Quando Leocadia (ahi vão reflexões philosophicas) me mostrou, entre
outras, esta carta, pasmei, como a gente pasma, até certa idade, das
maravilhas que se fazem no coração das raparigas! Aqui ha trinta annos,
se me dissessem que uma donzellinha, a cheirar ainda ao esturrinho das
mestras dos collegios de então, namorada pela primeira vez, pouco ou
nada lida em novellas, e menos ainda experimentada nos romances ineditos
de portas a dentro, se me dissessem que essa tal, contrariada pelo pai
nas suas virginaes affeições, escrevera similhante carta ao namoro, eu
não acreditaria, sem vêr a carta reconhecida pelo signal publico e razo
d'um tabellião de provada moralidade.
Pois não parece incrivel?
Hoje que não ha anomalias para mim, que tudo se me afigura aleijões da
alma--porque esta geração veio realmente estropeada e canhota do
espirito--hoje, a menina iniciada no amor, embora creada e educada ao ar
sereno e puro do collegio, comparo-a eu á rôla creada na gaiola, que
nunca esvoaçou, nem sabe a serventia das suas azas, está contente do
espaço, e da abundancia que tem, não sente o captiveiro... e, se, por
descuido, deixaes aberta a porta da gaiola, a boa da rolinha mette
primeiro a cabeça ao ar livre, sacode as pennas das azas virgens,
desfere um vôo rasgado, sobe, sobe, e adeus!
«Era o instincto!» dizia um philosopho pasmado para uma ave que lhe
fugira. Pelo instincto é que eu, philosopho de toda a passarinhada,
explico tambem, a respeito de mulheres, este bater de azas em que ellas
se vão do ninho para as altas regiões dos açores e dos milhafres, onde,
quando o diabo quer, dão grande banquete ás aves de rapina que são
tantas como os nossos peccados, por esses céos d'anil, onde os poetas
imaginam colonias de amantes felizes.
Isto é hoje, que só me falta conhecer a vigesima-quarta variedade que
Deus formou d'uma costella homogénea:--mas, ha vinte e oito annos,
quando Leocadia me mostrou a carta escripta a Vasco, olhei-a com ar
palerma, e disse-lhe:
«V. exc.ª, quando escreveu esta carta, comprehendia bem toda a extensão
da loucura que fazia, entregando-se assim á descripção d'outra criança,
sem casa, sem vida, sem habilitações para o trabalho?
--Então o senhor não sabe o que é uma paixão!...
«É que eu cuidava, minha querida irmã...
Entre-parenthesis: Um destes dias, um meu amigo, contando-lhe eu
seriamente a intimidade limpa e immaculada que contrahira com duas ou
tres pessoas ás quaes eu chamava irmãs, disse-me, sorrindo, que tinha
dezesete irmãs assim. O meu amigo pertence á geração nova, em que estas
fraternidades não tem provado bem, porque, ordinariamente, os
parentescos complicam-se de modo que não é facil saber-se quando se é
tio, ou outra cousa ainda mais respeitavel. O mundo está virado! No meu
tempo amava a gente, por exemplo, uma destas almas que hoje se chamam
_não-comprehendidas_ na terra, ou porque entre ellas e outras de eleição
paternal e intervenção ecclesiastica não havia analogia de gostos, ou
porque as posições sociaes não permittiam um enlace, ou, finalmente,
porque era preciso fallar no amor d'um terceiro que devia lentamente
desalojar-se--em qualquer dos casos essas pessoas inscreviam-se no
catalogo dos parentescos honestos, e ficavam irmãos toda a vida. Eu hoje
conheço netos das minhas irmãs de então, e glorio-me de ser tio-avô de
creanças muito gordinhas, que puxam ás avós as rêpas escassas das
tranças d'ebano e ouro dos meus bons tempos...
As _irmãs_ de hoje...--diz muito bem o meu amigo--arranjam-se ás
dezesete; e a maior prova de ser o titulo já ridiculo é que a sociedade
não as reputa incestuosas...
As _não-comprehendidas_ contam em estylo lamuriante o vasio das suas
almas a confidentes denominados _irmãos_, em momentos de expansiva
familiaridade. O typo que sonharam, a imagem que as anceia, está fóra
d'este mundo, respira o ar balsamico dos jardins celestiaes, é um anjo.
Ora, acontece quasi sempre uma cousa muito racional: o _irmão_
apresenta-se com procuração bastante do _anjo_, com poderes
_in-solidum_. Passado algum tempo, esquece-se o constituinte, e fica o
procurador escandalosamente encartado no usu-fructo do dominio e acção
d'uma propriedade, que (aqui entre nós) os anjos não quereriam, nem eu,
só pela decima, os cinco por cento, e os mais impostos annexos ao
merinaque.
A gravidade d'estas reflexões veio para prevenir os leitores mal
intencionados contra o abuso que por ahi se faz d'um parentesco de
circumstancia. Irmão, mais que irmão, fui eu de Leocadia. Esse titulo,
que ella me deu, conservo-o como um legitimo vinculo, mais que legitimo,
talvez sanctificado pela angustia de ambos... e doer-me-hia que o
sorriso parvo ou mau da suspeita correspondesse á melancolica saudade
com que vou recordando palavras da minha pobre irmã.
Atem agora o fio partido do dialogo.
«É que eu cuidava, minha querida irmã--disse eu--que o amor na sua
idade, e com a sua innocencia, ignorava certos desenlaces que elle tem
humanos de mais, rasteiramente humanos...
--Que quer dizer?
«Pensava eu que uma menina, na sua posição recatada, não seria capaz de
conceber o pensamento da fuga da casa paterna! Vasco propozera-lhe
alguma vez esse acto?
--Nunca, e eu mesma tive esta idéa quando me vi presa á vontade de meu
pai, e fraca, miseravelmente fraca para resistir-lhe. Se bem me recordo,
estava eu chorando no meu quarto, quando de repente me lembrei da fuga.
Não senti aquecer-se-me o rosto de pêjo, porque me pareceu natural a
acção de fugir á desgraça. O pesar da desobediencia, esse sim,
mortificou-me; porém, entre o remorso e a paixão, a lucta decidiu-se
pelo amor.
«E a idéa do seu descredito?
--Eu sabia lá então o que era descredito! O meu irmão não sabe o que se
passa no coração puro. Terá experimentado muito; mas deixe-me dizer-lhe
que as suas analyses tem sido feitas sobre corações muito
experimentados. Uma mulher receia o descredito só depois que sabe a
maneira como elle se alcança. Eu não sabia nada, meu amigo. Se me
dissessem que eu corria risco de ser coberta de infamia por fugir para
Vasco, rir-me-hia, ou pasmaria do absurdo. Se me dissessem que Vasco era
capaz de abrir-me os olhos para eu vêr o abysmo em que me lançára
cégamente, quem m'o dissesse tomal-o-hia por um demonio mau que zombava
da minha ternura, e injuriava o meu Vasco. Uma rapariga innocente guarda
tão santas no coração as idéas do bem, que não póde crêr-se victima
jámais do homem a quem se entrega com amor, com mil vontades de o fazer
feliz, com as veias abertas para lhe dar o seu sangue, contente da sua
pureza para o galardoar com ella, anciosa por sacrificar-lhe a vida, e
ficar ainda na obrigação de maiores sacrificios. O meu descredito, diz o
senhor! As que fallam no seu descredito, se tem de rebater a instancia
de sacrificios, essas são as que querem estar bem com a sociedade,
conhecem-na, fazem parte d'ella, e lançaram já muitas favas pretas
contra o credito de algumas infelizes, cujo amor as levou á abnegação
dos diplomas de virtude, que a sociedade dá ás que sabem embuçar-se no
manto da hypocrisia, ou mascarar o escandalo de qualquer modo.
Eu estava de bocca aberta. Gostava tanto de ouvil-a, que não a
interrompi. Discorreu meia hora boa neste assumpto, e disse maravilhas,
que eu tive o descôco sandeu de alcunhar de romanticismo. Então não se
dizia romanticismo, mas ás mulheres, que fallavam muito e bem,
chamavam-lhes os alvares, pais dos que hoje vegetam, _pispontadas_, ou
_pronosticas_.
Não obstante, que sentir tão fino era o desta senhora! Que verdades tão
axiomaticas a dôr, a desgraça, a reclusão, o entranhar-se em si propria,
lhe tinha ensinado! Se esta mulher traspassasse em lagrimas ao papel o
livro intimo, que o dedo do infortunio lhe folheára no coração, qual das
minhas leitoras não faria esse livro o seu director espiritual, nestes
calamitosos tempos em que não basta a alma que Deus lhe deu para
luctarem com a materia que as traz abarbadas, e fóra do seu espiritual
elemento!
Cá estou outra vez encanhotado pela bruxaria das reflexões
philosophicas! Resignem-se christãmente, leitores sensiveis. Não posso
ser superior a este bacharellar de homem entendido na sciencia das almas
dos outros, porque, lisamente o digo, da minha não entendo nada, e já
agora morrerei com esta sphinge cá dentro não sei aonde.
Vinha eu, pois, contando que Vasco lêra a carta de Leocadia tantas vezes
quantas o leitor quizer, que eu não sei quantas foram, nem elle. É certo
que as primeiras leituras fêl-as com os olhos scintillantes de alegria;
e as ultimas com uma fonte de lagrimas a cahir-lhe no papel.
Quer-se a razão da alegria e a das lagrimas. Pois sim.
Vasco dera-se como perdida a mulher, o amor, a vida da sua alma. Sahira
perturbado da entrevista com o coronel. De lá a sua casa lembrou-lhe o
suicidio, o meio mais prompto de sacudir a farpa do coração. Convencido
de que era irremediavel o perdêl-a, abriu a carta, leu-a, encontrou o
remedio, alvoroçou-se, teve febre, delirou de felicidade, creu-se doudo:
eis-aqui a alegria, a radiação da alma no semblante, o volver á
existencia, o apegar-se á prancha de salvação segura, quando a garganta
da morte estava aberta.
Depois, a razão, essa vibora idolatrada, cravou-lhe de subito o dente
mortal no coração, o sangue refluiu-lhe todo alli, á purpura do jubilo
succedeu o pallor do desalento, e o chammejar do enthusiasmo apagaram-no
as lagrimas.
Que lhe disse, pois, a razão, essa divindade tão cantada, essa mestra da
vida, essa filha do céo, que cahiu de lá á terra pela mesma razão que
Lucifer cahiu? A razão disse-lhe que Leocadia, entregue á sua
providencia, não teria um telhado que a cobrisse, porque em casa de
Vasco dominava a razão da virtude que não acceitaria uma filha familia
fugitiva, se ella não tinha um patrimonio, que absolvesse um filho
segundo de tamanha immoralidade. Disse-lhe mais a razão que elle filho
segundo, sem arte nem officio, nem ao menos poderia repartir com a pobre
menina um prato de feijões adquiridos pelo seu trabalho. Disse-lhe mais
a consoladora razão que Leocadia fugitiva seria perseguida por seu pai,
conspurcada pela opinião publica, e fechada na cella d'um convento como
leprosa de que todas fugiriam receosas de se contaminarem. Foi o que lhe
disse a razão do mundo, formada pelo mundo, adaptada ás conveniencias
vigentes da sociedade, austera para uns, tolerante para outros,
draconiana para os desvalidos, venal para os poderosos.
Vasco ergueu-se do lethargo em que o deixára a briga das duas sensações
contrarias.
Tomou a penna, e escreveu as seguintes linhas:
«Deus não quer a nossa união, Leocadia. Perdeu-se tudo. Isto é tão atroz
que parece impossivel. É verdade, Leocadia, é verdade que se abriu hoje
a minha sepultura. Esperava morrer cêdo, mas tão depressa não queria.
Vivia de esperanças, e agora é tudo negro diante de mim. Venha a morte,
e seja já. Não sei o que te digo. Estou sem alma, nem forças. O que me
dizes é impossivel. Eu não tenho um bocado de pão certo para cada dia.
Contava com o meu trabalho no futuro; mas agora desfalleci de braço e de
animo. Dous desgraçados é muito. Ninguem se compadeceria de nós.
Perseguir-nos-hiam todos. Casa, Leocadia, casa com esse homem, mas
espera alguns dias; eu quero morrer, e hei-de morrer antes. Faz-me este
beneficio. Deixa-me dizer-te adeus, com a certeza de que me pódes chorar
sósinha sem testemunhas, sem um... esposo que te diga: «escrava do meu
ouro, porque choras?» Leocadia, eu previ sempre a desgraça, mas não
assim. Isto é muito; e para estas agonias é que a morte sahiu das mãos
de Deus. O Senhor te faça feliz, e a minha memoria te seja sempre
saudosa e compassiva.
«_Vasco._»
Acabára elle de fechar a carta, e sentiu um esvaimento de cabeça.
Escondeu a face entre as mãos, porque o voltear dos objectos lhe causava
a agonia do vomito. Um frouxo de tosse lhe sahiu do peito com dôr aguda
e calafrios. Quiz respirar, e espirrou dos labios uma lufada de sangue
que salpicou a carta. Lançou-se com impeto ao ar da janella, e viu na
rua o aguadeiro que esperava a resposta. Desceu as escadas encostado ao
corrimão, entregou a carta, quiz retroceder, e não pôde. Sentou-se n'um
degrau, susteve o sangue no lenço, encostou a face á cantaria, e
murmurou:
«Se Deus quizesse que fosse já?...»
--O que?!--perguntou uma voz perto d'elle.
Era a mãi, que descia para sahir.
--O que, meu filho?!--repetiu ella.
«A morte.»
A sobresaltada senhora tomou-o nos braços, soltando vozes de afflicção.
Vasco pediu-lhe silencio, subiu com a mãi esforçando-se por occultar o
sangue, entraram ambos no quarto d'ella; e, duas horas depois, quem os
espreitasse veria o filho abraçado aos joelhos da mãi, exclamando:
«Salvou-me!
Salvou-o?! como?!
Esperem.