Leocadia narrou-me assim o proseguimento da sua historia:
«Quando vi uma letra desconhecida, em resposta ao meu bilhete, fiquei
passada de mêdo, e parece que a luz dos olhos se me toldára. Custou-me a
lêr o nome da assignatura, que maior susto me incutiu. «A mãi de Vasco
roubou-me a minha carta» foi logo a idéa que me assaltou. Refiz-me de
coragem para lêr uma reprehensão... e que espanto, que alegria a minha
ao passo que devorava aquellas palavras queridas! As lagrimas cahiam no
papel duas a duas. Eu estava louca de prazer. Ajoelhei, agradecendo ao
céo a inspiração que mandára á mãi do meu Vasco. A fuga, protegida por
uma senhora de tanta virtude, parecia-me um passo digno de louvor.
Congratulei-me até da minha idéa, e suppuz que o espirito de minha mãi,
a quem eu pedira remedio, m'a tivesse suggerido da sua bemaventurança.
«Eu não podia esconder o meu contentamento. Meu pai, que me deixára a
chorar, voltando, reparou na repentina mudança, porque os meus olhos
inquietos e ardentes seguiam a bella imagem da vida, que voejava diante
de mim, chamando-me para um futuro que os meus labios abençoavam com um
sorriso.
«Minha madrasta, agourando o que mais lhe convinha desta alegria,
pensava que duas ou tres palavras que seu filho me dirigira, ao jantar,
operaram estranha mudança em mim.
«Francisco de Proença enganado por sua mãi, e mais ainda pelo seu
orgulho, julgou que o milagre da mudança se devia a essas palavras
aborrecidas que me dera. Como quizesse convencer-se e convencer sua mãi
e convencer-me a mim do poder fascinante da sua lingua, fallou muito,
penso que contou muitas anedoctas de estudantes de Coimbra, e com tal
affectação o fazia que me causava tedio, posto que eu, apenas por
cortezia, dissimulava escutal-o. Eu estava d'alma e coração embebecida
na minha fuga, e não tirava os olhos da assustada agulha do relogio.
«Meu pai disse algumas vozes baixas a minha madrasta, e entre estas ouvi
proferir a palavra «theatro.» Foi uma nuvem negra que escureceu toda a
alegria da minha alma. Notou-se em mim a repentina transfiguração; e
Francisco de Proença, que estava conversando commigo, perguntou-me se me
sentia incommodada, chamando a attenção de meu pai. Expliquei o
descóramento por uma vertigem costumada, e pedi licença para entrar no
meu quarto.
«Ahi, d'onde pouco antes sahira douda de jubilo, entrei afflictissima. A
ida ao theatro vinha baldar os nossos planos. Estava a anoitecer e eu
não tinha por quem avisar Vasco. Os criados de casa tinham a confiança
de meu pai, e as criadas a da minha madrasta. Entre estas, porém, havia
uma que se mostrava minha amiga. Foi essa a que mandaram para ao pé de
mim, logo que minha madrasta me deixou deitada n'um canapé
recommendando-me, logo que o incommodo me passasse, me fosse vestindo
para irmos a S. Carlos. A minha angustia não me deixou reflectir. Eu
disse á criada que estava muito attribulada, e só ella podia valer-me.
Pedia-lhe que chegasse ella n'um instante a levar-me um escripto a D.
Maria Maldonado, sem que ninguem de casa o soubesse. A criada
respondeu-me que sim sem hesitação, e viu-me tirar d'entre os colchões
uma escrivaninha. Escrevi algumas linhas apressadas, e ella sahiu,
dando-me um beijo de Judas, quando eu, lavada em lagrimas de gratidão,
lhe dava um abraço de infeliz soccorrida em extremos de afflicção.
«Principiei a vestir-me, applicando o ouvido aos passos da criada, que
eu esperava anciosamente. Passou-se uma hora, e ella sem chegar. Sahi do
meu quarto, perguntei a outra criada por ella: disse-me que estava na
cama com uma dôr de cabeça.
«N'isto appareceu meu pai, e disse-me com ar mais grave que o seu
costume:
--Menina, vamos, que está sua madrasta já na sege.
«Eu pretextei uma falta para entrar no meu quarto. O que eu queria era
de fugida perguntar á criada se entregára o bilhete; meu pai, porém,
acompanhou-me até ao meu quarto, viu-me pegar d'um lenço, e não me
deixou sosinha um instante até me deixar na sege, onde depois entrou
Francisco de Proença.
«Meu pai disse que iria a pé, e só mais tarde, porque tinha de fazer uma
inspecção ao quartel.
«Que anciedade a minha até entrar no camarote! De lá procurei na platea
Vasco. Se elle estivesse, ficava eu tranquilla: era signal de ter
recebido o meu bilhete. Não estava, nem entrou jámais! Jesus! como me
era custoso esconder as lagrimas e o alvorôço! Que horas de inferno
aquellas! Logo que entrou em minha alma a suspeita de ter sido
atraiçoada, tive a tentação de sahir do camarote, sob qualquer pretexto,
e fugir.
«Meu pai entrou ás onze horas e meia. Estava a findar o espectaculo.
Procurei ver-lhe a alma nos olhos. Pareceu-me socegado, e sem reserva.
«Fomos para casa. Vi a pé todas as criadas, menos a portadora do
bilhete. Reviveram as minhas suspeitas. Entendi que a infame não tinha
animo de confrontar-se commigo, depois da traição.
«Procurei entre os colchões a escrivaninha. Lá estava tudo como eu o
deixára, e ao pé os massos das cartas de Vasco.
«Não me deitei. Estive toda a noite accumulando conjecturas, qual
d'ellas mais desgraçada. Cheguei a abrir subtilmente a porta do meu
quarto, para ir á cama da criada. Fui palpando ao longo d'um corredor;
mas a porta que determinava este corredor, e nunca se fechara,
encontrei-a fechada! Então, sim, comprehendi que meu pai soubera tudo; e
d'ahi em diante estudei a maneira de fugir de dia. A ancia facilitava-me
o passo. Resolvi sahir disfarçada com um capote de criada, até encontrar
um rapaz que me ensinasse as ruas. N'esta esperança desafogou o meu
coração. Esperei o dia; e, logo que senti passos, pedi que me abrissem a
porta do corredor. Respondeu-me um criado que ia procurar a chave; e
voltou, dizendo que a devia ter o snr. coronel porque ninguem dava
noticia d'ella.
«Senti-me capaz de tudo. Tive odio a meu pai nesse momento, odio foi
esse que o tempo não conseguiu desvanecer em minha alma. É que desde
esse dia tenho chorado sempre, e o meu odio nutre-se de lagrimas...
Senti até o desejo de matar a criada, que me atraiçoara. Desconhecia-me!
Vi-me casualmente a um espelho, e os meus olhos tinham um fulgor
sinistro, os meus labios pareciam crestados pelas palavras de maldição
que passaram n'elles contra o meu tyranno.
«Abri a janella do meu quarto, com a intenção de fugir por ella.
Morreria, se o tentasse. Recuei diante da idéa da morte sem justificação
aos olhos de Vasco e de sua mãi, que me chamara _sua filha querida_.
Lancei-me aos pés da Virgem, que fôra de minha mãi, e ergui-me sem
esperança, sem o allivio que Deus concede aos que supplicam a sua
misericordia.
«Eram nove horas da manhã quando se abriu a porta, e entrou meu pai.
«Não escondi as lagrimas, e elle, fingiu que as não via.
--Leocadia, disse elle, vem ahi o almoço. Depois de almoçar, veste-te
que vamos passar o dia a uma quinta de Campolide.
«Meu pai!...» murmurei eu.
--Que queres tu Leocadia?--disse elle com um ar de fria seriedade que me
gelou as palavras, e sahiu.
«Vesti-me, fazendo sahir o taboleiro do almoço. Minha madrasta entrou no
meu quarto, com affectado sobresalto, perguntando-me por que não
almoçava. Disse que não podia, e ella retirou-se, passando-me a mão pela
face, e dizendo com abominavel meiguice: juizinho, minha filha,
juizinho.
«Indignou-me este carinho hypocrita como um insulto. Perguntei-lhe com
altivez o que queria dizer a sua recommendação, e ella, carregando o
sobr'olho, replicou: A culpa tem quem a quer fazer feliz, sua pobre
soberba.
«A raiva não me deixou articular senão sons inintelligiveis. Minha
madrasta sahira com impeto, resmungando palavras, que eu não entendi.
«Vieram dizer-me que esperava a sege. Sahi do meu quarto com a tenção de
procurar de relance a criada; mas, ao cabo do corredor, estava meu pai,
lançando-me um olhar severo.
«Entrei n'uma sege com minha madrasta. Meu pai entrou n'outra com
Proença.
«Atravessamos Lisboa sem trocarmos uma palavra.
«Apeamos no portão de uma quinta. Proença offereceu-me o braço, e
perguntou-me que soffrimento era o meu que se denunciava no rubor dos
olhos. Eu ia responder-lhe, com franqueza cruel, contando-lhe a minha
vida em relação a elle, quando meu pai nos impoz silencio com a sua
presença.
«Passeamos uma hora entre os arvoredos da quinta. Ahi não lhe sei dizer
que desesperada saudade me golpeava a pedaços o coração! No ruido da
folhagem parecia-me ouvir o chorar gemente do meu Vasco. O fallar de
Proença, e as risadas estupidas de minha madrasta, davam aos meus
ouvidos o som infernal d'uma ironia de demonios á minha angustia.
«Queria-me esconder sosinha por aquellas murtas; mas a comitiva
amaldiçoada seguia-me constantemente, e as attenções delicadas de
Proença provocavam-me sempre uma visagem de desdem.
«Com elle só quizera eu estar para dizer-lhe que o aborrecia; porém, não
nos deixavam juntos, porque meu pai receava isso mesmo.
«Estive um instante sosinha á beira d'um tanque. Meu pai veio ahi
encontrar-me a chorar. Sentou-se ao meu lado, e disse-me affavelmente,
tomando-me a mão:
--Leocadia, conspiraste contra teu pai. Cuspiste com feia ingratidão na
face do amigo que tudo te sacrificou, e até a sua liberdade vendeu a
preço do teu bem-estar. Antes de hontem, fallei-te como amigo,
esquecendo que era pai. Cuidei que tocára o teu coração, e abençoei o
céo por me ter dado um anjo d'amor onde eu poderia ter encontrado uma
filha rebelde. A tua docilidade encheu-me de orgulho e alegria, orgulho
por ter tal filha, e alegria por vêr tão galardoados os meus
sacrificios. Deixáste o meu espirito em paz com as suas tenções. Vi que
se realisava o bello futuro que eu planisara para ti, e tamanha
confiança puz na tua razão, que eu iria jurar que ninguem teve uma filha
mais virtuosa. Enganaste-me, Leocadia, ou eu me enganei com o teu
silencio. A vibora, que eu creára no seio, e acabava de afagar,
mordeu-me cruelmente, ferindo-me talvez de morte. Em quanto eu velava a
tua felicidade, tramavas tu a minha deshonra e a tua... Não me
interrompas... é teu pai que falla e te impõe silencio, Leocadia.
Premeditavas a tua fugida; trocavas teu pai, que conheces ha dezoito
annos, pelo homem que viste hontem; trocavas a tua invejada reputação
pela fama que segue á mulher que deixa no limiar da casa paterna
abandonada os diplomas da sua virtude. Estás já deshonrada por intenção,
filha; mas eu, desgraçado pai, serei ainda a tabua de salvação para ti.
Fiz a accusação. Agora vou condemnar-te: estás perdoada; beija a mão do
teu juiz, porque a justiça d'um pai tem em si o reflexo da misericordia
de Deus.
«Estas palavras tinham-me sob o peso d'uma fascinação dolorosissima.
Levei machinalmente aos labios a mão que se me offerecia, e banhei-a de
lagrimas. E eu não podia fallar, suffocada por soluços. Fazia-me
compaixão o olhar aguado de meu pai; porém... não saberei dizer que
terrivel qualidade de sentimentos luctavam em minha alma!... Entre a
cabeça e o coração havia uma barreira insuperavel. O coração regeitava o
amoroso perdão d'um pai despotico. A cabeça curvava-se diante da
magestade das suas cãs, e mais ainda dos seus queixumes. Quando, porém,
nesse instante, não senti extinguir-se o odio que me abrasára na manhã
desse dia, é porque elle seria eterno, é porque o meu amor a Vasco era
immenso, superior ao instincto filial, aos vinculos de sangue, e até á
minha propria reputação.
«Não respondi. Cruzei as mãos na face, e não sei que tempo meu pai
esperou a resposta. Elle tinha sahido de ao pé de mim, e voltou com um
ramo de flores.
«Aqui tens, minha filha--disse elle--o ramo de paz entre nós. Ha-de
haver dez annos que te dei um ramo neste mesmo sitio. Foi quando vieste
da provincia para entrares no collegio. Olha esse olmo que está atraz de
ti e lá verás uma inicial e uma data. Já então scismei aqui muito no teu
futuro. Prometti a mim mesmo trazer-te aqui, já senhora, para te mostrar
essa data, que marca uma hora das horas attribuladas que só um pai,
extremoso e pobre, sabe comprehender. Mal diria eu então que a minha
segunda visita a este logar seria solemnisada pelas lagrimas de ambos
nós! Repara que eu tambem choro, Leocadia.
«Ergui os olhos timidos para meu pai, e não pude conter-me. O
resentimento calou-se um instante. Abracei-o com devoção, e, nesse
instante... só o via a elle, só sentia por elle... a imagem de Vasco
fugira por não poder vencer as cãs d'um velho soldado chorando...»
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Neste momento, Leocadia suspendeu-se. A sua physionomia macilenta e
descarnada pendeu para o seio. Uma lagrima das que vem ferventes do
coração desceu-lhe na aridez da face, e sumiu-se logo como fio d'agua em
terreno afogueado.
E eu, que nem hoje ainda posso, com animo frio, contar uma vida que me
hão-de receber como chimera, chorava tambem.