IX.

Vasco entrou na sala, encolhido, como se o frio o arrepiasse. Não viu

alguem, e parou, ao segundo passo, com as mãos juntas na aba do chapéo,

e os olhos fitos na porta por onde havia de entrar o coronel.

A porta abriu-se, e Vasco estremeceu. O pai de Leocadia, com a mão

direita estendida ao hospede, e com a outra indicando-lhe o canapé,

entrou, affavelmente encarado, como Vasco o não vira nunca.

«Sente-se aqui, snr. Vasco, e conversemos como dous rapazes, ou como

dous homens velhos--disse o coronel, apertando um cigarro, e offerecendo

outro ao mancebo.--Já toma o seu cigarrito? A apostar que sim?

--Não senhor, não fumo.

«Pois admira! Este sujo prazer de soldados e marinheiros começa a ter

boa hospedagem nas classes mais limpas da nossa sociedade. Por ahi, a

mocidade, apenas deixa o guizo que lhe deu a ama de leite, pega do

cigarro, e aprende logo a resfolegar o fumo pelo nariz. É o tom, dizem

elles, desde 1820 para cá. Parece-me que esta geração sahida do ovo, e a

outra que está no chôco, hão-de ser, meu caro senhor, uma cousa assim a

modo de nabal espigado. Não sei se me entende: quero dizer que a seiva

forte de nossos pais, em vez de medrar as vergonteas, produzindo flores

e fructos, cada cousa em tempo proprio, dará fructos temporãos,

bichosos, desses que passam sem termo medio do verde ao podre. Não acha?

--Ha-de haver, como sempre, o bom e o mau, penso eu--disse modestamente

o moço.

«E pensa bem para a sua idade. Os vicios são de todas as épocas, mas o

do cigarro é muito moderno entre nós, ha-de confessar!

Vasco sorriu involuntariamente á visagem comica do coronel, de proposito

arranjada para se ajustar á solemnidade com que sorvia, deliciando-se,

um d'aquelles sadios e gordos cigarros da herva santa de 1828, que não

era de certo a herva satanica do contracto de 1857, congresso de

Borgias, que envenenam a gente, reservando só para elles as explendidas

orgias dos outros...

«Está o meu caro snr. Vasco da Cunha morto por saber--disse Gervasio

Leite--o que é que eu lhe quero. Lá vou já. Minha filha Leocadia...

Vasco fez-se vermelho, côr de rosa, amarello, branco de marmore, tudo em

menos tempo do que o necessario para articular as cinco syllabas desse

nome.

«Minha filha Leocadia--proseguiu o militar accendendo terceiro cigarro

na ponta do segundo--tinha lá um segredo no coração, mas não segredo

para o snr. Vasco; era-o só para mim, porque os pais parecem-se ás vezes

muito com os maridos em serem os ultimos informados do que lhes toca

pela roupa. Este ruim vêso da humanidade é que é muito mais antigo que o

cigarro.

O orador riu-se com militar modestia do seu gracejo; Vasco, porém, não

tinha recuperado ainda o animo frio para saborear o chiste do equivoco,

ou parecêra-lhe grosseiro de mais o confronto do segredo santo da filha

com o perfido da adultera.

Gervasio Leite, satisfeito com um aceno affirmativo do interlocutor,

continuou:

«Disseram-me que minha filha e o snr. Vasco se amavam. Não estranhei a

cousa: achei-a mais humana e natural que o contrario disso, por duas

razões respeitaveis e persuasivas ambas: Leocadia é rapariga, o senhor é

rapaz, ambos sahidos do collegio, cegos ambos, conduzidos por outro

cego, valha a verdade, que dizem ser cego o snr. Cupido, e eu quero que

elle seja mais do que cego... em quanto a mim é surdo, por que não ouve

razões, é cego por que não vê precipicios, é mudo por que só tem lingua

para fallar a linguagem que não está nos diccionarios, nem póde

applicar-se a estes objectos da vida real que se veem, e apalpam, e

sentem, como, por exemplo, o vestir, o calçar, o ignobil cortejo da

realesa despotica do estomago, e outras miserias adjunctas. Deixe-me

cortar a direito, snr. Vasco, e dizer as cousas como eu sei. Isto resabe

ao meu genero de estudos: formei-me em mathematica, e affiz-me a estudar

a vida como se estuda uma raiz, problemas sobre problemas, e para todos

o mesmo X, dinheiro, sempre dinheiro, com mil diabos!... desculpe-me

esta rhetorica de tarimba.

Quando, pois, me disseram que minha filha amava o snr. Vasco, o neto do

meu general na guerra peninsular, e o filho do meu camarada no quartel

do general Beresford, tive sincera pena de ambos! Não entende, não. É

necessario ter cabellos brancos, e mais brancos ainda os cabellos da

alma, para conciliar duas idêas contrarias: ter compaixão de duas

pessoas que se julgam felizes unindo-se. Ora eu me explico, e, quando

não entender o meu vocabulario cá debaixo do mundo real, falle.

A minha casa é insignificantissima. Posso dizer que o rendimento d'ella,

junto ao meu soldo, difficilmente tem chegado para a educação de

Leocadia. Minha filha é pobre.

--Oh senhor!--interrompeu Vasco agitadamente, e susteve-se.

«Diga, diga, o que ia dizer.

--Eu... não perguntei a v. exc.ª o que sua filha tinha.

«Isso está claro. Quem é que se lembra de perguntar o que tem a mulher

que se ama? O amor, meu amigo, recordo-me ainda do que elle é. Eu tambem

amei uma mulher, casei, e, só depois de tres mezes de casado, é que me

levantei uma bella manhã com a idéa de saber o que ella tinha. Soube que

tinha umas leiras que renderiam, em anno de boa colheita, cincoenta mil

reis, o maximo. Confessar-lhe-hei que não fiquei contente, por uma razão

das mais racionaes que eu conheço. Minha mulher precisava vestir-se para

apparecer n'um baile em Lisboa, e a minha gaveta estava ferida da

esterilidade de Sara. Desde esse dia, meu caro snr. Vasco, quiz-me

parecer que a minha situação de solteiro era melhor que a de casado.

Entraram commigo receios de collocar minha mulher n'um posto inferior

áquelle em que a encontrara na casa paterna, e as minhas doces chimeras

de noivo fugiram como um bando de andorinhas quando as primeiras

nortadas lhe embaraçam o vôo. Nunca minha mulher conheceu a tristeza que

me descoroçoava por dentro, isso é verdade; mas o que lhe valeu para

viver e morrer feliz foi eu ajuntar á delicadeza com que sempre a

tractei, algumas dividas que ainda estou pagando hoje.

Morreu minha mulher... attenda agora, snr. Vasco: morreu minha mulher; e

eu, com quarenta e cinco annos d'idade, ralado por desgostos de todos os

generos e feitios, herdava da mãi de minha filha o maior de todos: essa

criança sem mãi, filha d'um major quasi pobre. Educal-a, ainda eu

poderia; mas legar-lhe um patrimonio, como é preciso que uma senhora o

tenha, para poder escolher um marido, não podia. Um pai, que ambiciona

avaramente para seus filhos o bem-estar que elle não quer para si, é

desculpavel, é victima do seu amor de pai. Sacrifiquei-me, snr. Vasco; e

sabe como? Sacrifiquei-me como pai nenhum. Casei-me com uma mulher

aborrecida, por que essa viuva, mais velha do que eu, tinha um filho,

herdeiro de um grande casal, e além de todas as probabilidades

favoraveis ao meu pensamento, estipulamos, eu e ella, a condição de que

Leocadia seria mulher do meu enteado.»

Vasco ergueu-se com sobresalto; encostou-se ao espaldar d'uma cadeira,

branco de neve, tremulo, que até os cabellos se lhe irriçavam, pasmando

os olhos nos olhos do coronel, que se erguêra tambem.

«Então, snr. Vasco, isso que é?--disse Gervasio, tomando-lhe

affectuosamente a mão--Sente-se. Eu sou seu amigo; tempo virá em que

faça justiça ao pai da mulher que será sempre sua amiga. É preciso que

sejamos tres no sacrificio.

--Qual sacrificio?--balbuciou Vasco.

«É preciso que o snr. Vasco, bem longe de contrariar os meus planos,

seja o meu auxiliar para encaminharmos Leocadia ao destino que lhe

tracei, convencendo-se um e outro de que serão infelizes,

desobedecendo-me.

Vasco levou o lenço aos olhos. Era o chorar sem pejo dos dezoito annos.

Vencendo os soluços, que forcejava por esconder no lenço, disse com

intimativa:

--Eu obedeço, senhor... Creio que poderei obedecer.

Scenas da Foz · 第 75 / 89 题