D. Maria apertou-lhe o braço, murmurando:

--Não zombe do infortunio, snr. Gervasio... Eu tenho direito a esperar a

continuação da sua delicadeza...

«É um direito de que eu a não privarei, minha senhora. Serei delicado

com o filho como o fui com a mãi... Por isso mesmo, rogo a v. exc.ª que

mande seu filho assistir ás duas palavras que devo dizer-lhe.

--Vem, filho...--murmurou D. Maria, ao mesmo tempo que o coronel

estendia affectuosamente a mão a Vasco, bastante pundonoroso para

regeital-a.

«Recusa?!--disse o pai de Leocadia, franzindo a testa com sobranceria

militar.

--Então, Vasco?!--acudiu D. Maria, movendo o filho a curvar-se com

humildade diante do coronel.

«Quer que subamos, snr.ª D. Maria, ou mesmo aqui me escuta?--disse

Gervasio com mal disfarçado azedume.

--Não, senhor, subamos. Vens comnosco, Vasco?

«Se minha mãi ordena...

--Ordeno, sim.

Já na sala de espera, o coronel, dispensando entrar na immediata, fallou

assim:

«Eu disse com cordial sinceridade ao snr. Vasco, em minha casa, que

minha filha, pelo facto de ser minha filha, não podia ser sua mulher.

Não lh'o disse com esta rudeza, porque o sentimento que seu filho dedica

a Leocadia é respeitavel, em quanto está dentro dos limites que a honra

prescreve a cavalheiros que se abonam de appellidos, synonimos da honra

e da probidade.

«O snr. Vasco sahiu de minha casa promettendo-me não desmerecer da

opinião em que o tive. Maravilhou-me a coragem da virtude em annos tão

verdes! Pareceu-me vêr n'este pequeno corpo a grande alma do bravo que

lhe deu o nascimento.

«Pesa-me dizer que me enganei, e o snr. Vasco deve esconder a face

envergonhada diante de mim, e cortar essa mão que ainda agora hesitou

apertar a minha, que lhe offereci com demasiada generosidade, ou pouco

brio. Se o pundonor devesse aconselhar a algum de nós o despreso, o

despresivel de certo não seria eu, porque o enganado, o atraiçoado não é

v. exc.ª, snr. Vasco da Cunha.

«Adiante: e não se estorça, escutando-me, snr.ª D. Maria: eu estou de

certo contando a v. exc.ª uma novidade.

--Duvido que meu filho...--interrompeu a pobre mãi.

«Duvida que seu filho?...

--Promettesse a v. exc.ª renunciar ao amor de sua filha...

«Eu não disse tal. Quiz dizer que o filho de v. exc.ª me prometteu

desviar as suas attenções de minha filha, de modo que ella não

conspirasse contra a minha vontade. Snr. Vasco, isto é exacto?

Vasco não respondeu: lançou a sua mãi um olhar de tortura intima, um

olhar que pedia um pretexto para elle sahir d'alli. O que se passava no

coração do infeliz moço não sei contal-o. Inferno?... inferno, sim, que

nenhuma religião inventou ainda, devia de ser!

Se o examinassem de perto, vêr-lhe-hiam coberta a fronte d'um glacial

suor. Todo elle tremia como sacudido pelos embates que o coração lhe

dava no peito. Uma só idéa, synthese horrivel de todas, o predominava

então: o desejo de morrer logo alli.

A infeliz mãi comprehendeu tudo, viu tudo, sentiu tudo!

Pediu licença ao coronel, ergueu-se, tomou a mão do filho, e disse-lhe:

--Vai para o teu quarto, Vasco. Eu não me demoro aqui... lá vou ter já.

Vasco sahiu, curvando ligeiramente a cabeça, quando passava diante do

coronel.

«Pobre criança!...» disse comsigo o pai de Leocadia; e nestas palavras

dissera tudo o que nós poderiamos dizer e sentir em largos commentarios.

Pobre criança, sim, que não soube erguer a fronte, embora marcada com o

stygma da deslealdade, e dizer ao seu accusador e juiz: «mentes» Pobre

criança, que não sahiu d'alli a procurar duas testemunhas, que, no dia

seguinte, o vissem morrer ás mãos do coronel, ou cravar um florete no

seio onde se embalara Leocadia! Pobre criança, que succumbiu, como

succumbe a honra ferida pelo remorso, á reprehensão do tyranno que lhe

vem diante de sua mãi, lançar em rosto a ignominia da perfidia!

Ausente Vasco, D. Maria voltando-se com senhoril altivez para o coronel

disse:

--Pouco mais terá que me dizer, creio eu.

«Pouco mais, minha senhora; mas esse pouco é importante.

--Se é uma censura ao meu procedimento, digne-se omittil-a, por que sou

eu a propria que me censuro.

«Então, snr.ª D. Maria, disse tudo. Faltava-me perguntar-lhe se posso

viver em paz com a minha familia. Visto, porém, que v. exc.ª se

reprehende pela parte inconveniente que tomou nos amores do snr. Vasco,

posso retirar-me com a certeza de que fica suspensa a sua

correspondencia com a minha filha.

--A minha? interrompeu ella.

«A de v. exc.ª, queria eu dizer.

--E eu digo a v. exc.ª--replicou D. Maria sensivelmente agastada--que

sou mulher, e não posso dar ás suas ironias uma resposta condigna.

O coronel soltou um frouxo de riso, cuja intenção é difficil entender.

Era um destes risos _subjectivos_, (concedam o epytheto) cuja imagem

está dentro da pessoa que ri.

D. Maria, enraivecida pela desconsideração, interrogava-o com um olhar

soberbo. O coronel, erguendo do pavimento a espada, e sobraçando-a,

inclinou profundamente a cabeça, recuou até á porta, e disse:

«Muito boas noites, minha senhora.»

Ora aqui está o que se passou, até que o coronel entrou no camarote.

Scenas da Foz · 第 81 / 89 题