O segredo picava-me a curiosidade; todavia, o coração era o que menos
treguas dava á minha ancia.
Ao escurecer desse mesmo dia passei no Pastelleiro. Vi, de relance,
Felismina através da vidraça. Levei ainda a mão ao chapéo para
cortejal-a; mas ella não esperou a cortezia. Estanciei nas visinhanças
d'aquelle sitio, até alta noite; e só depois das onze horas pude vencer
a resistencia magnetica que me lá prendia.
Passando, outra vez, defronte da casa, vi uma janella corrida, e um
vulto n'ella. Eu passava tão subtilmente que Felismina só me viu quando
eu estava em frente d'ella. O encontro fôra uma surpreza para mim.
Muitas cousas imaginára eu dizer-lhe, encontrando-a; mas esqueceram-me
todas. Parecera-me facil e até natural perguntar-lhe a causa de me ser
prohibida delicadamente a entrada na quinta; achava do meu dever, depois
do recado pela criada, examinar o que fizera eu para merecer similhante
prohibição; porém, chegado o ensejo feliz de saber tudo, pareceu-me
atrevimento dirigir-lhe a palavra sem ella m'a consentir.
A perplexidade durou alguns minutos, e Felismina esperava que eu me
sahisse d'ella d'um modo muito contrario. Nada lhe disse, segui o meu
caminho, e confesso que me sentia tremer. O coração tem cousas!...
O arrependimento veio logo com a reflexão. Retrocedi por outro caminho,
e entrei no pinhal. Estava ainda aberta a janella; mas desoccupada.
Esperei muito tempo, animando-me a fallar-lhe, quando ella tornasse.
Avistei dous vultos, e senti despegar-se-me o coração do peito. Não
podia distinguir se um d'elles era homem; e receava, aproximando-me,
causar-lhe desgosto, se por desgraça ao pé d'ella estivesse um amante.
Que desafogo senti eu, quando conheci a voz gosmenta da criada! Escutei,
e ouvi-as fallarem de ladrões. Thereza dizia que se não salvava se
estivesse alli muito tempo, e promettia um arratel de cêra á Senhora da
Luz, se os ladrões não tornassem a assaltar a casa. Acrescentou ella:
«Se não fosse aquelle destemido rapaz, a estas horas estavamos nós
feitas em pedaços, sem confissão, nem sacramentos.»
Felismina fallava tão baixo, que toda a minha attenção foi baldada. Por
fim, disse a criada: «Menina, não esteja muito tempo ao relento da
noite. Eu vou-me deitar, que passei em branco a outra noite; se sentir
alguma cousa, chame, que eu acordo logo, se Deus quizer, e o meu padre
Santo Antonio, que nos tenha da sua benta mão.»
Felismina sahiu com a criada, e o quarto illuminou-se de repente. Era a
primeira vez que eu via tanta luz áquella hora. Conjecturei que a timida
senhora, receando outra assaltada, quizera com a luz obstal-a. Eu
contemplava-a a ella, que atravessava passando, por diante da luz, com
ligeiros passos. Achava-me resolvido a fallar-lhe, fosse qual fosse o
exito. Acerquei-me da casa, para encurtar á minha timidez o tempo da
reflexão. É verdade que me não occorria uma só das bellas idéas com que
de dia compozera o meu exordio; porém, atido ao improviso do coração,
iria esperando que ella, com uma só palavra, esperançosa ou
desanimadora, me sangrasse a veia da eloquencia.
Effectivamente, apenas Felismina surgiu na janella, estava eu seis
passos distante. Diga-se a verdade: formigaram-me umas caimbras nas
pernas, e estive, vai não vai, a rodar sobre os calcanhares, e fugir
antes de ser conhecido! Li, ha pouco tempo, em um romance de Alphonse
Karr, uma imagem que pinta exactissimamente a minha situação n'aquelle
instante. Um tal _Estevão_, em presença d'uma tal _Magdalena_, não
podendo vencer o susto do primeiro encontro, _faz um esforço como um
homem que fecha os olhos para saltar um fôsso_. É bem dito isto; não se
diz melhor o arrebatado movimento que eu fiz para chegar debaixo da
janella onde Felismina, immovel, parecia esperar-me como se tivesse a
certeza da minha ida.
«Boas noites, minha senhora» disse eu: era o mais frivolo que podia
dizer, depois d'uma investida tão vehemente.
--Boas noites--murmurou ella com voz abafada e tremula.
«V. exc.ª conhece-me?--tornei eu, querendo dar á pergunta um tom
melodioso, que o meu sobresalto tornava rispido e sêcco.
--Parece-me que é a pessoa que hontem...
«Sim, minha senhora, sou a pessoa que hontem teve a felicidade de estar
perto desta casa... quando foi necessario livrar v. exc.ª d'um susto...
--Devo-lhe um grande favor--atalhou ella, não menos agitada que eu--e
por isso mesmo é que hoje mandei a minha criada...
«Eu não pude entender a sua criada, minha senhora; e espero que v. exc.ª
me diga se eu devo pedir-lhe perdão...
--De que?!
«Da imprudencia que fiz entrando sem licença na quinta...
--A causa do meu recado não foi a sua imprudencia, foi, é, e será
sempre... a minha desventura... Tem V. a bondade de espreitar á
fechadura do portão, que não vão andar pelo quinteiro os caseiros...
Seria uma desgraça, se o vissem, ou escutassem...
Espreitei, e não vi nem ouvi signal de gente. Tornando, Felismina
acabava de apagar a luz, e estava já na janella.
Mal sabem que prazer me deu o ar de mysterio que ella dava assim á nossa
entrevista nocturna! O amor, quanto mais recatado, mais amor. Ama-se
mais n'um colloquio, por noites de completa negridão, que á luz das
serpentinas dos bailes, e ao clarão d'um bico de gaz, que, nestes tempos
malditos da poesia, vos dá á cara do namoro do primeiro andar uma côr
sulphurea e phantasticamente prosaica.
Não faço agora ácerca do gaz uma dissertação, porque me sinto abalado
pela memoria das seguintes palavras que a mysteriosa mulher me disse,
logo que eu voltei de espionar o quinteiro:
--O senhor de certo me não conhece...
«Não, minha senhora: apenas sei o seu nome; todavia, se me deixasse
dizer como eu a conheço...
--Queira dizer...
«Conheço-a como se conhece a mulher que se ama ha muitos annos; como se
conhece a omnipotencia de Deus sem se conhecer a sua essencia divina;
como se confessa a existencia dos anjos, sem nunca se terem mostrado aos
homens na sua fórma celestial; como se conhece a possibilidade de
encontrar a perfeita ventura, sem nunca a ter experimentado; como se
conhece, pela luz que derrama, a existencia do sol, sem poder fital-o
nas alturas do céo.»
Ainda disse muitas outras maneiras de conhecer sem conhecer; porém, não
disse todas quantas sabia, e quantas estudára em casa (penso que foi no
_Renegado_ de Arlincourt não estou bem certo), e lhe teria dito se ella
me não interrompesse com vehemencia:
--Bem se vê que não me conhece pela maneira que me falla...
«Como?! explique-se por quem é, snr.ª D. Felismina!
--_Felismina!_ (disse ella, sorrindo) Cada vez me convenço mais de que
me não conhece... Sabe que me chamo Felismina, porque lh'o disse a
caseira, não é verdade?
«Sim, minha senhora.
--Pois bom é que não saiba mais que o meu nome...
«E não devo esperar outra revelação da sua boa alma? Não sou eu já o
depositario d'alguns segredos que v. exc.ª confia das estrellas? A
mulher que pedia aos anjos o anjo que elles lá tem...
--Não me surprehende...--tornou ella vivamente commovida--Eu sei que me
ouviu; ouvi tambem os seus versos; pareceu-me um sonho tudo o que
n'aquella noite aconteceu. Se eu tivesse a certesa de que o homem que
cantava era tão infeliz como eu sou, e vertia lagrimas de tão dolorosa
saudade como as eu chorava então...
«Que faria a esse homem?
--Fizera-o meu confidente; dera-lhe o mais que posso dar-lhe: a minha
fé... a amisade santa dos infelizes áquelles que se compadecem... Não
queira saber quem sou; essa sua esteril curiosidade o mais que póde é
trazer-me desgostos novos, e eu mal posso soffrer o peso dos que tenho
sobre o meu coração para jámais se alliviarem...
«E o coração não lhe diz que eu serei um homem digno das suas
confidencias? e que, em troca, poderei fazer-lhe quantos serviços, até
com risco da existencia, podem ser feitos a uma pessoa que soffre?
--Nada póde. O circulo de ferro em que a minha vida está apertada, não
póde ser quebrado por humanas forças. Podendo eu mover a sua compaixão,
dar-lhe-hia grandes penas, por não poder valer-me. O coração diz-me que
fallo com uma alma nobre e generosa; é o coração que lhe falla com tanta
franquesa e simplicidade. Tambem eu estou conversando com V. como se o
conhecesse, ha muito. Isto parece providencial; mas não vá a minha sina
fatal enganar-me.
«Enganal-a...--interrompi eu, com exaltado resentimento.
--Enganar-me, sim, não se offenda, que não tem razão para isso. Eu posso
julgar muito natural e innocente este curto conhecimento que temos; e
d'aqui seguirem-se grandes desgostos, como se elles fossem a expiação
d'um crime... Deixe-me pedir-lhe um favor, sim?... o senhor promette não
voltar aqui?
«Se prometto não voltar aqui?!» respondi eu, aturdido da voz segura com
que a pergunta me era feita.
--Sim, senhor: é necessario que acabem neste instante as nossas curtas
relações. V. vai convencido de que encontrou uma mulher muito infeliz;
eu fico tambem convencida de que encontrei um cavalheiro muito generoso.
Não podemos ser nada um para o outro; e tão grande é a dôr que eu sinto
desta certesa... que, por compaixão de mim propria, não quero
habituar-me á sua voz.
«Só por compaixão de si mesma?--atalhei eu, sinceramente commovido--Não
será antes pena de mim?
--De que? Se algum de nós ha-de soffrer... serei eu, pobre mulher, que
não tenho distracções, e de qualquer pequena saudade faço uma grande
dôr... tal é o condão da minha desgraçada sensibilidade.
«E não podemos ser nada um para o outro... disse v. exc.ª... Nem sequer
_irmãos_?
--Deus sabe que precisão eu tenho d'um amigo... quantas vezes eu lhe
peço uma alma sensivel, como premio do muito que tenho penado, muda e
virtuosa... Desculpe-me esta fraquesa; será temeridade dizer tão
afoutamente que a minha virtude é o unico esteio em que me amparo...
Creia-me, se poder.
«E porque não hei-de eu crêl-a, minha senhora? que fez v. exc.ª para que
eu desconfie da sua virtude? Julgo-a infeliz, déra a minha vida para
suavisar as penas da sua; presumo que a sua existencia aqui, tão erma da
vida que se ama na sua idade, deve ser o desfecho d'um lance muito
desventuroso. Podesse eu entrar no segredo do seu desgosto, snr.ª D.
Felismina, e pediria á Providencia os dons que me faltassem para lhe
acudir.
--Não póde, não póde...--interrompeu ella soluçando--O mais que póde é
compadecer-se.
«E não é a compaixão um lenitivo?
--É, nem eu já agora tenho direito a outras consolações; porém, não
imagina os resultados tristes que póde dar esta nossa innocente
entrevista, se fôr muitas vezes repetida. Creia que sou vigiada, e serei
martyrisada se alguma vez se descobrir a sua vinda. Vá comprehendendo o
melindre da minha infelicidade...
«E por ventura, já me fiz suspeito aos olhos d'alguem?
--Creio que não. A estas horas estaria eu amargamente punida do meu
delicto... Creia que sobre o meu seio está suspenso um punhal ameaçador.
«Como?!--interroguei eu, sentindo pela espinha dorsal os calafrios da
bravura, e não sei que outros calafrios, metade de Amadis de Gaula, e
metade de D. Quixote de la Mancha.--Como?! pois ha, para vergonha da
minha especie, um braço de homem que ouse levantar um punhal sobre uma
victima tão resignada!
--Falle baixo, senhor... Tenho mêdo que o escutem... Repare que não haja
luz n'uma casa que está ao fundo do quinteirão. Quem sabe se os caseiros
estão comprados? Veja, veja.
Eu fui vêr, não vi luz, mas ouvi um arruido singular. Eram umas pancadas
rispidas e sêccas como o embate de duas taboas. Demorei-me na
averiguação, e Felismina perguntou-me assustada se via alguma cousa. Vim
dizer-lhe o que ouvia, e ella quiz logo fechar a janella, sem
estabelecer ao menos uma hypothese ácerca da extraordinaria bulha.
Pedi-lhe que suspendesse o seu juizo por instantes, tornei ao posto de
observação, e voltei tranquillo por ter descoberto que o estrupido
estranho era a simples brincadeira de duas cabras, que se divertiam a
marrarem-se reciprocamente ao clarão da lua: recreio sobre-modo poetico
para duas cabras prosaicas e estupidas como dizem que ellas são.
A entrevista, leitores pios, demorou-se até ás tres horas da manhã.
Banhavam-se as montanhas da frouxa luz do crepusculo, chilravam os
passarinhos por aquelles silvedos e restolhos, quando Felismina, a
disputar bellezas com a matinal estrella, sympathicamente pallida e como
elanguescida do beijar incessante das brizas nocturnas, murmurou, em
harmonia com o hymno festival dos passarinhos, estas palavras, que eu
escrevera aqui em musica, se esta typographia tivesse colcheias e fuzas
e sustenidos, e as outras garatujas tão necessarias a quem imprime
romances cuja linguagem é a pura e genuina do coração. Foram estas as
suas palavras:
--É dia; e agora peço-lhe eu que se retire. Leve a certeza de que me
deixa saudades, e tantas que só poderei consolal-as, vendo-o muitas
vezes; mas não posso acceitar esta consolação. Seja meu amigo, sim? não
me sacrifique, por quem é. Eu não sou d'aquellas mulheres que lhe querem
persuadir que o amam muito, e, comtudo, incapazes de sacrificarem o seu
bem-estar ao seu amor, pedem-lhe que respeite as suas posições, e não as
colloque em desagrado do mundo. Se lhe digo que me não sacrifique, é
porque o sacrificio seria inutil, e a pena injusta seria igual á pena
d'um grande crime. Que lucra V. fazendo-me soffrer maiores afflicções? É
preciso que eu lhe conte a minha vida; sem isso, tudo o que eu lhe digo
deve parecer-lhe uma invenção de novella, um ar de mysterio com que
muita gente quer armar á admiração. Ha-de saber a minha vida, se
primeiro me jurar pela sua honra, e pelo bem das pessoas que mais préza,
nunca, em quanto eu viva fôr, proferir uma só palavra das que eu lhe
confiar. Não sei que sentimento de irmã é este que V. me inspira! Nunca
esperei encontrar uma amiga a quem dissesse «aprende a soffrer commigo.»
Menos ainda esperei encontrar um homem, quasi estranho, a quem dissesse,
sem reserva, o resumo dos padecimentos de tres annos... Ámanhã, depois
da meia noite, encontra-me aqui. Se quizer, venha, meu amigo; mas de
tarde não passe aqui, porque eu receio toda a gente, menos a minha boa
criada, que me viu nascer, e respeita as minhas acções, porque me julga
incapaz de as praticar indignas de mim. Adeus.--
Ora aqui têem como a cousa se passou, tal e qual.
Entrei no quartel com o coração tumido de romances. Olhei-me d'alto a
baixo, por uma intuscepção peculiar dos grandes tolos, e vi-me grande,
extraordinario, e fadado para grandes lances.
Chamado ao sanctuario dos segredos d'aquella mulher, eu não podia
estremar a confiança do amor. De que natureza seriam esses segredos? Que
Felismina era victima, isso estava provado. Cumpria-me resuscitar os
brios cavalleirosos que o ominoso romance de Miguel Cervantes matára com
a zombaria? Cumpria-me offerecer o meu braço, debil instrumento d'uma
alma forte, á opprimida emparedada do Pastelleiro? Taes interrogações me
fiz durante o dia, contemplativo sempre, sempre poeta scismador, não
obstante as interrupções da minha Poncia, que vendo o meu fastio ao
jantar, obrigou-me a tomar um chá de fel da terra para limpar o
estomago.
Poncia era uma creatura de singular chateza. Fallar-lhe nesse amor
vulcanico, que ella trocava em mal de estomago, era forçal-a a
esconjuros e benzedellas que me aguavam toda a poesia da expansão.
Quando eu lhe disse que havia uma mulher, suffocada sob a pressão d'um
tyranno, escondendo as lagrimas para não irritar a colera do seu
verdugo, Poncia, depois de sorver uma pitada de esturrinho, exclamou:
«Sabe V. m. o que essa rapariga ha-de fazer? que reze uma novena ás
almas, e prometta uma romaria á Senhora da Guia, para que a guie bem; e
o snr. João deixe-se de palanfrorios; não se metta na vida alheia, e
tracte de comer bem e tomar os seus banhos em paz, que é o mais
acertado.
Dito isto, sentou-se de cocoras, e poz-se a torcer linhas.