E, quando o coronel parecia ter muito que lhe dizer, Vasco sahiu da
sala, e desceu tão precipitadamente as escadas, que não voltou a cabeça
para agradecer ao dono da casa a consideração de acompanhal-o fóra da
sala.
No pateo encontrou o afflicto moço o aguadeiro que diariamente lhe
levava as cartas de Leocadia. Estava o prestante gallego sentado no
barril, examinando os pregos dos sapatos, e calculando talvez os
emolumentos que cobrára da sua posição importantemente diplomatica entre
dous corações rendidos.
Quando viu Vasco, calçou o collossal sapato, sacou dos abysmos
interiores da jaqueta uma carta que entregou ao nosso amigo, atirou com
o barril para o hombro, e não esperou resposta.
Vasco rompeu ainda a obreia para lêr a carta, mas susteve-o o receio de
ser visto por algum familiar do coronel. Escondeu-a e desviou-se para um
canto do pateo a limpar as lagrimas, que rebentavam, cada vez mais
copiosas, debaixo da pressão do lenço.
«Que dirá esta carta?»--perguntava elle ao seu coração--«Será o adeus de
Leocadia?... Saberia ella para que me chamou a sua casa?...»
Tirou-a ainda outra vez do bolso, resolvido a lêl-a, quando entrou no
pateo um criado, e em seguida um cavalleiro, esporeando o cavallo, com
grande tropel. Era Francisco de Proença que chegava de Coimbra. Vasco
não o vira nunca; mas pelo trajar de jaqueta de guizos, barrete á
campina, e bota branca de canhão alto, conheceu o enteado do coronel, em
que Leocadia lhe fallára algumas vezes, porque sua madrasta lhe estava
sempre elogiando o talento, e encarecendo o grande morgadio.
Francisco de Proença viu um rapaz de casaca preta arrumado para um lado,
e cortejou-o de passagem. O coronel descêra quasi até ao pateo para
receber nos braços o enteado, e ainda viu sahir Vasco. Quiz perguntar ao
recem-chegado se encontrára alli sósinho o cavalheiro da casaca preta;
porém, lembrou-se de que a pergunta provocaria outras. A este tempo
descia com grande alvoroço a mãi de Francisco, com os braços abertos; e
o rapaz, depois de beijado e abraçado, deu o braço á mãi, que estava
gorda de mais para enthusiasmo tão buliçoso.
D'ahi a pouco, lia Vasco, fechado no seu quarto, este bilhete:
«Em quanto fallas com meu pai, escrevo-te duas linhas. Já sabes que
desgraça nos ameaça. Querem separar-nos, meu Vasco. Todas as nossas
bellas esperanças não podemos deixar que nol-as matem assim. Respeito a
vontade de meu pai; mas o juramento que fiz de amar-te eternamente é
superior a tudo. Sou mais tua do que de mim propria, meu querido Vasco.
Cuidei que poderia morrer sem desgostar meu pai; não posso; porque me
lembro que te mato. Vê o que queres que eu faça. Não podemos esperar que
o tempo destrua os planos de meu pai e minha madrasta, que só hontem me
foram ditos. Hoje espera-se de Coimbra o tal homem. Decide, meu amigo.
Em ultimo recurso, eu fujo de casa para ti; e depois... o que Deus
quizer. Não seremos tão infelizes como meu pai diz, não achas, Vasco?
Diz-me que não; dá-me animo para lhe desobedecer. Não sei se te
demorarás pouco tempo com meu pai: vou dizer ao gallego, que te espere
com esta carta.