.»

Leocadia entrou encostada ao meu braço em sua casa. Eu fiquei alli não

sei que tempo entorpecido. Quando me retirei, alvorecia a manhã.

Scenas da Foz · 第 84 / 89 题