XIV.

Quinze dias depois ha um convite para casa do coronel: janta-se, e

dança-se; festeja-se o casamento da sympathica Leocadia com o morgado de

Sinfães, Francisco de Proença.

Alto lá, senhor romancista! Não se escreve assim um romance. Vossê assim

desacredita-se, e ámanhã não tem quem o leia. Quando a gente cuida que

está no melhor do romance, o bom do homem, mette-se em duas semanas n'um

carril a vapor, e vêl-o ahi vai levado com a historia no sacco de noite,

de maneira que uma pessoa, que lhe faz o favor de o lêr, pedindo o livro

emprestado, fica sem saber o que fez Leocadia, o que fez Vasco, o que

fez a mãi, a madrasta, o noivo, o que fizeram todos, durante quinze

dias! Isto é uma escandalosa empalmação!

Senhoras e senhores meus, v. exc.as de certo conhecem muitas meninas na

posição de Leocadia. Posição trivialissima, aliás. É uma pobre rapariga

a amar um homem pobre; mas tem um pai a querer casal-a com um homem

rico. Chora, arrepella-se, promette matar-se, se a morte não vier

espontaneamente. O pai teima, o homem rico teima, o homem pobre não póde

teimar, ainda que queira. Por fim, a menina faz a vontade ao pai, ao

noivo rico, á sociedade torpe, casa e dança por comprazer no dia em que

casa, e almoça com pouco appetite, no dia seguinte, com mais algum no

outro dia, e assim successivamente, até engordar. Isto é muito simples,

e muito rotineiro, não é verdade?

É. Então de que se espantam, se eu lhes digo que uma mulher, de carne e

osso como v. exc.as, fez o que v. exc.as fizeram, viram fazer, ou farão?

Alto lá! tambem eu digo. A minha pobre Leocadia, se hoje vivesse, e

lesse essa pagina infanda que ahi fica, cobril-a-hia de lagrimas de

remorso por me haver feito seu confidente. Perdôa-me, minha santa amiga!

Eu tive-te um instante suspensa por uma hypothese cruel sobre o charco

em que patinham muitas georgianas de chinellos, que por ahi se vendem

para o harem de sujos pachás, que ao passarem a linha, lavaram a cara

dos ferretes de sangue com que sahiram do açougue humano.

Se eu fizesse uma criminosa omissão de tuas lagrimas, o mesmo seria

pisal-as, Leocadia.

Se eu te rebaixasse a transigires com o dinheiro de teu marido,

mascarando-te com a obediencia filial, daria comtigo regalo e galardão a

estas mulheres de almoeda, que, na alma, não valem mais que as de

Babylonia, e no corpo não valem tanto.

Não, espirito que me vês da tua gloria, eu contarei as tuas lagrimas; e,

se não rasgo as paginas que escrevi, estremal-as-hei por um traço negro

das que tu me segredaste nas fugitivas noites em que este gemer do mar,

que ouço agora, vinha casar um murmurio melancolico á tua narração.

Scenas da Foz · 第 82 / 89 题