XIII.

O coronel, com palavras meigas, animára a filha a perguntar-lhe se o pai

a violentava a casar com Francisco de Proença.

A isto respondeu o pai, mudando de tom:

«Eu, até aqui, empreguei todos os esforços da razão para convencer-te de

que a docilidade ao querer d'um pai, que deseja dar-te um futuro certo,

não é violencia, é juizo. Ora, se tu, minha filha, queres mudar o nome

ás cousas, a obrigação d'um pai é ouvir a sua vontade experiente, e

cerrar severamente os ouvidos ao querer irreflectido d'uma criança. Se

ha um Deus, que julgue as tolerancias d'um pai com os caprichos d'uma

filha, grandes contas eu daria, Leocadia, consentindo-te o alvedrio da

escolha entre Vasco da Cunha e Francisco de Proença. Não quero o remorso

de tamanha culpa, porque te amo muito, e muito preso a minha dignidade,

e a minha palavra. Proença sabe que é teu noivo. Fui eu que lh'o disse,

e basta.

«Sou honrado, minha filha; e, como não tenho outra herança a legar-te,

faço quanto posso por te deixar em posição de a receberes, e guardares,

como eu a recebi e guardei. Á mulher pobre é mais difficultoso manter-se

no decoro. Os appellidos de teu pai nada valerão, se os não fizeres

resplandecer nesse invejado posto de honra, que se esteia nos bens da

fortuna.

«A virtude pobre é uma virtude obscura, que, nestes tempos de egoismo e

pompa, se a não soffrea a rédea da religião, troca de bom grado os seus

fóros de honra ignorada pela ostentação brilhante do vicio. O que eu

tenho querido é rodear-te dos bens passageiros e miseraveis que o vulgo

venera para que as tuas virtudes deem assim nos olhos das pessoas que

não são vulgo.

«Eu não sou d'aquelles pais, que aconselham a desobediencia aos filhos

alheios, e lhes dão um logar na sua sege, cuidando que assim os poupam á

deshonra e ao crime... Maria Maldonado...

«Leocadia estremeceu, erguendo piedosamente os olhos para o coronel.

Nesse olhar, disse ella que implorára o respeito de seu pai ao amor

d'aquella mãi.

«Maria Maldonado--proseguiu elle entendendo o olhar da filha--parece que

renegou da virtude que foi até hontem a conselheira de todas as suas

acções. Praticou um feito que a desabona, embora seu filho, por ser

criança, tenha ido chorar no seio d'ella, como menino amuado pelas

travessuras dos irmãos.

«Leocadia, suffocada pelos soluços, apiedou o pai, que não teve animo de

continuar. Dando-lhe o braço, passeou com ella, e as poucas palavras que

lhe disse eram brandamente conciliadoras. Levou-a para longe da

madrasta, cuja aproximação a fizera empallidecer. Pediu-lhe que se

esforçasse por não denunciar a scena violenta que se dera entre elles.

Leocadia fez quanto podem humanas forças. Mentiu ás averiguações de

Proença com um sorriso, que tanto podia ser timidez, como ironia.

Gervasio foi prodigo de carinhos a sua filha durante aquelle dia, e

lançava um olhar de revez a sua mulher, quando esta, ferida de reflexo

no amor proprio de seu filho notava a frieza com que Leocadia lhe

acolhia os ditos arguciosos.

Agora me ensina tu, ó musa, o que o coronel Gervasio disse a Maria

Maldonado.

Ás dez horas e meia entrou D. Maria na sua sege, e disse a seu filho,

teimoso em acompanhal-a de longe, que a não seguisse.

Juntamente com ella, entrou o capellão da casa, padre velho, que

resmungára longo tempo contra a crueza de o não deixarem deitar ás nove

horas, por causa d'uma expedição em que elle não fôra consultado.

Eram trezentos passos da casa de Vasco á do coronel. D. Maria fez parar

a sege defronte do mosteiro de Santa Anna, e foi com o padre collocar-se

poucos passos distante da casa de Leocadia.

Esperaram um quarto de hora, sem ouvirem rumor nas portas da casa.

Precisamente ao soarem onze horas, um vulto se avisinhou de D. Maria, e

ousou metter-lhe a cara, que ella procurava esconder nas costas do padre

atrapalhado.

«Não se esconda, snr.ª Dona... (disse o coronel) Não pronunciarei o seu

nome, minha senhora, porque ouço sempre com reverencia pronunciar o nome

de seu defunto marido, e não quero que possa alguem saber que a mulher

do meu general está parada n'uma rua de Lisboa ás onze horas da noite.

D. Maria estava em tremuras, como se a surprehendessem n'um crime. As

palavras do coronel tinham só o tom urbano a neutralisar-lhes o agro da

ironia, e o virulento da reprehensão. O padre estava naturalmente de

bocca aberta, como quem diz «eu não dei para isto prego nem estopa.» Não

lhe occorria idéa alguma á attribulada senhora, quando o coronel,

offerecendo-lhe o braço, disse:

«Não a convido a entrar em minha casa, snr.ª D. Maria, porque em minha

casa não está senhora alguma. Se v. exc.ª, porém, me permitte

acompanhal-a á sua, ou seguir a sua sege, receberei a honra de lhe dizer

duas palavras.

--Aceito o offerecimento...--disse D. Maria reanimada pela confiança que

pôz no dom persuasivo das suas palavras sobre a vontade pertinaz do

coronel.

Na sege não cabiam tres pessoas. O coronel disse que iria a pé. O padre

parecia, por seu silencio, consentir em ir como viera; D. Maria, porém,

disse ao padre que cedesse o seu logar.

O capellão sorveu uma pitada de simonte, puxou para as orelhas a gola do

seu capote de castorina parda, e lá foi de seu vagar, ruminando

philosophicamente aquella diabrura.

Poucas palavras deram um ao outro, na sege. Quando esta parou,

ouviram-se passos velozes saltando as escadas. O coronel apeára para dar

a mão a D. Maria. Vasco surgia no limiar do portão justamente no

instante que sua mãi entrava pelo braço do coronel.

O nosso amigo recuou estupefacto, e soltou uma interjeição de espanto,

que tanto podia ser _ah!_ como _oh!_ como _ui!_

Gervasio levou a mão ao boné, e disse risonho:

«Boas noites, snr. Vasco... Acha-me, talvez, muito barbado para noiva?!

Scenas da Foz · 第 80 / 89 题