O coronel, com palavras meigas, animára a filha a perguntar-lhe se o pai
a violentava a casar com Francisco de Proença.
A isto respondeu o pai, mudando de tom:
«Eu, até aqui, empreguei todos os esforços da razão para convencer-te de
que a docilidade ao querer d'um pai, que deseja dar-te um futuro certo,
não é violencia, é juizo. Ora, se tu, minha filha, queres mudar o nome
ás cousas, a obrigação d'um pai é ouvir a sua vontade experiente, e
cerrar severamente os ouvidos ao querer irreflectido d'uma criança. Se
ha um Deus, que julgue as tolerancias d'um pai com os caprichos d'uma
filha, grandes contas eu daria, Leocadia, consentindo-te o alvedrio da
escolha entre Vasco da Cunha e Francisco de Proença. Não quero o remorso
de tamanha culpa, porque te amo muito, e muito preso a minha dignidade,
e a minha palavra. Proença sabe que é teu noivo. Fui eu que lh'o disse,
e basta.
«Sou honrado, minha filha; e, como não tenho outra herança a legar-te,
faço quanto posso por te deixar em posição de a receberes, e guardares,
como eu a recebi e guardei. Á mulher pobre é mais difficultoso manter-se
no decoro. Os appellidos de teu pai nada valerão, se os não fizeres
resplandecer nesse invejado posto de honra, que se esteia nos bens da
fortuna.
«A virtude pobre é uma virtude obscura, que, nestes tempos de egoismo e
pompa, se a não soffrea a rédea da religião, troca de bom grado os seus
fóros de honra ignorada pela ostentação brilhante do vicio. O que eu
tenho querido é rodear-te dos bens passageiros e miseraveis que o vulgo
venera para que as tuas virtudes deem assim nos olhos das pessoas que
não são vulgo.
«Eu não sou d'aquelles pais, que aconselham a desobediencia aos filhos
alheios, e lhes dão um logar na sua sege, cuidando que assim os poupam á
deshonra e ao crime... Maria Maldonado...
«Leocadia estremeceu, erguendo piedosamente os olhos para o coronel.
Nesse olhar, disse ella que implorára o respeito de seu pai ao amor
d'aquella mãi.
«Maria Maldonado--proseguiu elle entendendo o olhar da filha--parece que
renegou da virtude que foi até hontem a conselheira de todas as suas
acções. Praticou um feito que a desabona, embora seu filho, por ser
criança, tenha ido chorar no seio d'ella, como menino amuado pelas
travessuras dos irmãos.
«Leocadia, suffocada pelos soluços, apiedou o pai, que não teve animo de
continuar. Dando-lhe o braço, passeou com ella, e as poucas palavras que
lhe disse eram brandamente conciliadoras. Levou-a para longe da
madrasta, cuja aproximação a fizera empallidecer. Pediu-lhe que se
esforçasse por não denunciar a scena violenta que se dera entre elles.
Leocadia fez quanto podem humanas forças. Mentiu ás averiguações de
Proença com um sorriso, que tanto podia ser timidez, como ironia.
Gervasio foi prodigo de carinhos a sua filha durante aquelle dia, e
lançava um olhar de revez a sua mulher, quando esta, ferida de reflexo
no amor proprio de seu filho notava a frieza com que Leocadia lhe
acolhia os ditos arguciosos.
Agora me ensina tu, ó musa, o que o coronel Gervasio disse a Maria
Maldonado.
Ás dez horas e meia entrou D. Maria na sua sege, e disse a seu filho,
teimoso em acompanhal-a de longe, que a não seguisse.
Juntamente com ella, entrou o capellão da casa, padre velho, que
resmungára longo tempo contra a crueza de o não deixarem deitar ás nove
horas, por causa d'uma expedição em que elle não fôra consultado.
Eram trezentos passos da casa de Vasco á do coronel. D. Maria fez parar
a sege defronte do mosteiro de Santa Anna, e foi com o padre collocar-se
poucos passos distante da casa de Leocadia.
Esperaram um quarto de hora, sem ouvirem rumor nas portas da casa.
Precisamente ao soarem onze horas, um vulto se avisinhou de D. Maria, e
ousou metter-lhe a cara, que ella procurava esconder nas costas do padre
atrapalhado.
«Não se esconda, snr.ª Dona... (disse o coronel) Não pronunciarei o seu
nome, minha senhora, porque ouço sempre com reverencia pronunciar o nome
de seu defunto marido, e não quero que possa alguem saber que a mulher
do meu general está parada n'uma rua de Lisboa ás onze horas da noite.
D. Maria estava em tremuras, como se a surprehendessem n'um crime. As
palavras do coronel tinham só o tom urbano a neutralisar-lhes o agro da
ironia, e o virulento da reprehensão. O padre estava naturalmente de
bocca aberta, como quem diz «eu não dei para isto prego nem estopa.» Não
lhe occorria idéa alguma á attribulada senhora, quando o coronel,
offerecendo-lhe o braço, disse:
«Não a convido a entrar em minha casa, snr.ª D. Maria, porque em minha
casa não está senhora alguma. Se v. exc.ª, porém, me permitte
acompanhal-a á sua, ou seguir a sua sege, receberei a honra de lhe dizer
duas palavras.
--Aceito o offerecimento...--disse D. Maria reanimada pela confiança que
pôz no dom persuasivo das suas palavras sobre a vontade pertinaz do
coronel.
Na sege não cabiam tres pessoas. O coronel disse que iria a pé. O padre
parecia, por seu silencio, consentir em ir como viera; D. Maria, porém,
disse ao padre que cedesse o seu logar.
O capellão sorveu uma pitada de simonte, puxou para as orelhas a gola do
seu capote de castorina parda, e lá foi de seu vagar, ruminando
philosophicamente aquella diabrura.
Poucas palavras deram um ao outro, na sege. Quando esta parou,
ouviram-se passos velozes saltando as escadas. O coronel apeára para dar
a mão a D. Maria. Vasco surgia no limiar do portão justamente no
instante que sua mãi entrava pelo braço do coronel.
O nosso amigo recuou estupefacto, e soltou uma interjeição de espanto,
que tanto podia ser _ah!_ como _oh!_ como _ui!_
Gervasio levou a mão ao boné, e disse risonho:
«Boas noites, snr. Vasco... Acha-me, talvez, muito barbado para noiva?!